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20 de setembro de 2020

Relato do prof. Fernando Miranda sobre as verdadeiras origens e objectivos da Feira das Colheitas

Este ano, por razões óbvias, não pode mesmo ocorrer aquele que é, indiscutivelmente, o evento mais relevante de Arouca e dos Arouquenses: a Feira das Colheitas...Este evento (que, no ano de 1944, não surgiu de qualquer política central do Estado Português) foi idealizado, fundado, organizado e promovido durante décadas, por António de Almeida Brandão (n.1893-m.1986), a partir do Grémio da Lavoura de Arouca, do qual foi um dos seus fundadores, tendo sido, mais tarde, o fundador e presidente da Cooperativa. 
António de Almeida Brandão, nessa altura, era gerente do Grémio da Lavoura de Arouca (o único cargo que teve remunerado), tendo sido, cerca de dois anos mais tarde, eleito presidente do Grémio...Ao tempo, em 1944, também presidia à Câmara Municipal de Arouca...
Ninguém melhor que o prof. Fernando Miranda (um arouquense ilustre que viveu e acompanhou a Feira das Colheitas desde o seu início) para descrever as verdadeiras origens e objectivos da Feira das Colheitas, bem como o perfil do seu fundador, organizador e promotor:

"(...) Estávamos a caminho do fim da II Guerra Mundial. A lavoura agonizava. Os pardieiros proliferavam. O medo e a inépcia confundiam-se num sentimento de abandono, senão de verdadeiro desespero. Cultivar as terras para quê? Esta a grande e permanente interrogação que pairava no ar e invadia a alma dos que, tendo labutado de sol a sol, durante toda uma vida de sacrificio, de suor e de lágrimas, fazendo, da charrua e da enxada, do albião e da picareta, os inseparáveis instrumentos com que desbravavam e rompiam uma terra cada vez mais madrasta, se viam, agora, entregues a si próprios, sem esperança nem futuro. Foi neste quadro que nasceu a Feira das Colheitas, em Arouca. 
 Era, à altura, gerente do Grémio da Lavoura, o senhor António de Almeida Brandão. 
 Homem conhecedor dos problemas agrícolas, defensor devoto da preservação da natureza, um verdadeiro ecologista, quando ainda nisto se não se falava (!), pessoa de poucas falas e de muito trabalho, dotado de uma invulgar inteligência e senhor de uma vasta cultura, ele escondia todas estas qualidades por detrás de um rosto austero que lhe não suscitava simpatias, como atrás se diz, mas gerava confiança e respeito. Dele dizia meu pai, o mais insuspeito de todos: «é inteligente, é sério, é culto, é trabalhador e devotado às coisas e às causas de Arouca e isso me basta...»
 Volvido mais de meio século sobre a realização da primeira Feira das Colheitas e colocando-nos no tempo em que isso aconteceu, só, de facto, um grande homem, de hercúlea força de vontade, de um estoicismo a toda a prova, de uma extraordinária visão, foi capaz de arriscar, de meter ombros a tão ingente quão delicada tarefa.
 Ingente porque foi indispensável que ele calcorreasse o concelho de lés a lés, fazendo reuniões prévias em cada freguesia e aí instalando comissões encarregadas de proceder ao peditório tendente à angariação de fundos para obviar às despesas da festa e organizar um grupo folclórico que levaria, à Vila, as danças e cantares locais. Delicada, porque a mensagem era dirigida a um auditório desiludido, amorfo, abandonado, envelhecido.
