31 de março de 2021

Sobre a polémica em torno dos prémios do turismo

Depois do presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve ter sugerido que os prémios do turismo são comprados, os World Travel Awards e, nomeadamente, os prémios repetidamente atribuídos aos Passadiços do Paiva naquele evento, têm estado a ser questionados e até desacreditados, por algumas pessoas de Arouca e mesmo por forasteiros.

A alegada compra dos prémios prende-se com o facto dos interessados em colocar locais ou equipamentos de atração turística a concurso, terem de pagar uma inscrição e depois terem que pagar também o respetivo troféu e diploma, bem como suportar os custos da presença na respetiva gala.

E, ao que julgo saber, é isto que tem causado estranheza, estupefação e indignação a algumas pessoas, que, por isso, estão empenhadas em questionar, desacreditar e, também assim, desmerecer os prémios que o Município tem repetidamente alcançado com aquele equipamento turístico ou, simplesmente, como convém à época de concurso ao poder, apenas ver o "circo a arder". Assim, como se fosse a cereja no topo do bolo de todos quantos regressam dos Passadiços do Paiva, com o sentimento de que não valeu a pena ou de que foram enganados. Só que não!

Abstendo-me de comentar o funcionamento desse tipo de eventos e prémios, pois é o que mais para aí há, mesmo entre nós, como, por exemplo, as também bem pagas "7 Maravilhas de Portugal"; em minha opinião, "levantada a lebre", quando muito, poderá questionar-se (em órgão próprio) o custo/benefício "da compra" para o município e para os arouquenses, tal como se faria com o investimento num qualquer tipo de publicidade. Mais do que isso, é pura demagogia e populismo e, em alguns casos, mero oportunismo eleitoralista, que não beneficia ninguém.

Pessoalmente, acho plenamente justificado o investimento (que não conheço, mas que também nunca vi questionado por deputados municipais e vereadores, pelo que não será de grande monta), pois, para além de efetivamente existir um concurso, "comprado" ou "por comprar", com mais participantes (alguns dos quais até ficarão aquém do prémio pretendido, apesar do investimento, imagine-se...),  tem sido evidente a publicidade e retorno para Arouca e para os Arouquenses, nomeadamente para a hotelaria e restauração.

30 de março de 2021

Planta rara e em perigo de extinção foi encontrada no Arouca Geopark

Uma planta rara e em perigo de extinção - a Potentilha-dos-Montes (Potentilla Montana) - foi encontrada no Arouca Geopark, segundo informa o site oficial, referindo que "Carminda Santos, naturalista do projeto ciência-cidadã ‘Biodiversidade do Arouca Geopark’, observou e registou esta planta neste território, pela primeira vez, e acrescentou uma nova localização no mapa nacional de distribuição da espécie. Com distribuição restrita a Portugal, esta planta habita em locais rochosos, taludes, prados e orlas, sendo apenas conhecidos, até ao momento, três núcleos populacionais."

Potentilha-dos-Montes (Potentilla Montana)
Foto: Arouca Geopark

Alguém me perguntou, há um tempo, qual é o pior problema que o mundo hoje enfrenta. Não creio que seja a crise económica, mas sim a destruição do meio-ambiente. Milhares de espécies são destruídas todos os anos, desaparecem simplesmente e não as podemos reproduzir. 
Palavras do Professor Doutor Robert Aumann, Catedrático da Universidade Hebraica de Jerusalém - Israel, economista e Prémio Nobel da Economia de 2005, numa entrevista publicada no semanário Expresso de 29 de Novembro de 2008, concedida ao jornalista portuense Henrique Cymerman.

26 de março de 2021

A Pensar Alto! Vamos todos ficar bem... O arco-íris de cores carregadas.

Um ano. Passou um ano que de repente sem grandes discussões, experimentamos pela primeira vez o confinamento, uma espécie de prisão dourada, quase todos nos domicílios sem contactos ,o mínimo de  companhias, com receios a substituir as conversas e futuros negros nos pensamentos. Num instante, lá foi a vida que julgávamos nunca sofreria tais alterações, nunca na pior das hipóteses e logo da maneira que foi. Assustados, intimidados com as notícias e mais, cada um se fechou num casulo de aparente segurança, e esperou que os dias passassem com muita rapidez, para numa qualquer manhã quando os olhos se abrem mais, com sol mais quente e pensamentos mais brilhantes, tudo tivesse terminado e lá íamos de novo para o costume, aquelas rotinas de que temos saudades. Sem abraços, sem beijos, muitos sem família, sós com os receios que podíamos ser os escolhidos pelo vírus invisível e mais assustador, presente em todo o lado, até nos sorrisos de uma inocente criança. Raio de doença, e logo nesta altura, como se houvesse data escolhida para mal de tal dimensão. Como conforto à medida do passar dos dias, os arco-íris com coloridos a apagar o negro da situação, e muitas esperanças que no fim, sim, porque isto ia ter um fim, íamos ficar todos bem. Mas não era só isso, no final o mundo ia ficar diferente, passe de mágica que o tal estranho vírus ia conseguir. Nunca mais se repetiriam erros tão habituais, de ganância a atropelar homens e natureza, o ambiente ia ficar um brinco, as sociedades iam cair em si e alterar as produções, a poluição reduzida a quase zero, enfim cada respiro só com ar do mais puro, tudo embrulhado naquela solidariedade de oportunidades que muitos já nem se lembravam que existia e que finalmente iria permitir um mundo mais solidário e igual. Passou um ano, um ano e mais alguns dias. Alguns, muitos, não conseguiram terminá-lo porque as coisas foram ficando mais complicadas, ora melhor ora menos pior, sempre os receios presentes, a esperança a ter dias, os desânimos a aparecer cada vez mais como aquelas visitas que nem precisam que se abra a porta principal e vão entrando nem que seja pelos fundos mais escondidos.  Mais um dia, de repente outro, mais um mês e é verdade mais um ano, um instantinho. Agora sei que não vamos ficar todos bem, pelo contrário, muitos vão ficar bem piores, outros além de se esconderem do horrível diário, ensaiam já a indiferença que foi sempre o rumo que mais os orienta. Não está para contemplações como dizia o meu pai quando jogava o Porto. Salve-se quem puder, ou cada um por si e logo se vê. Afinal está tudo na mesma e não vamos ficar todos bem, uns melhores que outros, o costume sem novidades. As vacinas chegaram. Primeiro passo ou último, para que regressem os abraços e o estalar dos dedos num aperto de mão a que temos que nos habituar de novo antes que isto se prolongue tanto tempo que já nem nos iremos lembrar do calor de coisas tão banais. Critérios sempre a deixar dúvidas, “porque ele e não eu??” Casos a aparecer em catadupa, “sou eu o prioritário”, “e eu?” “ainda mais prioritário que todos os outros”, “estou em contato com muita gente,” “foi para aproveitar pois iam para o lixo”, em resumo, “eu é que devo ser o primeiro, perguntem ao meu médico,” “logo vão ver que a minha intenção era a melhor.”  Tudo na mesma, bastou caírem os primeiros raios de sol de uma possível melhoria que tudo voltou, o pior voltou. Fraco sinal para o que ainda nos aguarda. Agora são as marcas, entendidos em marcas de vacinas aparecem como cogumelos, “só tomo a tal, as outras não me servem”, “não inspiram confiança”, organismos diferenciados neste retorno que não aparenta ser definitivo. Tudo igual. Com a cabeça mais enfeudada às tristes e longuíssimas horas de televisão com a acefalia no máximo, estão de regresso. Pelo menos não enganam, durou pouco a esperança de melhores dias e melhores tempos. Vai ficar tudo pior ou é impressão minha? Aguardemos para ver. Foi bonito enquanto durou e é pena mudar as cores ao arco-íris da esperança para um arco-íris de cores quase negras que perpetuem a falta de esperança. Isto sou eu a pensar, porque estou num momento de pessimismo e as luzes ao fundo do túnel estão a ficar raras e muito caras para quem começa a ficar sem grandes alternativas. Estamos a ficar assim a modos de esgotados, nervosos e os dias passam e as soluções de tanto procuradas parecem querer brincar ao esconde, esconde, aparecendo num dia e desaparecendo no outro. De resto a vida prossegue cavando ainda mais as diferenças e isso não há arco-íris capaz de esconder, isso será mais uma coisa que irá depender de todos, de nós, de si em particular. Não contribuamos para ser culpados neste retrocesso que se aproxima na vida de muita gente, por omissão ou comodismo. Da mesma forma que acreditamos nas vacinas e no esforço que muitos fazem para a nossa saúde, devemos acreditar que ninguém vai ser abandonado e mesmo com dificuldades o indispensável não está perdido. Temos que acreditar no bom senso e em que vale a pena acreditar nos desenhos das crianças porque estas os fazem com o coração pequenino, mas os sentimentos muito grandes.

