17 de junho de 2020

A Pensar Alto! Passeios à beira mar.

Naquele dia encontrei sem querer um velho barco meio perdido encalhado na beira do mar. É estranho como ao lado de um mar tão imenso o barquito se perdeu e sem forças se encostou de lado a meia dúzia de gastas rochas e por lá ,ponto de descanso para as gaivotas intervalarem daquelas viagens de ida e volta. Chamou me a atenção o leve ruído da água sempre repetida a afagar lhe o casco, a única maneira que encontrou para o confortar e ficar em repouso, quem sabe esquecer as muitas dificuldades que o tinham conduzido aquele sítio. Para nós habitantes de um Vale rodeado de montanhas é sempre com grande agrado que reencontramos o mar, velho conhecido que por muitos sustos que pregue é sempre igual aquele velho amigo a quem perdemos o rasto e de repente encontramos mais velho mas com o mesmo olhar de ternura imensa. Não conheço ninguém que não goste de ir dar aquele passeio domingueiro sem escolher dia ou hora e que sem dar por isso fica parado a rever os murmúrios das ondas, os brilhos nunca repetidos das águas e aqueles cabelos brancos que a espuma brilhante tão bem imita. Desde sempre fomos para ele atraídos, somos todos descendentes de marinheiros, e mares navegados ou por navegar, é cá connosco. Lembrei me disto quando se deu mais um passo para nos aproximar do mar, um passo mais pequeno do que gostaríamos, mas mesmo assim mais um. Lá vem mais um pedaço de Variante, agora com outro nome, pequeno, atendendo ao tamanho das promessas, mas suficiente já que lhe vislumbramos o restante, agora que o que falta está encurralado no meio e mais cedo ou mais tarde justiça será feita, nem que seja por vergonha de quem tem de tomar as decisões. Claro que a razão principal para esta melhoria não é levar nos, pobres do interior ver as ondas, são razões de economia e desta vez de mãos dadas com o desenvolvimento que esperamos por consequência receber de volta. Já ouvi e li várias vezes que Arouca é uma terra que não ficou parada á espera da estrada que nos iria aproximar do litoral, espécie de oásis onde tudo acontece, pelo contrário, fez se ao caminho e com os caminhos manhosos que por cá vamos tendo, se conseguiu desenvolver e fazer até escola com ideias de muito sucesso. Grande verdade. Mas se os deveres são para todos, os benefícios também o devem ser e nada justifica este imenso atraso na concretização da nossa maior aspiração, enquanto Arouquenses. Vivemos num País retalhado por magníficas auto estradas, algumas até paralelas, como se pudessem competir umas com as outras, e nós, olhamos para essa imensidão de dinheiro gasto, olhamos para os anos em que sonhamos, em que tivemos esperança que as promessas iriam ser cumpridas, e com muito desencanto recebemos 9,9 km e agora mais meia dúzia para ver o tal litoral mais perto. É pouco, em tanto tempo de espera, por muita festa que se faça, por muitas contas que se acrescentem ás distâncias, é pouco. Nos próximos 3 anos vamos aguardar a concretização deste novo troço mas temos que continuar a lutar para que os poderes do nosso País sejam constantemente inquietados por esta enorme injustiça que anos após anos poucos quiseram corrigir. Nós os mais velhos gostaríamos que esta luta não tivesse que ser continuada pelos nossos filhos ou netos mas se tal acontecer que lhes deixemos o legado de quando se trabalha por uma causa justa não há cansaço, nem vontade de desistir. Queremos a conclusão desta via e com ela concluída mais o muito que se tem feito sem ela, iremos dar o passo que falta para o tal desenvolvimento que traz emprego, qualidade de vida, e oportunidades mais equilibradas e justas que há várias gerações Arouca reclama. Queremos todos ver o mar…ali mais perto. Não vamos desistir.

Carlos S. Sousa

14 de junho de 2020

O 'hall' de entrada de Arouca...

