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23 de fevereiro de 2021

No território de Arouca, não se devem enfatizar as montanhas em detrimento dos vales...

Na sequência de ter visto um vídeo da Câmara Municipal que promove Arouca, senti, por uma questão de rigor científico e factual, que seria necessário referir que, no território de Arouca, nunca se devem enfatizar as montanhas em detrimento dos vales, porque isso não corresponderia à realidade do território arouquense.
Repito o óbvio, que é imediatamente observável e constatável: A Vila de Arouca, que tem cerca de 5 200 habitantes, sede de um concelho da Área Metropolitana do Porto e da Região Norte com cerca de 22 360 habitantes, localiza-se num vale de grande dimensão e não na Serra da Freita. A Vila de Arouca localiza-se no Vale do rio Arda, na Bacia e na Região Hidrográfica do rio Douro. As zonas de vale e de meia-encosta do concelho de Arouca são as mais populosas e não as zonas de serra, que são muito pouco populosas. Nesse sentido, a componente humana do concelho de Arouca que mais contribui para a definição identitária do concelho de Arouca como um todo, em termos estruturais, é, como sempre foi, forjada a partir da identidade das populações das zonas de vale e de meia-encosta do concelho e não das zonas de serra, que são exíguas em habitantes. A Vila de Arouca e o Vale do rio Arda, que se distende, depois, no espaço administrativo de várias freguesias arouquenses, para oeste e que se liga, em Rôssas, ao Vale do rio Urtigosa, são o território mais populoso que mais contribui, em termos de componente humana, para a definição identitária do concelho de Arouca como um todo.
gravura: Arouca Geopark

O território do município de Arouca apresenta as características típicas do Douro Litoral, em plena bacia hidrográfica do rio Douro, que tem, como capital, a cidade do Porto: é um tipo de território constituído por vales, planaltos e meias-encostas férteis, com uma parte montanhosa considerável, onde a agricultura e a silvicultura têm uma expressão significativa e complementar na economia local, que é parcialmente industrializada e terciarizada e em forte conexão sócio-económica com os concelhos vizinhos, mais industrializados, localizados a oeste e a noroeste. Território que tem, portanto, abundância de cursos de água que nascem nos cumes das montanhas e formam os vales típicos do Douro Litoral, como o vale do rio Arda, onde se localiza a sede do concelho, que se distende do sopé do monte cónico da Senhora da Mó até ao lugar da Pedra Má, na freguesia de Rossas, onde, por sua vez, se localiza um vale fértil, irrigado pelo rio Arda e pelo Rio Urtigosa. O vale de Moldes (Arouca) ou os planaltos de Alvarenga, de Chave (Arouca) e de Mansores também são exemplos desse território autóctone, típico da região do Douro Litoral. "

3 de outubro de 2019

À CÂMARA MUNICIPAL DE AROUCA E À COOPERATIVA AGRÍCOLA DE AROUCA

 Remeto, através deste blogue, à Câmara Municipal de Arouca e à Cooperativa Agrícola de Arouca, um reparo, bastante pertinente, de Ivo Brandão sobre uma gravíssima lacuna que se verificou no 75º Aniversário da Feira das Colheitas:

" A Feira das Colheitas foi inventada pelo meu bisavô, António de Almeida Brandão, no contexto da II Guerra Mundial e do lastro de dificuldades que um conflito de dimensão mundial desencadeou. Este ano, a Feira fez 75 anos, e pudemos ver que acabou por ganhar uma dimensão completamente diferente da que presidiu à sua criação. Cresceu, mudou, distanciou-se um pouco da agricultura, e, queiramos admitir ou não, passou a olhar para o sector primário como uma criança olha para um aquário ou uma jaula de jardim zoológico. A agricultura, hoje, já não é a principal actividade do concelho, nem tão pouco a base da sua subsistência. Mas, enquanto marca identitária, permanece. Umas vezes melhor, outras pior lembrada. Ainda assim, e apesar de, este ano, não ter sido particular ‘festeiro’, não pude deixar de notar que, quando passam 75 anos da fundação da maior festa do concelho, toda a gente se esqueceu de quem a criou. "