23 de março de 2021

Silveiras - fragmentos quotidianos de uma aldeia beirã

O filme é de 1981 , a produção do Clube Cinematográfico de São João da Madeira.  Um raro filme documentário sobre as vivências daquelas gentes serranas há 40 anos atrás. Dos poucos filmes a cores onde podemos por exemplo ver o complexo mineiro da Poça da cadela em Regoufe antes de ser vandalizado e muito, muito mais...



18 de março de 2021

O Plano de Recuperação e Resiliência e a conclusão da 3.ª fase da Variante à EN326 de Arouca

Com o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), parece mesmo ser a GRANDE OPORTUNIDADE para, no futuro próximo, se concluir a terceira fase da variante à EN326 de Arouca, entre a localidade da Abelheira (Escariz) e a Ponte da Cela / Ribeira (Tropêço)...Portugal, nos próximos anos, vai receber mesmo muito dinheiro de fundos europeus...
Segundo informa a imprensa arouquense, relativamente à presente 2.ª fase"a empreitada de ligação do Parque de Negócios de Escariz à A32 prossegue a bom ritmo. Neste momento, decorrem obras de arte corrente, obras de arte especiais, obras de contenção, bem como trabalhos de drenagem, terraplanagens e levantamentos arqueológicos. Prevê-se que até final do mês de março, se construam os pilares dos diferentes viadutos", referindo que "o Executivo Municipal já sinalizou junto do Governo a imperiosa necessidade de este (o PRR) contemplar a 3.ª fase da variante".
Portanto, mais do que nunca e em ano de eleições autárquicas, as instituições de Arouca e os Arouquenses têm que se fazer ouvir e reivindicar aquilo a que, há muito tempo, têm, impreterivelmente, direito: a conclusão da Variante à EN326. Sobretudo essa 3.ª fase, o mais rápido possível, que é mesmo urgente e que vai tornar muito mais rápido e muito mais funcional a tradicional, enraízada, empática e muita antiga mobilidade dos Arouquenses para o território do Porto e do denominado Grande Porto, no actual contexto da Área Metropolitana do Porto.
obras na actual 2ªfase da Variante à EN326 de Arouca
foto: jornal Discurso Directo

E há muito boas notícias para a «nossa área metropolitana», com a expansão, nos próximos anos, das linhas do Metro do Porto e com a construção de uma nova ponte sobre o rio Douro para o Metro do Porto, com uma componente de ciclovia e com uma componente pedonal. 
Contudo, como descreveu o chefe de redacção do JN, "não se celebre, ainda, o fim do centralismo. Feitas as contas ao investimento nos transportes para as duas grandes áreas metropolitanas, Lisboa receberá quase o dobro (2300 milhões) do Porto (1350 milhões). Há coisas que nunca mudam. Nem a tiro de bazuca." Ou seja, este ano (mais uma vez num muitíssimo injusto acto do ultra-pernicioso ultra-centralismo ultra-parasita lisboeta do Orçamento do Estado e do Poder Central lisboeta), na área dos transportes, a Área Metropolitana de Lisboa recebe mais 950 milhões de euros do que a Área Metropolitana do Porto. 
Bastava a aplicação desse dinheiro adicional de 950 milhões de euros da Área Metropolitana de Lisboa em relação à Área Metropolitana do Porto para que o Metro do Porto chegasse até Arouca, numa linha que continuaria a de Vila Nova de Gaia, pelo «Fundo do Concelho», até à Vila de Arouca, traçada, de modo estratégico, no território, pelas localidades mais centrais desse percurso. E, depois, noutro percurso, com aplicação de mais fundos, partiria da Vila de Arouca para Vale de Cambra, Oliveira de Azeméis, São João da Madeira, Santa Maria da Feira, Espinho e, de novo, Vila Nova de Gaia e Porto. Ou vice-versa, na ordem cronológica da construção dessas duas linhas do Metro do Porto.
Repito o que escrevi neste blogue: a Área Metropolitana do Porto e os seus habitantes bem merecem que isso se concretize, pois está-se, aqui, a descrever alguns dos municípios mais industrializados e que mais produzem, sendo dos mais dinâmicos, em termos económicos, de todo o país e que mais contribuem para o Orçamento do Estado, inseridos na Região Norte, que é a região mais populosa de Portugal, a que mais produz, a mais industrializada, a que mais contribui para o PIB e a que mais exporta, entre outros e variados bons e benévolos aspectos... Portanto, é necessário que se inverta mesmo, de vez, o ultra-centralismo e o ultra-parasitismo lisboeta do Orçamento do Estado, bem como o ultra-centralismo e o ultra-parasitismo lisboeta de captação dos fundos europeus e da sua aplicação ultra-centralista em Lisboa e arredores. Se o Metro de Lisboa se expande com pujança, porque é que o Metro do Porto não se há-de expandir também?!...Visto que o Metro do Porto é mesmo muito necessário para os municípios industrializados das partes centro-sul e sul da Área Metropolitana do Porto.
O Metro do Porto em Arouca não é uma situação utópica, irrealista ou não concretizável...Se o Metro do Porto, hoje, chega até à Póvoa de Varzim, porque é que não poderia chegar até Arouca?!...Poderia, perfeitamente, chegar a Arouca. E bastavam apenas aqueles referidos 950 milhões de euros deste ano para isso se concretizar. O custo médio de construção do Metro do Porto é de 16 milhões de euros por Km. 950 milhões correspondem a cerca de 60Km.

12 de março de 2021

Poema publicado há precisamente 100 anos!

Completa hoje, 12 de março de 2021, precisamente, uma centena de anos que José Pereira Pinto publicou o poema "Junto a um berço", na Gazeta de Arouca e que abaixo se transcreve:

Junto a um berço

Oh! Quanto é bela, ó Sol, a tua luz calma

E lindo o teu sorrir - beleza estranha! -

Que arroubos que prazer se sente n'alma

Quando despontas no alto da montanha!


Mas mais belo que tu, Sol cristalino

Que vejo despontar no Oriente,

É o fulgor que do berço pequenino

Esparge uma criança, um inocente.


escrito em março de 1917 por José Pereira Pinto, 

publicado na Gazeta de Arouca, a 12 de março de 1921


José Pereira Pinto é um ilustre arouquense, nascido na freguesia de Alvarenga a 16 de janeiro de 1898, que concluiu o curso da Escola Normal do Porto, em 12 de agosto de 1920, com 17 valores.

Iniciou a carreira docente em Nespereira, concelho de Cinfães, em dezembro de 1920. Transitou para a escola do Paço, em Alvarenga, onde tomou posse como professor efetivo em 1926, ainda a escola não estava concluída. Entre 1926 e 1945 José Pereira Pinto deu aulas em Alvarenga e viveu na escola onde estava instalada a "casa do professor". Em 1945, muda-se para o Porto com a esposa e com os seis filhos, para que estes pudessem prosseguir os seus estudos.

Em 1949 foi nomeado professor de Didáctica Especial e Legislação e Administração Escolar na Escola do Magistério Primário do Porto. Aposentou-se em 1966, após 42 anos de lecionação.

Além de professor, José Pereira Pinto foi autarca, assumindo o pelouro de Vereador da Câmara Municipal do Porto no quadriénio de 1969-1972, presidindo à Comissão Municipal das Construções Escolares, sendo Vogal do Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados de Gás e Eletricidade, foi Vereador Delegado à Junta Distrital do Porto, etc.

É reconhecido o seu mérito no Porto pelo seu trabalho em prol da Educação e da Cultura e por ter constituído uma família ilustre, com numerosa prole, todos dedicados ao ensino.