Tal como refere, com razão, no 'post' anterior, Paulo Teixeira, coordenador e colaborador deste blogue «Defesa de Arouca», o denominado «Fundo do Concelho de Arouca» é, como sempre foi, na realidade, o hall de entrada de Arouca. É um facto, é uma evidência, é uma verdade.
A expressão antiga «Fundo do Concelho» surgiu, em Arouca, no inconsciente colectivo, a partir das populações que residem na sede do concelho (na vila de Arouca) ou no núcleo territorial identitário do concelho, que é o território do vale do Arda e da sua influência. Surge, portanto, dessa percepção, no inconsciente colectivo arouquense, de quem reside na área mais central do concelho, em termos administrativos.
O território do concelho de Arouca localiza-se, quase na sua totalidade, na Bacia e na Região Hidrográfica do Douro. E pertence, com pleno direito, à Área Metropolitana do Porto, que é a porta de entrada estrutural, via terrestre, via aérea, via ferroviária, via marítima e via fluvial de acesso ao território do Arouca Geopark. A cidade do Porto sempre foi o principal espaço urbano de referência para Arouca e para os Arouquenses, em relação à qual mantêm uma forte ligação sócio-económica.

Daqui a uns tempos, a segunda fase da variante à EN326 estará concluída e ligará o nó de Pigeiros da A32 à localidade da Abelheira, em Escariz. E tornará esse hall de entrada de Arouca muito mais rápido e funcional. A partir dessa altura, como é óbvio, as várias instituições de Arouca terão que tornar muito mais visíveis, em termos de eficácia e racionalidade, os acessos e a mobilidade ao concelho de Arouca, numa altura em que a nova Ponte 516 Arouca já estará, provavelmente, a ter muito sucesso nacional e internacional, com a visita em massa de muitos forasteiros aos Passadiços do Paiva e à nova ponte pedonal. Será importante, portanto, publicitar e tornar bem visível esse trajecto mais directo e funcional a partir do hall de entrada de Arouca, quando for concluída a segunda fase da variante à EN326:
É a partir da parte mais a litoral da Área Metropolitana do Porto que, de certeza, acorrerão, ao concelho de Arouca, muitos, muitos e muitos visitantes, para ver a nova Ponte 516 Arouca, que, para além de se deslocarem por estrada, certamente também se deslocarão via aérea (Aeroporto Francisco Sá Carneiro e Aeródromo Municipal da Maia), via ferroviária (Estação Ferroviária de Porto-Campanhã), via marítima (Porto de Leixões e Marina 'Porto-Atlântico') ou via fluvial (Marina 'Douro-Marina' e Marina do Freixo).
Mapa: Área Metropolitana do Porto

11 de junho de 2020

As Fontes de Fermedo

Fermedo foi sede de concelho até 24 de Outubro de 1855, com a designação oficial de Cabeçais e Fermedo, passando daí em diante a incorporar o concelho de Arouca . É a freguesia mais a poente de todo território concelhio , sendo vulgarmente designada por “fundo do concelho “ . Esta designação é, em minha opinião , errónea porque depende da localização geográfica de quem a profere . Tendo em conta o número de turistas que nos visita hoje em dia Fermedo será , porque uma cota parte muito grande desses turistas vem de norte e da GAMP, o início do concelho . Neste ponto de vista Fermedo é o hall de entrada de Arouca . E para que não seja somente um local de passagem fica a sugestão da criação de um percurso pedonal/ pedestre nesta zona do concelho . Todo o vale de Fermedo , que tem como centro a igreja matriz dedicada a nossa senhora da Expectação , tem várias fontes de água já devidamente identificadas e sinalizadas mas um pouco esquecidas . Ali pelo lugares da Igreja Matriz,Parameira, de Trás do Rio , Adegas , Val do conde , Presa Grande , Abrunhal , Romão, Resumil e Cabeçais existem várias fontes e fontanários públicos que poderiam servir de base a um futuro percurso pedonal quer para usufruto dos Fermedenses quer para apresentação da hoje freguesia outrora concelho a todos quantos a visitam . Fica a sugestão .

9 de junho de 2020

Ainda não há dinheiro para a construção das 3ª e 4ª fases da variante à EN326 de Arouca, mas para… ... ...