Mas as comissões eram constituídas por pessoas a que, agora, se chamam "líderes de opinião" e esse facto constituía, desde logo, um forte contributo para o sucesso da tarefa. E nem este pormenor escapou a Almeida Brandão. A sua voz, de ansiedade feita, o seu verdadeiro grito de alerta, de revolta incontida, o seu veemente apelo, chegavam, aos lavradores, através da palavra autorizada dos chamados "homens bons" de cada freguesia. Só, assim, poderia encontrar eco o esforço exigido no melhoramento do trato das terras e dos gados e o consequente aumento da produção agrícola e leiteira: a "Melhor Seara", a "Melhor Fruta", a "Melhor Adega", o "Melhor Linho", bem como o "Concurso da Raça Bovina Arouquesa". Só, deste modo, as promessas de prémios, às melhores searas e aos melhores gados, se revestiam de credibilidade.
 É que, D. Dinis, ficava séculos para trás e, da Lei das Sesmarias (D. Fernando -1375), nem uma vírgula restava...
 Arouca, terra essencialmente agrícola, fechada a contactos com o exterior, rica em tradições e cujo povo prima em ser bairrista, não deixou de responder à chamada, em toda a sua extensão e latitude. E, então, deu-se aquilo que refuto não só de salutar e maravilhosa congregação de esforços, mas também do maior e mais profundo acontecimento cultural da história de Arouca. 
 Do fundo das arcas, saltaram maravilhosos bordados e outras relíquias artesanais, que deslumbraram aborígenes e forasteiros, mas também lindos trajes que ali permaneciam à espera de amortalharem as suas ciosas donas. Da memória lúcida da última geração possuidora de tais relíquias, brotaram, em catadupa, música e canções, verdadeiros tratados etnomusicais e as danças, duma beleza coreográfica ímpar. As noites de Setembro daquele ano já longínquo, tornaram-se uma continuada festa. Jovens e velhos e mesmo as crianças aderiram de corpo e alma à novidade. Eram os ensaios dos Ranchos. Era a pedrada no charco. Era o reviver dos velhos tempos. Eram as cantas, as danças, os cantares ao desafio. Tudo isto num assomo de comunitarismo e de alegria que contrastava, flagrantemente, com o estado da Nação, mas traduzia, por um lado, o desabafo do sofrimento, por outro, a esperança na agonia duma guerra e o vislumbrar de dias melhores.
 Foi, de facto, lindo de se ver. Mas lindo foi também o corolário de todo este trabalho, de toda esta azáfama - A FEIRA DAS COLHEITAS. E se, como digo atrás, as noites do mês de Setembro foram de festa em cada uma das freguesias, naquele último fim-de-semana, para a Vila, convergiram, em massa, os Ranchos e as suas gentes, transformando a sede do Concelho num verdadeiro mar de povo, estreitecendo a Avenida e apertando a Praça, em desfiles coloridos de esfusiante alegria, cada um tentando apresentar-se melhor que o outro, sem artifícios que a pureza e a autenticidade não consentiam, mas com o garbo e o aprumo que os grandes momentos exigem.
 Foi um desfile de cor e alegria, de caras bonitas e de lindas vozes, de verdadeiros artistas da harmónica, da viola, do cavaquinho, ferrinhos e bombo, que outros não eram os instrumentos usados em Arouca, se exceptuarmos a concertina que se foi alojando no lugar da harmónica e a flauta que nunca passou de divertimento individual.
 Foi assim que nasceu a Feira das Colheitas e, com ela, a possibilidade de não deixarmos perder-se, no tempo, um património valiosíssimo da nossa história. Mas foi assim, também, que nasceram os agrupamentos folclóricos, alguns dos quais ainda hoje se mantêm, em toda a sua pujança, como baluartes intransigentemente fiéis das tradições mais profundas do Povo de Arouca, ao nível das danças e cantares, dos trajes e tocatas, em síntese, do folclore, da música popular e da etnografia arouquense.