José Pereira Pinto, professor, poeta, músico, pai e amante das árvores e da natureza, desde novo publicou nos jornais da sua terra natal poemas como o que agora se relembra e livros de sua autoria, em vida e póstumos, pela mão do seu filho José Nuno Pereira Pinto.

Bibliografia:

Pinto, José Pereira, Esparsos. Arouca: edição de José Nuno Pereira Pinto, maio de 2019

11 de março de 2021

"Mas eu li um estudo que dizia..."


Não poucas vezes damos por nós, numa qualquer conversa, a ouvir ou a dizer, como forma de argumentar uma opinião, o seguinte: "Mas eu li um estudo que dizia..."

A verdade é que, realmente, existem estudos para tudo e mais alguma coisa, sobre qualquer tema ou assunto e com as mais diversas conclusões. Somos capazes, inclusive, sobre uma mesma matéria, de encontrarmos não só conclusões diferentes como contraditórias. E porquê? Como hei-de saber se aquilo que estou a ler é ou não fiável? Por que o "meu" estudo é melhor que "teu"?

A minha ideia não é, de todo, dar uma aula de epidemiologia. Não pretendo, tão pouco, maçar o leitor com uma explicação demasiado exaustiva sobre o tema. Aliás, para que saibam, a área é tão complexa que há teses de mestrado e doutoramento dedicadas ao estudo de estudos.

Ainda assim, acho necessário fazer uma explicação um pouco mais técnica para tornar o assunto mais perceptível. 

De forma bem simples, existem 3 grandes tipos de estudos: os Observacionais (descritivos e analíticos), os Experimentais (randomizados) e os Quase experimentais (não randomizados). Ainda existem as meta análises.

Nos primeiros não existe intervenção de quem faz o estudo, enquanto que nos outros, sim. Ou seja, nos estudos observacionais, o investigador apenas descreve o que se propõe a investigar (tira uma espécie de fotografia da realidade) enquanto que nos experimentais e quase experimentais o investigador cria as condições para realizar uma determinada experiência. Intervém, objectivamente, na mesma. E chega. Para o meu objectivo, esta explicação simples e sucinta, serve perfeitamente. 

Muito importante, então, para sabermos interpretar as conclusões que nos entram pelos olhos, é sabermos que existe uma hierarquia no que à fiabilidade diz respeito. Em teoria, uma conclusão dum estudo experimental randomizado será a mais fiável. A seguir são os quase experimentais e, só depois, os Observacionais. Ainda pudemos apertar mais o crivo e escolher as chamadas  meta análises (análise das conclusões de vários estudos sobre um mesmo tema e perceber para onde tende as diversas teorias). 

Por exemplo, se alguém me disser que viu num estudo observacional que o bagaço com mel cura a constipação e se eu, num estudo experimental, randomizado, duplamente cego e estatisticamente significativo verificar que não faz rigorosamente nada, em teoria, serei eu a ter razão. 

Para complicar isto tudo, mesmo dentro da categoria dos estudos mais fiáveis, existem inúmeros pouco recomendados. Por diversos motivos mas, essencialmente, por serem feitos de forma enviesada. São tendenciosos ou servem determinada agenda. Cheios de conflitos de interesse. E isso sabe-se. Isso está estudado e identificado. A título de exemplo, perceba o leitor que, uma conclusão dum estudo sobre cafés que tenha sido pago por uma determinada marca desse produto, não será muito rigoroso.

Embora este processo de análise pareça complexo, nós, os comuns cidadãos, temos a vida facilitada. Todo este crivo já foi feito por alguém. Apenas precisamos de consultar as melhores revistas e os melhores sites. Lá estarão, em teoria, os melhores estudos e os mais bem feitos. As conclusões mais fidedignas estarão, por exemplo, numa The Lancet, numa Nature ou numa Cell (no que à ciência diz respeito). Pouco me importa, honestamente, o que diz a Men's Health ou a revista Maria.

Para concluir,  gostava apenas de reforçar que não tenho a pretensão de ensinar absolutamente  nada. Trata-se, apenas, dum complemento ao artigo que aqui (link) escrevi anteriormente na esperança, humilde, em aumentar um pouquinho a literacia em ciência e, com isso, ajudar na selecção de boa informação. 

João Pedro Ferreira 

28 de fevereiro de 2021

A influência dos influencers

Tenho 39 anos. Acho que já tenho idade para dizer "Isto no meu tempo..." Pois bem. 

No meu tempo, aquando da primeira licenciatura, há cerca de 20 anos, as aulas eram dadas com o auxílio de acetatos. Mal havia Internet. Os telemóveis serviam para (imagine-se) telefonar. Estudava para os exames na biblioteca ou através de sebentas impressas na reprografia. Para fazer a monografia recebíamos artigos pelo correio. O acesso à melhor e mais actual evidência era cara e demorava tempo. Era assim, ontem. Hoje não. 

Hoje a informação chega-nos à velocidade da luz. A rodes. A boa, a má, a verdadeira ou a falsa. Tudo nos chega ultra rápido. Aliás, com esta história dos algoritmos, a informação chega-nos mesmo que não a procuremos. Através do nosso perfil, comportamentos, etc, o que nos entra pelos olhos dentro já está adaptado ao nosso padrão. Sem contraditório ou outras visões. Ajustado às nossas crenças, ideologias e interesses pessoais. E nós todos, sem excepção, somos levados a crer que aquilo é que está correcto. Sem questionarmos, sem duvidarmos, sem tomarmos a iniciativa de fazermos as nossas próprias pesquisas. 

Este tem sido um drama enorme nos dias onde já não se aprende por acetatos. Associado à baixa literacia, nomeadamente na ciência, está a ausência de crítica e este fenómeno está a revelar-se surreal. Acompanhemos meia dúzia de comentários nas redes sociais e percebe-se fácil, acho eu, que o panorama da discussão pública está pela rua da amargura. Hoje, uma opinião é-nos apresentada como se de um facto se tratasse. Irrefutável, indiscutível e sem direito a contraditório. Somos bombardeados com as mais diversas aldrabices e não questionamos. Não criticamos. Não conferimos. Aliás, em tom de brincadeira, vai-se dizendo, até, que se está no Facebook é verdade. E isto não tem nada de engraçado. É perigoso e molda comportamentos. 

E depois, como se não bastasse, todos os dias e nas melhores horas, ouvimos e vemos aqueles que tudo sabem. Não sou contra que estas pessoas digam o que mais bem lhes apetecer. Sou é a favor que se critique, que se investigue, que se confronte e que se compare com o que os especialistas dizem. E, para mim, está aqui a chave. Ouvir e ver especialistas. Se quero saber sobre vírus, ouço um virologista. Se quero saber sobre pandemias, ouço um epidemiologista. Se quero saber sobre a vacina da Pfizer, ouço um especialista em biologia celular. E por aí fora... 

Hoje, na palma da mão, posso encontrar o método do Dr. Noronha na operação ao ligamento cruzado anterior. Hoje, na palma da mão, posso saber na hora como está o tempo em Marte. 

Hoje não são precisos acetatos para aprendermos e estamos a desperdiçar o melhor tempo que a humanidade já teve no que ao acesso à informação diz respeito. 

Serve, portanto, este meu artigo de opinião, para incentivar as pessoas a criticarem. Incentivar as pessoas a fazerem boas pesquisas. Incentivar as pessoas a não se deixar influenciar por influencers. 

João Pedro Ferreira

27 de fevereiro de 2021

Não metam mais água nem deixem que a um mau negócio se acresça uma má fatura!

A última vez que aqui escrevi sobre o tema que por estes dias faz correr mais tinta…, comecei por referir que: «Volvidos apenas cinco anos da concessão dos serviços de água e saneamento por parte do Município de Arouca à atualmente denominada Águas do Norte, está cada vez mais evidente uma “rutura” carecida de reparação ou substituição. No entanto, é preciso alguma prudência, não vá a emenda revelar-se pior que o soneto».

Por essa altura e pelas razões já por demais conhecidas, o executivo camarário acabava de tomar a decisão de avaliar e verificar se os pressupostos e objetivos que suportaram a decisão de aderir ao “Sistema de Águas da Região do Noroeste” estão a ser cumpridos, para, em última análise, rever ou até mesmo desvincular-se da participação naquele sistema multimunicipal, conforme a opção que melhor sirva os interesses dos arouquenses.