Ainda não há dinheiro para a construção da 3ª fase (que ligará a Ponte da Cela a Escariz) e da 4ª fase (que ligará o nó de Pigeiros da A32 ao nó de Santa Maria da Feira da A1) da variante à EN326 de Arouca, em plena Área Metropolitana do Porto, mas houve mais dinheiro para doar (num acto dum governo supostamente de centro-esquerda...e será que é mesmo um governo de centro-esquerda?!!!) mais 850 milhões de euros ao Novo Banco. Banco que está sediado em Lisboa e que é uma expressão do tipo de capitalismo inútil e parasitário de Lisboa e arredores, que o opõe ao capitalismo produtor, laborioso e exportador da Região do Norte de Portugal. No Novo Banco, que surge desse capitalismo inútil de lobbys de Lisboa e arredores (já bem antigos e que sempre andaram à volta do Palácio de São Bento e do Terreiro do Paço), foram injectados, até ao momento, cerca de 7 mil milhões de euros provenientes dos impostos dos Portugueses!!!...Repito: 7 mil milhões de euros provenientes dos contribuintes!!!...
E a Área Metropolitana do Porto e a Região do Norte, onde Arouca se insere e pertence, estão também, no presente, a viver a ameaça da redução dos vôos da TAP a partir do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, que é o aeroporto mais moderno de Portugal, movimentando mais de 12 milhões de passageiros/ano, tendo um hinterland que representa mais de 5 milhões de cidadãos do Norte e Centro do país e boa parte da Galiza, mas que serve, sobretudo, a Região do Norte, que é a região mais populosa, a mais produtora e a mais exportadora de Portugal, etc.etc. O plano de retoma de rotas da TAP prevê o restabelecimento de 55 ligações internacionais em Lisboa, mas apenas quatro no Porto, constatando-se que os passageiros que já tinham viagem marcada estão a ser “transferidos” para Lisboa sem serem consultados!!!...A TAP, cujo capital é maioritariamente do Estado Português, ou seja, dos Portugueses, na prática está a funcionar como uma empresa local de Lisboa e arredores e para Lisboa e arredores e não como uma empresa-instituição nacional do Estado Português, penalizando, fortemente, a sua região mais populosa, mais produtora e mais exportadora, que é a Região do Norte.
Gravura: Transportes em Revista
São apenas dois elementos recentes do ultra-centralismo ultra-parasita de Lisboa e arredores, onde se injectam, descaradamente e de modo injusto, fundos e activos que são gerados e produzidos noutras regiões de Portugal, sobretudo provenientes da Região do Norte.
Mas para concluir um pequeno e muito urgente troço de estrada na Área Metropolitana do Porto (a 3ª e 4ª fases da variante à EN326 de Arouca) ainda não há dinheiro!!!!! Será que não há mesmo dinheiro?!!!!
E esta situação muitíssimo injusta e imoral do ultra-centralismo ultra-parasita de Lisboa e arredores não pode continuar mais assim. Não pode mesmo. A Regionalização de Portugal continental nas cinco regiões identificadas é mesmo uma das reformas estruturais mais urgentes que tem de ser concretizada com lucidez e eficácia, para bem de todo o Portugal e de todos os Portugueses. E este grande problema não se reporta apenas ao facto da existência muito duradoura do sórdido ultra-centralismo ultra-parasita de Lisboa e arredores, mas também ao facto da capital de Portugal não se encontrar no sítio certo e adequado, há séculos: a capital de Portugal devia localizar-se no núcleo identitário do território português, que é, como sempre foi, o Entre-Douro-e-Minho.

7 de junho de 2020

Crónica com nome: Matilde


Matilde é uma menina de seis anos, semelhante a qualquer outra menina da sua idade que vive 

com a sua mãe, Angelina.
Matilde tem no seu olhar meigo o reflexo das cores do arco-íris que nos fazem recordar a nossa infância, com os aromas e os paladares que persistem na nossa memória e que nos levam a acreditar e a sentir que ficaremos bem.

