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20 de setembro de 2020

Relato do prof. Fernando Miranda sobre as verdadeiras origens e objectivos da Feira das Colheitas

Este ano, por razões óbvias, não pode mesmo ocorrer aquele que é, indiscutivelmente, o evento mais relevante de Arouca e dos Arouquenses: a Feira das Colheitas...Este evento (que, no ano de 1944, não surgiu de qualquer política central do Estado Português) foi idealizado, fundado, organizado e promovido durante décadas, por António de Almeida Brandão (n.1893-m.1986), a partir do Grémio da Lavoura de Arouca, do qual foi um dos seus fundadores, tendo sido, mais tarde, o fundador e presidente da Cooperativa. 
António de Almeida Brandão, nessa altura, era gerente do Grémio da Lavoura de Arouca (o único cargo que teve remunerado), tendo sido, cerca de dois anos mais tarde, eleito presidente do Grémio...Ao tempo, em 1944, também presidia à Câmara Municipal de Arouca...
Ninguém melhor que o prof. Fernando Miranda (um arouquense ilustre que viveu e acompanhou a Feira das Colheitas desde o seu início) para descrever as verdadeiras origens e objectivos da Feira das Colheitas, bem como o perfil do seu fundador, organizador e promotor:

"(...) Estávamos a caminho do fim da II Guerra Mundial. A lavoura agonizava. Os pardieiros proliferavam. O medo e a inépcia confundiam-se num sentimento de abandono, senão de verdadeiro desespero. Cultivar as terras para quê? Esta a grande e permanente interrogação que pairava no ar e invadia a alma dos que, tendo labutado de sol a sol, durante toda uma vida de sacrificio, de suor e de lágrimas, fazendo, da charrua e da enxada, do albião e da picareta, os inseparáveis instrumentos com que desbravavam e rompiam uma terra cada vez mais madrasta, se viam, agora, entregues a si próprios, sem esperança nem futuro. Foi neste quadro que nasceu a Feira das Colheitas, em Arouca. 
 Era, à altura, gerente do Grémio da Lavoura, o senhor António de Almeida Brandão. 
 Homem conhecedor dos problemas agrícolas, defensor devoto da preservação da natureza, um verdadeiro ecologista, quando ainda nisto se não se falava (!), pessoa de poucas falas e de muito trabalho, dotado de uma invulgar inteligência e senhor de uma vasta cultura, ele escondia todas estas qualidades por detrás de um rosto austero que lhe não suscitava simpatias, como atrás se diz, mas gerava confiança e respeito. Dele dizia meu pai, o mais insuspeito de todos: «é inteligente, é sério, é culto, é trabalhador e devotado às coisas e às causas de Arouca e isso me basta...»
 Volvido mais de meio século sobre a realização da primeira Feira das Colheitas e colocando-nos no tempo em que isso aconteceu, só, de facto, um grande homem, de hercúlea força de vontade, de um estoicismo a toda a prova, de uma extraordinária visão, foi capaz de arriscar, de meter ombros a tão ingente quão delicada tarefa.
 Ingente porque foi indispensável que ele calcorreasse o concelho de lés a lés, fazendo reuniões prévias em cada freguesia e aí instalando comissões encarregadas de proceder ao peditório tendente à angariação de fundos para obviar às despesas da festa e organizar um grupo folclórico que levaria, à Vila, as danças e cantares locais. Delicada, porque a mensagem era dirigida a um auditório desiludido, amorfo, abandonado, envelhecido.
Mas as comissões eram constituídas por pessoas a que, agora, se chamam "líderes de opinião" e esse facto constituía, desde logo, um forte contributo para o sucesso da tarefa. E nem este pormenor escapou a Almeida Brandão. A sua voz, de ansiedade feita, o seu verdadeiro grito de alerta, de revolta incontida, o seu veemente apelo, chegavam, aos lavradores, através da palavra autorizada dos chamados "homens bons" de cada freguesia. Só, assim, poderia encontrar eco o esforço exigido no melhoramento do trato das terras e dos gados e o consequente aumento da produção agrícola e leiteira: a "Melhor Seara", a "Melhor Fruta", a "Melhor Adega", o "Melhor Linho", bem como o "Concurso da Raça Bovina Arouquesa". Só, deste modo, as promessas de prémios, às melhores searas e aos melhores gados, se revestiam de credibilidade.
 É que, D. Dinis, ficava séculos para trás e, da Lei das Sesmarias (D. Fernando -1375), nem uma vírgula restava...
 Arouca, terra essencialmente agrícola, fechada a contactos com o exterior, rica em tradições e cujo povo prima em ser bairrista, não deixou de responder à chamada, em toda a sua extensão e latitude. E, então, deu-se aquilo que refuto não só de salutar e maravilhosa congregação de esforços, mas também do maior e mais profundo acontecimento cultural da história de Arouca. 
 Do fundo das arcas, saltaram maravilhosos bordados e outras relíquias artesanais, que deslumbraram aborígenes e forasteiros, mas também lindos trajes que ali permaneciam à espera de amortalharem as suas ciosas donas. Da memória lúcida da última geração possuidora de tais relíquias, brotaram, em catadupa, música e canções, verdadeiros tratados etnomusicais e as danças, duma beleza coreográfica ímpar. As noites de Setembro daquele ano já longínquo, tornaram-se uma continuada festa. Jovens e velhos e mesmo as crianças aderiram de corpo e alma à novidade. Eram os ensaios dos Ranchos. Era a pedrada no charco. Era o reviver dos velhos tempos. Eram as cantas, as danças, os cantares ao desafio. Tudo isto num assomo de comunitarismo e de alegria que contrastava, flagrantemente, com o estado da Nação, mas traduzia, por um lado, o desabafo do sofrimento, por outro, a esperança na agonia duma guerra e o vislumbrar de dias melhores.
 Foi, de facto, lindo de se ver. Mas lindo foi também o corolário de todo este trabalho, de toda esta azáfama - A FEIRA DAS COLHEITAS. E se, como digo atrás, as noites do mês de Setembro foram de festa em cada uma das freguesias, naquele último fim-de-semana, para a Vila, convergiram, em massa, os Ranchos e as suas gentes, transformando a sede do Concelho num verdadeiro mar de povo, estreitecendo a Avenida e apertando a Praça, em desfiles coloridos de esfusiante alegria, cada um tentando apresentar-se melhor que o outro, sem artifícios que a pureza e a autenticidade não consentiam, mas com o garbo e o aprumo que os grandes momentos exigem.
 Foi um desfile de cor e alegria, de caras bonitas e de lindas vozes, de verdadeiros artistas da harmónica, da viola, do cavaquinho, ferrinhos e bombo, que outros não eram os instrumentos usados em Arouca, se exceptuarmos a concertina que se foi alojando no lugar da harmónica e a flauta que nunca passou de divertimento individual.
 Foi assim que nasceu a Feira das Colheitas e, com ela, a possibilidade de não deixarmos perder-se, no tempo, um património valiosíssimo da nossa história. Mas foi assim, também, que nasceram os agrupamentos folclóricos, alguns dos quais ainda hoje se mantêm, em toda a sua pujança, como baluartes intransigentemente fiéis das tradições mais profundas do Povo de Arouca, ao nível das danças e cantares, dos trajes e tocatas, em síntese, do folclore, da música popular e da etnografia arouquense.