Ainda não são conhecidos os resultados dessa avaliação, mas a turbulência está a aumentar e o executivo camarário começa a acusar a pressão da água, ao ponto de tomar agora, com a abstenção dos vereadores do PSD e CDS, uma medida mais radical, que acentua a vontade do município em abandonar aquela parceria, mediante pagamento de uma indemnização no valor correspondente ao investimento realizado no concelho.

É evidente que essa proposta não será aceite, que a questão não é assim tão simples nem se reduz ao mero investimento realizado, tanto mais que o comprometimento do município com os sistemas de água e saneamento não se reduz já apenas ao contrato de parceria pública assinado em 5 de Julho de 2013. Mas imaginemos que era assim tão simples e que aquela proposta era aceite. Estaria o município à altura de se desvincular das parcerias assumidas nesta matéria e implementar os respetivos sistemas e serviços, com maior eficiência e resultado, com reflexos mais em conta na fatura dos consumidores? Terá o executivo feito as contas e estará em posse de dados que o garantam?

Há apenas cinco anos, José Artur Neves, então presidente da Câmara, de que Margarida Belém era número dois, garantia ao jornal Roda Viva – como se pode ler nesta última edição - que o município, para além de ter um sistema altamente deficitário, não tinha alternativa se não aderir a um sistema multimunicipal. E que só dessa maneira se evitava que a tarifa não atingisse valores incomportáveis para a população. Mais asseverava que, para além do sistema económico-financeiro do município não ser viável, estava vedada a possibilidade de conseguir financiamento comunitário para os investimentos de que o município carecia e que rondavam cerca de 20 milhões de euros, concluindo que o município com o seu orçamento jamais conseguiria fazer tais investimentos.

Estará o atual executivo camarário em situação de garantir que tudo mudou em apenas cinco anos e que o município está agora em condições de resgatar a concessão e fazer o investimento que falta, sem sacrifício desmesurado para o seu orçamento, e em condições de implementar aqueles sistemas e serviços com maior eficiência e resultado, e mais em conta para a população? Ou é apenas um não sei por onde vou, só sei que não quero ir por aí?

Talvez seja mais prudente exigirem-se as conclusões da avaliação e as correções que em resultado daquela devam ser feitas, colmatando depois o que subsistir desarrazoado com medidas ao alcance de serem tomadas pelo município; e continuar a cumprir os termos da concessão, exigindo-se melhor serviço e maior investimento, até que o concelho fique totalmente coberto, e depois, então depois, já mais próximo do prazo contratualmente previsto, pondere-se a desvinculação do município e resgate da concessão. Não se meta é agora mais água nem se deixe que a um mau negócio se acresça uma má fatura!

26 de fevereiro de 2021

Ainda a água...

O tema da água tem marcado agenda pública e politica de Arouca nos últimos largos meses. Mas muito mais que um tema que "nos" separa, anuindo ao artigo de opinião que a presidente da Câmara Municipal de Arouca fez publicar no Diário de Notícias (agora exclusivamente digital), deveria ser, antes de tudo, um tema que "nos" une. Nos une, principalmente na clarificação da nossa posição com a da empresa Águas do Norte (AdN), também ela pública e a prestar serviço público.

Acerca do complexo mundo da água já escrevi aqui (link) em Outubro de 2020 e sugiro a leitura para se perceber um pouco melhor essa complexidade ao nível do fornecimento e gestão.

Escrever sobre todo este processo de forma leve e não exaustiva é um enorme desafio. Neste artigo vou unicamente expor algumas questões que penso que já deveriam ter sido esclarecidas há muito para uma tomada de consciência cívica e politica mais assertiva.

  • Está a empresa a cumprir com o estipulado no contracto inicial?
  • Como justifica a empresa e o porquê dos aumentos? "água aumentar 76%, e o do saneamento 239%"
  • O serviço (ignorando pra já o valor) prestado pela empresa AdN está de acordo com o esperado e apresenta qualidade?
  • O investimento realizado à data em saneamento e água pela AdN em Arouca está dentro do acordado?
  • Quanto custará na realidade o resgaste do contrato?
  • Terá a autarquia que pagar unicamente o investimento da AdN no concelho como já li por aí? E os funcionários? Os equipamentos? A Frota?
  • Qual o valor da indeminização adicional a que obriga o resgaste?
  • Tem a autarquia capacidade de prestação de um serviço de qualidade em fornecimento de água e rede de saneamento a preço justo se assumir este serviço?
  • Qual o diferencial entre as receitas geradas pela água e saneamento e o custo real destes serviços, com respetivos investimentos e manutenção? Sabemos que nos resíduos sólidos as receitas cobrem 45,4% do custo e a autarquia coloca do erário público 328.056.00 Euros para cobrir o diferencial. Como será na água e saneamento? de que valores falamos?
  • É possível "obrigar" a empresa a renegociar ou a única solução é sair?
Estas são algumas, muito poucas, das questões que urgem ser respondidas. Continuo sem perceber porque é que este assunto tem sido tratado com tanto sigilo. Não se conhece, não se discute e, acima de tudo, não se "resume" para termos uma melhor perceção dos termos do contrato de adesão para que todos os arouquenses o possam perceber e não opinar sobre a espuma das ondas.

Não se conhece e não se discute a auditoria contratada para avaliação do assunto para que possam ser tomadas posições e decisões mais coerentes, menos dúbias e menos esclarecidas.

O tema da água é um assunto muito sensível e mais será nas próximas décadas em todo o Mundo e não apenas em Portugal, no Norte ou em Arouca. Não podemos basear as opiniões em argumentos como "Arouca é terra de rios e de muitas fontes que jorram água permanentemente"!!! Por isso, exige-se aos decisores e agentes políticos com responsabilidade na matéria, que se esforcem para que este processo seja "claro como a água", fornecendo toda a informação disponível.

É um tema que não deve compactuar com meias verdades, com subjetividade e confusão. É um tema demasiadamente importante para se vergar a populismos ou fundamentos eleitoralistas.

Tal como todos os arouquenses, estou certo, é o mínimo que exijo para que depois se tome a melhor decisão, seja ela fácil ou não, seja ela de permanecer, renegociar ou sair. 

23 de fevereiro de 2021

No território de Arouca, não se devem enfatizar as montanhas em detrimento dos vales...

Na sequência de ter visto um vídeo da Câmara Municipal que promove Arouca, senti, por uma questão de rigor científico e factual, que seria necessário referir que, no território de Arouca, nunca se devem enfatizar as montanhas em detrimento dos vales, porque isso não corresponderia à realidade do território arouquense.
Repito o óbvio, que é imediatamente observável e constatável: A Vila de Arouca, que tem cerca de 5 200 habitantes, sede de um concelho da Área Metropolitana do Porto e da Região Norte com cerca de 22 360 habitantes, localiza-se num vale de grande dimensão e não na Serra da Freita. A Vila de Arouca localiza-se no Vale do rio Arda, na Bacia e na Região Hidrográfica do rio Douro. As zonas de vale e de meia-encosta do concelho de Arouca são as mais populosas e não as zonas de serra, que são muito pouco populosas. Nesse sentido, a componente humana do concelho de Arouca que mais contribui para a definição identitária do concelho de Arouca como um todo, em termos estruturais, é, como sempre foi, forjada a partir da identidade das populações das zonas de vale e de meia-encosta do concelho e não das zonas de serra, que são exíguas em habitantes. A Vila de Arouca e o Vale do rio Arda, que se distende, depois, no espaço administrativo de várias freguesias arouquenses, para oeste e que se liga, em Rôssas, ao Vale do rio Urtigosa, são o território mais populoso que mais contribui, em termos de componente humana, para a definição identitária do concelho de Arouca como um todo.
gravura: Arouca Geopark

O território do município de Arouca apresenta as características típicas do Douro Litoral, em plena bacia hidrográfica do rio Douro, que tem, como capital, a cidade do Porto: é um tipo de território constituído por vales, planaltos e meias-encostas férteis, com uma parte montanhosa considerável, onde a agricultura e a silvicultura têm uma expressão significativa e complementar na economia local, que é parcialmente industrializada e terciarizada e em forte conexão sócio-económica com os concelhos vizinhos, mais industrializados, localizados a oeste e a noroeste. Território que tem, portanto, abundância de cursos de água que nascem nos cumes das montanhas e formam os vales típicos do Douro Litoral, como o vale do rio Arda, onde se localiza a sede do concelho, que se distende do sopé do monte cónico da Senhora da Mó até ao lugar da Pedra Má, na freguesia de Rossas, onde, por sua vez, se localiza um vale fértil, irrigado pelo rio Arda e pelo Rio Urtigosa. O vale de Moldes (Arouca) ou os planaltos de Alvarenga, de Chave (Arouca) e de Mansores também são exemplos desse território autóctone, típico da região do Douro Litoral. "

20 de fevereiro de 2021

A Pensar Alto! Por aí... O Percurso.