 Solicito, à Câmara Municipal de Arouca e à Cooperativa Agrícola de Arouca, que tenham a amabilidade de ler os seguintes dois textos, também deste blogue, para que, por favor, reflictam, racionalmente e com sentido institucional, sobre o assunto, para que, na próxima edição da Feira das Colheitas, rectifiquem a grande irresponsabilidade de, nos 75 anos da Feira das Colheitas, não terem recordado nem homenageado quem, na realidade e na verdade, fundou, configurou, organizou e promoveu esse grande evento concelhio de impacto nacional: António de Almeida Brandão. 
 É muito estranho, estranhíssimo mesmo, não terem evocado quem fundou e configurou a Feira das Colheitas!!!!!! Resta saber porque razão concreta essa situação lamentável continua a acontecer, por parte da Câmara Municipal de Arouca e da Cooperativa Agrícola de Arouca!!!....Parece que fazem isso de modo intencional!...Parece que fazem isso de propósito!...
 Neste 75º Aniversário, também seria pertinente, por razões óbvias, evocar Elísio de Azevedo...

14 de setembro de 2019

Sobre o novo 'site' oficial do Município de Arouca

 O Município de Arouca tem um novo 'site' oficial na internet, sobre o qual fiz uma primeira leitura muito geral. Em termos estéticos, o novo 'site' é agradável, mais completo e, claramente, melhor e mais moderno que o anterior, mas mantém (é certo, de modo não intencional e porque ainda é muito recente) algumas informações sobre o concelho de Arouca que não são precisas, que já estão obsoletas e que deveriam ser corrigidas.
 Numa primeira abordagem, faço alguns reparos, afim de contribuir para que se melhore e aperfeiçoe o novo 'site':
-Não se deveria referir a noção de que Arouca é um território de transição entre a Região Norte e a Região Centro, porque, na realidade, não o é. Todo o território de Arouca insere-se e enquadra-se, em termos identitários, na Região Norte. Na verdade, o território de transição entre a Região Norte e a Região Centro localiza-se a sul do concelho de Arouca, na zona de Lafões. É, no entanto, correcto afirmar-se que Arouca é um território de transição entre o Litoral e o Interior, ainda que Arouca se insira na área territorial do denominado 'Litoral', para o caso específico de Portugal.
-Não se deveria falar das influências germânica e muçulmana no território de Arouca, porque essas influências nunca existiram, desde que existem seres humanos em Arouca. Isso são teses obsoletas, míticas e «non-sense» de alguns historiadores obsoletos. Quem invadiu e ocupou o território português, a partir do sul, para além dos Romanos, foram os Berberes, do norte de África, que não eram Árabes nem Muçulmanos e que nunca ultrapassaram o centro de Portugal. A influência germânica é também nula: nunca existiu. O 'site' refere, com razão, que não se encontram muitos vestígios da romanização em Arouca, porque os Romanos nunca dominaram o noroeste peninsular. Os Romanos impuseram-se, de modo exógeno, apenas pela via administrativa e do Direito, sendo a Igreja Católica Romana, que é a substituição da estrutura do Império Romano, a sua instituição principal presente no território do noroeste peninsular. A civilização endógena e autóctone, estruturada durante milénios, de onde descendem os Arouquenses, como bem se apercebeu e descreveu o etnógrafo arouquense Albano Ferreira, é a civilização dos castros e das citânias, muito mais antiga, em milénios, que os Romanos e que os Romanos nunca conseguiram dominar, sendo a toponímia do território de Arouca toda ela (menos a urbana moderna, como é óbvio) derivada do hebraico antigo, que era falado por essa civilização milenar dos castros e das citânias, de onde descendem, na realidade, os Arouquenses.
Novo símbolo do 'site' oficial do Município de Arouca

