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20 de julho de 2021

Gentil Moreira de Sousa (1929-2021)


Foi com profunda tristeza que recebi na noite passada a noticia de falecimento do meu amigo senhor Gentil Moreira de Sousa, um arouquense que se fez ilustre no outro lado do Atlântico, mais precisamente em Niterói, no Rio de Janeiro, onde foi um empresário de sucesso, reconhecido e agraciado com vários títulos e condecorações pelos Estados do Brasil e Portugal.

Traçar o perfil, fazer a história biográfica e estudar os ancestrais de Gentil Moreira de Sousa é não só um prazer como uma honra. Com efeito, este inveterado arouquense, - que o refere sempre com orgulho -, ambicionando melhores condições do que aquelas que a sua terra natal de então perspetivava oferecer-lhe - dar continuidade ao comércio e indústria de roupas de seu pai -, fez-se ao mundo, mais propriamente às terras outrora descobertas por Álvares Cabral, para onde emigrou na década de cinquenta do século passado, mais especificamente no dia 11 de Maio de 1951, como escrevi no perfil biográfico e genealógico que, a seu pedido, elaborei em 2017.

Escritor e poeta, com quatro livros publicados, músico e empresário luso-brasileiro, Gentil Moreira de Sousa, era filho de Adriano Teixeira de Sousa, alfaiate, músico e maestro da Banda Musical do Burgo, e Helena Moreira de Sousa, moradores no lugar e freguesia do Burgo, onde nasceu em 20 de Junho de 1929, sendo o mais velho de sete irmãos. Casou em Niterói com Clarice Pinto Quaresma, natural de São João da Boa Vista, concelho de Tábua, onde nasceu em 2 de Agosto de 1927, de que teve dois filhos e três netos.

O negócio que mais o notabilizou em Niterói foi a Confeitaria Beira Mar, fundada há mais de quatro décadas, contando hoje com cerca de 300 trabalhadores, cuja marca e logotipo ostenta o brasão heráldico do município de Arouca.

Neste doloroso momento de despedida de Gentil Moreira de Sousa, Axel Grael, Prefeito de Niterói, homenageou o legado de Gentil deixado naquela cidade, referido que «Ele será sempre lembrado com muito carinho por nossa cidade».

Gentil Moreira de Sousa foi ainda uma boa referência para muitos familiares, amigos e compatriotas, em geral, que também emigraram para o Brasil, e sempre contaram com a sua boa-vontade e generosidade para singrar naquele país.

Que descanse em paz!

Os meus sentimentos à família e amigos!

4 de março de 2019

Em busca do tempo perdido

Como muitos dos "abecs" arouquenses, Arouca ocupa apenas 1/12° da minha vida. Fisicamente.
No entanto, como para muitos dos meus congéneres os 11/12° restantes são intimamente ligados ao 1/12° passado em Arouca. 1/12° para matar saudades e 11/12° a manter viva essa mesma saudade. É o sinal de um apego forte a esta terra. Falo de terra propositadamente porque falo de raízes fortemente ancoradas em nós. Falamos um português rudimentar e nem sempre nos sentimos no «nosso» lugar e no entanto...

No entanto, voltamos todos os anos. Fazemos a nossa transumância. Somos ardentes defensores de algo que dominamos apenas parcialmente. De tanto querer matar a saudade, acabamos por fortalecê-la paradoxalmente.

Temos uma visão idealizada de Arouca. Uma visão distorcida pelo prisma das férias. Uma Arouca do lazer. É uma característica comum a muitos dos "abecs" de Portugal.
A minha experiência de "abec" arouquense faz-me dizer que temos, no entanto, um suplemento de alma. Quantas vezes vi outros abecs defender o seu pedaço de terra e ser rapidamente desamparados face ao orgulho dos "abecs" arouquenses. Pois é…

Temos a sensação de sermos de um lugar de onde, mais do que em qualquer outro lugar, exala uma energia particular. Um cantinho pequeno do mundo mas com muito caráter. Um lugar onde o orgulho de dizer de onde somos permanece sempre forte. Somos todos um pouco chauvinistas

É ai que foram forjadas as nossas mais belas memórias, Sejamos de França, da Suíça ou de outro lugar, corremos teimosamente atràs do tempo perdido. Atrás da nossa «Madeleine de Proust». A procura daqueles raros momentos que escapam ao espaço-tempo. Momentos em que comungamos com as nossas raízes. É um fenómeno profundamente poderoso. Uma segunda respiração. Aproveitar momentos que somente durarão breves instantes mas que indelevelmente ficarão em nós.