Matilde é a protagonista desta crónica e desta história que tanto têm de real como de peculiar, em tempos de pandemia.
Durante cerca de dois meses e meio, os jardins-de-infância estiveram encerrados, os alunos passaram a ter aulas à distância, através da ressurgida telescola ou estudo em casa, foi decretado distanciamento social, circularam veículos nas ruas com altifalantes a apelar à população, repetidamente, para “ficar em casa”. As ruas ficaram esvaziadas de pessoas, de frenesim, de barulho, de gargalhadas, de apitadelas de condutores impacientes, e os cafés, os restaurantes, o comércio e as repartições públicas encerraram o atendimento ao público.
Os encarregados de educação de filhos menores de 12 anos ficaram em casa para os acompanhar neste novo modelo de ensino, à distância, a partir de casa.
Vilas e cidades guardaram silêncio para serem palco de grandes e inusitados concertos e despiques esvoaçantes da passarada, que há muito não se ouviam por serem ensurdecidos pelo barulho citadino ou, simplesmente, porque estes são esquivos à confusão.
E a Matilde? Como viveu ela esta quarentena? Com a sua mãe, à janela, a perscrutar e a ouvir os trinados dos pássaros nas pausas do estudo?
Já devem calcular que a resposta à última interrogação é negativa, não tratasse esta crónica de uma história peculiar…
Matilde foi das poucas crianças que não pôde ficar em casa porque a sua mãe teve de continuar a trabalhar, uma vez que é funcionária hospitalar e integra o corpo de bombeiros, assumindo assim funções indispensáveis, ainda mais neste contexto pandémico.
A nossa menina (sim, nossa, porque quando gostamos tendemos a apoderarmo-nos afetivamente), contrariamente à maioria das crianças da sua idade e apesar das escolas terem encerrado, continuou todos os dias a levantar-se cedo, a vestir-se, a tomar o pequeno-almoço, a escovar os dentes, a preparar a mochila e a ir para a escola, não para a sua, mas para outra nova e depois ainda outra!
Numa primeira fase, Matilde e um aluno do 3.º ano de escolaridade eram os únicos alunos a frequentarem a escola primária de Arouca e a serem acompanhados por professores novos que se revezavam diariamente, durante a manhã, e por educadoras, à tarde. Dois dias depois, os dois meninos passaram a frequentar a escola secundária, e a surpresa foi muita! Os dois pequenos conheceram uma escola enorme, conheceram os funcionários, a direção, o porteiro e as câmaras de videovigilância, a cantina, a sala dos professores e, claro, conheceram e foram “paparicados” por todos os adultos que assumiram a sua “guarda” e que ficaram rendidos aos seus encantos.
Quando perguntei à Matilde de que escola gostava mais, se da escola normal, ou se desta escola nova, ela disse-me que gostava mais desta escola nova e que não tinha saudades dos seus colegas, porque nestes dois meses e meio não havia tanta confusão.
Por incrível que possa parecer, Matilde experimentou realmente o ensino personalizado, com diálogo e interação constante entre aluno/professor, estando os “holofotes” centrados em si, sendo alvo de toda a atenção.
Matilde entrava na escola às 8h da manhã e saía às 18h e estava sempre acompanhada por professores e por educadores, que a ajudavam e a desafiavam a manter as rotinas de estudo: de manhã assistia a telescola na televisão com o aluno do 3.º ano de escolaridade, ouvia com atenção a hora da leitura, dedicava-se nas expressões plásticas e no desenho, na matemática, no estudo do meio, fazia exercício físico, treinava a escrita e aprendeu a escrever melhor com letras maiúsculas! De tarde as atividades eram de carácter mais lúdico e artístico.
Matilde confessou-me que gosta mais de ir à escola do que de estar em casa, porque gosta de trabalhar e de estudar. Mostrou-me a capa com os trabalhos que fez, as fotografias que as professoras tiraram com ela, as mensagens que lhe escreveram, para que não as esquecesse e disse que a diretora, a Prof. Amélia, a convidou para a ir visitar, que as portas da secundária estariam sempre abertas!

Nestes dois meses e meio, Matilde ganhou novas amizades da Prof. Helena e da Prof. Margarida e de outros de que já não recorda o nome…

Aprendeu a desinfetar as mãos, percebeu que esta não era uma situação normal e que não podia estar na sua escola habitual com os seus colegas por casa do “bicho”, do “coronavírus” e do “Covid-19”, nomes que ela referiu de uma só vez e que ficarão, certamente, na sua memória.

O coronavírus para a Matilde é mau, mas o saldo desta experiência inusitada é positivo, porque lhe trouxe ainda mais atenção, carinho, afeto e novas amizades!



O que os olhos da Matilde nos dizem é que quando há bondade, honestidade e amizade, as dificuldades são ultrapassadas, o sol aparece e, juntamente com a chuva, faz surgir um grande e colorido arco-íris!

29 de maio de 2020


Mobilidade em Arouca na ordem do dia

Foi noticiada oficialmente pela Câmara Municipal de Arouca a assinatura do auto de consignação da empreitada de ligação do Parque de Negócios de Escariz à A32, pelas Infraestruturas de Portugal e o Consórcio Ferrovial Agroman S.A. que decorrerá no dia 3 de junho, no salão nobre dos paços do concelho, com a presença de SE o Ministro da Habitação e das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, e dos presidentes de câmara de Santa Maria da Feira e de Oliveira de Azeméis, Emídio Sousa e Joaquim Jorge, respectivamente.

