18 de outubro de 2020

Não há concessão que sempre dure, nem mal que nunca acabe, mas…

Volvidos apenas cinco anos da concessão dos serviços de abastecimento de água e saneamento por parte do Município de Arouca à actualmente denominada Águas do Norte, está cada vez mais evidente uma “ruptura” carecida de reparação ou substituição. No entanto, é preciso alguma prudência, não vá a emenda revelar-se pior do que o soneto.

A escassez de investimento na expansão das redes de água e saneamento, mas, principalmente o evidente aumento do tarifário resultante da convergência ocorrida nestes primeiros anos de concessão, têm gerado compreensível insatisfação na população arouquense - que se tem movimentado e indignado -, o que levou já o Município a desenvolver algumas diligências com vista ao reforço do investimento e à revisão do tarifário, sem, contudo, lograr ainda os resultados desejados.

Mas a gota d’água que fez transbordar o tema e evidenciar ainda mais o problema, deu-se com a recente divulgação por empresa concorrente de um ranking dos preços da água e saneamento praticados no distrito de Aveiro, onde o concelho de Arouca aparece em primeiro lugar, com os preços mais elevados.

Poucos dias volvidos, a Câmara Municipal de Arouca tomou a decisão de avaliar e verificar se os pressupostos e objectivos que suportaram a decisão de aderir ao “Sistema de Águas da Região do Noroeste” estão a ser cumpridos, para, em última análise, rever ou até mesmo desvincular-se da participação naquele sistema multimunicipal, conforme a opção que melhor sirva os interesses dos arouquenses.

Contudo, pelo menos para já, não valerá muito a pena acenar com a bandeira da desvinculação, – pese embora a proposta de Orçamento do Estado para 2021 até preveja, pela primeira vez, financiamento específico para o resgaste de concessões deste tipo -, uma vez que, neste caso concreto, a possibilidade de resgate contratual está ainda longe de se verificar.

Mas, se fosse possível: estaria hoje o Município de Arouca à altura de suportar os custos do resgate dessa concessão e, depois, assegurar a criação e funcionamento de novos Serviços Municipais de Água e Saneamento com maior vantagem para os munícipes?

Certo, certo, é que a concessão terá de manter-se ainda por mais alguns anos e - quando estamos precisamente a um ano de novas eleições autárquicas -, está também identificado um dos principais temas de arremesso politico. No entanto, é bom lembrar que o tema “molha” a todos ou quase todos, principalmente aos que, a seu tempo, apoiaram a concessão daqueles serviços, dos quais se reclama agora menos politiquice e mais acção, que se reflicta na factura mensal dos arouquenses.

17 de outubro de 2020

O complexo mundo da água


A polémica do preço da água que se faz refletir na fatura da mesma tem causado bastante alarido nos último tempos, tendo levado o município de Arouca a emitir este comunicado a dizer que vai contratar uma consultora independente para "avaliar e decidir" o estado em que que se encontra a coisa.

O facto de o município ter que recorrer a uma entidade externa para fazer esta avaliação no imediato pareceu-me um pouco estranho mas depois lembrei-me da monstruosa complexidade e esquema enredado que é o sistema de distribuição de aguas e saneamento no nosso país... o povo com a sua sabedoria diz que algo que nasce mal, tarde ou nunca se endireita!

Correndo o risco de cometer erros e só assim de forma muito superficial, temos um gigantesco grupo que são as águas de Portugal, com várias empresas públicas suas participadas. Temos empresas municipais, multimunicipais, sistemas de águas da região, uns exploram e gerem a água em alta (do ponto de recolha até aos municípios) num lado e em baixa (até ao consumidor) noutro. Uns que gerem em alta fornecem os que gerem em baixa mas pertencem ao mesmo grupo outros são de grupos diferentes. Uns gerem todo o processo (alta e baixa) da exploração e gestão outros não. As águas do norte gerem o sistema multimunicipal de noroeste (mas os concelhos não são do noroeste) mas também o norte transmontano.

A associar a isto tudo ainda temos empresas que gerem água e saneamento (que também é em alta e em baixa) , outras que só gerem água e outras só saneamento. Ainda temos que introduzir os resíduos sólidos aqui. Particularizando no caso de Arouca as águas do norte gerem o sistema multimunicipal de água e saneamento do noroeste composto por cinco municípios (Amarante; Arouca; Baião; Celorico de Basto; Cinfães) municípios de baixa densidade e grande área e ainda somente o saneamento de mais três (Fafe; Santo Tirso; Trofa) municípios de maior densidade populacional. 

O "fornecedor" das águas do Norte para a "região do noroeste" na qual nos incluímos são as aguas do Douro e Paiva, mas o fornecedor das águas do norte para o sistema multimunicipal do Norte são as águas do interior Norte (desde Novembro de 2019). O sistema multimunicipal do norte tem um muito maior número de municípios abrangidos que o do noroeste, seria interessante perceber a (s) tarifas cobradas em ambos os sistemas. 

O preço da água em alta é o mesmo? É sustentável um sistema com 5 municípios de baixa densidade populacional e grande área? Os investimentos acordados e as taxas de cobertura estão a ser cumpridos? 

Em última análise quem paga esses investimentos que terão um retorno muito menor em meios de baixa densidade e grande área que num meio urbano? Porque é que os e municípios mais populosos e densamente povoados só pertencem ao saneamento? Como se equilibram as contas? À custa dos cidadãos? 

Mas... já vai longo o texto e continuo sem conclusões... Aguardemos pela consultora externa.