1/12° a matar a saudade e 11/12° a manter viva essa mesma saudade. Em busca do tempo perdido.

21 de janeiro de 2019

Sou o Zé das Quintas...- Memórias de emigrante (1/3)

Lembrança de uma época passada e de percursos de vida comuns a muitos dos nossos conterrâneos.
O Zé das Quintas é o meu pai.
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Deilão, 2 de fevereiro de 1967,

Sou o Zé das quintas. Tenho apenas 16 anos. Nascido e criado em Deilão. Pequena aldeia de pouco mais vinte almas perdida algures entre Covas do Rio e Janarde.

Minha vida é uma rotina diária. Desde do amanhecer, trabalho no campo e trato do gado. Raras diversões a não ser apanhar bogas no rio e disfrutar das poucas romarias em redor.

Não vivemos bem ou mal. É assim. Vivemos apenas. Sem realmente sofrer de nossa condição porque não conhecemos outras.

Chega-nos, no entanto, um ruído, cada mais forte, notícias de um ultramar que deveríamos defender. Defender algo do outro lado da terra enquanto o meu mundo vivido limita-se a um raio de 20 km ao redor de Deilão? Eu que apenas vou a «Bila» 2 ou 3 vezes por ano.

Meu pai não quer que eu participe numa guerra que não considera a dele. Já enviou meu irmão para o Brasil há alguns anos por esse motivo. Chegou a minha vez. Vou partir. Já contatou e pagou o passador. Vou para a França. Saio hoje. Pela noite dentro para o mundo obscuro.

Sinto-me dividido entre o entusiasmo de descobrir novos universos e a ansiedade de me confrontar a eles. Tenho medo. Sei que a viagem, «O Salto», será difícil. Será longa. Estou ansioso também de não saber quando voltarei. Triste de deixar os meus pais e amigos. Serà a última vez que vejo a minha avó por quem eu tenho um carinho especial?

Mas não me pergunto se é a escolha certa porque não tenho alternativa. Trata-se de sobrevivência. Saio daqui ou potencialmente morro! Como tantos otros que não voltarão do Ultramar.

Sou o Zé das quintas, com apenas 16 anos, e hoje vou a caminho do mundo desconhecido!

Darei-lhes conta, uma proxima vez, da minha viagem. Do meu salto. Da minha chegada em França.

Até Breve.
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"Porque quem deixa o seu torrão natal,
E fora dos seus caminhos põe os pés,
Quando troca o certo pelo incerto.
Motivos há-de ter."
Adriano Correia de Oliveira – Emigração

19 de novembro de 2018

Ternura dos 40

Ontem fiz 40 anos.
Meio caminho de uma vida entre aqui e aí.
Metade para trás e outra metade para a frente.

" Foram tantas as idades
Da vida que atrás deixei
Não quero sentir saudades
Vou em outras amizades
Amar o que [ainda] amei "

Retrospectivamente, passei por vários estados na minha relação com Arouca, mas sempre mantive o mesmo fio condutor: o orgulho das minhas raízes e o desejo de transmitir este amor por este cantinho de Portugal. Do perímetro limitado do quintal dos meus avós, caminho na vida fazendo, alarguei o meu perímetro de descobertas e tenho mantido constantemente o mesmo olhar espantado para todos esses elementos que tornam Arouca um bem comum mesmo à parte. Falo de um património e de uma história que forjam sua grandeza mas também, e especialmente, homens que por seu apego indefectível a sublimam. A riqueza de Arouca é isso mesmo.