Esta empreitada terá a duração de 870 dias e custará mais de 30 milhões de euros, co-financiada por fundos europeus, no âmbito do Programa de Valorização das Áreas Empresariais.

Esta é uma obra desejada há muitos anos pelos arouquenses, como continuidade à tão prometida e sempre adiada 2.ª fase da Variante à N326, que apesar de não cumprir a totalidade da extensão anteriormente reivindicada, com sacrifício do troço entre Rossas e Escariz, é a solução possível, fruto do trabalho e da pressão dos municípios de Arouca e de Santa Maria da Feira junto do poder central, em defesa do direito à mobilidade das populações de interior, como as de Arouca.

É de enaltecer o esforço e o investimento que a autarquia de Arouca fez para que este “sonho”, há muito almejado e tantas vezes malogrado, se concretizasse. Esta ligação será uma mais-valia para diminuir o isolamento e distanciamento geográfico de Arouca face ao Porto, sede da Área Metropolitana que Arouca integra.

Contudo, há ainda muito a fazer e a investir em termos de construção de infraestruturas e de mobilidade. Arouca tem uma única central de transportes, a necessitar de obras de remodelação, funcional e arquitectónica, pois é e deve ser uma porta de entrada para Arouca, serve os arouquenses, trabalhadores e estudantes que se deslocam diariamente para a sede do concelho para frequentar os 2.º, 3.º ciclos e o ensino secundário e, finalmente, alguns turistas (seriam mais se o Andante e o plano de mobilidade na AMP tivesse discriminação positiva para Arouca).

Em linha com as recomendações europeias, o transporte público deve ser o meio privilegiado para uma mobilidade mais amiga do ambiente, mais cómoda, mais segura e menos onerosa, representando um importante fator na qualidade de vida das populações e símbolo de desenvolvimento económico e social das localidades.

Em Arouca ainda não se conseguiram colmatar as deficiências da rede (?) de transporte público existente nas diversas freguesias e destas para o exterior do concelho, apesar do tão apregoado Andante, acessível verdadeiramente para os utilizadores dos municípios mais urbanos e próximos da sede da AMP.

Desde março até agora, devido aos constrangimentos por causa da COVID-19 que limitou a circulação das pessoas e encerrou escolas, a maioria dos transportes públicos em Arouca foram suspensos, deixando a população sem esse serviço básico que deveria ser universal. Não têm os residentes de Alvarenga, Canelas, Moldes, Ponte de Telhe, Cabreiros, Albergaria da Serra, Tropeço, entre outras, o mesmo direito à mobilidade dos residentes noutros municípios e freguesias da AMP?

Além de estradas, os arouquenses merecem legitimamente o direito ao transporte público. É necessário pensar e pôr em ação um plano estratégico para a mobilidade em Arouca, com todos os seus constrangimentos e especificidades, que assegurem as necessidades quer de residentes, quer de turistas que optem por deslocações mais amigas do ambiente. Será utópico reivindicar que um turista aterre no aeroporto Sá Carneiro e em 3 horas de viagem em transporte público intermodal, chegue a Alvarenga, via vila de Arouca? Será demais pedir que haja transporte público independentemente do calendário escolar?

Os horários das carreiras devem também ser ajustados às necessidades, para motivar o uso do transporte público em detrimento da utilização de veículos próprios e individuais. As cidades estão a limitar o tráfego e a circulação de veículos ligeiros de passageiros e a apostar em redes eficientes de transportes públicos, de forma a devolver os espaços públicos e as ruas e avenidas aos peões. Arouca deverá seguir estas boas práticas e lutar por infraestruturas estruturantes para garantir a fluidez, rapidez e segurança da rede viária (se possível com vários centros urbanos com que delimita fronteiras (não apenas com o litoral), necessária à boa circulação de bens e mercadorias e, concomitantemente, pugnar e investir no transporte público, indispensável à fixação da população nas freguesias mais distantes, como é o caso de Alvarenga, que também tem uma zona industrial para “avivar” e que tem vindo a perder serviços públicos como os CTT, obrigando a deslocações frequentes à vila de Arouca que, na ausência de transporte próprio, tem de ser feitas com recurso a táxi.