E porque falar da Feira das Colheitas é falar de Arouca, de um bom naco da sua história e de um dos seus maiores e mais luzentes marcos culturais, eu evoco, aqui, a memória do seu criador, prestando-lhe a minha simples, singela, mas profundamente sentida homenagem. Homenagem ao homem que, um dia, foi capaz de um rasgo de génio, de um verdadeiro golpe de asa, de um assomo de inteligente assunção do sentir de um povo e de transmutá-lo, fazendo-o despertar da profunda letargia em que estava mergulhado. (...)"

Extracto da comunicação do prof. Fernando Miranda, na apresentação do livro de António de Almeida Brandão, Memórias de um Arouquense, a 19 de Junho de 1999, na vila de Arouca.
Agradeço, ao Dr. Óscar de Pinho Brandão, pela cedência do texto integral do prof. Miranda.

29 de agosto de 2019

No 75º Aniversário da Feira das Colheitas, recordar e homenagear o seu fundador: António de Almeida Brandão

 Aproxima-se o 75º aniversário daquele que é, inquestionavelmente, o maior e o mais importante evento do concelho de Arouca: a Feira das Colheitas. São as 'bodas de diamante' de um elemento estrutural e estruturante da identidade de Arouca e dos Arouquenses e que os Arouquenses sentem «como seu», como «fazendo parte, de modo natural, da sua identidade». A Feira das Colheitas (que é, como sempre foi, uma montra da identidade autóctone e endógena de Arouca e dos Arouquenses) é um evento com impacto nacional e também é recordada e vivenciada pelos Arouquenses e seus descendentes espalhados pelo Mundo, em particular no Brasil e em França. É um elemento constituinte de Arouca que, provavelmente, quase a totalidade dos Arouquenses sabe que existe e que ocorre, todos os anos, no mês de Setembro. 
 Idealizada e fundada pelo ilustre arouquense António de Almeida Brandão (n.Casa de Telarda, Rôssas, Arouca, 1893 - m.Casa de Eidim, Rôssas, Arouca, 1986) a partir do Grémio da Lavoura de Arouca (do qual foi um dos elementos fundadores e do qual era, nessa altura, seu gerente, cargo para o qual foi eleito, à semelhança daquilo que também aconteceu quando ocupou, durante vários anos, a presidência da Direcção do Grémio da Lavoura de Arouca), a primeira edição da Feira das Colheitas realizou-se no ano de 1944, há 75 anos atrás, num contexto de grave crise económica que se fazia sentir em Arouca, em Portugal e na Europa, devido às consequências perniciosas do deflagrar da Segunda Guerra Mundial. António de Almeida Brandão também foi o fundador da Cooperativa Agrícola dos Produtores de Lacticínios de Arouca, seu primeiro presidente eleito e, por inerência desse cargo, presidente da Mútua do Seguro do Gado. Depois de vários anos como presidente da Direcção da Cooperativa Agrícola dos Produtores de Lacticínios de Arouca, o prof. Telmo Pato seria o seu sucessor, eleito durante mais de quatro décadas. A evolução e a fusão dessas instituições arouquenses, presididas e dirigidas por António de Almeida Brandão, originaram a moderna Cooperativa Agrícola de Arouca que, de algumas centenas de associados, na década de sessenta do século XX, passou a ter, com o decorrer do tempo, os milhares de associados que tem na contemporaneidade.
 O objectivo da acção do Grémio da Lavoura de Arouca, protagonizada por António de Almeida Brandão, era, para contrariar a grave crise económica que se verificava em Arouca, aumentar, significativamente, a produção agrícola, em particular a produção de cereais. Para isso, para estimular o aumento da produção agrícola, foram realizados concursos, entre os lavradores e agricultores de Arouca, das melhores searas, da melhor fruta, da melhor adega e do melhor linho, integrando também o concurso de raça bovina arouquesa que já existia no concelho e que permaneceu, ao longo das décadas, na Feira das Colheitas, sendo, no presente, um concurso de âmbito nacional e não apenas concelhio.
 Esse objectivo estrutural da Feira das Colheitas foi concretizado com grande sucesso em Arouca, num concelho que, de deficitário na produção de cereais, passou, passado poucos anos, a ser exportador de cereais, em particular exportador de milho. De modo concomitante, a Feira das Colheitas começou a realizar, anualmente, a Exposição Agrícola e do Artesanato de Arouca, onde ficaram célebres as belíssimas exposições de fruta, bem como as belíssimas exposições de ouro e de peças de linho das casas tradicionais de Arouca, sendo também, como é bem conhecido e identificado, o grande evento pioneiro, responsável, em Arouca, pela recuperação das danças e dos cantares tradicionais, bem como do trajo tradicional de Arouca, onde se constituíram e de onde se formaram os ranchos folclóricos de Arouca, dos quais se destacam o extinto Rancho do Merujal e o Rancho de Moldes, mais tarde renomeado de Conjunto Etnográfico de Moldes de Danças e Corais Arouquenses, etc.

António de Almeida Brandão ladeado, entre outros, pelo Doutor Domingos de Pinho Brandão e pelo prof. Joaquim Brandão de Almeida. Fotografia dos fins da década de sessenta ou dos inícios da década de setenta do século XX.
Foto: Jornal «Defesa de Arouca»