E porque falar da Feira das Colheitas é falar de Arouca, de um bom naco da sua história e de um dos seus maiores e mais luzentes marcos culturais, eu evoco, aqui, a memória do seu criador, prestando-lhe a minha simples, singela, mas profundamente sentida homenagem. Homenagem ao homem que, um dia, foi capaz de um rasgo de génio, de um verdadeiro golpe de asa, de um assomo de inteligente assunção do sentir de um povo e de transmutá-lo, fazendo-o despertar da profunda letargia em que estava mergulhado. (...)"

Extracto da comunicação do prof. Fernando Miranda, na apresentação do livro de António de Almeida Brandão, Memórias de um Arouquense, a 19 de Junho de 1999, na vila de Arouca.
Agradeço, ao Dr. Óscar de Pinho Brandão, pela cedência do texto integral do prof. Miranda.

8 de setembro de 2020

A Euro-região de Arouca: 'Galiza-Norte de Portugal'

A Euro-região de Arouca é 'Galiza-Norte de Portugal'. E ainda bem que o é. E só podia mesmo sê-lo. Arouca insere-se e enquadra-se, em termos identitários, autóctones e endógenos, na Euro-região 'Galiza-Norte de Portugal', à qual pertence com todo o acerto, que são, na verdade e na realidade, uma nação una e identitária. Os Galegos falam Português e os Nortenhos falam Português, com as devidas cambiantes entre o Português do Norte de Portugal e o Português da Galiza, em termos fonéticos, sintácticos, semânticos, morfológicos, etc. A Língua Portuguesa (que deriva do Galego-Português arcaico, que, por sua vez, deriva da fusão dinâmica e evolutiva do Hebraico edénico e antigo e do Hebraico com o Latim) nasceu neste nosso território endógeno do noroeste da Ibéria, sendo, no presente, uma língua global: o Português é a quarta língua mais falada no Mundo.

Mas a coesão dessa origem identitária, mesmo antes do Português existir, é das mais antigas, senão a mais antiga, da História da Humanidade (não exagero) e tem de ser melhor dinamizada e consolidada, no concerto dinâmico das euro-regiões, à escala continental e à escala planetária. No actual contexto da União Europeia, entre o Norte de Portugal e a Galiza, já não existem fronteiras físicas, mas as fronteiras físicas que existiram no passado, na realidade, eram apenas muito arbitrárias e muito artificiais, porque, entre o Norte de Portugal e a Galiza, o território sempre foi contínuo e coeso em termos endógenos e autóctones: porque são, repito, talvez o mais antigo ou um dos mais antigos territórios identitários da História da Humanidade.
Este território identitário, localizado no muito antigo e milenar Noroeste da Península Ibérica, no presente tem uma superfície total de 51 mil Km2 (Galiza 29.575 e Norte de Portugal 21.284) e tem cerca de 6,4 milhões de habitantes (Galiza 2.796.089 e Norte de Portugal 3.745.439), com uma densidade populacional de 125,8 hab/Km2. O Norte de Portugal tem muito, muito mais que ver com a Galiza do que com o Centro e o Sul de Portugal. E a Galiza tem muito, muito mais que ver com o Norte de Portugal do que com Castela e Leão ou do que com todas as outras comunidades autónomas de Espanha.
As declarações do actual Presidente da Câmara do Porto, numa entrevista concedida ao jornal Voz de Galicia, de que "se sente melhor em Sanxenxo do que no Algarve" e que "El AVE de Oporto es Vigo, y a la vez el aeropuerto de Vigo tiene que ser Oporto", são muitíssimo verdadeiras e fazem todo o sentido e simbolizam e sintetizam, de modo lúcido e subtil, todos esses factos acima descritos. Rui Moreira é, com toda a certeza, um dos líderes que melhor personifica a identidade do Porto e da Região Norte de Portugal. Esperemos que ele e o seu movimento se candidatem a mais um mandato às eleições autárquicas do Porto, que vencerão, de certeza, com A Protecção Divina de HaShem, Bendito Seja O Seu Nome Sagrado, com uma maioria absoluta, clara, inequívoca e consolidada. Isso seria bom para todos os habitantes do Porto e de toda a Região Norte de Portugal. E, terminado esse terceiro mandato, Rui Moreira seria o melhor substituto de Jorge Nuno Pinto da Costa, no cargo da presidência do Futebol Clube do Porto, que é outra personalidade carismática de relevo e outra voz identitária do Porto e do Norte que, como se sabe, entrou, no F.C. do Porto, pela mão do presidente do clube da altura: o arouquense Afonso Pinto de Magalhães, fundador da Sonae, amigo de António de Almeida Brandão, meu saudoso avô. Foi Afonso Pinto de Magalhães quem, estruturalmente, financiou o lançamento e a IIª Série do jornal «Defesa de Arouca» e quem convidou meu avô para ser seu director, que, por sua vez, foi a personalidade real e pragmática que configurou a idiossincrasia identitária deste jornal, no contexto de Arouca, do Porto e da Região Norte: semanário bastante prestigiado, tal como sempre foi reconhecido ao longo das décadas, a partir do qual se alicerça este blogue «Defesa de Arouca».      