-O novo 'site' tem informações que não estão actualizadas, como o número preciso e actualizado da população da freguesia da sede do concelho e o facto de referir que a NUTS III onde Arouca está integrada é o Entre-Douro-e-Vouga, quando, na realidade, essa NUTS III já não existe, porque foi extinta e substituída (e bem substituída) pela NUTS III da Área Metropolitana do Porto, que funciona também como área metropolitana.
-O novo 'site' tem a grave lacuna de, nos acessos ao concelho de Arouca, não descrever o acesso que é dos mais utilizados (senão mesmo o mais utilizado) na actualidade, pelos Arouquenses e pelas pessoas que entram e saem do concelho de Arouca, que é o acesso do denominado «Fundo do Concelho», pela A32 (Gião) e pela EN 326. Esse será, no futuro próximo, com a construção da segunda fase da Variante à EN 326, entre a Abelheira e a A32, o acesso mais utilizado e directo, para o «espaço territorial mais vasto de sempre» dos Arouquenses: o vizinho 'Grande Porto', onde moram e/ou trabalham milhares de Arouquenses e seus descendentes. Esse acesso deveria, como é óbvio, ser descrito e apresentado, neste novo 'site', como o principal acesso ao concelho de Arouca, porque, na realidade, é mesmo o principal, o mais directo e o mais rápido acesso a Arouca, a partir do Litoral. E, antes desse facto, é o trajecto principal, há séculos, da tendência de mobilidade dos Arouquenses para o Litoral, sobretudo para o 'Grande Porto'.  
-O 'site' deveria mencionar o facto de Arouca estar inserida no distrito de Aveiro apenas de modo muito breve, já que, para me repetir de novo, os Arouquenses, repito, estão, EM QUASE TUDO, ligados ao Porto/Grande Porto, mas não estão, EM QUASE NADA, ligados a Aveiro. É um facto. É uma verdade. É uma realidade. E não é só pelo facto de Arouca estar perto do Porto/Grande Porto que o concelho de Arouca não deveria estar integrado no distrito de Aveiro...Antes disso e como factor de muitíssima importância estrutural, estruturante e nuclear, repito de novo, é pelo facto dos elementos identitários, autóctones e endógenos (físicos, naturais, humanos e sociais) de Arouca se enquadrarem nos elementos identitários, autóctones e endógenos (físicos, naturais, humanos e sociais) e nas divisões territoriais protagonizadas pela cidade do Porto...
 Arouca, repito de novo, muito pouco ou quase nada tem que ver com Aveiro. Por essa razão, Arouca pertence à Região Norte, enquanto Aveiro pertence à Região Centro. Por essa razão, Arouca pertence à Área Metropolitana do Porto, enquanto que Aveiro pertence à Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro. Por essa razão, Arouca, em termos estruturais, localiza-se na Bacia e na Região Hidrográfica do Douro, enquanto que Aveiro localiza-se na Bacia e na Região Hidrográfica do Vouga. Por essa razão, Arouca pertenceu ao Douro Litoral, enquanto que Aveiro pertenceu à Beira Litoral. Por essa razão, no contexto das primeiras divisões territoriais da nação portuguesa, Arouca pertenceu ao Entre-Douro-e-Minho, enquanto que Aveiro pertenceu à Beira. Muito tempo antes de Arouca pertencer ao distrito de Aveiro, Arouca pertenceu, durante cerca de sete longos séculos, ao Entre-Douro-e-Minho, enquadrado na Região Norte, desde que Portugal é Portugal.
 Assim, repito de novo, os Arouquenses, os órgãos autárquicos de Arouca e os vários tipos de instituições de Arouca devem mobilizar, de modo permanente, um esforço pessoal e colectivo, consertado e unânime, para que Arouca, cada vez melhor, se integre, de modo dinâmico, participativo e consistente, nas divisões territoriais que, na realidade, protagonizam, no presente, a inserção institucional e o enquadramento identitário do concelho de Arouca: -a Área Metropolitana do Porto (NUTS III e área metropolitana) e a Região Norte (NUTS II e região), protagonizadas pela cidade do Porto. E, de modo concomitante, "esquecer", de vez, Aveiro, com o qual Arouca e os Arouquenses muito pouco ou quase nada têm que ver.

 Numa primeira abordagem, faço estes reparos para que se melhore e aperfeiçoe o novo 'site', com informações mais precisas e actualizadas, ainda que seja um 'site', claramente, muito melhor daquele que o precedeu...