 Foram esses alguns dos elementos estruturais de um evento que foi idealizado, fundado, organizado, promovido e fomentado pela grande capacidade trabalho de António de Almeida Brandão (agraciado por várias instituições e pela Presidência da República Portuguesa com a Ordem do Mérito) e que foi uma personalidade de muito prestígio em Arouca, que dirigiu e presidiu, durante o século XX, com abnegação e sem ser remunerado, a várias instituições fundamentais do município de Arouca, algumas das quais fundou (na altura da fundação da Feira das Colheitas, também era presidente da Câmara Municipal de Arouca...).
 Foi a iniciativa estrutural de António de Almeida 
Brandão, a partir do Grémio da Lavoura, que configurou a Feira das Colheitas como grande evento concelhio de impacto nacional (num acto individual que não surgiu, portanto, de uma política emanada do Poder Central do Estado Português) e que foi a primeira Feira desse tipo que surgiu no País, anterior à Feira do Ribatejo, hoje Feira Nacional da Agricultura, cujo aparecimento se verificou em 1953, ou seja, nove anos mais tarde. O fundador e promotor da Feira das Colheitas, que era um entusiasta do desenvolvimento e da aplicação das Ciências e das Técnicas, pretendeu, claramente, fomentar o impacto de Modernidade na estrutura tradicional de Arouca, cuja actividade económica se centrava na Agricultura, entendendo também a Feira como uma montra anual e festiva dos elementos identitários, autóctones e endógenos, do território de Arouca e dos Arouquenses. 
 Como é óbvio, as actividades económicas, em Arouca, já não estão centradas apenas na Agricultura (que continua a ter muitíssimas potencialidades em Arouca, infelizmente sub-aproveitadas...), mas a intencionalidade originária e o evento originário da Feira das Colheitas nunca foram tão actuais como no presente e, por essa razão, mantêm-se e actualizam-se, todos os anos, com prestígio e muito sucesso. 
 Fazendo uma muito breve retrospectiva histórica...: fundada por António de Almeida Brandão e em termos institucionais organizada pelo Grémio da Lavoura, a Feira das Colheitas, depois, passou a ser organizada, com um curto período de interregno no início da década de setenta, pela Cooperativa Agrícola de Arouca e, depois, passou a ser organizada, e bem, pela Câmara Municipal de Arouca, porque a Feira das Colheitas, na actualidade, funciona mesmo como as 'Festas Oficiais do Concelho de Arouca', com a colaboração de outras instituições de Arouca e da Região Norte, das quais uma das mais relevantes, como é óbvio, continua a ser a Cooperativa Agrícola de Arouca. 
 E a Feira das Colheitas deve sempre continuar a ser as 'Festas Oficiais do Concelho de Arouca'. Pela sua singularidade identitária e pela sua intencionalidade precoce de Modernidade, aplicada aos elementos autóctones do território concelhio, a Feira das Colheitas, sabem-no bem todos os Arouquenses, é uma Feira e uma Festa de Arouca e de todos Arouquenses para todo o País e para todo o Mundo e, portanto, neste seu 75º aniversário, como é óbvio, será um acto de grande justiça a Cooperativa Agrícola de Arouca e a Câmara Municipal de Arouca recordarem e homenagearem o seu fundador: António de Almeida Brandão, porque, como bem elucidou o etnógrafo arouquense Albano Ferreira: 

" A Feira da das Colheitas é uma organização imediata do Grémio da Lavoura, mas, na realidade, um empreendimento de um só homem - o senhor António de Almeida Brandão. E, como realização de um só homem, sujeita a percalços e a contingências, que se torna necessário acautelar para que se não venha a perder esta admirável realidade que é a Feira das Colheitas. O dinâmico e aparentemente sorumbático empreiteiro da Feira tem sido e é, sem ofensa ou menosprezo para quem quer que seja que tenha estado à frente ou colaborado na obra ou finalidade do Grémio da Lavoura, pela continuidade de presença neste organismo, o homem indicado para estar à sua frente, pois muito a tem prestigiado. Senhor António de Almeida Brandão: Vemos o perigo, sempre iminente, da sua ausência ou desaparecimento. O Grémio é um organismo electivo, isto é: pode ou não conservar ou afastar os seus dirigentes e demitir os seus funcionários. E como homem, o senhor António de Almeida Brandão, está sujeito às contingências (longe vá o agouro...) da doença e da morte. E é ocasião de perguntar: Que sucederia se alguns destes fenómenos surgissem? Quem estaria aí, como testamenteiro, para continuar a obra do senhor António de Almeida Brandão? Quererá ele, como arouquense, que se perca ou esqueça uma obra que é sua? Ao próprio dinâmico e calado obreiro deixo a resposta a esta pergunta no que ela contém de perigo e precaução.(...)", ao considerar previamente que "A Feira das Colheitas deixou já de ser um acidente na vida do concelho, porque se tornou no acontecimento, na «realidade» da nossa terra. O que ontem foi ou teria sido uma tentativa ou uma experiência transformou-se já numa tradição radicada, que não pode perder-se nem abastardar-se, mas antes manter-se viva e engrandecida. É hoje, sem dúvida, a maior festa - porque de festa, afinal, se trata - a mais querida e ansiada de toda a gente: - para os lavradores, como obra sua e revelação das suas possibilidades e do seu esforço; para o comércio, a única oportunidade grande para o seu negócio; para a gente moça, ocasião de mostrar as suas graças no palco da Praça e para os forasteiros motivo de atracção ou curiosidade ou, como hoje se diria, de cartaz de uma terra antiga e cheia de tradições. " (em jornal «Defesa de Arouca», nº274, Ano 6 - IIªSérie, 8/10/1960)


23 de agosto de 2019

«Onde mora o Folclore?»: um texto do etnógrafo arouquense Albano Ferreira a conhecer