Comecei a escrever este pequeno texto sem uma ideia bem definida acerca do tema e de que iria tentar falar, mesmo que em pensamento. A preocupação maior é não resvalar para o óbvio e desatar a dar-me de entendido acerca da covid 19, porque destes está tudo cheio. Basta passar os olhos por um jornal, ouvir um debate ou uma conversa na tv, e berço dos berços ler atentamente os comentários nas tão modernas redes sociais. Entendidos, especialistas, analistas, experientes em nada e mais alguma coisa, tudo escreve. Erros de ortografia à parte, todos querem dar a opinião, passou a ser um direito, melhor, uma obrigação, calado é que eu não fico, mesmo que corra o risco de a mosca entrar. Admira me não ser criada uma associação nas redes sociais, para se fazer ouvir junto dos especialistas a sério, dos que aconselham as autoridades, também eles por vezes em tão grande número que as opiniões até se contradizem, e se umas são mais reais outras são de morrer com o susto. País original este. Avancemos. De eleições também não quero falar, o que passou lá vai e das próximas se bem que já me parece ver alguns candidatos ou pseudocandidatos em bicos de pés a pensar que a hora está próxima, nem se sabe bem quando são. Uns querem nas datas previstas, outros lá mais para a frente, pode ser que melhore qualquer coisa. Assim como aquele passeio de domingo que promete chuva, mas há sempre a esperança de só começar quando já estamos em casa. De confinamentos, é tema que esgota a paciência de um santo, é um atrás do outro. De crise, tinha pano para mangas o dia a dia é fértil nesse assunto e é como o vento de verão, sopra de todo o lado. De resto, para quem sabe o que é confinamento as conversas são muito menos, os contatos resumem se ao indispensável e mesmo estes com racionamento, mas muito ricos como se a língua tivesse medo de não recuperar a ligeireza dos tempos antigos. A vida deu uma volta que demoram todos a digerir. Até o otimismo tem que ser embrulhado em reticências, não vá parecer algo tipo blasfémia. A morte passou a ter contador, e os números ora sobem ora descem a embalar estes dias em que as descrenças começam a ganhar terreno, e lá vão amigos e conhecidos. Avancemos, em resumo, dias e noites, noites e dias muito iguais, mas com todo o tempo a ser aproveitado da melhor maneira que cada um se permite. Escrever faz parte disso. Ainda bem que  Arouca tem sempre assuntos novos. O novo percurso  ao longo do vale que nasce ali pela Vila e acompanha o rio, é verdadeiramente um sucesso, não sei se vai ser ciclo ou eco, sei que vão ter de coexistir e partilhar o mesmo chão, ouvir os mesmos cantares que sobem do rio, ora com mais ora com menos água, fazer as mesmas pausas e conviver com os colegas de rotas. Um percurso em versão soft daqueles antigos que nos enlameavam as botas e faziam chegar a casa com os pés molhados e reprimenda calorosa. Moderno, tranquilo e de fácil acesso, com as comodidades dos dias de hoje, rapidamente vai ficar repleto de muitos passos, rápidos ou lentos conforme o ânimo e a intenção do passeio. Ainda em obras, já se vai adivinhando o traçado completo e será uma forma de todos poderem ter mais saúde, se o que dizem é verdade, que caminhar traz saúde. Anda muita gente por lá durante quase todo o dia. A maior parte com todos os cuidados e a cumprir as regras, sejam casos individuais com os pensamentos sombrios a manterem se distantes, se calhar por causa daquele verde semeado de pássaros e coisas belas, outros em grupos pequenos e quase sempre familiares, uma partilha de encantamento físico distribuído por várias gerações. Este percurso, que até pode ficar caro, ter uma manutenção pesada, mas vale o esforço pelo que nos devolve em horas de exercício, convívio e aproxima das raízes de camponeses que quase todos transportamos. E tudo isto em segurança, sem fugas apressadas de veículos que trazem sempre a pressa no destino. Foi uma ideia que me parece agradar à grande maioria, mas esperemos pelo desenvolvimento destes tempos pandémicos, porque aí sim se tirarão as dúvidas. O investimento feito servirá também para atrair de novo os muitos turistas que nos visitavam e tão satisfeitos encontravam de novo as estradas para suas casas. Para nós e para eles. A nossa economia precisará de novo que o turismo regresse, que as estruturas existentes abram de novo as portas, que as filas nos restaurantes e cafés se acumulem ao longo do dia, e este percurso vai contribuir com a sua parte, tenho a certeza. Afinal vou terminar com noticias agradáveis, se calhar por causa das rabanadas de vento frio e alguma chuva que ainda estou a tentar secar da ultima caminhada. Que bom. Agora até tinha mais assuntos, a nova ponte, o aniversário da ASARC, a organização da vacinação com os seus passos muito curtos, as contrariedades que vão surgindo, a população que por estas bandas vai diminuindo, mas hoje, fico por aqui. Corre lentamente o ano de 2021. Continuamos em confinamento, mas acredito que o futuro irá regressar. Cada um tem que cumprir a sua parte, só isso. Cá ficamos á espera da vacina.

16 de fevereiro de 2021

COVID(A) com Humor - Isto de usar máscara

     “Isto de usar máscara está-me a parecer uma grande treta”, ouvi de raspão, ao atravessar a nossa linda Praça Brandão de Vasconcelos, em Arouca. Esta tirada tão sui generis (ou talvez nem tanto), logo me despertou a curiosidade, como não podia deixar de ser. Sou uma pessoa atenta aos que os outros pensam, interesso-me pelas opiniões e modos de sentir as coisas daqueles que me rodeiam. Ser curioso não é crime (por enquanto).

Abrandei o passo, disfarçadamente, apurei os ouvidos e lá consegui apanhar mais algumas coisitas da conversa entre dois senhores já de alguma idade. “Pois… não tenhas dúvidas…foram os chineses, claro…estou em crer que isso do bicho até é invenção só para nos prejudicarem”. “Achas?” “Acho, acho… não tenhas dúvidas… qual bicho qual quê… primeiro inventam o bicho, depois é só vender máscaras.” “Às tantas…eles têm é inveja… tinham de arranjar maneira de estragar a economia mundial”. “Pois… e arranjaram… enquanto isso, a deles… é só subir à nossa custa! É máscaras, é ventiladores…mas as máscaras então… ui, ui!”

Gostei, sobremaneira, deste “ui, ui!”. Gostava de ter visto as caras que acompanharam esta expressão, mas para isso, teria de olhar de frente os dois interlocutores, e não me atrevi a tanto. Também gostei das máscaras colocadas no queixo (isso ainda vi pelo canto do olho), usadas como quem diz “Se é obrigatório usar, usa-se, mas que não servem para mais do que aquecer o queixo, lá isso bem sabemos que não servem”.

Segui o meu caminho, imersa em mil reflexões, como gosto de fazer quando deambulo pelas ruas calmas da nossa linda Vila.

Ora não é que aqueles senhores até não deixavam de ter razão?! Nunca tinha pensado nisso desta forma, mas isto de usar máscaras… Acho que nos devíamos recusar a cair nestas armadilhas dos chineses. É só mais uma forma de nos enganarem e nos sugarem o nosso rico dinheirinho. As máscaras serão todas de fabrico chinês? Que importa isso? É apenas um pormenor. O que importa é que estávamos muito bem sem elas antes de eles terem inventado “o bicho”. Lá se vai o nosso rico dinheirinho e pronto! Devíamos recusar-nos, volto a dizer!

Aliás… pesando bem… se calhar, há muito mais coisas que são um perfeito abuso e não são só as máscaras. E não é de agora, isto já dura há muito, muito mais tempo do que podemos imaginar. Não sei se é tudo culpa dos chineses, mas enfim…

Se não, vejamos.

