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18 de abril de 2021

Rotas e Trilhos: da Terra ao Mar

"O Município de Arouca em parceria com o BTTArouca, iniciou o programa ROTAS E TRILHOS. O programa consiste em lançar desafios ao longo do ano, nas vertentes de caminhada, corrida de montanha e BTT, pelos recantos do território do Arouca Geoparque." 

Após ter efetuado o primeiro e segundo rotas e trilhos na vertente caminhada/corrida percorri esta semana o rotas e trilhos " da terra ao mar" que decorre por inteiro na freguesia de Mansores. O conceito é interessantíssimo pois é estudado e preparado previamente pela organização um percurso que percorre lugares e locais, que muito provavelmente não visitaríamos ou não conheceríamos, por serem muitos deles inacessíveis sem uma devida preparação e estudo do terreno. Os percursos até agora apresentados seguem um denominador comum que é o de terem as linhas de água (rios ou ribeiros) como  orientadores gerais do trajecto. Caminhos antigos, velhos moinhos, velhas quintas abandonadas, levadas, cascatas de água escondidas e muito mais podemos encontrar nestes percursos. Uma aventura que vale muito pena e que está ao alcance de uma simples inscrição ao que se segue o descarregar do trajeto para o nosso smartphone ou GPS e  já está... ou, então, sigam simplesmente as fitas sinalizadoras. Em minha opinião terá sido um dos programas recentes na vertente de turismo de aventura e natureza mais bem conseguidos do concelho.

Resumidamente o nome "da terra ao mar" surge, segundo a página de facebook da organização, da alusão à neblina que frequentemente se forma no vale de Mansores resultado dos processos físicos de evaporação e condensação da água do Arda dando origem ao "Mar de Mansores". Conheço uma outra teoria que diz que o mar de Mansores nasce na história das varinas de Ovar que vinham Arouca vender o seu peixe, em cestas e a pé, e que aquando do regresso e algum do peixe sobrava e já em mau estado para consumo,  deitavam-no fora ali pelos lados de Mansores. Começaram a surgir algumas " sardinhas" no meio dos campos verdes o que só se justificaria pela existência de um mar : "o mar de Mansores". 

Histórias à parte o percurso está muito bem conseguido e acessível a qualquer aventureiro seja em ritmo de passeio ou desporto. São 14 km de pura descoberta. Infelizmente durante o percurso na zona junto ao rio Arda, é possível verificarmos a quantidade de plantas invasores nomeadamente as "mimosas" que ganham terreno e dominam a flora . Algo a considerar em planos futuros de conservação e preservação da biodiversidade. Mas, no geral, a maioria do percurso apresenta ribeiros e terrenos com galerias ripícolas ainda intactas e preservadas. Um percurso onde não nos safamos de andar dentro de água e por exemplo passarmos por baixo da EN326, só para deixar aqui duas curiosidades. 

Aos organizadores parabéns, a todos os outros deixo a sugestão:  aventurem-se

11 de dezembro de 2018

Melhor Atração de Turismo Aventura do Mundo!!!

Ainda a comemorar a entrega do prémio de melhor atração de Turismo Aventura do Mundo ao Município de Arouca com o projeto “Passadiços do Paiva”, que considero relevante para a continuidade da estratégia política deste e do anterior executivo, focado essencialmente no Turismo e no desenvolvimento do setor terciário, não consigo evitar que dúvidas ou incertezas assombrem este orgulho que sinto enquanto arouquense. Dúvidas essas que se me colocam acerca da preservação ambiental, designadamente do ecossistema, flora e fauna existentes no rio Paiva e que pelo número reduzido de espécimes são consideradas raras ou em risco de extinção, privilegiando de normativas europeias de proteção. Refiro, a título de exemplo, as lontras, as toupeiras-de-água, as borboletas, algumas aves, peixes e a vegetação ripícola, onde se salientam bosques com amieiros, freixos e carvalhos alvarinho. Apesar de menos referenciada pelo reduzido número de avistamentos, é também de salientar a presença da águia de asa redonda que imponente voa e plana no rio Paiva, de montante a jusante, e vice-versa, presença que estará na origem do nome da Cascata das Aguieiras, por ser conhecida como local onde as águias nidificavam. Será pacífica a coexistência entre este projeto de grande afluência de turistas e a preservação destes ecossistemas???