Como já o mencionei num artigo anterior, não foi sempre fácil fazer entender toda a beleza e poder da alma do MEU Arouca. Foi difícil anos após anos justificar isso. Hoje é quase fácil demais. Não vou listar os artigos publicados aqui e ali e os inúmeros prémios recebidos. Durante anos, os meus primeiros 30, tantas vezes os procurei. Porém, «Foram tantas as idades / Da vida que atrás deixei».

Estes últimos 10 anos têm sido fortes em razões de orgulho (Geopark, FC Arouca e companhia), que me permitiram justificar FACTUALMENTE o carácter excepcional de Arouca e dos arouquenses. Para meu aniversário dos 40 anos, Arouca foi nomeado "município do ano". Belo presente de aniversário. Mais água para accionar o meu moinho de embaixador de Arouca...

"Não quero sentir saudades
Vou em outras amizades
Amar o que [ainda] amei"

Estou hoje no meio do vau. Que venham mais razões para me orgulhar. Que possa descobrir e redescobrir Arouca para «Amar o que [ainda] não amei»


Até breve neste meu Arouca do relembrar e da saudade!

9 de outubro de 2018

O avô Abel da Diáspora Arouquense

Abel Gomes de Pinho, nascido em Arouca em 1907, decide viajar para o Brasil por volta do ano de 1927, acompanhando muitos conterrâneos que, naquela altura, procuravam na antiga colónia o desafogo financeiro que não encontravam num país exausto, atrofiado e traumatizado por sucessivos eventos políticos e sociais que promoviam um ambiente absolutamente desestabilizador junto da classe trabalhadora, cuja realidade do dia-a-dia consistia, apenas, em lutar para conseguir sobreviver a mais uma jornada de fome.

Tal como em muitos outros casos, seus pais, Manoel Gomes de Pinho e Carolina de Jesus, não concordam com tamanha aventura, pois desde o século anterior eram já inúmeros os relatos de casos mal sucedidos, acabados em maior desgraça do que aquela que os infortunados aventureiros viviam no seu país.

Apesar da discordância e falta de consentimento de seus pais, Abel Gomes de Pinho decide galhardamente avançar e iniciar o caminho que confiava vir a mudar a sua vida.

Da viagem e dos primeiros tempos, não há relatos. Tempos difíceis, por certo, que uma nova vida numa terra tão distante, demora a alicerçar! Sabe-se apenas que cerca de 3/4 anos após a sua chegada, corria o ano de 1930 ou 1931, casa-se em São Paulo com Maria Leopoldina Nunes, que passa então a chamar-se Maria Leopoldina Gomes.

Acaba por morrer cedo, com apenas 36 anos de idade, no dia 12 de Junho de 1943, não resistindo a uma febre tifóide, de acordo com a informação na sua certidão de óbito. Deixa cinco filhos em idade muito tenra: Abel, de 12 anos; Maria de Lourdes, com 9 anos; Ercília, com 7 anos; Alzira, com 4 anos; Maria Estela, de apenas 2 anos.

Em 2017, os seus descendentes realizam o primeiro encontro da família Gomes e dessa reunião nasce o desejo de conhecer a origem da família, onde tudo começou. Este encontro, deixou nos seus filhos, netos e bisnetos a saudade e nostalgia em relação ao avô que nunca conheceram fisicamente.

Por mera casualidade, no passado dia 15 de Agosto de 2018 alguns dos seus descendentes, em visita a Arouca, acabam por contactar comigo. Desse contacto surge a minha disponibilidade em ajudar a encontrar a família arouquense do avô Abel que, muito embora nunca mais tenha regressado a Arouca, foi capaz de deixar nos seus descendentes este sentimento tão nosso de apego à nossa terra.

Que bom seria encontrar a família do avô Abel...

7 de outubro de 2018

O emigrante de cabelo branco foi o "migrante" de ontem!