Nos bons e saudosos tempos do paraíso bíblico, os nossos pais andavam nus. Hoje pode parecer-nos estranho e despropositado. Mas, o facto é que para eles era bastante normal. É claro, temos de reconhecer, que nos dias de hoje, esse uso (ou falta dele, depende do ponto de vista) seria inadequado ao nosso clima. Mas, suspeito eu, que, precisamente desde aquela decisão de se usar esses trapinhos a cobrir-nos, foi que o nosso corpo se desadaptou do clima e começou a sentir necessidade de se cobrir para não morrer de frio. Nós em Portugal, até temos um clima (dizem) bastante ameno, por isso, se calhar, pensando bem, até poderíamos passar bem sem essas roupinhas inventadas sabe-se lá por quem. Mas não. Pegou a moda e agora… temos todos de segui-la como carneirinhos. É ou não verdade que, seguindo a versão das máscaras, são tudo invenções para gastarmos o nosso rico dinheirinho e fazer subir a economia de alguém que lucra à nossa custa? Devíamos pensar bem nisso e rever a nossa posição em relação a esta questão.

Outro exemplo. E este, parece que até é mesmo culpa (mais uma vez) dos chineses. Estou a falar dos guarda-chuvas. Não há registo histórico de quem e em que data exata foi este instrumento inventado. Mas, segundo se sabe, foi na China que surgiu, por volta do séc. XI antes de Cristo. Ah, pois é! Mais uma perseguição dessa cultura, e esta já de longa data. Ora, também me está a parecer que vou deixar de comparar esse malfadado instrumento de tortura. Tortura, digo e repito. Nem sei ao certo quantos guarda-chuvas compro por ano, mas vai em boa conta. Estão sempre a perder-se, a ser deixados em todo o lado. Então para que servem. Compramos… compramos… e, quando deles precisamos, nunca estão lá! E ainda por cima, o melhor sítio para se comprarem, para além das feiras, é mesmo nas lojas chinesas.

Não que eu tenha alguma coisa contra esse povo. Antes pelo contrário. O mundo é um lugar que obtemos de empréstimo (por sinal, por uns quantos anos, às vezes até bem poucos) e que temos o dever de partilhar. Sinto-me, acima de qualquer outra coisa, cidadã do mundo). Um pequeno quinhão chega-me bem (até me hei de, um dia, contentar com bem menos). E, se os chineses inventam coisas, acho muito bem. Eles ou quaisquer outros, evidentemente. Mas, o que me aborrece é que tenhamos que usar tantas e tantas coisas, eu que até sou (digo eu!) pouco consumista. Ou gostaria de ser.

Para concluir, deixo aqui algumas dicas. Isto das máscaras, das roupinhas, dos guarda-chuvas… e até das comidinhas, se pensarmos bem, não passam de invenções para nos fazer gastar dinheiro e consumir a paciência.

Recuso-me! Vou deixar-me disso! Máscaras, então, nem pensar!

O vírus? Bem… não sei se é invenção, mas logo se vê. Se vier… bem… há hospitais, não há? E UCIs, não há? E ventiladores, se me faltar a capacidade de respirar sem ajuda, não há?

 Esperem lá!... Quem terá inventado estas coisas?! 

5 de fevereiro de 2021

Sobre a origem 'cripto-judaica' e 'cristã-nova' das famílias brasonadas de Arouca

No passado mês de Dezembro da era comum, recebi, na minha caixa de e-mail's, uma mensagem de um leitor brasileiro deste blogue «Defesa de Arouca», descendente de famílias arouquenses, que me fez uma série de questões sobre as famílias de origem «cripto-judaica» e «cristã-nova» de Arouca, ou seja, sobre a Cultura Judaica e o Povo Judeu 'Shomer Torá uMitzvot', do qual eu descendo, ao qual pertenço e ao qual estou muito ligado, de modo directo, faz, agora, precisamente, 17 anos. No presente e em termos vitalícios, como «Noaíta-Chassid / Chassid Umot ha-Olam»...
Esse leitor perguntou:
" Li os seus posts no Defesa de Arouca sobre elementos cripto-judaicos em Arouca e gostei muito por ter muito interesse no tema. Reparei também que você menciona que encontrou as suas próprias origens cristã-novas em Arouca, por acaso você teria informações também sobre outras famílias com a mesma origem no concelho?
Meu avô paterno nasceu no Burgo e por parte do meu bisavô sou descendente de Nunes Ferreira de Urrô/Santa Eulália/Burgo e Duarte da Rocha também do Burgo, e por parte da minha bisavó dos Gomes de Sousa Monteiro de Figueiredo (Burgo) que foram senhores das Casas da Moita, Aldeia, Devesa, Fonte, Figueiredo, Cabo, etc e também dos Almeida Magalhães da Casa de Sela (Sela, Urrô) e Quinta de Souto de Rei (Souto de Rei, Várzea), que pelo brasão entregue ao meu ancestral Cap. Domingos de Almeida Magalhães (da Sela) seriam também descendentes dos senhores das Casas da Trofa e do Côvo.
Ficaria muito contente caso você tenha alguma informação em relação à essas famílias, especialmente em relação às origens cristã-novos que creio serem bem prováveis."
Respondi-lhe do seguinte modo:
" Boa tarde. Sim. Cada vez mais se confirma a origem cripto-judaica e cristã-nova das Casas brasonadas do Norte de Portugal e da Galiza.
O cripto-judaísmo e os cristãos-novos são um fenómeno sobretudo do Norte de Portugal e não do Sul ou de Lisboa, tal como pude constatar em vários estudos académicos que realizei com outros colegas sociólogos...Um dos quais sobre a minha família cripto-judaica materna: os «do Valle Quaresma», senhores da Casa de Paços - Moldes - Arouca. As famílias brasonadas de Arouca terão, em grande parte, essa origem cripto-judaica e cristã-nova. "

Igreja da Misericórdia de Vila Real de Trás-os-Montes, que era uma antiga sinagoga sefardita ocidental
Foto: Visitar Portugal

Como referi neste blogue, uma parte da família do poeta Fernando Pessoa, da Casa e Quinta do Castelo, de Fermêdo - Arouca, era de origem «cripto-judaica» e «cristã-nova», como o próprio poeta Fernando Pessoa descreve na sua célebre nota biográfica, ao referir a sua origem familiar num «misto de fidalgos e judeus»...E grande parte das igrejas e congregações das Misericórdias do Norte de Portugal eram antigas sinagogas, que eram propriedade dessas famílias brasonadas do Noroeste Peninsular. Um desses melhores exemplos é a igreja da Misericórdia de Vila Real de Trás-os-Montes, localidade de onde era originário o Dr. Ângelo Miranda, que é o célebre médico transmontano que, durante o século XX da era comum, se tornou arouquense e que era descendente de Judeus religiosos praticantes, de uma família brasonada. 
Repito e sublinho bem: a cultura «Cripto-Judaica» milenar é uma componente muito relevante no Noroeste da Península Ibérica, que está no inconsciente colectivo das populações nortenhas e galegas, mesmo que, na actualidade, muitos não estejam conscientes dessa herança milenar e estruturante, mas que permanece, como herança, de modo espontâneo, na idiossincrasia cultural das populações do noroeste ibérico, em muitos e variados aspectos, tal como ocorre em Arouca. Ainda está por realizar um estudo minucioso e isento, com grande rigor científico, sobre as congregações, irmandades, igrejas e capelas da Misericórdia do Noroeste da Península Ibérica, bem como sobre as congregações, irmandades, igrejas e capelas do Espírito Santo (o Ruach Ha-Kodesh hebraico), visto que grande partes delas eram antigas congregações e sinagogas sefarditas ocidentais, que foram preservadas pelos «cristãos-novos», durante séculos.

23 de janeiro de 2021

Rodrigo Fernandes de Pinho volta a vencer a "Pergunta do Dia!"

Apesar de só terminar amanhã, já é conhecido, desde a sétima pergunta, o vencedor da 2.ª Edição da "Pergunta do Dia!". Depois de já ter vencido a primeira Edição, realizada no ano passado, Rodrigo Fernandes de Pinho, natural da freguesia de Rossas, volta a vencer esta edição da "Pergunta do Dia!".