Sem querer tirar o mérito aos Passadiços do Paiva que têm como objetivo tornar acessível à população as margens do Rio Paiva, para fruição da beleza paisagística e para educação e sensibilização ambiental, passados 3 anos, penso ser altura de passar do “Verbo” à “Ação” e implementar mais medidas que protejam de facto este património natural de valor incalculável: limitar mais o número de visitantes por dia; criar alternativas à circulação automóvel poluente utilizando veículos elétricos para transbordo entre pontos de acesso; melhorar a planificação e gestão dos resíduos; garantir que os esgotos provenientes das populações e lugares ribeirinhos sejam alvo de tratamento em ETARs, eliminando as tradicionais fossas ou o esvaziamento através de cisternas; melhorar a segurança rodoviária em estradas perigosas pela sinuosidade que apresentam; aumentar e enquadrar paisagisticamente o número de parques de estacionamento que, na minha opinião, deveriam ser pagos; melhorar estruturas de acolhimento - maior número de WC e já agora substituir os WC em contentores na praia fluvial do Vau; realizar obras nos esquipamentos das praias fluviais do Areinho e Paradinha e dotá-los de painéis solares capazes de forma a evitar o recurso a geradores; procurar garantir a colocação de rails de proteção na estrada que serve o lugar da Paradinha, à semelhança dos rails colocados para acesso ao lugar de Meitriz, etc.

Estas são apenas algumas das muitas intervenções que serão necessárias realizar a médio prazo, para que o nosso património natural seja “preservado” e sofra o menor impacto possível e para que as expectativas colocadas nos Passadiços do Paiva e, para o ano, na maior ponte pedonal suspensa do mundo, não sejam defraudadas, sob pena dos holofotes dos media se virarem contra nós.

Os prémios acarretam responsabilidade e compromisso e, havendo clareza de visão, discernimento e juízo crítico, não é necessário ser adivinho para antever onde serão aplicados os orçamentos municipais dos próximos anos. Enquanto arouquense, espero que o dinheiro público investido seja utilizado de forma criteriosa, equilibrada e que vise o desenvolvimento de uma solução sustentável.

Sem querer alongar este meu artigo que já vai extenso, acrescento que é premente angariar financiamento comunitário quer para a ponte pedonal suspensa, quer para a ligação desta junto à Cascata das Aguieiras à aldeia de Alvarenga, atravessando os lugares da Chieira em direção à Ribeira, Miudal ou Santo António.

Também esta ligação deverá ser planificada em respeito pelas características rurais, preservando-se caminhos, regos de água, muros, fontes e fontanários que tão bem caracteriza Alvarenga e que é um elemento cultural diferenciador a respeitar.

Enquanto alvarenguense, espero igualmente que as tão almejadas obras na Quinta da Picota sejam uma realidade a curto prazo e não se tornem promessas vãs nem ideias que não saem do papel, hasteadas como bandeiras de campanha eleitoral, como a malograda 2.ª fase da Variante de Arouca, a “marinar” há mais de 12 anos.

A par com os investimentos no Turismo em Alvarenga, sugiro que se diversifique ainda a oferta com a criação de um percurso pedestre de índole cultural e histórico, aproveitando a ligação da ponte pedonal suspensa à aldeia de Alvarenga, iniciando na Chieira, atravessando a Vila, o Passal, o Paço, Quintela, Ribeira, Trancoso, Casais, Picota e terminando em Miudal ou em Santo António. Neste percurso cultural e histórico, poder-se-ia (re)visitar a história de Arouca/Alvarenga (e à sua semelhança a história nacional), abarcando pelo menos onze séculos de história (X-XXI), abordando temas como as antigas “vila” romanas, a Reconquista Cristã, a proeminência da família de Egas Moniz – o Aio, preceptor de Afonso Henriques, a atribuição das cartas de foral manuelinas, que fez de Alvarenga concelho, o que se manteve até ao séc. XIX, as Ordenanças de Alvarenga, as invasões francesas, a exploração mineira de volfrâmio tendo no lugar da Chieira ocorrido a 1.ª concessão mineira em 1911, a separadora do volfrâmio da Espinheira sita no lugar da Vila, onde hoje está instalado o Hotel Quinta da Vila, o Motim de 1942 e o contrabando de minério por altura da II Guerra Mundial, a emigração para o Brasil, com especial atenção para a figura de Adriano Telles, fundador do café A Brasileira, o poder e a influência de famílias de Alvarenga junto do governo central, designadamente dos Galvão, dos Telles e dos Noronhas, a construção do rego do Boi, que atravessa desde a Serra todo o vale de Alvarenga, desaguando na Cascata das Aguieiras, etc.

Para terminar (mesmo!) há que festejar e ter orgulho em Arouca e nos Passadiços do Paiva – e futura ponte pedonal suspensa – acreditar na boa gestão local e acompanhar, sempre atentos, o desenvolvimento das políticas locais, numa atitude de cidadania participativa, consciente e responsável porque, como vemos, há muito trabalho a fazer e um mar de oportunidades a rentabilizar!

