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16 de novembro de 2018

Se necessário, para que dê à luz, viole-se a moça!

Não passam muitos meses, completaram-se oitenta anos sobre a chegada da energia eléctrica a Arouca. Ou melhor: às principais ruas da vila e de algumas freguesias próximas. Pois a maior parte do concelho permaneceu na escuridão ainda por muitos anos, para beneficio do imaginário popular e sobrevivência das criaturas que habitavam a penumbra e as trevas.

Em 1933, Arouca e Castelo de Paiva eram já os únicos concelhos do distrito de Aveiro a que não tinha chegado ainda a energia eléctrica. Então, apesar de não andar já muito distante, conduzi-la até a Arouca mostrava-se ainda mais dispendioso do que - pensava a Câmara da altura - solucionar o problema a nível local. Pensou-se então em duas soluções: uma, termoeléctrica, por via da utilização de uma das serrações existentes no concelho, onde, a óleo ou através da queima de combustíveis pobres, se accionasse um alternador que alimentasse as redes de distribuição; a outra, hidroeléctrica, mais elaborada e arrojada, por via do aproveitamento da queda de água da Mizarela, lá no alto da Freita.

Frecha da Mizarela
É verdade! Aquela que é hoje uma das mais conhecidas e imaculadas belezas naturais do concelho de Arouca, da região e até do país, algumas vezes cobiçada até por outro concelho vizinho, poderia mostrar-se hoje - depois de nos ter dado a luz - irremediavelmente violada, esventrada e destroçada.

«A natureza, que foi pródiga na formação da queda, não o foi menos no fornecimento dos meios necessários para a sua valorização pela facilidade que há de se fazer um embalse em condições particularmente económicas. É de facto possível, construindo uma barragem de pequeno volume e 8 metros de altura no sítio denominado Largo de Porto Pereiro, armazenar a totalidade da água que caia na bacia hidrográfica a montante desta barragem. Os terrenos alagados são todos baldios.» «A barragem terá em planta a forma de um arco de círculo de 52 metros de raio, terá 2,5 metros de altura e 22 metros de comprimento.», refere o estudo então realizado.

Uma das várias peças do projecto
Senhor nos perdoe, tê-lo pensado sequer! Deu-se à luz sem ser necessário deslustrar a moça. A mais bela das nossas moças, por sinal.

Mas, ao contrário do que se possa pensar, não foi nenhuma candeia mais acesa nos Paços do Concelho a iluminar as mentes que projectaram tal desconsideração. A ideia era mesmo para concretizar! Tanto mais quando, pouco diferentes deste, eram os projectos de aproveitamento das águas do rio Paiva, na Espiunca e em Varzielas, igualmente para produção de energia eléctrica, já autorizados ao Conde de Castelo de Paiva.

Porém, - vá-se lá saber por preces e apelos de quem -, caducaram as concessões outorgadas ao Conde de Castelo de Paiva e foi entretanto demitido o Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Arouca. Este, demitido por uma outra razão, é certo, mas que veio mesmo a calhar relativamente a esta outra questão.

O novo Presidente tratou então de incluir Arouca nos concelhos a abranger pela ampliação da concessão de distribuição de energia em alta tensão. Meio ano depois, foi assinado o contrato de fornecimento entre a Câmara Municipal e a Eléctrica Duriense. Em 1937 foram regulamentadas as condições de fornecimento de energia para consumo de particulares e, em 1938, foi finalmente inaugurada a energia eléctrica nas principais ruas da vila e de algumas freguesias próximas. Moldes e Tropeço só viram a luz já nos anos cinquenta, assim como, mais tardiamente, Mansores, Escariz, Fermedo e São Miguel do Mato.

O facto é que, para além da sede do concelho, as restantes localidades só se veriam iluminadas conforme o lucro líquido o fosse permitindo e, para além disso, se se mobilizassem, no mínimo, vinte cinco consumidores da zona a electrificar, os quais teriam de contribuir antecipadamente com a quantia avaliada como necessária para fazer face aos encargos com o estabelecimento da rede.