14 de outubro de 2020

O complexo mineiro de Regoufe e o meio ambiente envolvente

Um pouco sem querer há uns dias atrás encontrei o seguinte trabalho de pesquisa  - Avaliação do impacto ambiental das minas de volfrâmio de Regoufe – Arouca - um trabalho de Sara Cristina Silva e Sousa resultando numa tese apresentada à Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Engenharia Geológica. 

Deste completíssimo e interessante trabalho algumas das conclusões gerais são as seguintes:


  • "A área mineira de Regoufe, pertencente ao conjunto de minas abandonadas do país, apresenta vários problemas que afectam negativamente o ambiente e a segurança de pessoas e bens. De destacar são a degradação avançada das infraestruturas e a falta de segurança com elas associadas, passando pelas escombreiras indevidamente depositadas a céu-aberto, o que origina a dispersão dos contaminantes para as zonas circundantes."
  • "O cálculo do Índice de contaminação (IC) dos solos, evidenciou que 63% das amostras apresentam valores acima dos níveis de fundo geoquímico da região (IC>1). De destacar que 7 das amostras de solos com forte influência dos materiais de escombreira apresentaram valores de IC>11."
Relembro que este complexo mineiro, conhecido como de Regoufe ou Poça da Cadela, explorado durante muitos anos por companhia mineira mandatada por Inglaterra, encontra-se hoje em avançado estado de degradação e abandono.
 
Para uma leitura mais profundo da tese pode consultar aqui

(foto Susana Luzir)


10 de outubro de 2020

Eis senão quando… morre-me o professor!

Brevemente, o ensino oficial primário na freguesia de Rossas completa 120 anos. Dá-nos esta notícia, ainda que de forma genérica e carecida de pesquisa, António de Almeida Brandão, nas suas "Memórias de Um Arouquense".

Diz-nos então aquele nosso conterrâneo que: «Data dos primórdios deste século (XX) o auspicioso momento em que foi dado início ao combate ao analfabetismo, nesta freguesia, pela nomeação do primeiro professor oficial, destinado a reger uma escola de ensino básico, como agora se diz, ou seja, uma escola primária. O seu nome era António Rodrigues Rapinaldo Godinho, veio dos lados de Ovar com a família, instalou-se na Casa do Outeiro, na qual também foi instalada a respectiva escola, na sala principal.»

Não fosse esta referência e ter-se-ia perdido, certamente, um facto importante - talvez o mais importante até -, para a história do ensino oficial primário na freguesia de Rossas. Com efeito, nas coisas da freguesia e que sobre ela se escreveram, apenas encontrei outra referência muito despercebida num assento, de 18 de Maio de 1905, onde, na sua qualidade de «professor oficial desta freguesia», aparece a testemunhar o elegante casamento de Feliciano Ferreira de Vasconcelos, da Comenda, com Ana de Pinho Tavares, do Paço. Nada mais!

Foi já por alguma felicidade que, volvido algum tempo, encontrei num periódico da sua terra natal, uma pequeníssima, mas promissora, referência, na edição de 7 de Setembro de 1902: «Em gozo de férias, encontra-se em sua casa de Cimo de Villa, o digno professor oficial da freguesia de Rossas (Arouca) snr. António Rodrigues Repinaldo Godinho.» E depois outra, na edição de 12 de Outubro do mesmo ano: «Já regressou à freguesia de Rossas, do concelho d'Arouca, onde é digno professor oficial, o snr. António Rodrigues Repinaldo Godinho». Outra, na edição de 4 de Outubro de 1903: «Afim d'exercer o seu mister, partiu na quarta-feira para Rossas (Arouca), o snr. António Rodrigues Repinaldo Godinho, hábil professor primário n'aquela localidade». E mais uma, na edição de 17 de Abril do ano seguinte: «Retirou terça-feira para Rossas (Arouca) onde é hábil professor primário, o snr. António Rodrigues Repinaldo Godinho, que aqui veio passar as férias.»

Inevitável se tornava já não imaginar e idealizar tão digna e hábil personalidade. O primeiro professor do ensino oficial em Rossas. Certamente um homem de meia-idade, de porte e postura respeitável, que por ali se terá mantido largos anos... E esta curiosidade, mas principalmente o desejo de encontrar a referência à sua nomeação para Rossas, que tão só significa a data em que se estabeleceu o ensino oficial primário na freguesia, fez-me queimar ainda muitas pestanas, iniciar a folhar o Diário do Governo até, mas, eis senão quando... uma notícia absolutamente inesperada:

«Na quinta-feira à tarde, na ocasião em que tomava banho no ribeiro do Salgueiral, foi acommettido d'uma congestão cerebral, que o victimou instantes depois, o snr. António Rodrigues Repinaldo Godinho, de Cimo de Villa. O pobre rapaz, que era um hábil professor primário, tendo sido um mez antes transferido da escola oficial de Rossas (Arouca) onde, pela sua aplicação e bom methodo d'ensino conquistára o agrado das famílias e as sympathias da povoação (...) Modesto e ilustrado, o extincto tinha a exornar-lhe sua bella alma predicados muito apreciáveis, pelo que era geralmente estimado na sua aldeia. (...)»

Assim, de chofre! Na edição de 16 de Julho de 1905 daquele periódico ovarense, onde antes recolhera boas e promissoras notas. Precisamente um mês depois de ainda se encontrar em Rossas a testemunhar aquele casamento, certamente na companhia de sua novel esposa, com a qual casara não havia ainda dois anos, e seus filhos menores. E assim também, de rompante, um facto com dados suficientes a facilitar a pesquisa dos respetivos assentos e concluir a biografia do primeiro professor oficial de Rossas. Afinal, um jovem rapaz, que por cá esteve não muito tempo, mas que marca o começo do ensino oficial primário na freguesia.