4 de dezembro de 2018

A Pensar Alto... Os PRs. Percursos de Arouca

Naquela manhã Adriano integrava pela primeira vez um grupo de caminheiros em busca do cansaço físico que as semanas sedentárias fazem pensar que não existe. Viu, já nem se lembra onde, o anúncio desta saída e como há muito tempo já não calcava estas terras, serviu lhe isso de pretexto e desculpa, e cá ia ele. A inscrição não tinha tido dificuldades e manhã bem cedo despediu se dos miúdos e da mulher, atarefada com imensas coisas, meteu-se no carro e com ar de filho pródigo, rapidamente passou aquela distância que tem alturas demora tanto, e deu de caras com o local de partida que tão bem conhecia e que ao aproximar se, fez muitas recordações aproximarem-se também. Ali para os lados de Moldes, uma bela freguesia do nosso Concelho, Arouca, que desta maneira ele podia visitar e revisitar como era o caso. Já não vinha por estas bandas desde o casamento daquele primo com quem brincara em criança e que tanto insistira tê-lo presente. Teve que vir pois a vida não andava nada fácil e pensou que o alento dos ares de infância desse uma ajuda. E deu. Agora, tempos depois, cá estava de novo. Fazer o PR, nome de um percurso a pé, por caminhos antigos e dificuldades quase esquecidas. Já ouvira falar muito dos Passadiços do Paiva mas pela distância ficou se desta vez por este percurso, menos falado mas quem sabe a merecer os mesmos elogios. Numa tentativa de não deixar morrer e valorizar a região tentando que as recordações, o sacrifício pelo esforço, a busca incessante de novas sensações e a teimosia de muitos habitantes colaborassem em conjunto, a Câmara fazia a divulgação de um passeio-aventura, através de um percurso, agora chamam-lhe assim, sinalizado de longe em longe com pequenas placas e risquinhas as cores, com vários guias que não deixavam ninguém perder-se pelo caminho e até com oferta de garrafas de água e um mata bicho à moda antiga. E lá ia ele pelo PR número tal e coisa, não se lembrava bem do número, misturado com novos turistas curiosos, caminheiros quase profissionais, amantes da natureza esforçados em recuperar velhos lugares, saudosos das gentes e dos lugares que não regressam, e alguns como ele num roteiro de lembranças, a calcar caminhos muito antigos que muitas histórias teriam para contar. Já tinham sido as artérias de uma economia agrícola que se espalhava por todo o Concelho e assentava em pequenos transportes de pessoas e mercadorias em carros de bois, fosse o mato que vinha do monte, o bagaço que iria no alambique transformar se em aguardente, doce e forte, e até o estrume que o gado levava do seu próprio curral para fertilizar as pequenas leirotas todas muito aproveitadinhas. E os turistas sem saberem de nada disto, preocupados em aproveitar o ar puro, dar uma espreitadela pelas paisagens, lindas de perder o fôlego, ouvir a música ondulante de mais que um rio, ou se possível rever algum costume já abandonado. E sempre a caminhar, como se fossem a fugir de algum lobo que estivesse à espreita destes tão variados capuchinhos. Por estas razões ou outras o grupo era numeroso, as conversas tinham um espaço pequeno mas lá apareciam para passar o tempo, e todos iam cansados mas felizes. E queriam era mais percursos, mais caminhadas, como se fosse possível estes momentos serem o melhor remédio, se calhar são, para mais uma temporada de stress, competições, correrias, zangas, apitadelas, reclamações, faltas de tempo, angústias pelo futuro e muitas mais questões que são agora o dia a dia da maioria. A busca da felicidade, numa tentativa em alguns casos, de recuperar ao mesmo tempo a agilidade passada. As horas foram por isso ligeiras, de repente estavam todos de novo no já familiar local de partida, uns tiravam fotos, outros davam se os parabéns por esta conquista de lutar contra o seu descanso, outros trocavam até números de telefone e combinavam mais e mais saídas numa sofreguidão de quem quer abranger o céu com as pernas. Que bela ideia esta de recuperar os velhos caminhos. Que belo percurso este. Todos a aproveitar os PRs. A nossa terra tem para aí uma dúzia deles, e segundo por lá ouviu, nenhum é igual ao outro, os motivos da visita são sempre diferentes, mas os olhos ficam sempre esbugalhados. Adriano para tudo olhou, recordou o tempo das botas enlameadas, das escorregadelas naquelas pedras tão incertas, do resfolegar dos touros e da vara que lhes dava força, dos cantos que se ouviam ao longe misturados com o ruído cantante do carro de bois. Imaginou os moinhos e viu a brancura da farinha a aparecer nas mós tão redondas. Num repente sentiu o tempo andar para trás, soltou uma lágrima de saudade que lhe fugiu sem contar, logo envergonhado se despediu e continuou a sua vida. Apesar de tudo tinha sorte e continuava a ser feliz. Tinha pessoas que muito amava à sua espera. Mas antes de partir ainda tomou mais uma providência, queria fazer outros PR. Arouca não tinha só os Passadiços. Diferentes mas elegantemente belos os percursos podem ser concorrentes de peso. Arouca pode esperar por ele de novo, agora com toda a família e vai falar com os amigos. Foi embora como todos os outros, mais preparado para a rudeza da vida, alma cheia. Arouca tem sempre novas surpresas. Que sorte ter vindo!