De resto, apesar destes constrangimentos que não sendo novos restringem o transporte público ao transporte escolar, ao tempo letivo e a 5 dias por semana, em várias freguesias, Arouca tem investido em formas e modos de mobilidade suave, de que é exemplo a “Ciclovia” que, estou certa, trará à população do vale de Arouca e do vale do Arda uma nova forma de deslocação, mais sustentável, amiga do ambiente, agradável, saudável, em harmonia com a paisagem ribeirinha, por este modo, acessível à fruição. Falta agora garantir uma rede de transportes públicos eficiente e com serviços mínimos assegurados, durante todo ano, em todas as freguesias do concelho, através de empresas privadas (se o serviço for rentável), ou através de serviços de transporte municipais, relembrando que a autarquia já teve 2 autocarros, dois motoristas e que mais que assegurar passeios e visitas de estudo (igualmente necessários e pertinentes), não serão prioritários relativamente ao direito de circulação da população local. Por que não garantir um ou dois dias por semana, pelo menos, de transporte público municipal gratuito, das freguesias à sede de concelho, através da criação de circuitos, como se tem feito nos últimos anos, na Feira das Colheitas? Fica a sugestão...

14 de maio de 2020

A professora Helena d´Alhavaite

Acabei de ler um livro sobre Frei Simão de Vasconcelos e a sua história na guerrilha liberal em Arouca na primeira metade do século  XIX , escrito pelo arouquense Afonso Veiga. Um livro que aconselho leitura.
A páginas tantas  por entre árvores genealógicas de descendentes dos intervenientes nesta contenda entre absolutistas e liberais encontrei o nome da minha professora da escola primária. A professora Maria Helena "d'Alhavaite", como era e é conhecida.
Ao longo do nosso percurso estudantil há professores que nos vão marcando mais que outros e a professora Helena será porventura uma das que com mais saudade recordo. Fiz todos os meus quatro anos do ensino básico na Escola Primária da Boavista, em Santa Eulália. A professora Helena era uma professora à " moda antiga". Lembro-me de dizerem lá pela escola que teria sido uma das primeiras mulheres de Arouca a ter carta de condução. Ainda há mais ou menos uma década a via por aí, já com avançada idade, a conduzir o seu Renault 19 chamade. Era uma professora à moda antiga também na relação de afectividade com que tratava os seus alunos. Teremos sido uma das últimas "classes" a quem terá dado aulas antes de se reformar da longa e profícua actividade lectiva e felizmente tivemos o prazer de a ter como professora . Era à moda antiga também na forma de castigar e repreender os alunos quando estes não se portavam de acordo com o esperado ou expectado e antes que qualquer "réguada ou canada ou puxão de orelhas" passasse pelo crivo e critica apertadissimo e "no sense" do bullying e violência dos dias de hoje. Aprendi muito com ela e penso que terá sido responsável pelos pilares básicos do aluno medianamente bem sucedido que fui no futuro. Recordo os ditados em que só poderíamos dar até 6 erros ortográficos sob pena de ficarmos sem intervalo, recordo  as tabuadas cantadas no quadro, o apagador e o pó de giz branco, etc... recordo também aquelas as férias grandes de Verão entre o 3º e o 4 º ano em que uma tragédia se abateu sobre a totalidade  da família Alves que regressava de umas férias no Algarve. O João era meu colega de carteira e familiar da professora Helena . Recordo esse inicio de ano lectivo estranho, o da professora talvez mais, pela consciência trágica do sucedido o meu amenizado pela inocência da infância.
A professora Helena era casada com um médico veterinário, o Dr. Albino "d' Alhavaite". Penso que quando nos deu aulas já o seu marido havia falecido e não estando certo desta precisão de datas estou porém muito certo da paixão com que nos contava por vezes algumas histórias médico veterinárias do seu marido por terras de Arouca. Eu nunca o cheguei a conhecer.
Há uns 7 anos, já médico veterinário e a exercer profissionalmente, fui chamado para prestar assistência a uma ovelha à quinta da Alhavaite por pedido da professora Helena.
Foi possivelmente das consultas mais prazerosas e satisfatórias que fiz até hoje; consultei o animal, fui convidado pela minha professora primária para um lanche na sua casa da quinta onde trocamos memórias e onde partilhei o meu percurso académico. Histórias e estórias da actividade médico veterinária , a minha, mas principalmente as que escutei da boca da minha professora primária acerca do seu marido Dr. Albino bem como do seu riquíssimo percurso de vida.
Este texto poderia ser certamente mais preciso, detalhado e concreto em algumas informações, mas pretendi que tivesse um pendor mais emocional que racional que, como se escreveria nos tempos em que a professora Helena começou a leccionar, fosse escrito de uma penada só.
Obrigado professora

8 de maio de 2020

Levadas de Arouca - por que não?