António Rodrigues Repinaldo Godinho, era natural da freguesia e concelho de Ovar, onde nasceu em 15 de Março de 1881 e faleceu em 13 de Julho de 1905, com apenas 24 anos.

5 de outubro de 2020

Parque Florestal de Arouca

Arouca, a sua área, é maioritariamente agrícola e florestal.

Apesar do peso que estas duas actividades têm na produção de riqueza no nosso concelho não terem o fulgor de outros tempos continuam ainda centenas ou mesmo milhares de Arouquenses directa ou indirectamente a terem uma relação muito estreita com a floresta e com agricultura quer seja como sua principal actividade laboral, quer seja como actividade complementar ou de subsistência quer seja ainda uma ligação à floresta de cariz ambiental e de proteção dos nossos ecossistemas ambientais.

Arouca, à semelhança do resto do país, não tem tido a sorte de ficar à margem dos incêndios que destruíram e queimaram uma grande parte do território nacional. Nos últimos grandes incêndios de 2016 e 2017 terá ardido 65 a 75 % do território florestal do concelho!

A pergunta que se deve e tem de colocar, agora que passaram pelo menos 4 anos será: 

O que de novo, de bom, diferente ou inovador foi feito?

O reordenamento florestal foi assumido como uma das principais prioridades, ou mesmo como a principal prioridade para o nosso concelho.

Já algumas medidas foram anunciadas no âmbito da proteção da floresta sendo que a mais mediática terá sido a corredor florestal da estrada Arouca- Alvarenga, medida que não consegui perceber muito bem em que fase se encontra

Uma grande parte dos montes e encostas que circundam a Norte e Este o perímetro urbano da vila de Arouca são propriedade e geridos a saber por:

Comissão de Baldios Moldes 

Camarários 

Comissão de Baldios de Arouca 

Privados (a mais pequena parcela)

E porque não começar por aqui? E porque não começar por dar o exemplo? 

Porque não criar uma grande mancha de floresta concelhia à base de espécies autóctones e folhosas? Um projecto de arquitetura paisagista acima de tudo exemplar “de como deve ser feita” a recuperação da nossa floresta

A totalidade desta área perfaz um total aproximado de 1500 ha hectares de monte e floresta. 

Estou convicto que tanto da parte da a autarquia como das comissões de baldios deveria ser possível um entendimento fácil e conjunto para este propósito. Estas entidades, que deverão liderar no que toca ao exemplo, não terão como principal factor de decisão de reflorestação o lucro que advém da floresta e devem sim guiar as suas decisões de gestão ambiental por princípios de sustentabilidade. 

A “pressão” de ter que reflorestar com espécies de crescimento rápido, à qual à cabeça surge o eucalipto, para daí tirarem rendimentos do corte e abate dos mesmos a curto prazo, advindo daí enormes manchas florestais que funcionam como barris de pólvora com os resultados que infelizmente se conhecem não deverá influir no que toca à gestão destes territórios.

Deverá a autarquia e as comissões de baldios em conjunto mostrarem como se deve” bem fazer e bem reflorestar” e assumir a liderança no que toca uma nova forma de pensar a floresta por parte dos privados que detêm quase 90 % do território florestal do país.

Acho que nada disto está a ser feito. Existe ainda no monte alguma madeira queimada e por retirar do incêndio de 2016!

Senão for pelas razões já atrás descritas, que por si só deveriam ser suficientes, para elaborar e avançar para um projecto desta envergadura enumero mais algumas como fortes factores de decisão:

Mancha florestal que serviria como barreia de proteção do avanço de fogos entre a zona Sul e Norte do concelho

Mancha Florestal Autóctone com potencial turístico enorme

o Caminhos Florestais

o Percursos pedestres

o Circuitos de manutenção

o Percursos de BTT

o Manutenção e Regeneração de fauna residente

o Embelezamento paisagístico

o Diversidade florestal

A elaboração de um projecto desta índole fará todo sentido se for a complementado com uma correta ordenação e fiscalização do território florestal para que não surjam novamente por todo o concelho plantações de eucaliptos e outras espécies vegetais exóticas em zonas onde anteriormente não existiam, que é infelizmente o que se tem vindo a verificar.

3 de outubro de 2020

5 de Outubro – uma data esquecida em Arouca

 

O 5 de Outubro, que nos recorda a data em que se proclamou e implantou a (Primeira) República, pondo fim a mais de sete séculos de Monarquia, mas que também desta, por coincidência, nos recorda a data do "seu começo", pela assinatura do Tratado de Zamora em que Afonso VII de Leão e Castela reconheceu Portugal como reino independente, sendo por isso uma data histórica duplamente significativa, parece nada dizer à vila de Arouca, que sobre aquela também nada nos tem a contar.

Com efeito, ao contrário dos brasões monárquicos que se conservam - e muito bem! - nas fachadas dos antigos e atuais Paços do Concelho, não se ostenta hoje em lado algum, a não ser nas bandeiras, o brasão da República, e não há na nossa vila uma praça, avenida, rua, travessa, viela, beco ou cantinho, que assinale a sua implantação, afirmando e perpetuando a sua relevância histórica. Nem 5 de Outubro nem República! O que é mesmo um caso raro na toponímia das vilas e cidades do nosso país.