Nem tudo foi reluzente e andou à velocidade da dita, como é óbvio. Mas também não era preciso abusar!... Por força das voltas que a coisa deu e da substituição da desconsideração das maravilhas com que a natureza nos contemplou pelos custos empreendidos nos bolsos dos consumidores, lá, nos lugares da serra, donde a luz era para ter vindo, só foram as pessoas socorridas das trevas nocturnas volvidos mais de quarenta anos, pelo Natal de 1980.

23 de outubro de 2018

A Serra da Freita em imagens: Pastorícia


Naquele final de tarde regressava a casa já com o equipamento arrumado na mochila. Ao contrário do que se possa pensar, fotografia de paisagem é “melhor” com ”mau” tempo (qualidade fotográfica e más condições climatéricas são sempre subjectivas, daí o abuso nas aspas), mas o céu limpo daquele frio dia de Inverno não trouxe grandes resultados fotográficos.

Avisto um rebanho guiado pelo seu pastor regressando a casa. Encosto o carro, que fica com o motor a trabalhar, tiro da mala apenas a máquina fotográfica e reposiciono-me à espera de uma oportunidade de concretizar uma boa imagem.

Não poderia ter tido mais sorte. O céu que lamentavelmente não inspirou grandes resultados durante o dia, brilhava intensamente à medida que o sol se escondia no horizonte. Perante este cenário, tirei umas duas ou três dezenas de fotografias, todas elas representando silhuetas sobre um céu cor de laranja.

Desta série há três ou quatro imagens das quais gosto bastante, mas escolho partilhar esta que para mim melhor representa como as condições antes “imperfeitas” se alinharam numa representação épica de uma das mais importantes actividades da Serra da Freita.

15 de outubro de 2018

Arouca, um alfobre de felizes

 
   Hoje passa um ano desde um dia muito infeliz para Arouca e seguramente para muitos arouquenses. Faz um ano que um terrível incêndio florestal destruiu parte substancial da floresta da zona ocidental do nosso concelho. Queimou pinheiros, talvez a maior mancha de pinhal do concelho, que não volta (nada que se compare ao Pinhal de Leiria, i.e, do Estado). Queimou vegetação ripícola. Queimou eucaliptos, que agradeceram e no entretanto deram (e foram ajudados a dar) mais um passo para transformar Arouca num alfobre de felizes espécimes desta espécie. Quem ali vive ou por ali passa, basta olhar para o lado para saber do que falo. São mesmo alfobres, como aqueles das couves ou do cebolo que se costumam semear nas hortas, só que neste caso ocupam muitos quilómetros quadrados que não têm intenção de desocupar. Pelo contrário, despejam, sufocam, quem já lá vivia.
   O eucalipto é uma árvore. Não é o advento do diabo. O problema é que tem características próprias e não pode ser plantado como se de couves se tratasse, porque depois não se consegue controlar. Ouvi isto a um especialista há uns dois meses. Nós por cá, por este caminho, e também por isto, não tarda e teremos de reclamar uma versão revista, i.e, abreviada, do relativamente recente “Guia à descoberta da Biodiversidade do Arouca Geopark”.
   Felizmente, podemos declarar que este ano não fomos visitados pela negra sombra dos incêndios do passado. Podemos voltar a celebrar, encher manchetes de jornais só com boas notícias de dias felizes e amealhar mais óscares. Não há que olhar para trás nem para o lado. É em frente. O céu é o limite!

2 de outubro de 2018

A Pensar Alto...

Quando de manhã depois de esfregar os olhos que abriam com dificuldade, tal era o frio, vim à janela e olhei para fora senti pela primeira vez como era bonita a terra dos meus avós e do meu pai, Lourosa de Campos. Com os seus campos semeados de verde e branco, dos pingos de geada dessa noite, as suas casas que pareciam ter sido desenhadas em locais próprios, como nos presépios, os fumos que se misturavam e davam um tom de névoa, os cantos de quem já trabalhava a terra, o cantar do gado de criação, a pequena estrada espalhada pelo pequeno vale e aquele sorriso de ouvir a água que rebentava a querer soltar se e espalhar se como sementeira de vida, muita vida eis Lourosa de Campos, um pequeno vale dentro de outro maior, Arouca, que lindo! Foi isto que vi. Chegara do Rio de Janeiro e tinha 8 anos.
Lembrei me disto ao ler o artigo do Paulo Teixeira sobre a desertificação das aldeias serranas. E Lourosa, tão perto da nossa Vila e quase deserta. A beleza natural não basta para termos as regiões repletas de habitantes. Há que criar condições para que o sustento esteja próximo e a partir daí permitir que a qualidade de vida seja melhor. Todos sabemos que é possível viver bem, a conviver com os encantos da nossa terra. Não podemos é passar de geração em geração esta vontade. Arouca já foi a bela adormecida mas apesar da poesia de tal designação, queremos e devemos lutar por uma terra acordada, com condições de vida dignas e possíveis para a maioria. Cada um tem o seu papel e pode contribuir para isso. Mãos à obra.