3 de outubro de 2019

À CÂMARA MUNICIPAL DE AROUCA E À COOPERATIVA AGRÍCOLA DE AROUCA

 Remeto, através deste blogue, à Câmara Municipal de Arouca e à Cooperativa Agrícola de Arouca, um reparo, bastante pertinente, de Ivo Brandão sobre uma gravíssima lacuna que se verificou no 75º Aniversário da Feira das Colheitas:

" A Feira das Colheitas foi inventada pelo meu bisavô, António de Almeida Brandão, no contexto da II Guerra Mundial e do lastro de dificuldades que um conflito de dimensão mundial desencadeou. Este ano, a Feira fez 75 anos, e pudemos ver que acabou por ganhar uma dimensão completamente diferente da que presidiu à sua criação. Cresceu, mudou, distanciou-se um pouco da agricultura, e, queiramos admitir ou não, passou a olhar para o sector primário como uma criança olha para um aquário ou uma jaula de jardim zoológico. A agricultura, hoje, já não é a principal actividade do concelho, nem tão pouco a base da sua subsistência. Mas, enquanto marca identitária, permanece. Umas vezes melhor, outras pior lembrada. Ainda assim, e apesar de, este ano, não ter sido particular ‘festeiro’, não pude deixar de notar que, quando passam 75 anos da fundação da maior festa do concelho, toda a gente se esqueceu de quem a criou. "

 Solicito, à Câmara Municipal de Arouca e à Cooperativa Agrícola de Arouca, que tenham a amabilidade de ler os seguintes dois textos, também deste blogue, para que, por favor, reflictam, racionalmente e com sentido institucional, sobre o assunto, para que, na próxima edição da Feira das Colheitas, rectifiquem a grande irresponsabilidade de, nos 75 anos da Feira das Colheitas, não terem recordado nem homenageado quem, na realidade e na verdade, fundou, configurou, organizou e promoveu esse grande evento concelhio de impacto nacional: António de Almeida Brandão. 
 É muito estranho, estranhíssimo mesmo, não terem evocado quem fundou e configurou a Feira das Colheitas!!!!!! Resta saber porque razão concreta essa situação lamentável continua a acontecer, por parte da Câmara Municipal de Arouca e da Cooperativa Agrícola de Arouca!!!....Parece que fazem isso de modo intencional!...Parece que fazem isso de propósito!...
 Neste 75º Aniversário, também seria pertinente, por razões óbvias, evocar Elísio de Azevedo...

5 de setembro de 2019

Cartaz do 75º Aniversário da Feira das Colheitas


Cartaz: Câmara Municipal de Arouca
"A Feira da das Colheitas é uma organização imediata do Grémio da Lavoura, mas, na realidade, um empreendimento de um só homem - o senhor António de Almeida Brandão. E, como realização de um só homem, sujeita a percalços e a contingências, que se torna necessário acautelar para que se não venha a perder esta admirável realidade que é a Feira das Colheitas. O dinâmico e aparentemente sorumbático empreiteiro da Feira tem sido e é, sem ofensa ou menosprezo para quem quer que seja que tenha estado à frente ou colaborado na obra ou finalidade do Grémio da Lavoura, pela continuidade de presença neste organismo, o homem indicado para estar à sua frente, pois muito a tem prestigiado. Senhor António de Almeida Brandão: Vemos o perigo, sempre iminente, da sua ausência ou desaparecimento. O Grémio é um organismo electivo, isto é: pode ou não conservar ou afastar os seus dirigentes e demitir os seus funcionários. E como homem, o senhor António de Almeida Brandão, está sujeito às contingências (longe vá o agouro...) da doença e da morte. E é ocasião de perguntar: Que sucederia se alguns destes fenómenos surgissem? Quem estaria aí, como testamenteiro, para continuar a obra do senhor António de Almeida Brandão? Quererá ele, como arouquense, que se perca ou esqueça uma obra que é sua? Ao próprio dinâmico e calado obreiro deixo a resposta a esta pergunta no que ela contém de perigo e precaução.(...)", ao considerar previamente que "A Feira das Colheitas deixou já de ser um acidente na vida do concelho, porque se tornou no acontecimento, na «realidade» da nossa terra. O que ontem foi ou teria sido uma tentativa ou uma experiência transformou-se já numa tradição radicada, que não pode perder-se nem abastardar-se, mas antes manter-se viva e engrandecida. É hoje, sem dúvida, a maior festa - porque de festa, afinal, se trata - a mais querida e ansiada de toda a gente: - para os lavradores, como obra sua e revelação das suas possibilidades e do seu esforço; para o comércio, a única oportunidade grande para o seu negócio; para a gente moça, ocasião de mostrar as suas graças no palco da Praça e para os forasteiros motivo de atracção ou curiosidade ou, como hoje se diria, de cartaz de uma terra antiga e cheia de tradições. " (em jornal «Defesa de Arouca», nº274, Ano 6 - IIªSérie, 8/10/1960)