É verdade que já houve, mas há muito deixou de existir e nunca mais se recuperou. Com a implantação do regime republicano em Portugal a principal rua da vila passou a denominar-se Rua 5 de Outubro, tendo passado, mais tarde, a denominar-se Avenida da República. Porém, fruto de circunstâncias d’época, alterou-se depois para Avenida Dr. Oliveira Salazar, posteriormente para Avenida Movimento das Forças Armadas, a seguir para Avenida das Descobertas e, finalmente, para Avenida 25 de Abril. A atual Praça do Município, depois de Praça Arantes de Oliveira, chegou também a denominar-se Largo 5 de Outubro.

De tantas denominações e se lhe souber o histórico - impossível de elencar na respetiva placa toponímica -, pode até dizer-se que em Arouca existe a avenida dos regimes, por excelência. Se bem que, atento o que é referido no preâmbulo do Regulamento Municipal de Toponímia, à luz d’hoje, nenhuma daquelas alterações se rodeou de qualquer cuidado específico ou pautou por critérios de rigor, coerência, isenção e seriedade. Apenas se impuseram sucessivamente umas em prejuízo das outras.

Porém, como é evidente, não é igual a relevância histórica de todos os acontecimentos ou circunstâncias políticas subjacentes àquelas denominações. Não faz até qualquer sentido que existam hoje algumas delas nem que coexistam a maior parte. Mas, faria todo o sentido recuperar e atribuir a denominação "5 de Outubro" ou "República" a uma das artérias ou espaços da nossa vila, onde até a memória do indigente Evaristo tem direito a um Cantinho.

2 de outubro de 2020

Os Arouquenses e as instituições de Arouca deviam estar sempre atentos ao Orçamento Anual do Estado...

A 12 de Outubro, o Orçamento chegará à Assembleia da República. Os Arouquenses e as instituições de Arouca deviam estar sempre atentos ao Orçamento Anual do Estado...E, facilmente, chegavam à conclusão que era perfeitamente possível, no futuro imediato, haver, logo, fundos para construir a 3ª e a 4ª etapas da Variante à EN326 de Arouca...
Infelizmente, o Orçamento do Estado Português (que costuma ser ultra-centralista e de ter falhas de transparência) é elaborado, discutido e aprovado a cerca de 318 Km da Vila de Arouca, de um modo muito pouco ético e que não é próprio de países avançados de Primeiro Mundo, como descreve o Professor Paulo de Morais, presidente da 'Frente Cívica':
não há uma coerência, entre o que está no Orçamento e o discurso público. Porque, muitas vezes, fala-se num conjunto de números no discurso público, e depois, no Orçamento, os números que aparecem são outros. Aliás, é uma angústia que sempre tenho! O Orçamento aparece com um Relatório que tem trezentas e tal páginas -deve haver vinte ou trinta pessoas em Portugal que lê aquilo, e eu sou uma delas. O que é facto é que, entre aquilo que se discute, e que aquilo que, efetivamente, se resolve no Orçamento, não há coerência, porque quem domina a comunicação, na apresentação do Orçamento, é o ministro das Finanças. É normal que, quando o ministro apresenta o Orçamento, tente enfatizar o que é positivo e esconder o que é menos bom. Eu isso ainda percebo. O que não percebo é que temos um Orçamento de oitenta mil milhões e, normalmente, a discussão é sobre os pormenores e detalhes. Um Orçamento de oitenta mil milhões é discutido no Parlamento pelos vinte milhões, 10 milhões, ou seja, a discussão do Orçamento, no Parlamento, fala apenas de seis por cento do valor do Orçamento, e tem a ver mais com questões fiscais do que orçamentais, isto, quando, por exemplo, a discussão de um orçamento numa empresa é saber qual vai ser a receita e qual vai ser a despesa.
foto: Assembleia da República Portuguesa

Este tipo de situação habitual muito pouco ética no Orçamento, própria de países de Terceiro Mundo, associada ao ultra-centralismo do Orçamento, tem de acabar de vez. Impede, em grande parte, que um pequeno troço de estrada, em Arouca, em plena Área Metropolitana do Porto, ainda esteja por concluir há décadas, cuja despesa corresponde apenas «a uma migalha» do Orçamento. 
Mais do que nunca, o processo de Regionalização é uma das reformas mais urgentes a ser concretizadas para bem de todos os Portugueses e para bem de todo o Portugal. E é tão assim que, muito recentemente, o Conselho da Europa sugeriu relançar o processo de Regionalização, ao considerar que a Democracia regional, em Portugal, está incompleta, como constatam os relatores de avaliação da implementação da Carta Europeia de Autonomia Local. Se a eleição próxima do presidente das CCDR é um acontecimento positivo (desde que não continue a ser mais um delegado do habitual governo ultra-centralista de Lisboa e arredores), a Regionalização de Portugal e a consequente constituição dos governos regionais são imprescindíveis para o bom funcionamento institucional da própria União Europeia e para a aplicação justa, legal, racional e rigorosa dos fundos europeus.
No caso da Região Norte (da Euro-região 'Galiza-Norte de Portugal'), esse facto é ainda mais óbvio, porque a Galiza, por ter um governo regional eleito, tem mais representação e mais capacidade de reivindicação a nível europeu do que a Região Norte, porque essa participação, na Europa, faz-se em dois pólos: autarquias e regiões. Na União Europeia, no Comité da Regiões, a Galiza tem a defendê-la a Junta da Galiza, enquanto que quem defende os interesses da Região Norte de Portugal são os autarcas, que «estão esmagados» pelo ultra-centralismo ultra-parasita de Lisboa e arredores, com o seu já muito antigo governo ultra-centralista.
A Regionalização de Portugal é, portanto, muito urgente e impreterível para o próprio bom funcionamento das instituições europeias, numa altura em que vão ser aplicados, em Portugal, nos próximos anos, dezenas de mil milhões de euros de fundos europeus, mas que têm de ser, como é óbvio, aplicados com ética, legalidade, justiça, rigor e racionalidade, de Norte a Sul de Portugal continental, bem como nos Açores e na Madeira. E não apenas em Lisboa e arredores.