5 de setembro de 2019

Cartaz do 75º Aniversário da Feira das Colheitas


Cartaz: Câmara Municipal de Arouca
"A Feira da das Colheitas é uma organização imediata do Grémio da Lavoura, mas, na realidade, um empreendimento de um só homem - o senhor António de Almeida Brandão. E, como realização de um só homem, sujeita a percalços e a contingências, que se torna necessário acautelar para que se não venha a perder esta admirável realidade que é a Feira das Colheitas. O dinâmico e aparentemente sorumbático empreiteiro da Feira tem sido e é, sem ofensa ou menosprezo para quem quer que seja que tenha estado à frente ou colaborado na obra ou finalidade do Grémio da Lavoura, pela continuidade de presença neste organismo, o homem indicado para estar à sua frente, pois muito a tem prestigiado. Senhor António de Almeida Brandão: Vemos o perigo, sempre iminente, da sua ausência ou desaparecimento. O Grémio é um organismo electivo, isto é: pode ou não conservar ou afastar os seus dirigentes e demitir os seus funcionários. E como homem, o senhor António de Almeida Brandão, está sujeito às contingências (longe vá o agouro...) da doença e da morte. E é ocasião de perguntar: Que sucederia se alguns destes fenómenos surgissem? Quem estaria aí, como testamenteiro, para continuar a obra do senhor António de Almeida Brandão? Quererá ele, como arouquense, que se perca ou esqueça uma obra que é sua? Ao próprio dinâmico e calado obreiro deixo a resposta a esta pergunta no que ela contém de perigo e precaução.(...)", ao considerar previamente que "A Feira das Colheitas deixou já de ser um acidente na vida do concelho, porque se tornou no acontecimento, na «realidade» da nossa terra. O que ontem foi ou teria sido uma tentativa ou uma experiência transformou-se já numa tradição radicada, que não pode perder-se nem abastardar-se, mas antes manter-se viva e engrandecida. É hoje, sem dúvida, a maior festa - porque de festa, afinal, se trata - a mais querida e ansiada de toda a gente: - para os lavradores, como obra sua e revelação das suas possibilidades e do seu esforço; para o comércio, a única oportunidade grande para o seu negócio; para a gente moça, ocasião de mostrar as suas graças no palco da Praça e para os forasteiros motivo de atracção ou curiosidade ou, como hoje se diria, de cartaz de uma terra antiga e cheia de tradições. " (em jornal «Defesa de Arouca», nº274, Ano 6 - IIªSérie, 8/10/1960)

29 de agosto de 2019

No 75º Aniversário da Feira das Colheitas, recordar e homenagear o seu fundador: António de Almeida Brandão