O desafio colocado nos últimos dez dias na página de Facebook do blog "Defesa de Arouca", também com o objetivo de ajudar a distrair e desanuviar das contingências derivadas da pandemia que estamos a enfrentar, consistiu em 10 perguntas, cujas respostas, mais do que de conhecimento geral sobre Arouca e os Arouquenses, implicavam alguma pesquisa.

Talvez pela necessidade de maior pesquisa, esta edição acabou por não ter a adesão de mais participantes, apesar das estatísticas de visitas e interações geradas pelas perguntas terem estado muito acima da média das publicações habituais nessa página.

Quando falta apenas a pergunta de amanhã, que será sobre a sua freguesia natal, Rodrigo Fernandes de Pinho só não acertou em duas respostas, pese embora tenha andado muito perto de o conseguir. Muitos parabéns e obrigado ao Rodrigo pela sua participação!

As Perguntas foram as seguintes: 

PERGUNTA DO DIA! (1/10) – Recentemente faleceu o professor e autarca José Soares Correia Belém, natural de Silgueiros, Viseu, o qual casou no final da década de cinquenta com a arouquense Irene Monteiro de Sousa. Onde se realizou a cerimónia de casamento?

PERGUNTA DO DIA! (2/10) – Foi eternizado na toponímia da vila de Arouca com patente militar inferior ou pelo menos diferente daquela com que faleceu. De quem se trata, qual a patente com que morreu e onde foi sepultado?

PERGUNTA DO DIA! (3/10) - Após a sua extinção definitiva o Mosteiro de Arouca, para além dos espaços da Paróquia e da Real Irmandade, já foi destinado (independentemente de se concretizarem ou não) a albergar diversas valências, a última das quais uma Unidade Hoteleira na Ala Sul. A quem foi concedido o remanescente do Mosteiro e para que finalidade logo após o falecimento da última monja? 

PERGUNTA DO DIA! (4/10) – Foi há precisamente treze anos que a "Defesa de Arouca" publicou o último número do seu jornal, que se editou quase ininterruptamente desde 2 de Janeiro de 1926. Houve, porém, um curto período em que quase não se publicou qualquer número e perdeu mesmo o direito ao título. Que período foi esse, o que originou essa instabilidade e a que se deveu a perda do direito ao título?

PERGUNTA DO DIA! (5/10) – A atual imagem gráfica do Município de Arouca foi adotada em 14 de Setembro de 2019. No entanto, esta não é já a primeira imagem gráfica utilizada pelo município. Antes desta, existiu uma outra sintetizada numa logomarca sob o lema «Arouca, Vale da Fertilidade». Em que data foi então apresentada pelo município essa logomarca e qual a entidade que ainda hoje faz uso dela? 

PERGUNTA DO DIA! (6/10) – O que significam e/ou a que entidades correspondem ou corresponderam as siglas ou abreviaturas CODA, A4, EXCOMAR, AMC, SICOMAR, ADCA, GACA, CAAEAFCA, ADITUR, AAA, ARDA e SAJU.

PERGUNTA DO DIA! (7/10) – “NON SINE INVIDIA ANNO 1686” diz-se ainda uma das mais remotas e enigmáticas inscrições datadas da nossa vila. No entanto, ao percorrermos a zona histórica conseguimos descortinar pelo menos quatro datas mais antigas. Quais são e onde se encontram inscritas?

PERGUNTA DO DIA! (8/10) – Este ano completam-se vinte anos sobre o começo das obras da 1.ª Fase da Variante à EN326. No entanto, são ainda as velhinhas estradas nacionais que nos levam ao litoral. Em que ano começou a rasgar-se a ligação entre Arouca e Oliveira de Azeméis (EN224) e, sabendo que, entre a vila de Arouca e a Farrapa, se fez em quatro lanços e que cada um deles transpôs pelo menos um rio ou ribeiro, entre que lugares se compreendeu o terceiro lanço?

PERGUNTA DO DIA! (9/10) – «Porque a data 6 de Dezembro de 1937 marca a luta dos camponeses arouquenses contra os lacaios (…) dos exploradores do povo trabalhador». Onde podemos ler esta frase e o que é que desencadeou aquela luta que se saldou num morto e vários feridos?

PERGUNTA DO DIA! (10/10) – Dada a excelente participação de Rodrigo Fernandes de Pinho nesta 2.ª Edição da “PERGUNTA DO DIA!”, é justo que a última pergunta seja sobre a sua freguesia natal. Em que data foi criada a escola de ensino oficial primário de Rossas e em que data para ela se nomeou o primeiro professor?

17 de janeiro de 2021

IRS - Taxa Municipal

Os municípios portugueses, através de decisão do seu executivo e aprovação em assembleia municipal, têm a possibilidade de devolver parte do IRS cobrado pelo Estado aos seus habitantes. Chama-se “Participação variável no IRS” e consta no Regime Financeiro das Autarquias e Entidades Intermunicipais. Em Portugal encontramos todas as situações desde municípios que devolvem a totalidade desta taxa até aos que não devolvem qualquer valor. Arouca, mantém uma taxa de participação variável no IRS de 5%, ou seja optou por não abdicar de qualquer parte deste valor em favor dos munícipes.

Recentemente uma força politica local fez noticia de uma proposta para que este valor fosse devolvido aos munícipes, sendo esta opção rejeitada pelo executivo. Este apresentou como parte da argumentação para a decisão de recusa o facto de que só seriam beneficiados com a medida os mais privilegiados economicamente e que o cariz social se esfumaria não tendo impacto nas camadas económicas mais necessitadas da população. 

Concordo com argumentação e percebo-a, no entanto esta situação leva-nos para uma outra reflexão mais profunda. 

Cerca de 50% da população Arouquense não teria qualquer beneficio com esta medida, principalmente os mais necessitados. Isto é o mesmo que dizer que metade da população não tem rendimentos suficientes para serem taxados em sede de IRS. Isto é o mesmo que dizer que o rendimento médio e poder de compra da população Arouquense é baixo, o mais baixo da Grande Área Metropolitana do Porto. É aqui que esta reflexão se impõe. É preciso pensar, refletir, agir e encontrar estratégias e linhas orientadoras para que este ponto fulcral para a qualidade de vida dos arouquenses (o seu poder económico) acompanhe em igual escala o desenvolvimento e destaque que Arouca enquanto concelho tem tido no panorama nacional. Assim não acontecendo, como atrás se descreve, o objetivo último e final da gestão municipal fica por cumprir: o melhoramento da qualidade de vida de todos. 

Nota: Aquando da consulta no portal das finanças das taxas de IRS associadas aos municípios, Arouca misteriosamente desaparece das listagens nos anos de 2020 e 2021, sendo o último dado de 2019. Pode consultar aqui 

15 de janeiro de 2021

A Pensar Alto! 2021 o Ano farol.