Sobre o assunto, ver, por favor, aqui:
Fundos Comunitários e a transparência na sua aplicação

Portugal ao ser um Estado centralista agrava a despesa pública

27 de setembro de 2020

Voltámos à Escola!

    Mais um ano letivo começou. Mais um ano, que poderia ser igual a tantos outros. Poderia, mas não é. Este é em tudo, ou quase tudo, diferente. Faltam os abraços, os beijos, os apertos de mão, que costumam marcar os reencontros. Falta a proximidade, os sorrisos bem definidos no rosto, que agora quase só se adivinham, faltam as brincadeiras à vontade, os “encontrões” cúmplices dos rapazes e as mãos dadas das meninas pequenas que passeiam pelo recreio, os cochichos ao pé do ouvido, o barulho dos corredores e dos recreios cheios… falta tanta, tanta coisa.

    Sobram as máscaras que escondem o sorriso dos rostos, que escondem também o desagrado que não costumava precisar de palavras para se expressar. Sobra o constante lava, desinfeta, desinfeta e lava, preocupação de que não conseguimos, nem devemos, libertar-nos, por agora. Sobra o espaço que permeia as conversas entre amigos, que sem se poderem aproximar, se fazem silêncio. E o silêncio incomoda. O silêncio acentua os medos, os receios até de respirar, não vá o “maldito vírus” estar por perto e fazer-se hóspede indesejado.

    As nossas crianças e jovens já precisavam deste regresso à escola. Mesmo sendo um regresso tão atípico. Foram muitos os meses de isolamento, de conversas exclusivamente on-line. Só quando somos obrigados ao afastamento conseguimos perceber como a proximidade nos faz tanta falta.

    Tenho jovens em casa e pude testemunhar a sua frustração com a interrupção das aulas presenciais, que significou ausência de uma vida normal, com todas as rotinas quotidianas, que nos fazem sentir vivos. Pude também verificar como os meses de afastamento acentuaram a sensação de receio de estar com os outros, fazendo de seres iminentemente sociais seres com alguma tendência à retração. E isso não deixa também de ser preocupante. Que as nossas crianças e jovens se tornem seres isolados, retraídos, com tendência a fechar-se aos outros e a concentrar-se no seu pequeno mundo. Foi com alegria e muita esperança que os vi sair e retomar, na medida do possível, a sua vida normal em sociedade. Mesmo com todas as restrições que a pandemia impõe.

    A infância e a juventude são estágios preciosos de crescimento e amadurecimento. São um tempo de construção da personalidade. Um tempo irrepetível, que não pode ser retomado e, por isso mesmo, sem contemplações com paragens impostas seja pelo motivo que for. É claro que a saúde física, quer das crianças e jovens, quer das suas famílias e da comunidade em geral, tem de ser protegida. Mas, como mãe e como professora que sou, duplamente atenta a estas questões, não posso deixar de me questionar sobre as suas necessidades sob o ponto de vista da saúde psicológica, mental e espiritual.

    Como professora, estava também eu, com uma necessidade urgente de retomar a minha vida profissional e de relação com alguma normalidade. Os benefícios que os tempos atuais, com todos recursos tecnológicos que se nos oferecem, e dos quais não posso deixar de ser adepta, sob pena de permanecer encarcerada no passado, são indubitavelmente vantajosos. Outras gerações não puderam encarar dificuldades idênticas às que hoje vivemos com a mesma vantagem que hoje possuímos e que nos faz estar, de algum modo, próximos, mesmo à distância. Devemos sentir-nos gratos, sem dúvida. Mas…o que há que se compare com o contacto em presença, seja nas relações de amizade e companheirismo, seja no processo de ensino-aprendizagem? Disso todos nós sentíamos uma saudade que, mesmo com todos os entraves atuais, lá vamos minorando, neste voltar à escola.

    Mas não deixa de ser estranho, tenho de admitir. As nossas salas de aula, nada adaptadas às necessidades de afastamento social impostas pela DGS, que consideramos necessárias e apropriadas mas nos vemos na contingência de não conseguir cumprir na totalidade, oferecem-nos um triste panorama de amálgama de seres mascarados, separados por acrílicos, quando não há possibilidade de separação física, olhitos espreitando os colegas, mãos que se tocam sem se tocarem… Faz-me lembrar pobres funcionários de um call center, “enjaulados” entre vitrines.

    Depois… lá vêm os recreios, as horas do lanche, as crianças que correm para se abraçarem, se tocarem… Aí, sobram os ralhos, os “não podes”, os “larguem-se, olhem o covid”, as carinhas frustradas deles e a nossa sensação de estar a contribuir para uma infância sem o que é primordial.