Para além da sua colaboração assídua no jornal «Defesa de Arouca», o insigne etnógrafo arouquense Albano Ferreira é autor de vários outros textos etnográficos e etnológicos sobre Arouca publicados em revistas da especialidade.
Um deles, bastante relevante, é o texto «Onde mora o folclore?», que surge de um pequeno ensaio que Albano Ferreira apresentou, na década de 60 do século XX (era comum), ao Colóquio Portuense de Arqueologia, onde defendeu vários factos óbvios, mas inovadores para a maioria dos estudos daquela altura sobre o assunto: 
-que as danças tradicionais de Arouca têm uma origem milenar, muito remota, na dita 'civilização castreja' do noroeste da Península Ibérica; -que as danças tradicionais de Arouca se enquadram, se inserem e pertencem ao território identitário e endógeno do Douro Litoral, protagonizado pela cidade do Porto: -que os corais polifónicos femininos de Arouca são endógenos e autóctones e, portanto, têm, de igual modo, como é óbvio, origem nessa civilização muita remota dos castros e das citânias e não derivam, de modo algum, da música da Igreja Católica ou dos conventos, visto que têm uma estrutura sonora e musical muitíssimo distinta da música da Igreja Católica e são, portanto, muitíssimo mais antigos, em milénios.
Vale a pena ler e conhecer bem esse texto do etnógrafo arouquense Albano Ferreira, aqui:


dançadeiras do Conjunto Etnográfico de Moldes com o belíssimo traje feminino tradicional de Arouca - Douro Litoral
 Feira das Colheitas (fins da década de 60 do século XX)
fotografia do etnógrafo arouquense Albano Ferreira

A década de 60 do século XX (era comum) é a década dos «anos de ouro» do Conjunto Etnográfico de Moldes de Danças e Corais Arouquenses e o timbre e o som das modas deste grupo arouquense têm, claramente, a marca da lucidez etnográfica e etnológica de Albano Ferreira. Vale a pena ouvir estas duas modas, de grande autenticidade, desses «anos de ouro» do Conjunto Etnográfico de Moldes:
Tirana

Cana Real das Canas

3 de fevereiro de 2019

Quem foi Virgílio Pereira, o etnomusicólogo que organizou o Cancioneiro de Arouca e fez a sua recolha?...