29 de agosto de 2019

No 75º Aniversário da Feira das Colheitas, recordar e homenagear o seu fundador: António de Almeida Brandão

 Aproxima-se o 75º aniversário daquele que é, inquestionavelmente, o maior e o mais importante evento do concelho de Arouca: a Feira das Colheitas. São as 'bodas de diamante' de um elemento estrutural e estruturante da identidade de Arouca e dos Arouquenses e que os Arouquenses sentem «como seu», como «fazendo parte, de modo natural, da sua identidade». A Feira das Colheitas (que é, como sempre foi, uma montra da identidade autóctone e endógena de Arouca e dos Arouquenses) é um evento com impacto nacional e também é recordada e vivenciada pelos Arouquenses e seus descendentes espalhados pelo Mundo, em particular no Brasil e em França. É um elemento constituinte de Arouca que, provavelmente, quase a totalidade dos Arouquenses sabe que existe e que ocorre, todos os anos, no mês de Setembro. 
 Idealizada e fundada pelo ilustre arouquense António de Almeida Brandão (n.Casa de Telarda, Rôssas, Arouca, 1893 - m.Casa de Eidim, Rôssas, Arouca, 1986) a partir do Grémio da Lavoura de Arouca (do qual foi um dos elementos fundadores e do qual era, nessa altura, seu gerente, cargo para o qual foi eleito, à semelhança daquilo que também aconteceu quando ocupou, durante vários anos, a presidência da Direcção do Grémio da Lavoura de Arouca), a primeira edição da Feira das Colheitas realizou-se no ano de 1944, há 75 anos atrás, num contexto de grave crise económica que se fazia sentir em Arouca, em Portugal e na Europa, devido às consequências perniciosas do deflagrar da Segunda Guerra Mundial. António de Almeida Brandão também foi o fundador da Cooperativa Agrícola dos Produtores de Lacticínios de Arouca, seu primeiro presidente eleito e, por inerência desse cargo, presidente da Mútua do Seguro do Gado. Depois de vários anos como presidente da Direcção da Cooperativa Agrícola dos Produtores de Lacticínios de Arouca, o prof. Telmo Pato seria o seu sucessor, eleito durante mais de quatro décadas. A evolução e a fusão dessas instituições arouquenses, presididas e dirigidas por António de Almeida Brandão, originaram a moderna Cooperativa Agrícola de Arouca que, de algumas centenas de associados, na década de sessenta do século XX, passou a ter, com o decorrer do tempo, os milhares de associados que tem na contemporaneidade.
 O objectivo da acção do Grémio da Lavoura de Arouca, protagonizada por António de Almeida Brandão, era, para contrariar a grave crise económica que se verificava em Arouca, aumentar, significativamente, a produção agrícola, em particular a produção de cereais. Para isso, para estimular o aumento da produção agrícola, foram realizados concursos, entre os lavradores e agricultores de Arouca, das melhores searas, da melhor fruta, da melhor adega e do melhor linho, integrando também o concurso de raça bovina arouquesa que já existia no concelho e que permaneceu, ao longo das décadas, na Feira das Colheitas, sendo, no presente, um concurso de âmbito nacional e não apenas concelhio.
 Esse objectivo estrutural da Feira das Colheitas foi concretizado com grande sucesso em Arouca, num concelho que, de deficitário na produção de cereais, passou, passado poucos anos, a ser exportador de cereais, em particular exportador de milho. De modo concomitante, a Feira das Colheitas começou a realizar, anualmente, a Exposição Agrícola e do Artesanato de Arouca, onde ficaram célebres as belíssimas exposições de fruta, bem como as belíssimas exposições de ouro e de peças de linho das casas tradicionais de Arouca, sendo também, como é bem conhecido e identificado, o grande evento pioneiro, responsável, em Arouca, pela recuperação das danças e dos cantares tradicionais, bem como do trajo tradicional de Arouca, onde se constituíram e de onde se formaram os ranchos folclóricos de Arouca, dos quais se destacam o extinto Rancho do Merujal e o Rancho de Moldes, mais tarde renomeado de Conjunto Etnográfico de Moldes de Danças e Corais Arouquenses, etc.