Se fim de ano houve em que os votos de bons desejos para o futuro foram sinceros e carregados de esperança, foi neste passado fecho de 2020. Os votos de bom ano transmitiam a esperança dos regressos e a vontade enorme de não nos esquecer mos do que é um abraço, ou até uma palmada nas costas. De beijos e mais afagos nem quero falar. Fomos atravessando estes dias esperando novidades boas e deitando para o ar as novas regras e todos os impedimentos que 2020 de repente nos atribuiu. Será que basta ter esperança? Pelo menos ajuda e sempre é um fator de auto motivação sem grandes pesquisas. E 2020 nem terminou muito mal. A noticia do primeiro passo para a normalização, com as vacinas a abrir todas as portas para o novo velho mundo, a mudança nos E.U.A. com o regresso da dignidade e do respeito social arredados muito temporariamente por um ignóbil  arremedo de Presidente que tanto queria perpetuar-se, como se fosse possível manter o embrutecimento sem fim à vista. As preocupações com as mudanças climáticas que os períodos de confinamento trouxeram ao dia a dia, tornaram se mais entendíveis e apressaram a urgência em tentar recuperar dos enormes erros cometidos que se devem evitar repetir a todo o custo, e mais noticias boas foram chegando ao final de 2020 mesmo que as ampliássemos para compensar o rol enorme de noticias horríveis que todos os dias nos apareciam e teimam em aparecer por todo o lado, assim a modos daquele cobertor que apesar de fininho sempre tapa algum do frio nas noites invernosas. E como as autoridades facilitaram lá se passou o Natal e o fim de Ano a fingir normalidades, mas com as sensações de que se iriam arranjar sucedâneos, e a felicidade se bem que mais pequena iria ser compensada com essa intensidade. E lá entramos em 2021 a avistar bem longe o farol, mas a avistar e isso é o que importa. Com a mudança veio o frio, frio antigo que nem todos os anos nos visita mas quando volta obriga a rostos espantados e desenhos com as respirações enregeladas. Frio nos corpos mas calor na alma com o futuro já ali, parecia tão próximo. De repente, ainda não é desta, novo passo atrás e vamos confinar de novo. Desta vez somos já experientes, começam a ganhar se hábitos estranhos e a surpresa inicial é o dia a dia. Importa é prevenir e dar o contributo para quem é obrigado a assumir riscos para sobreviver, afinal pouco sacrifício o nosso, se comparar mos com a maioria. Lá fora, as eleições, desta vez, diferentes, sem campanhas, sem grandes ruídos com candidatos desinspirados, fica o prazer de contribuir para uma  escolha  que só a democracia consegue. Espero pelo menos que os candidatos que não atinjam a finalidade para que concorrem, não façam birras, nem ameaças, nem se mostrem adeptos de exemplos que nos aparecem de onde menos se espera. Trumpzinhos há em todo o lado e tristes crédulos vão aparecendo nem que seja para exercitar o ego de quem gosta de viver em situações que lhe permitam dar aqueles passos em que todos fiquem de boca aberta, seja pelo bom ou pelo mau, é igual, logo que não sejam os próprios os prejudicados. Alguns têm umbigos muito sensíveis. De resto, para desanuviar, este confinamento que se inicia por estes dias nem deveria ter esse nome, é assim a modos de uma recolha voluntária para quem quer e pode. Vamos ver os resultados e já temos dois para esperar, as eleições e o confinamento. Neste primeiro dia, dia claro, frio mas com muito sol que aproveitamos para aquecer as emoções e os desânimos. Continuamos a pensar que no fim, bem ou mal alguma coisa se há de arranjar. Fica a esperança, esta é mesmo a ultima coisa a morrer. Em confinamento II.

14 de janeiro de 2021

Sobre os antigos modos de pesca nos rios de Arouca

O texto anterior da autoria de Paulo Teixeira, sobre 'O Guarda-Rios', remeteu-me para a parte de uma Tese académica e científica que defendi no ano de 2002, onde descrevo alguns dos antigos modos de pesca nos rios de Arouca. Por pensar que terá bastante interesse, decidi partilhar essa parte da Tese com os leitores deste blogue «Defesa de Arouca»:
     
As espécies piscícolas que abundam, nos cursos de água da freguesia, são a enguia (Anguilla anguilla), a truta fário (Salmo trutta fario), considerado, pelos autóctones, o peixe mais nobre, por ser o mais difícil de pescar, de temperamento irrequieto e individualista, o escalo (Leuciscus leuciscus), também denominado bordalo, e a boga (Chondrostoma polylesis), estes dois últimos vivem em cardumes e são considerados de menor valor. No curso de água do concelho com maior caudal, podem-se encontrar também o barbo (Barbus barbus) e a carpa (Ciprinus carpio). Se surgiram, nas casas dos lavradores, ao longo do tempo, várias receitas gastronómicas de confecção da truta com algum requinte, os bordalos e as bogas são confeccionados de modo uniforme, normalmente em caldeirada, escabeche ou em fritadas. 
 Várias técnicas arcaicas de pesca ainda hoje se mantêm, nas populações ribeirinhas, como a pesca ‘à chumbeira’, rede muito apertada com pedaços de chumbo nas pontas que é lançada sobre os cardumes, recorrendo a um fio que aperta a rede, aprisionando, desse modo, os peixes; a ‘naça’, saco de rede, com a abertura em redondo, que se puxa em sentido contrário à corrente, entrando o peixe na armadilha donde não consegue sair; o ‘tozom’, saco de rede seguro por dois paus que se arrasta pelas margens do rio, ao mesmo tempo que os pescadores batem nas pedras e nos arbustos laterais que o rodeiam, onde se escondem os peixes; o ‘tramalho’, utilização, no período de Verão, durante o dia e durante a noite, de duas ou mais redes compridas que abrangem as duas margens do rio - em equipa, alguns pescadores seguram as redes e outros afugentam o peixe em direcção ao local onde as redes se encontram armadas; e a captura de enguia com um tipo de anzóis denominados ‘âncoras’, com iscos de bogas ou escalos partidos ao meio e ensanguentados, atados por fios grossos aos arbustos situados nas margens dos rios e que são colocados durante a noite. 
 São técnicas arcaicas de pesca que têm sobrevivido ao longo dos séculos, apesar de serem, quase todas, proibidas pelo poder central do Estado, mas que não desapareceram por fazerem parte dos costumes endógenos das populações autóctones. A técnica de envenenamento do peixe dos rios com uma planta denominada ‘trovisco’ (Daphne Gnadium L.), vegetal arbustivo venenoso da família das Dafnáceas, introduzida em sacos de serapilheira que eram colocados nos açudes, também era uma prática corrente pelos habitantes da freguesia até aos anos sessenta do século vinte, mas que já desapareceu, por ser reprimida pelo poder estatal. 
foto: Mapionet
O rio Paivó, no lugar de Celadinha - freguesia de Moldes - Arouca

 Os rurais atribuem grande importância aos cursos de água por terem sido, durante milénios, uma das condições básicas da sua sobrevivência, para além da relação sagrada que os velhos rurais tinham pelos rios, criando-se vários mitos nos poços mais profundos, de que servem de exemplos, entre muitos, na freguesia de Rôssas, a lenda da existência de uma “grade de ouro" escondida pelos Mouros no fundo de um dos poços do rio Arda ou o facto das populações da freguesia de Espiunca, em épocas de grande seca, costumarem ir, em procissão, à capela de Santo Adrião, localizada na vertente das bacias do Paiva e do rio Sardoura, transportando, depois, a imagem do santo até junto do rio Sardoura, onde praticavam rituais de mergulho da imagem para pedir uma mudança no tempo. 
 Estes fenómenos são um indicador da importância que a água tem para as populações rurais. É na conjugação desses dois elementos físicos, a terra e a água, que o ambiente rural se moldou ao longo dos milénios. As ‘presas’, reservatórios de água com as paredes feitas de terra e com um orifício para a saída de água chamado ‘boeiro’, situadas nas imediações dos aglomerados populacionais, e as ‘lobadas’, desvios de água nos açudes do rio destinada à rega dos campos ribeirinhos e utilizada como força motriz dos moinhos de água, dos engenhos do linho e dos lagares de azeite, normalmente possuída em rateio entre consortes (denominados também ‘quinhoeiros’) de acordo com sistemas tradicionais de partilha, são exemplos paradigmáticos da complementaridade e da dependência entre esses dois elementos físicos nos espaços rurais. "

12 de janeiro de 2021

O Guarda-Rios


A figura do Guarda-Rios faz parte de um passado não muito distante. Os guarda-rios, assim como os guarda-florestais, eram cargos públicos, mas que, por decisão política, foram "desaparecendo" à medida que os indivíduos que desempenhavam essas funções se foram reformando ou deslocando para outros serviços. 

As casas florestais foram botadas a um esquecimento lastimável, a floresta foi negligenciada e os rios ficaram à mercê da cultura ambiental e bom-senso das populações, que, infelizmente, muitas vezes, não abunda.

O Guarda-Rios faz parte da história recente também de Arouca, onde, por exemplo, patrulhava as margens dos rios Paiva, Paivô e Frades, na altura da exploração do volfrâmio. Procuravam, entre outras situações, evitar as descargas ilegais e a poluição das águas e das suas margens.

Arouca tem e terá a breve prazo duas estruturas que têm e terão os rios como ponto fulcral, a saber: os Passadiços do Paiva e a Ciclovia do Arda. Ou seja, dois rios como "cenário" preponderante destas apostas turísticas, mas também de lazer e bem-estar da população.

Porque não voltar a reavivar a figura do Guarda-Rios, que, basicamente, e em termos mais modernos, corresponderá a um vigilante, zelador e controlador do asseios dos rios, suas margens e estruturas?

Fica a sugestão.