 Uma das riquezas patrimoniais de Arouca é a sua música tradicional, onde se destacam os seus corais femininos tradicionais, que são milenares, muitíssimo anteriores à música da Igreja e que, como bem sublinhava o etnógrafo arouquense Albano Ferreira, não derivam da música da Igreja nem do Convento de Arouca. Na realidade, estes belos corais femininos polifónicos, a duas vozes ou a três vozes, paralelas ou sobrepostas, típicos do 'Espaço Cultural do Mundo Mediterrânico', têm milénios e são endógenos, autóctones, possuindo uma tonalidade muitíssimo peculiar que não se enquadra na canonicidade das escalas musicais comuns do Ocidente.
 Arouca tem um acervo significativo de cerca de 531 espécies musicais desses corais tradicionais antiquíssimos, que foram recolhidos e estudados pelo etnomusicólogo Virgílio Pereira e publicados no célebre Cancioneiro de Arouca, editado, em 1959, pela Junta de Província do Douro Litoral - Comissão Provincial de Etnografia e História, sediada no Porto, com Notas Monográficas Introdutórias do Dr. Simões Júnior. A Associação de Defesa do Património Arouquense reeditou o Cancioneiro de Arouca no ano de 1990.
 Este texto de Alda Neto (apesar de ter uma lacuna grave, visto que, por paradoxo, não menciona o Cancioneiro de Arouca, que é, para Virgílio Pereira, o mais rico e significativo de todo o país) descreve, em termos gerais, o perfil biográfico deste etnomusicólogo, natural do concelho de Paredes, que passou uma parte considerável da sua vida no território arouquense, a recolher, a estudar e a transpor, para a pauta musical, os belíssimos corais femininos polifónicos milenares de Arouca:
"  Virgílio Pereira, etnomusicólogo, nasceu na freguesia de Vilela a 7 de Outubro de 1900. De seu nome completo Virgílio José Gaspar Pereira, era filho do prof. António Gaspar Pereira e de Francisca Romana Coelho Pereira. O seu pai tinha já uma tradição cultural na freguesia, tendo sido o fundador da mais antiga Associação de Paredes, e uma das mais prestigiadas – a Banda Musical de Vilela. Desde criança, Virgílio Pereira foi atraído pela música, até porque tinha um ambiente familiar favorável nesse campo. Frequentou o Conservatório do Porto e a extinta Academia Mozart.
O etnomusicólogo Virgílio Pereira (1900-1965)
 Com apenas 19 anos, já era professor do ensino primário e Director da Escola Anexa à Normal do Porto. É nessa altura que funda o Orfeão Infantil do Porto. Em 1924, regressou a Paredes, a sua terra-natal, desta vez para Lordelo, onde leccionou durante dez anos, fundou e dirigiu o “Orfeão Castro Araújo”, formado exclusivamente por trabalhadores rurais. Um Orfeão amador que, no entanto, obteve a Medalha de Ouro do 1º Concurso Orfeónico de Portugal, realizado no Porto em 1932. Neste mesmo ano, e até 1934, Virgílio Pereira continuou a “semear” a arte e a cultura pelos seus conterrâneos. Fundou um novo agrupamento musical, o “Orfeão Oliveira Martins”, formado por alunos da escola técnica do mesmo nome. No ano seguinte, formou e dirigiu o Coro Infantil do Porto, constituído por 1600 jovens das escolas oficiais da cidade.
 Entre 1941 e 1953, dirigiu o grupo coral “Pequenas cantoras de Portugal”, mais conhecido como “Pequenas Cantoras do Postigo do Sol”. Um grupo que realizou perto de 250 concertos, em Portugal e no estrangeiro, ao longo dos seus doze anos de existência e que atingiu a fama, pela qualidade demonstrada. Conquistou, mesmo, os favores dos mais exigentes críticos da especialidade. O Maestro italiano Ino Savini, quando esteve em Portugal, referiu: “Conheci grande número de coros polifónicos, mas nenhum assim de tanta coesão, de tanta homogeneidade, de tal volume de som, que brota surpreendentemente apenas de quinze meninas”. Fernando Lopes Graça considerou-o mesmo um artista, “um pedagogo de notável mérito, um exemplo de constância e dedicação”.