António de Almeida Brandão ladeado, entre outros, pelo Doutor Domingos de Pinho Brandão e pelo prof. Joaquim Brandão de Almeida. Fotografia dos fins da década de sessenta ou dos inícios da década de setenta do século XX.
Foto: Jornal «Defesa de Arouca»

 Foram esses alguns dos elementos estruturais de um evento que foi idealizado, fundado, organizado, promovido e fomentado pela grande capacidade trabalho de António de Almeida Brandão (agraciado por várias instituições e pela Presidência da República Portuguesa com a Ordem do Mérito) e que foi uma personalidade de muito prestígio em Arouca, que dirigiu e presidiu, durante o século XX, com abnegação e sem ser remunerado, a várias instituições fundamentais do município de Arouca, algumas das quais fundou (na altura da fundação da Feira das Colheitas, também era presidente da Câmara Municipal de Arouca...).
 Foi a iniciativa estrutural de António de Almeida 
Brandão, a partir do Grémio da Lavoura, que configurou a Feira das Colheitas como grande evento concelhio de impacto nacional (num acto individual que não surgiu, portanto, de uma política emanada do Poder Central do Estado Português) e que foi a primeira Feira desse tipo que surgiu no País, anterior à Feira do Ribatejo, hoje Feira Nacional da Agricultura, cujo aparecimento se verificou em 1953, ou seja, nove anos mais tarde. O fundador e promotor da Feira das Colheitas, que era um entusiasta do desenvolvimento e da aplicação das Ciências e das Técnicas, pretendeu, claramente, fomentar o impacto de Modernidade na estrutura tradicional de Arouca, cuja actividade económica se centrava na Agricultura, entendendo também a Feira como uma montra anual e festiva dos elementos identitários, autóctones e endógenos, do território de Arouca e dos Arouquenses. 
 Como é óbvio, as actividades económicas, em Arouca, já não estão centradas apenas na Agricultura (que continua a ter muitíssimas potencialidades em Arouca, infelizmente sub-aproveitadas...), mas a intencionalidade originária e o evento originário da Feira das Colheitas nunca foram tão actuais como no presente e, por essa razão, mantêm-se e actualizam-se, todos os anos, com prestígio e muito sucesso. 
 Fazendo uma muito breve retrospectiva histórica...: fundada por António de Almeida Brandão e em termos institucionais organizada pelo Grémio da Lavoura, a Feira das Colheitas, depois, passou a ser organizada, com um curto período de interregno no início da década de setenta, pela Cooperativa Agrícola de Arouca e, depois, passou a ser organizada, e bem, pela Câmara Municipal de Arouca, porque a Feira das Colheitas, na actualidade, funciona mesmo como as 'Festas Oficiais do Concelho de Arouca', com a colaboração de outras instituições de Arouca e da Região Norte, das quais uma das mais relevantes, como é óbvio, continua a ser a Cooperativa Agrícola de Arouca. 
 E a Feira das Colheitas deve sempre continuar a ser as 'Festas Oficiais do Concelho de Arouca'. Pela sua singularidade identitária e pela sua intencionalidade precoce de Modernidade, aplicada aos elementos autóctones do território concelhio, a Feira das Colheitas, sabem-no bem todos os Arouquenses, é uma Feira e uma Festa de Arouca e de todos Arouquenses para todo o País e para todo o Mundo e, portanto, neste seu 75º aniversário, como é óbvio, será um acto de grande justiça a Cooperativa Agrícola de Arouca e a Câmara Municipal de Arouca recordarem e homenagearem o seu fundador: António de Almeida Brandão, porque, como bem elucidou o etnógrafo arouquense Albano Ferreira: 