 Aproxima-se o 75º aniversário daquele que é, inquestionavelmente, o maior e o mais importante evento do concelho de Arouca: a Feira das Colheitas. São as 'bodas de diamante' de um elemento estrutural e estruturante da identidade de Arouca e dos Arouquenses e que os Arouquenses sentem «como seu», como «fazendo parte, de modo natural, da sua identidade». A Feira das Colheitas (que é, como sempre foi, uma montra da identidade autóctone e endógena de Arouca e dos Arouquenses) é um evento com impacto nacional e também é recordada e vivenciada pelos Arouquenses e seus descendentes espalhados pelo Mundo, em particular no Brasil e em França. É um elemento constituinte de Arouca que, provavelmente, quase a totalidade dos Arouquenses sabe que existe e que ocorre, todos os anos, no mês de Setembro. 
 Idealizada e fundada pelo ilustre arouquense António de Almeida Brandão (n.Casa de Telarda, Rôssas, Arouca, 1893 - m.Casa de Eidim, Rôssas, Arouca, 1986) a partir do Grémio da Lavoura de Arouca (do qual foi um dos elementos fundadores e do qual era, nessa altura, seu gerente, cargo para o qual foi eleito, à semelhança daquilo que também aconteceu quando ocupou, durante vários anos, a presidência da Direcção do Grémio da Lavoura de Arouca), a primeira edição da Feira das Colheitas realizou-se no ano de 1944, há 75 anos atrás, num contexto de grave crise económica que se fazia sentir em Arouca, em Portugal e na Europa, devido às consequências perniciosas do deflagrar da Segunda Guerra Mundial. António de Almeida Brandão também foi o fundador da Cooperativa Agrícola dos Produtores de Lacticínios de Arouca, seu primeiro presidente eleito e, por inerência desse cargo, presidente da Mútua do Seguro do Gado. Depois de vários anos como presidente da Direcção da Cooperativa Agrícola dos Produtores de Lacticínios de Arouca, o prof. Telmo Pato seria o seu sucessor, eleito durante mais de quatro décadas. A evolução e a fusão dessas instituições arouquenses, presididas e dirigidas por António de Almeida Brandão, originaram a moderna Cooperativa Agrícola de Arouca que, de algumas centenas de associados, na década de sessenta do século XX, passou a ter, com o decorrer do tempo, os milhares de associados que tem na contemporaneidade.
 O objectivo da acção do Grémio da Lavoura de Arouca, protagonizada por António de Almeida Brandão, era, para contrariar a grave crise económica que se verificava em Arouca, aumentar, significativamente, a produção agrícola, em particular a produção de cereais. Para isso, para estimular o aumento da produção agrícola, foram realizados concursos, entre os lavradores e agricultores de Arouca, das melhores searas, da melhor fruta, da melhor adega e do melhor linho, integrando também o concurso de raça bovina arouquesa que já existia no concelho e que permaneceu, ao longo das décadas, na Feira das Colheitas, sendo, no presente, um concurso de âmbito nacional e não apenas concelhio.
 Esse objectivo estrutural da Feira das Colheitas foi concretizado com grande sucesso em Arouca, num concelho que, de deficitário na produção de cereais, passou, passado poucos anos, a ser exportador de cereais, em particular exportador de milho. De modo concomitante, a Feira das Colheitas começou a realizar, anualmente, a Exposição Agrícola e do Artesanato de Arouca, onde ficaram célebres as belíssimas exposições de fruta, bem como as belíssimas exposições de ouro e de peças de linho das casas tradicionais de Arouca, sendo também, como é bem conhecido e identificado, o grande evento pioneiro, responsável, em Arouca, pela recuperação das danças e dos cantares tradicionais, bem como do trajo tradicional de Arouca, onde se constituíram e de onde se formaram os ranchos folclóricos de Arouca, dos quais se destacam o extinto Rancho do Merujal e o Rancho de Moldes, mais tarde renomeado de Conjunto Etnográfico de Moldes de Danças e Corais Arouquenses, etc.

António de Almeida Brandão ladeado, entre outros, pelo Doutor Domingos de Pinho Brandão e pelo prof. Joaquim Brandão de Almeida. Fotografia dos fins da década de sessenta ou dos inícios da década de setenta do século XX.
Foto: Jornal «Defesa de Arouca»