Em agosto, nas esplanadas dos cafés, ouvimo-los a falar, geralmente alto, com tiques de linguagem que lhes são próprios :"Poubelle", "autoroute", "retraite", e tantos mais. Esses tiques são muitas vezes ridicularizados porque são mal interpretados. Explicam-se, na minha opinião (obrigado Sara por me ter aberto os olhos), pela história vivida (sofrida) por essa espécie particular de Arouquenses: o emigrante de cabelos brancos. Suas histórias individuais moldam a história coletiva do nosso território como a, mais geral, de Portugal.

Esses arouquenses sofreram um "choque de civilização". Emigraram "A salto". Passaram de um ambiente "arcaico" para um ambiente moderno sem transição. Falo do ambiente de vida e não das condições de vida porque aquelas que encontraram nos seus primeiros anos eram em maioria também arcaicas (os « bidonvilles » - bairros de lata). Como teríamos, nessa situação, encontrado palavras na nossa língua materna para nos referirmos a coisas que não conhecíamos? Convido-vos a ter isso em mémoria quando ouvirem as palavras "francious" que pontuam as conversas em agosto.

Entre 1960 e 1975, centenas de arouquenses deixaram as suas aldeias, muitas vezes isoladas, para ir ao encontro de uma vida melhor. A maior parte eram homens jovens. A maioria foi A Salto. A maioria não conta essa parte da sua história pessoal. Por dignidade.

Foi só há 40 anos! Essas histórias individuais mergulham-me nas notícias de um mundo que, pelo jogo de meios de communicacão cada vez mais sensacionalistas e de um populismo crescente, muitas vezes despreza os homens que fogem da miséria.

A vida é um recomeço eterno. Jovens deixam, hoje, a África ou o Médio Oriente à procura de uma vida melhor. Eles também "A salto". Vivem um «choque de civilização» similar ao dos nossos anciãos.

O emigrante de cabelo branco foi o "migrante" de ontem!

Testemunhos de 20'18 a 21'40

Até breve neste meu Arouca do relembrar!

1 de outubro de 2018

Do "Arroucâ, onde fica?" ao "És de Arroucâ, que sorte!"


Durante muitos anos, em França, quando me perguntavam donde eu era de Portugal e respondia «de Arouca», só podia notar o vazio interestelar nos olhos dos meus interlocutores: "Arroucâ, onde fica isso?". E eu, obrigado a responder sempre pelo mesmo retornelo: "a uma distância de cerca de 30 km a sul do Porto". A discussão geralmente parava por aí. Frustrante!

Hoje, vivo uma bela evolução. A evocação de «Arroucâ» desperta uma curiosidade muito mais assertiva entre as quais posso distinguir duas categorias de pessoas: os «gamers», amadores de futebol, e os amantes de natureza! Aos primeiros vem a recordação imediata da equipa de futebol que eles tiveram a oportunidade de enfrentar no jogo Fifa, "o Arroucâ que venceu o Benficâ", e os outros vem a imagem dos Passadiços. A discussão, em geral, não pára pela localização geográfica, mas toma o caminho da curiosidade sobre este pequeno pedaço de Portugal com pedidos de indicações sobre o que visitar.

Essa notoriedade relativamente nova deixa-me preso entre sentimentos ambivalentes. Adeus à frustração de não poder justificar as qualidades desta terra e dos seus homens. "Arroucâ" está hoje no mapa dos ex-libris portugueses e é FINALMENTE reconhecido. A contrapartida é a sensação de ser desapossado, de certa forma, porque foi, durante anos, a MINHA coisa que hoje devo compartilhar.

Pois é! Ser Arouquense de lá, hoje, é ter de compartilhar este bem comum que nos supera a todos. E, afinal, que prazer me dá ver o brilho nos olhos de amigos franceses de gema que convidei há anos à nossa terra e que hoje se tornaram os meus melhores embaixadores.

Texto dedicado ao meu amigo Antoine Martin, 
o mais arouquense dos franceses de gema