 A partir de 1951, e até 1958, Virgílio Pereira foi Director do Orfeão do Porto. Neste período, o grupo do Orfeão desempenhou a parte coral da Nona Sinfonia de Beethoven. Uma vida preenchida e integralmente dedicada à música. O nosso etnomusicólogo não parava e respondia com o máximo empenho a todas as solicitações. Nos últimos anos da sua carreira, teve a seu cargo o Conservatório, o Orfeão e o Coro Etnográfico da Covilhã, onde se deslocava semanalmente.
 Mas Virgílio Pereira não se limitou a transmitir os seus conhecimentos práticos aos mais novos. Fez também um importante trabalho de recolha e de investigação do Cancioneiro no interior do país. Publicou, no “Douro Litoral”, duas Colectâneas: os “Corais Geresianos” e os “Corais Mirandeses”. Quando morreu, tinha então 64 anos de idade, preparava a publicação de todo o conjunto de materiais que recolhera – encarregado pela Fundação Gulbenkian – na Beira Baixa, na Guarda e nos concelhos de Felgueiras e de Baião. Colaborara, pouco tempo antes, na constituição do volume “Cancioneiro de Santo Tirso”. Além de tudo isto, foi colaborador de “O Tripeiro”, do “Jornal de Notícias” e de algumas revistas periódicas. Foi membro correspondente da Federação Musical Francesa, sócio efectivo da Sociedade Portuguesa de Escritores, da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e da Sociedade de Autores e Compositores Teatrais Portugueses. A 1 de Junho de 1957, como reconhecimento pelo extraordinário trabalho que desenvolveu ao longo da sua carreira e pelo muito que deu à música portuguesa, foi agraciado com o Grau de Cavaleiro da Ordem da Instrução Pública. Um homem brilhante, um autêntico génio nascido e criado em Paredes.  "

28 de novembro de 2018

Quem foi Albano Ferreira?...

Na «Defesa de Arouca», desde a infância, muito convivi, de modo cordial, durante anos, com Arlindo Matos (cujo perfil biográfico está bem descrito, neste blogue, pelo seu filho António Matos) e com Alberto de Pinho Gonçalves, que faz a descrição biográfica (jornal «Discurso Directo»: 5-12-2014) do insigne etnógrafo arouquense Albano Ferreira, que foi um colaborador ilustre da «Defesa», cujas obras constituem alguns dos melhores e mais fidedignos textos que se escreveram sobre a identidade autóctone e endógena de Arouca e dos Arouquenses. Albano Ferreira viveu entre Arouca e o Porto e entre o Porto e Arouca.
Albano da Cunha Pinto Ferreira
« Vulgarmente conhecido como Albano Ferreira. Nasceu a 12 de Março de 1897, na Praça, Arouca. Filho de Ernesto Pinto Ferreira e Maria Carolina da Cunha Alegria. Neto paterno de José Ferreira de Oliveira, de Vila Nova, Burgo, e Maria Luísa da Conceição, do Rio de Janeiro, Brasil; e materno de João de Oliveira e Cunha, de Ovar, Chefe da Estação Telégrafo-Postal de Arouca, e Rita Ferreira Alegria, de Oliveira de Azeméis. O seu pai exerceu a profissão de escrivão-notário de Arouca.
Talvez a convivência paterna tenha influído na profissão que teve de escrivão judicial, em diversas comarcas do País, incluindo a de Arouca. Esta sua vivência com as populações, através da sua profissão, deu-lhe um conhecimento extraordinário de todos os aspectos etnográficos e antropológicos da população arouquense, que o apaixonaram toda a vida. Por tal motivo esteve durante muitos anos ligado ao folclore arouquense, e de um modo especial, ao Conjunto Etnográfico de Moldes, de que foi seu grande divulgador, nomeadamente nos anos 60, do século passado, conseguindo, através do seu grande amigo, o poeta Pedro Homem de Melo, ir várias vezes à RTP, mostrar o nosso folclore. Quem o quisesse ver zangado era falar mal do folclore e, de um modo especial, do Conjunto Etnográfico de Moldes.