Como é do conhecimento geral, todo o mundo está a reavaliar e a readaptar o seu "modus vivendi" face aos constrangimentos provocados pela pandemia da COVID-19, pois repentinamente a sociedade viu-se obrigada a ficar de quarentena e em distanciamento social.
Desde meados de março que estou, à semelhança da maioria dos portugueses, confinada a minha casa, não por iniciativa própria, mas por necessidade de acompanhamento do meu filho que frequenta o ensino pré-escolar, estando a usufruir do apoio excecional à família pela Segurança Social.
Esta semana em que o governo "levantou" o Estado de Emergência, propus-me planear algumas saídas/passeios sanitários com o meu filho, em segurança e longe de outras pessoas, para retomarmos a atividade física, sairmos de casa e para ele conhecer e aprender a gostar da sua terra, Arouca, que tantos lugares mágicos tem para oferecer!
Como é óbvio, dada a minha naturalidade, ontem comecei por uma caminhada a dois, no fim de tarde, em Alvarenga, pelo lendário "Rego do Boi", desde a capela do Espirito Santo até à mãe d'água, entre os lugares de Bustelo e de Noninha, com regresso até à Carreira dos Moinhos.
Toda a levada é extremamente bonita e permite conhecer o rio Ardena, afluente do rio Paiva, que nasce em Noninha, na vertente sul da serra do Montemuro, e desagua no rio Paiva.
A levada ou "Rego do Boi" pode ser um percurso de rentabilização cultural, etnográfica, ambiental, turística e desportiva, destinada a pequenos grupos, preferencialmente para famílias ou grupos turma/escolas. Esta, em particular deu para falar da serra do Montemuro, da delimitação geográfica e administrativa entre concelhos (Arouca/Cinfães), da importância da água para a agricultura, da literatura de tradição popular (a lenda do rego do boi), da forma como todo o rego foi construído, dos materiais utilizados, do caudal que é aproveitado para regar os campos do vale/planalto de Alvarenga e para fazer mover as inúmeras mós de moinhos de rodízio (podendo observar o conjunto atual de 17 moinhos em carreira, no lugar dos Carreiros), e as antigas azenhas, das quais hoje restam ruínas.
Esta levada é talvez a mais emblemática e a de maior relevância para o turismo de Arouca, se considerarmos que nasce na serra do Montemuro, alimenta a "Carreira dos Moinhos", é totalmente construída com pedra da região, atravessa todo o vale de Alvarenga até culminar na Cascata das Agueiras, aos pés da Ponte Pedonal Suspensa, desaguando no rio Paiva.
Na sua extensão, desde a nascente até à Cascata das Aguieiras teremos, provavelmente, entre 10 a 13 kms de extensão, de beleza natural, paisagística, de enorme potencial para rentabilização turística, adequada aos dias em que vivemos, com ou sem guia.
Além desta levada associada à molinologia, outras há de grande interesse. Existem em Canelas/Espiunca, Moldes, Rossas e Mansores.
Uma forma de afirmar a nossa terra, a nossa cultura e o nosso património no panorama do turismo cultural e de natureza, durante todo o ano, mas também de garantir e promover o acesso aos residentes que muitas das vezes não conhecem nem fruem do que têm à mão.
Se a Madeira é conhecida pelas suas levadas, e se Arouca também as tem, por que não as rentabilizar, promover, e tornar acessível a todos, com apoio de associações locais e das juntas de freguesia?
O nosso património deve ser fator de orgulho e aumentar o nosso sentido de pertença, mas de nada vale o património se não o conhecemos, não o preservamos e não o valorizamos internamente.
Quanto aos futuros passeios sanitários, estes vão continuar, talvez por outras freguesias vizinhas e talvez forneçam matéria para mais um ou outro artigo :-)

Margarida Rocha