 Foram esses alguns dos elementos estruturais de um evento que foi idealizado, fundado, organizado, promovido e fomentado pela grande capacidade trabalho de António de Almeida Brandão (agraciado por várias instituições e pela Presidência da República Portuguesa com a Ordem do Mérito) e que foi uma personalidade de muito prestígio em Arouca, que dirigiu e presidiu, durante o século XX, com abnegação e sem ser remunerado, a várias instituições fundamentais do município de Arouca, algumas das quais fundou (na altura da fundação da Feira das Colheitas, também era presidente da Câmara Municipal de Arouca...).
 Foi a iniciativa estrutural de António de Almeida 
Brandão, a partir do Grémio da Lavoura, que configurou a Feira das Colheitas como grande evento concelhio de impacto nacional (num acto individual que não surgiu, portanto, de uma política emanada do Poder Central do Estado Português) e que foi a primeira Feira desse tipo que surgiu no País, anterior à Feira do Ribatejo, hoje Feira Nacional da Agricultura, cujo aparecimento se verificou em 1953, ou seja, nove anos mais tarde. O fundador e promotor da Feira das Colheitas, que era um entusiasta do desenvolvimento e da aplicação das Ciências e das Técnicas, pretendeu, claramente, fomentar o impacto de Modernidade na estrutura tradicional de Arouca, cuja actividade económica se centrava na Agricultura, entendendo também a Feira como uma montra anual e festiva dos elementos identitários, autóctones e endógenos, do território de Arouca e dos Arouquenses. 
 Como é óbvio, as actividades económicas, em Arouca, já não estão centradas apenas na Agricultura (que continua a ter muitíssimas potencialidades em Arouca, infelizmente sub-aproveitadas...), mas a intencionalidade originária e o evento originário da Feira das Colheitas nunca foram tão actuais como no presente e, por essa razão, mantêm-se e actualizam-se, todos os anos, com prestígio e muito sucesso. 
 Fazendo uma muito breve retrospectiva histórica...: fundada por António de Almeida Brandão e em termos institucionais organizada pelo Grémio da Lavoura, a Feira das Colheitas, depois, passou a ser organizada, com um curto período de interregno no início da década de setenta, pela Cooperativa Agrícola de Arouca e, depois, passou a ser organizada, e bem, pela Câmara Municipal de Arouca, porque a Feira das Colheitas, na actualidade, funciona mesmo como as 'Festas Oficiais do Concelho de Arouca', com a colaboração de outras instituições de Arouca e da Região Norte, das quais uma das mais relevantes, como é óbvio, continua a ser a Cooperativa Agrícola de Arouca. 
 E a Feira das Colheitas deve sempre continuar a ser as 'Festas Oficiais do Concelho de Arouca'. Pela sua singularidade identitária e pela sua intencionalidade precoce de Modernidade, aplicada aos elementos autóctones do território concelhio, a Feira das Colheitas, sabem-no bem todos os Arouquenses, é uma Feira e uma Festa de Arouca e de todos Arouquenses para todo o País e para todo o Mundo e, portanto, neste seu 75º aniversário, como é óbvio, será um acto de grande justiça a Cooperativa Agrícola de Arouca e a Câmara Municipal de Arouca recordarem e homenagearem o seu fundador: António de Almeida Brandão, porque, como bem elucidou o etnógrafo arouquense Albano Ferreira: 

" A Feira da das Colheitas é uma organização imediata do Grémio da Lavoura, mas, na realidade, um empreendimento de um só homem - o senhor António de Almeida Brandão. E, como realização de um só homem, sujeita a percalços e a contingências, que se torna necessário acautelar para que se não venha a perder esta admirável realidade que é a Feira das Colheitas. O dinâmico e aparentemente sorumbático empreiteiro da Feira tem sido e é, sem ofensa ou menosprezo para quem quer que seja que tenha estado à frente ou colaborado na obra ou finalidade do Grémio da Lavoura, pela continuidade de presença neste organismo, o homem indicado para estar à sua frente, pois muito a tem prestigiado. Senhor António de Almeida Brandão: Vemos o perigo, sempre iminente, da sua ausência ou desaparecimento. O Grémio é um organismo electivo, isto é: pode ou não conservar ou afastar os seus dirigentes e demitir os seus funcionários. E como homem, o senhor António de Almeida Brandão, está sujeito às contingências (longe vá o agouro...) da doença e da morte. E é ocasião de perguntar: Que sucederia se alguns destes fenómenos surgissem? Quem estaria aí, como testamenteiro, para continuar a obra do senhor António de Almeida Brandão? Quererá ele, como arouquense, que se perca ou esqueça uma obra que é sua? Ao próprio dinâmico e calado obreiro deixo a resposta a esta pergunta no que ela contém de perigo e precaução.(...)", ao considerar previamente que "A Feira das Colheitas deixou já de ser um acidente na vida do concelho, porque se tornou no acontecimento, na «realidade» da nossa terra. O que ontem foi ou teria sido uma tentativa ou uma experiência transformou-se já numa tradição radicada, que não pode perder-se nem abastardar-se, mas antes manter-se viva e engrandecida. É hoje, sem dúvida, a maior festa - porque de festa, afinal, se trata - a mais querida e ansiada de toda a gente: - para os lavradores, como obra sua e revelação das suas possibilidades e do seu esforço; para o comércio, a única oportunidade grande para o seu negócio; para a gente moça, ocasião de mostrar as suas graças no palco da Praça e para os forasteiros motivo de atracção ou curiosidade ou, como hoje se diria, de cartaz de uma terra antiga e cheia de tradições. " (em jornal «Defesa de Arouca», nº274, Ano 6 - IIªSérie, 8/10/1960)