" A Feira da das Colheitas é uma organização imediata do Grémio da Lavoura, mas, na realidade, um empreendimento de um só homem - o senhor António de Almeida Brandão. E, como realização de um só homem, sujeita a percalços e a contingências, que se torna necessário acautelar para que se não venha a perder esta admirável realidade que é a Feira das Colheitas. O dinâmico e aparentemente sorumbático empreiteiro da Feira tem sido e é, sem ofensa ou menosprezo para quem quer que seja que tenha estado à frente ou colaborado na obra ou finalidade do Grémio da Lavoura, pela continuidade de presença neste organismo, o homem indicado para estar à sua frente, pois muito a tem prestigiado. Senhor António de Almeida Brandão: Vemos o perigo, sempre iminente, da sua ausência ou desaparecimento. O Grémio é um organismo electivo, isto é: pode ou não conservar ou afastar os seus dirigentes e demitir os seus funcionários. E como homem, o senhor António de Almeida Brandão, está sujeito às contingências (longe vá o agouro...) da doença e da morte. E é ocasião de perguntar: Que sucederia se alguns destes fenómenos surgissem? Quem estaria aí, como testamenteiro, para continuar a obra do senhor António de Almeida Brandão? Quererá ele, como arouquense, que se perca ou esqueça uma obra que é sua? Ao próprio dinâmico e calado obreiro deixo a resposta a esta pergunta no que ela contém de perigo e precaução.(...)", ao considerar previamente que "A Feira das Colheitas deixou já de ser um acidente na vida do concelho, porque se tornou no acontecimento, na «realidade» da nossa terra. O que ontem foi ou teria sido uma tentativa ou uma experiência transformou-se já numa tradição radicada, que não pode perder-se nem abastardar-se, mas antes manter-se viva e engrandecida. É hoje, sem dúvida, a maior festa - porque de festa, afinal, se trata - a mais querida e ansiada de toda a gente: - para os lavradores, como obra sua e revelação das suas possibilidades e do seu esforço; para o comércio, a única oportunidade grande para o seu negócio; para a gente moça, ocasião de mostrar as suas graças no palco da Praça e para os forasteiros motivo de atracção ou curiosidade ou, como hoje se diria, de cartaz de uma terra antiga e cheia de tradições. " (em jornal «Defesa de Arouca», nº274, Ano 6 - IIªSérie, 8/10/1960)


15 de junho de 2019

As danças tradicionais de Arouca - Douro Litoral


As milenares danças tradicionais de Arouca (as genuínas, "as verdadeiras") são muito belas. Inserem-se, em termos identitários, na província tradicional do Douro Litoral, que tem, como cidade principal e como cidade central, a cidade do Porto e que é uma espécie de 'suavização identitária' do Minho. O Douro Litoral e o Minho formam o Entre-Douro-e-Minho, que é o território onde nasceu e de onde se formou, em termos estruturais, Portugal e o antigo Império Português e onde se encontra o 'core' identitário de Portugal e dos Portugueses. 
O Conjunto Etnográfico de Moldes de Danças e Corais Arouquenses é, indiscutivelmente, o melhor, o mais genuíno e o mais fidedigno representante das belas e milenares danças tradicionais de Arouca, que são um elemento autóctone de Arouca muito antigo que devia ser melhor dinamizado e promovido, no contexto dinâmico de vários tipos de eventos do 'Arouca Geopark', apurando e praticando, cada vez melhor, a sua autenticidade endógena e autóctone.
Numa altura em que se está prestes a comemorar o 75º aniversário da Feira das Colheitas (fundada por António de Almeida Brandão, bem como organizada e promovida, durante bastantes anos, pela sua iniciativa estrutural, tendo sido quem lhe configurou a sua identidade de grande evento concelhio com impacto nacional), convém, portanto, recordar que foi, nesse evento maior de Arouca e dos Arouquenses, que, no ano de 1944 da era comum, há 75 anos atrás, surgiram os primeiros grupos organizados de danças tradicionais de Arouca. Uma das formas adequadas das instituições de Arouca e dos Arouquenses comemorarem esta tão importante efeméride que se aproxima, será, portanto, revitalizar esse sentido originário e puro, autóctone e endógeno, das milenares e belas danças tradicionais de Arouca, divulgando-as e promovendo-as melhor. Para isso, as «verdadeiras e genuínas danças tradicionais de Arouca» deveriam ter um apoio mais consistente e regular das instituições, ligadas à cultura, do município de Arouca, da Área Metropolitana do Porto e da Região Norte, bem como das instituições, ligadas à cultura, do Governo central de Portugal.