A rua Albano Ferreira, numa zona central da Vila de Arouca
Ainda está na lembrança de muitos arouquenses, aquando da Feira das Colheitas, quando subia ao tablado o grupo de Moldes, para a sua actuação, ia também o «Albaninho» com a sua caixinha de cordões de ouro (pois ele tinha um grande espólio de peças de ouro antigas), e por sua mão os colocava ao peito das raparigas de Moldes, para a sua exibição. Pode dizer-se que era um «doente», no bom sentido, de tudo o que dizia respeito aos costumes e tradições das gentes de Arouca. Essa sua «doença» levou-o a escrever, durante muitos anos, na imprensa, principalmente no jornal “Defesa de Arouca”, belos artigos que mostram as vivências dos arouquenses, os seus usos e costumes, com uma prosa simples, objectiva e graciosa, que a todos deliciava. 

Não resisto a contar uma passagem que se passou na minha presença, há muitos anos. Trabalhava eu no dito jornal, onde ele colaborava, ainda sediado na rua Dr. Figueiredo Sobrinho (rua D´arca), num prédio hoje em ruínas. Naquela altura o jornal publicava uma secção denominada “Movimento Demográfico do Concelho”. Ora sobre os casamentos a notícia era dada mais ou menos nestes termos: fulano de tal, do lugar de tal, com fulana de tal, do lugar de tal, da freguesia de tal. Coincidiu que num casamento da freguesia de Canelas, em que há o lugar de Cima e o lugar de Baixo, saiu a notícia que dizia fulano de tal, de Cima, com fulana de tal, de Baixo. A perspicácia do «Albaninho» levou-o para a brejeirice. E então dirigiu-se ao jornal para adquirir um novo exemplar (talvez para guardar religiosamente...), e com grande satisfação, ria-se do caso. 

Não era pessoa religiosa; mas tinha em muitos padres os seus grandes amigos. De um modo geral tinha a simpatia de toda a gente, que o admirava e respeitava. Era um óptimo conversador. Mantinha um diálogo correcto e interessante com todos. Casou em 20 de Agosto de 1922, com Maria Helena Casimiro Leão Pimentel, natural da cidade do Porto, de quem teve dois filhos, o Alfredo e o Rui Pimentel Ferreira, creio que já ambos falecidos. Faleceu a 7 de Julho de 1978, na sua residência, na freguesia de Massarelos, Porto. A notícia do seu falecimento só chegou dias depois de ter acontecido, por sua expressa vontade. »(A.P.G.)

Para além das suas obras ainda não estarem compiladas e publicadas, convenientemente, em livro, a casa de Albano Ferreira do Porto, na rua de Vilar, em Massarelos, perto do Palácio de Cristal, encontra-se esquecida! Como é óbvio, em face destas duas situações lamentáveis, a Câmara Municipal de Arouca, bem como as instituições de Arouca, da Área Metropolitana do Porto e da Região Norte ligadas à cultura, deviam interessar-se, impreterivelmente, por elas, publicando as obras completas de Albano Ferreira e adquirindo a casa de Albano Ferreira do Porto, que poderia funcionar como uma Casa da Cultura Arouquense no Porto, com vários tipos de actividades, numa dinâmica vital e identitária que consolidasse, ainda mais, a forte ligação que Arouca e os Arouquenses sempre tiveram com o Porto e o Grande Porto. Na contemporaneidade, através da acção permanente de várias instituições, como a Área Metropolitana do Porto ou a CCDR-N, esse território identitário deve ser ainda mais solidificado e tem de estar sempre vivo, sadio, ético e dinâmico.


25 de novembro de 2018

Uma ‘Cana Verde’ sublime, que entoa Arouca e os Arouquenses: autêntica e telúrica!...