1 de agosto de 2019

Uma certa saloiada de Lisboa e arredores:

-Em torno da presente polémica que envolve o secretário de Estado da Protecção Civil e respectivo adjunto, que são naturais de Arouca

Relativamente à presente polémica que envolve o secretário de Estado da Protecção Civil e respectivo adjunto, aquilo que, como é óbvio, deve acontecer é que sejam, de modo justo e legal, apuradas responsabilidades e que, nesse processo, tudo seja resolvido, em termos institucionais, de modo justo e legal, para bem do Estado português e de todos os Portugueses.
No entanto, não posso ficar indiferente a muitos comentários e textos de opinião pejorativos e discriminatórios que, no presente, se lêem e se vêem nos «mass media» e na internet relativamente ao facto das pessoas em questão serem de Arouca e ao facto do adjunto ter sido padeiro!...Sobretudo, comentários e textos de opinião provenientes de uma certa saloiada ignorante e petulante de Lisboa e arredores...Falam de Arouca como se Arouca fosse uma espécie de «município de Terceiro-Mundo» de gente rústica e troglodita, auto-interpretando-se como se estivessem numa capital avançada de um país avançado e central do continente europeu: Lisboa!!!!!!!
Conhecendo eu bem Lisboa e arredores como conheço (onde morei vários anos unicamente por razões de formação académica e de investigação científica, onde adquiri alguns graus académicos e onde fui investigador da UNL, entre os anos de 1998 e de 2004 (da era comum)), lamento bastante esses comentários que denotam o típico provincianismo e a  ignorância petulante de uma certa saloiada de Lisboa e arredores, que, infelizmente e focada em termos gerais, sempre foi uma má capital para o País como um todo e que é periférica, quer no contexto ibérico, quer no contexto europeu, com o seu perfil, estruturalmente, sub-urbano e alienante, com falta de qualidade urbana e falta de qualidade ética e cívica, que sobrevive, em grande parte, graças ao ultra-centralismo ultra-parasita que exerce sobre o resto do País, etc.
Em alguns departamentos das instituições universitárias públicas que frequentei em Lisboa (que são das principais, a nível nacional), assisti a várias atitudes e noções típicas desse provincianismo saloio e auto-referente de alguns lisboetas e 'lisboetados' que, apesar de terem erudição nalguns assuntos e matérias, revelam também a sua grande ignorância em relação a outros assuntos e matérias. Podem-se mesmo considerar uma espécie de «ignorantes com erudição». 
Uma delas não resisto em contar, porque provoca grandes gargalhadas, devido, precisamente, a essa grande ignorância petulante:
-num pleno e típico seminário de doutoramento, o principal catedrático de um departamento dizia, aos doutorandos, que, quando escolhessem o orientador, se fosse o Professor Doutor José Madureira Pinto eles sabiam bem quem era. Estava logo identificado pela sua qualidade e relevância na área das Ciências Sociais... Agora, se fosse, antes, «um ‘fulano de tal' de Oliveira de Azeméis» (foi essa mesma a expressão do professor, enunciada em tom pejorativo e discriminatório, quer em relação a Oliveira de Azeméis, quer em relação ao facto do suposto orientador ser de Oliveira de Azeméis), eles não saberiam quem era e não poderia ser, provavelmente, o orientador da Tese!...
Ou seja, ele referia-se a Oliveira de Azeméis de forma similar ao modo como os comentadores acima referidos, no presente, falam de Arouca, como se Oliveira de Azeméis fosse uma espécie de «município de Terceiro-Mundo» de gente rústica e troglodita!...Ou seja, ele opunha a qualidade académica e científica do Professor Doutor José Madureira Pinto (que, de facto, tem mesmo qualidade académica e científica) ao «‘fulano de tal’ de Oliveira de Azeméis», que seria, logo, a priori, visto como um orientador inadequado e, provavelmente, medíocre, o que certamente se deveria, em grande parte, na óptica deles, ao facto desse possível orientador ser de Oliveira de Azeméis!..
Mas (é mesmo uma situação irrisória...) mal ele sabia que o Professor Doutor José Madureira Pinto é natural de São João da Madeira, onde nasceu, residiu e trabalhou, concelho que é vizinho («paredes-meias») de Oliveira de Azeméis!...E que, precisamente, São João da Madeira pertenceu, durante séculos, ao concelho de Oliveira de Azeméis. Só no ano de 1926 (era comum) São João da Madeira se autonomizou do concelho de Oliveira de Azeméis. O nortenho e sanjoanense Professor Doutor José Madureira Pinto é, de facto, na realidade, um académico, economista e sociólogo de valor, catedrático jubilado da FEP-UP e primeiro doutorado em Sociologia por uma universidade portuguesa, cujo arguente principal da sua Tese foi o Professor Doutor Mário Murteira, meu estimado e saudoso Mestre.
É mesmo para dar grandes gargalhadas, perante essa situação!...E este exemplo muitíssimo simbólico, ainda para mais vindo de um catedrático de uma das principais universidades públicas sediadas em Lisboa, revela bem a grande ignorância petulante de uma certa saloiada de Lisboa e arredores relativamente ao resto do País, mesmo em relação a partes do País que são das mais industrializadas e centrais, como é o caso, precisamente, de Oliveira de Azeméis.
Como se sabe, o concelho nortenho de Oliveira de Azeméis é, tal como Arouca, um dos concelhos da Área Metropolitana do Porto e do distrito de Aveiro (onde estão sediadas, entre outras, duas das melhores e das principais instituições universitárias públicas do País: a Universidade do Porto e a Universidade de Aveiro) e tem a particularidade de ser dos mais industrializados e mais produtivos do País, concentrando, sobretudo, as suas actividades económicas nos sectores da metalurgia, da metalomecânica, do plástico e do calçado, que se localizam em várias zonas industriais, sendo de realçar as de Loureiro, de Nogueira do Cravo, de Pindelo, da Costa Má, de Cesar e de Fajões, etc.