    “O contacto físico é uma categoria absolutamente essencial na vida humana”, li eu um destes dias, numa afirmação do professor e investigador Carlos Neto. Dizia ele ainda “Brincar é uma excelente forma de conquistar imunidade”. Concordo absolutamente com ele. E espero que tenha mesmo razão. Mesmo assim, não consigo abstrair-me de incessantes dúvidas contraditórias. Estaremos a proteger demasiado as nossas crianças e jovens? Por outro lado, estaremos a protegê-los o suficiente? O vírus está aí. E não dá sinais de querer afastar-se tão cedo. A tão desejada normalidade não parece ser para já. Mais parece uma miragem que quanto mais se caminha mais se afasta.

    São mais as dúvidas do que as certezas. Estamos todos a tentar fazer o nosso melhor. Esperemos que o nosso melhor seja o suficiente. Seja o acertado. Só o futuro nos dará o aval. Não nos resta mais do que caminhar e esperar que o caminho que fazemos nos leve mais ou menos onde desejamos chegar. Não podemos é deter-nos no caminho. Ele faz-se caminhando e o futuro é já ali.

    E, seja como for, é muito bom estar de volta à escola. Só esperamos que nos deixem (o vírus nos deixe) por aqui permanecer, todos juntos, ainda que não totalmente próximos.

26 de setembro de 2020

P’rá história dos anos em que não houve Feira das Colheitas

Pela razão de todos conhecida, foi cancelada a edição deste ano da Feira das Colheitas. É inédita a razão pela qual não se realiza, mas já não o facto de não se realizar. Não se realizou também, pelo menos, em 1968, 1974 e 1975. Razão pela qual também não conta tantas edições como anos.

Desta feita, porém, não está em causa a sua continuidade. É vontade geral dos arouquenses a sua realização. O que também se depreende pelos apontamentos colocados pela Câmara Municipal nos sítios da Feira e pelo simples «Sairás à rua... Feira das Colheitas», com que Laura Bastos "nos ofereceu" esta sua belíssima criação.

Já o mesmo não pode dizer-se de 74-75 e, principalmente, de 68, ano em que se temeu que não voltasse a realizar-se. Nos antecedentes desse ano, a Feira das Colheitas não era ainda a Festa do Concelho. Esse protagonismo era conferido às festividades em honra de São Bartolomeu, que tinham sempre lugar no penúltimo fim-de-semana de Agosto.

Em 1967 resolveu-se juntar as duas realizações num mesmo fim-de-semana. Nos dias 2, 3 e 4 de Setembro realizou-se a denominada "Festa do Concelho e das Colheitas". Porém, sendo salutar a união de esforços e concentração de meios, não foi nada consensual a junção da comemoração do padroeiro da vila com a comemoração das colheitas, principalmente numa altura em que nada dizia a uma ou outra.

No ano seguinte, realizaram-se os grandes festejos em honra de São Bartolomeu, mas já não a Feira das Colheitas. Com efeito, «não se realizando a Feira das Colheitas e não considerando o Grémio da Lavoura viável a reunião das duas, as denominadas Festas do Concelho não podiam deixar de vir para a rua», numa organização assumida pela Câmara Municipal.

Contudo, logo nesse ano, ficou a garantia: «Os tempos não correm propícios para a realização das grandes festas, sobretudo nas condições das de Arouca - uma logo a seguir à outra - mas julgamos saber que, já no próximo ano, o Grémio da Lavoura realizará a Feira na época própria e independentemente de qualquer outra.» E assim aconteceu, nos dias 27, 28 e 29 de Setembro, do ano seguinte, em prejuízo - é justo dizer-se - dos festejos em honra de São Bartolomeu.

A segunda vez em que a Feira das Colheitas não se realizou - agora por dois anos - foi já no pós-revolução de Abril. Como é sabido o Grémio da Lavoura tinha uma determinada conotação política e, por isso, logo se sentenciou com a revolução, cujos protagonistas locais não se sentiram à vontade para dar continuidade àquela realização naquela rescaldo. Não se realizou em 1974 e 1975.

Em Agosto de 1976, com o intuito de recuperar o certame, surge a notícia da realização de um Grande Concurso Pecuário ou Feira das Colheitas, agora sob a égide da Cooperativa Agrícola de Arouca. Prevaleceu a antiga denominação de Feira das Colheitas, que se mantém até hoje, agora sob responsabilidade exclusiva da Câmara Municipal.

25 de setembro de 2020

O primeiro estádio do Futebol Clube de Arouca foi inaugurado há 49 anos atrás...

O primeiro estádio do Futebol Clube de Arouca, localizado na zona das Costeiras, nas imediações da vila de Arouca e perto de Moldes, foi inaugurado a 26 de Setembro de 1971 (da era comum), com o Futebol Clube do Porto. Faz, nesta altura, 49 anos. O presidente do Futebol Clube do Porto era o banqueiro, empresário e mecenas arouquense Afonso Pinto de Magalhães, presidente honorário do Futebol Clube de Arouca, que também "deu o nome" ao campo de futebol.

Como a Wikipédia descreve, de modo factual e objectivo: "A história do Futebol Clube de Arouca está muito ligada ao Futebol Clube do Porto, tendo sido a filial n.º 40 do Futebol Clube do Porto, o que é também um reflexo e um indicador da forte ligação sócio-económica, que sempre existiu, dos arouquenses com o espaço urbano do Porto, para além da proximidade territorial, visto que a fronteira de São Miguel do Mato (Arouca) com Gondomar dista cerca de 20 km da cidade do Porto.