2 de janeiro de 2019

O senhor António de Almeida Brandão: o «pai» da Feira das Colheitas

 No texto anterior, falei um pouco da Feira das Colheitas que, este ano, vai comemorar o 75º aniversário, referindo que seria bom, para Arouca, se a nutricionista Ana Bravo decidisse expor a sua interessante linha de produtos saudáveis nesse grande evento de Arouca que tem impacto nacional. A Feira das Colheitas é considerada, unanimemente, como o principal evento do concelho de Arouca, porque o é, de facto. É um facto, é uma verdade, é uma evidência. Na contemporaneidade, funciona mesmo como as «Festas Oficiais do Concelho de Arouca», embora a sua origem não seja essa. 
 Contudo, não se sabe bem porque razão concreta, olvida-se, em termos institucionais, com alguma frequência, a identidade do seu fundador, impulsionador e promotor estrutural, que foi António de Almeida Brandão (na altura da sua fundação, era gerente do Grémio da Lavoura de Arouca e presidente da Câmara Municipal de Arouca), ao ponto de uma das actuais forças políticas do concelho ter emitido um comunicado, na imprensa arouquense, sobre essa grave lacuna institucional em relação a este ilustre arouquense, agraciado por várias instituições e pela Presidência da República Portuguesa com a Ordem de Mérito.
A Feira das Colheitas: evento fundado por António de Almeida Brandão (1893-1986)

 Ninguém melhor que Albano Ferreira, precisamente nas páginas do jornal «Defesa de Arouca» (nº274, Ano 6 - IIªSérie, 8/10/1960), com as suas palavras isentas e credíveis de insigne etnógrafo arouquense, para descrever quem, de facto, fundou, organizou e promoveu a Feira das Colheitas:

" A Feira das Colheitas deixou já de ser um acidente na vida do concelho, porque se tornou no acontecimento, na «realidade» da nossa terra. O que ontem foi ou teria sido uma tentativa ou uma experiência transformou-se já numa tradição radicada, que não pode perder-se nem abastardar-se, mas antes manter-se viva e engrandecida. É hoje, sem dúvida, a maior festa - porque de festa, afinal, se trata - a mais querida e ansiada de toda a gente: - para os lavradores, como obra sua e revelação das suas possibilidades e do seu esforço; para o comércio, a única oportunidade grande para o seu negócio; para a gente moça, ocasião de mostrar as suas graças no palco da Praça e para os forasteiros motivo de atracção ou curiosidade ou, como hoje se diria, de cartaz de uma terra antiga e cheia de tradições. A Feira da das Colheitas é uma organização imediata do Grémio da Lavoura, mas, na realidade, um empreendimento de um só homem - o senhor António de Almeida Brandão. E, como realização de um só homem, sujeita a percalços e a contingências, que se torna necessário acautelar para que se não venha a perder esta admirável realidade que é a Feira das Colheitas. O dinâmico e aparentemente sorumbático empreiteiro da Feira tem sido e é, sem ofensa ou menosprezo para quem quer que seja que tenha estado à frente ou colaborado na obra ou finalidade do Grémio da Lavoura, pela continuidade de presença neste organismo, o homem indicado para estar à sua frente, pois muito a tem prestigiado. "

  Este esquecimento do «pai» da Feira das Colheitas, que se verifica, na actualidade, com alguma frequência, em Arouca, por parte de algumas instituições que ele fundou ou presidiu e que o deviam, como é óbvio, sempre recordar e nomear, é também, directa e indirectamente, uma consequência do tipo de personalidade de liderança, muito eficaz mas muitíssimo discreta e abnegada, sem desejos de protagonismo, de meu saudoso avô, que muito amava Arouca e que concretizava com êxito, de modo discreto, muitos eventos, para bem de Arouca e dos Arouquenses, com um sentido responsável de missão de homem público ao serviço de Arouca e dos Arouquenses, sempre de modo muito discreto.
  Meu saudoso avô, senhor António de Almeida Brandão, com quem muito convivi e quem muito admiro, também foi, entre outros inúmeros cargos que desempenhou, o primeiro director da IIª Série do jornal «Defesa de Arouca» (a partir do qual se alicerça este blogue), surgido com o impulso económico de uma sociedade comercial encabeçada pelo seu amigo o banqueiro Afonso Pinto de Magalhães, fundador da Sonae e filho do Dr. Ângelo Miranda, também seu amigo, ilustre médico transmontano, radicado em Arouca, originário de Vila Real, que é também a localidade de uma parte da origem familiar da nutricionista Ana Bravo, onde se localiza a sua cozinha 'Nutrição com Coração', que, pelas razões referidas no meu texto anterior, seria mesmo bom se ela se interessasse pela gastronomia de Arouca.