Perante essas atitudes ignorantes e petulantes de uma certa saloiada de Lisboa e arredores, é mesmo oportuno citar e ouvir o refrão da letra de uma música célebre do grupo lisboeta ‘Ala dos Namorados’:

São os loucos de Lisboa
Que nos fazem duvidar
A Terra gira ao contrário
E os rios nascem no mar

O autor da letra é João Monge, que é um poeta de talento e de valor, sendo «uma espécie de Carlos Tê» de Lisboa e arredores. Considerando não apenas essa letra, mas, integralmente, a obra numerosa e de muita qualidade de João Monge, também se prova um facto, de modo simbólico: que, em Lisboa e arredores, há também pessoas de valor e com talento e não apenas uma certa saloiada ignorante e petulante. 
João Monge, o letrista habitual do grupo e um dos seus fundadores, tem mesmo talento e valor e, curiosamente, amanhã, pelas 21h30m, o grupo 'Ala dos Namorados' vai estar no centro da vila de Arouca, na Praça Brandão de Vasconcelos, em mais um concerto «Sons da Praça», acompanhado pela Banda Musical de Arouca. 

P.S. - Relativamente ao facto dessa certa saloiada ignorante e petulante de Lisboa e arredores ironizar com o facto do adjunto do secretário de Estado da Protecção Civil ter sido padeiro, estou a lembrar-me, no contexto desse tipo de problemática, que um dos matemáticos e académicos mais notáveis da História da Humanidade, que tenho a honra de conhecer e de ser muito amigo, o Professor Doutor Eliyahu Rips, catedrático da Universidade Hebraica de Jerusalém, quando, na década de 70 do século XX (era comum), emigrou da sua Letónia natal para Israel, trabalhou, durante uns tempos, numas bombas de gasolina, em Israel. E o facto de ter trabalhado numas bombas de gasolina (embora não por necessidade material, mas por querer colaborar na institucionalização do Estado de Israel) não impediu que fosse e que seja um dos matemáticos e académicos mais notáveis da História da Humanidade, com um prestígio científico e académico inigualável.