Esta ‘Cana Verde’, de um dos melhores períodos do Conjunto Etnográfico de Moldes de Danças e Corais Arouquenses (uma das instituições identitárias estruturais de Arouca), é sublime e comovente!...Penso que não há palavras para descrever a pureza e a autenticidade dos sons desta versão desse período, que entoa, de modo genuíno, Arouca e os Arouquenses...:
Na origem desta autenticidade autóctone de uma dança típica do Douro Litoral (que tinha, como capital, a cidade do Porto), está a obra de muita qualidade de um dos colaboradores ilustres do jornal «Defesa de Arouca»: o insigne etnógrafo arouquense Albano Ferreira, que legou, a Arouca, nas páginas da «Defesa», alguns dos melhores e mais fiéis textos que, alguma vez, se escreveram sobre Arouca e sobre os Arouquenses. Obra inigualável que era posta em prática, no Conjunto Etnográfico de Moldes, pela acção dirigente de outro arouquense ilustre e personalidade central e estruturante do grupo: Fernando Miranda. E, mais uma vez (nada melhor para comprovar esse facto, através destes dois arouquenses ilustres), se constata a forte ligação dos arouquenses e de Arouca à cidade do Porto, que continua a ser a capital identitária do Douro Litoral, que é o território autóctone da 'Cana Verde' e que é o espaço mais vasto onde a identidade de Arouca e dos Arouquenses melhor se enquadra.  

29 de setembro de 2018

Grupos Folclóricos e Etnográficos Arouquenses

Há 74 anos, «um dos números que mais foi apreciado e despertou a curiosidade do público que, em grande número, assistiu à festa que se realizou conjuntamente com a «Feira das Colheitas» foi, sem dúvida, a exibição dos ranchos regionais», como então noticiou a Defesa de Arouca.

Foi aí, sobre o improvisado estrado levantado na vila, que os, não menos improvisados, primeiros grupos folclóricos de Arouca deram os primeiros passos e nestes se inspiraram as formações que se lhe haveriam de juntar e suceder nas edições seguintes. Santa Eulália, Chave, Rossas, Moldes e Canelas foram as freguesias que organizaram os primeiros grupos. O mais genuíno e inspirador, no entanto, terá sido o grupo do Merujal, pequeno lugar da freguesia de Urrô, então isolado lá no alto da serra da Freita.

Hoje, pese embora já não com a vitalidade de há pelo menos trinta anos, quando a juventude núbil aí tinha uma das poucas oportunidades para os seus devaneios, encontros e divertimentos, de que a dança lúdica era a primeira e mais apropriada aproximação dos corpos, mas também ainda longe do fim há muito vaticinado, a tradição folclórica está ainda muito viva em todo o concelho de Arouca.

Elementos do Conjunto Etnográfico de Moldes, por Carlos Belém
Há 15 anos, quando elaborei o pequeno Catálogo de Folclore Arouquense, eram doze as formações existentes e estava a surgir o Rancho Folclórico Infantil e Juvenil de Mansores. Entretanto, são já casadoiros, mas persistentes, os rapazes e raparigas de Mansores que inauguram o palco desta edição da Feira das Colheitas, seguindo-se-lhe o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Santa Cruz de Alvarenga, o Rancho Folclórico de Provesende, o Rancho Folclórico “As Lavradeiras de Canelas”, o Rancho Folclórico “As Lavradeiras de Mosteirô”, o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Arouca, o Conjunto Etnográfico de Moldes de Danças e Cantares Arouquenses, o Rancho Folclórico Juvenil de Lourosa de Matos e o Grupo Etnográfico de Danças e Cantares de Fermêdo e Mato. Um total de nove Grupos, volvidas mais de sete décadas sobre a constituição das primeiras formações. Todos eles, muito mais que folclore, muito mais que meros Ranchos. Muita etnografia, muito traje e adorno, muita ruralidade, muita riqueza, muito de nós, dos nossos antepassados e da nossa terra.

Por isso, e em face das muitas e diferentes oportunidades, do leque de distracções, ocupações de ócio e labor, e alegadas faltas de tempo que caracterizam os nossos dias, esta realidade é digna de destaque e homenagem. Tanto mais quando, diz e desdiz bem do que há muito ficou escrito pelo autorizado etnomusicólogo Virgílio Pereira: «O cancioneiro de Arouca é o mais significativo do país. Vocês, arouquenses, não sabeis a riqueza folclórica que tendes nos cantos populares da vossa gente rural, espécies raras dos velhos «fabordões» e «gymeis»».

Pois, pelo menos estes Arouquenses, resilientes, dedicados e apaixonados, sabem! Bem hajam, por isso!