23 de setembro de 2018

A Serra da Freita em imagens


   É indesmentível que um dos tesouros de Arouca é a Serra da Freita. Não sendo uma alta montanha, a sua imponência é suficiente para ser observada de (quase) todos os pontos do concelho de Arouca.
   As paisagens da Serra da Freita estão presentes na minha memória desde criança, um tempo que infelizmente já passou, no sentido em que as várias transformações que têm ocorrido na Serra não foram - no geral - para melhor. Não é um problema exclusivo da Freita, é algo generalizado em todo o país pois as práticas de preservação dos nossos espaços naturais já foram efectivamente melhores.
   Porém não é isso que me leva a contribuir para este projecto, para o qual agradeço a enorme honra do convite para participar. Não sou especialista em conservação da Natureza e reconheço que é um assunto complexo que atravessa vários sectores da sociedade. Prefiro antes focar os aspectos positivos da Serra da Freita, usando a fotografia como meio preferencial. Não há meio melhor que a fotografia para exprimir o modo como vemos o mundo e consequentemente preservar as nossas memórias.
   Embora ainda o faça com muito menos frequência, entre 2009 e 2013 tirei milhares de fotografias na Serra da Freita, com o objectivo de apurar os meus conhecimentos de fotografia. Com o tempo percebi que o resultado desse trabalho servia para muito mais que isso. As imagens que obtive são também um arquivo, uma preservação da memória e do melhor que temos na nossa Natureza e na nossa Serra da Freita. O meu desejo é que também sirvam de inspiração e de alerta para a conservação dos nossos espaços naturais, já que nada dura para sempre.
   Para esta primeira colaboração escolhi um dos melhores exemplos disso mesmo. A árvore na imagem era um de três pinheiros que se encontravam mesmo em frente ao miradouro próximo do alto da Freita. Embora longe do seu vigor, eram extremamente formosos e fotogénicos. Infelizmente, ficaram definitivamente fragilizados após o grande incêndio de 2016 e acabaram por desaparecer.

4 de setembro de 2018

O fim das Aldeias da Serra

   As aldeias tradicionais de Arouca estão condenadas a acabar se não se conseguir encontrar uma solução para inverter a tendência das últimas décadas. É certo que não é uma realidade exclusiva de Arouca, mas foquemo-nos no nosso concelho.
   Aldeias como a da Castanheira, em plena Serra da Freita, que mesmo beneficiada pelo famoso e muito visitado Centro Interpretativo das Pedras Parideiras (um dos principais núcleos do Arouca Geopark) conta neste momento com meia dúzia de habitantes sendo que a pessoa mais nova tem já cerca de 60 anos. Mas o mesmo sucede com Regoufe, Rio de Frades, Covelo de Paivô, Cando ou Noninha, povoações a enumerar entre outras e onde este fenómeno de êxodo se verifica mais acentuadamente nas últimas décadas. As gerações mais novas saíram há já uns anos com a promessa de voltar, mas não estão a regressar.
   Para além do mais, com o despovoamento destas aldeias deixaremos de ter o gado de pastoreio, nomeadamente as Arouquesas de montanha que muito contribuem para a subsistência e dinamismo local, para o turismo gastronómico e paisagístico do concelho. Deixaremos de ter os rebanhos de pequenos ruminantes que pintam o planalto e, com eles, uma parte significativa da ruralidade de que tanto nos orgulhamos.
   Sendo, pois, evidente que equipamentos como o das Pedras Parideiras não contribuem para inverter aquela tendência, urge pensar no que se poderá/deverá ainda fazer para segurar vida nas nossas Aldeias da Serra.