E estes são e serão os meus dois clubes, para sempre. Que isso fique bem claro e seja conhecido. Só na idade adulta, de modo consciente, é que decidi mesmo ter um clube. Gosto de futebol. E, mais do que nunca e por variadíssimas e ínumeras razões, sou e serei sempre adepto do Futebol Clube do Porto e do Futebol Clube de Arouca. E, no futuro, também pretendo ser sócio destes dois clubes do coração. Que são os clubes dos lugares que mais amo no Mundo: Arouca e o Porto, que são e serão os meus lugares endógenos e naturais de sempre e para sempre, com A Protecção Divina de HaShem, Bendito Seja O Seu Nome Sagrado. No caso específico do Futebol Clube do Porto, é um dos grandes clubes (a nível europeu e a nível mundial) do qual já sou um adepto convicto há cerca de 12 anos, sediado naquela que é, indiscutivelmente, a melhor cidade de Portugal: o Porto, que é, para além da minha querida Arouca natal, a cidade que mais amo no Mundo, a par de Jerusalém - Israel. Para além disso, o azul (que é a cor estrutural do F.C. do Porto e que também está presente na identidade do F.C. de Arouca) sempre foi a minha cor preferida.

Neste pequeno vídeo (cuja versão completa pertence à família 'Pinto de Magalhães'), muito carismático e com forte identidade histórica, pode-se ver a inauguração do primeiro estádio do Futebol Clube de Arouca, ao jogar com o Futebol Clube do Porto, do qual é a filial nº40. Neste pequeno vídeo, uma forte componente identitária de nós, Arouquenses, está bem viva e é, portanto, muito actual:


E é de tal modo assim que, passado 35 anos, em 2006 (da era comum), o novo e actual estádio do Futebol Clube de Arouca, agora localizado na vila de Arouca, também foi inaugurado com a realização de um jogo com o Futebol Clube do Porto. 
De facto, o núcleo identitário de Arouca permanece, ao longo dos tempos, conscientemente ou de modo mais espontâneo...Mas permanece. E ainda bem que permanece. A forte identidade própria é e será, como sempre foi, um dos elementos mais valiosos de Arouca e dos Arouquenses.

20 de setembro de 2020

Relato do prof. Fernando Miranda sobre as verdadeiras origens e objectivos da Feira das Colheitas

Este ano, por razões óbvias, não pode mesmo ocorrer aquele que é, indiscutivelmente, o evento mais relevante de Arouca e dos Arouquenses: a Feira das Colheitas...Este evento (que, no ano de 1944, não surgiu de qualquer política central do Estado Português) foi idealizado, fundado, organizado e promovido durante décadas, por António de Almeida Brandão (n.1893-m.1986), a partir do Grémio da Lavoura de Arouca, do qual foi um dos seus fundadores, tendo sido, mais tarde, o fundador e presidente da Cooperativa. 
António de Almeida Brandão, nessa altura, era gerente do Grémio da Lavoura de Arouca (o único cargo que teve remunerado), tendo sido, cerca de dois anos mais tarde, eleito presidente do Grémio...Ao tempo, em 1944, também presidia à Câmara Municipal de Arouca...
Ninguém melhor que o prof. Fernando Miranda (um arouquense ilustre que viveu e acompanhou a Feira das Colheitas desde o seu início) para descrever as verdadeiras origens e objectivos da Feira das Colheitas, bem como o perfil do seu fundador, organizador e promotor:

"(...) Estávamos a caminho do fim da II Guerra Mundial. A lavoura agonizava. Os pardieiros proliferavam. O medo e a inépcia confundiam-se num sentimento de abandono, senão de verdadeiro desespero. Cultivar as terras para quê? Esta a grande e permanente interrogação que pairava no ar e invadia a alma dos que, tendo labutado de sol a sol, durante toda uma vida de sacrificio, de suor e de lágrimas, fazendo, da charrua e da enxada, do albião e da picareta, os inseparáveis instrumentos com que desbravavam e rompiam uma terra cada vez mais madrasta, se viam, agora, entregues a si próprios, sem esperança nem futuro. Foi neste quadro que nasceu a Feira das Colheitas, em Arouca. 
 Era, à altura, gerente do Grémio da Lavoura, o senhor António de Almeida Brandão. 
 Homem conhecedor dos problemas agrícolas, defensor devoto da preservação da natureza, um verdadeiro ecologista, quando ainda nisto se não se falava (!), pessoa de poucas falas e de muito trabalho, dotado de uma invulgar inteligência e senhor de uma vasta cultura, ele escondia todas estas qualidades por detrás de um rosto austero que lhe não suscitava simpatias, como atrás se diz, mas gerava confiança e respeito. Dele dizia meu pai, o mais insuspeito de todos: «é inteligente, é sério, é culto, é trabalhador e devotado às coisas e às causas de Arouca e isso me basta...»
 Volvido mais de meio século sobre a realização da primeira Feira das Colheitas e colocando-nos no tempo em que isso aconteceu, só, de facto, um grande homem, de hercúlea força de vontade, de um estoicismo a toda a prova, de uma extraordinária visão, foi capaz de arriscar, de meter ombros a tão ingente quão delicada tarefa.
 Ingente porque foi indispensável que ele calcorreasse o concelho de lés a lés, fazendo reuniões prévias em cada freguesia e aí instalando comissões encarregadas de proceder ao peditório tendente à angariação de fundos para obviar às despesas da festa e organizar um grupo folclórico que levaria, à Vila, as danças e cantares locais. Delicada, porque a mensagem era dirigida a um auditório desiludido, amorfo, abandonado, envelhecido.
Mas as comissões eram constituídas por pessoas a que, agora, se chamam "líderes de opinião" e esse facto constituía, desde logo, um forte contributo para o sucesso da tarefa. E nem este pormenor escapou a Almeida Brandão. A sua voz, de ansiedade feita, o seu verdadeiro grito de alerta, de revolta incontida, o seu veemente apelo, chegavam, aos lavradores, através da palavra autorizada dos chamados "homens bons" de cada freguesia. Só, assim, poderia encontrar eco o esforço exigido no melhoramento do trato das terras e dos gados e o consequente aumento da produção agrícola e leiteira: a "Melhor Seara", a "Melhor Fruta", a "Melhor Adega", o "Melhor Linho", bem como o "Concurso da Raça Bovina Arouquesa". Só, deste modo, as promessas de prémios, às melhores searas e aos melhores gados, se revestiam de credibilidade.
 É que, D. Dinis, ficava séculos para trás e, da Lei das Sesmarias (D. Fernando -1375), nem uma vírgula restava...
 Arouca, terra essencialmente agrícola, fechada a contactos com o exterior, rica em tradições e cujo povo prima em ser bairrista, não deixou de responder à chamada, em toda a sua extensão e latitude. E, então, deu-se aquilo que refuto não só de salutar e maravilhosa congregação de esforços, mas também do maior e mais profundo acontecimento cultural da história de Arouca. 
 Do fundo das arcas, saltaram maravilhosos bordados e outras relíquias artesanais, que deslumbraram aborígenes e forasteiros, mas também lindos trajes que ali permaneciam à espera de amortalharem as suas ciosas donas. Da memória lúcida da última geração possuidora de tais relíquias, brotaram, em catadupa, música e canções, verdadeiros tratados etnomusicais e as danças, duma beleza coreográfica ímpar. As noites de Setembro daquele ano já longínquo, tornaram-se uma continuada festa. Jovens e velhos e mesmo as crianças aderiram de corpo e alma à novidade. Eram os ensaios dos Ranchos. Era a pedrada no charco. Era o reviver dos velhos tempos. Eram as cantas, as danças, os cantares ao desafio. Tudo isto num assomo de comunitarismo e de alegria que contrastava, flagrantemente, com o estado da Nação, mas traduzia, por um lado, o desabafo do sofrimento, por outro, a esperança na agonia duma guerra e o vislumbrar de dias melhores.
 Foi, de facto, lindo de se ver. Mas lindo foi também o corolário de todo este trabalho, de toda esta azáfama - A FEIRA DAS COLHEITAS. E se, como digo atrás, as noites do mês de Setembro foram de festa em cada uma das freguesias, naquele último fim-de-semana, para a Vila, convergiram, em massa, os Ranchos e as suas gentes, transformando a sede do Concelho num verdadeiro mar de povo, estreitecendo a Avenida e apertando a Praça, em desfiles coloridos de esfusiante alegria, cada um tentando apresentar-se melhor que o outro, sem artifícios que a pureza e a autenticidade não consentiam, mas com o garbo e o aprumo que os grandes momentos exigem.
 Foi um desfile de cor e alegria, de caras bonitas e de lindas vozes, de verdadeiros artistas da harmónica, da viola, do cavaquinho, ferrinhos e bombo, que outros não eram os instrumentos usados em Arouca, se exceptuarmos a concertina que se foi alojando no lugar da harmónica e a flauta que nunca passou de divertimento individual.
 Foi assim que nasceu a Feira das Colheitas e, com ela, a possibilidade de não deixarmos perder-se, no tempo, um património valiosíssimo da nossa história. Mas foi assim, também, que nasceram os agrupamentos folclóricos, alguns dos quais ainda hoje se mantêm, em toda a sua pujança, como baluartes intransigentemente fiéis das tradições mais profundas do Povo de Arouca, ao nível das danças e cantares, dos trajes e tocatas, em síntese, do folclore, da música popular e da etnografia arouquense.

E porque falar da Feira das Colheitas é falar de Arouca, de um bom naco da sua história e de um dos seus maiores e mais luzentes marcos culturais, eu evoco, aqui, a memória do seu criador, prestando-lhe a minha simples, singela, mas profundamente sentida homenagem. Homenagem ao homem que, um dia, foi capaz de um rasgo de génio, de um verdadeiro golpe de asa, de um assomo de inteligente assunção do sentir de um povo e de transmutá-lo, fazendo-o despertar da profunda letargia em que estava mergulhado. (...)"

Extracto da comunicação do prof. Fernando Miranda, na apresentação do livro de António de Almeida Brandão, Memórias de um Arouquense, a 19 de Junho de 1999, na vila de Arouca.
Agradeço, ao Dr. Óscar de Pinho Brandão, pela cedência do texto integral do prof. Miranda.

19 de setembro de 2020

18.ª Edição do Festival de Cinema de Arouca

Termina hoje mais uma edição do Festival de Cinema de Arouca ou Arouca International Film Festival, como se diz para a internacionalização deste evento cinematográfico que fecha a agenda e oferta cultural de Verão da nossa pacata vila de Arouca.

E esta não foi uma edição qualquer. Pois para além do certame atingir a maioridade, aconteceu num contexto particularmente contido, por força das medidas impostas em virtude da pandemia de Covid-19, nomeadamente, a eventos realizados em espaços fechados, como é próprio de um evento desta natureza.

De resto, como tantos outros, o evento poderia ter sido cancelado, tanto mais quando aquela doença tem vindo a somar casos no concelho. Mas não foi. E ainda bem que não foi. Pois, com efeito, contrabalançou as notícias sobre aquela doença e mais uma vez contribuiu para o bom nome de Arouca. Para além do mais, do evento em si, passou a notícia de que os arouquenses não estão acantonados no sopé da Freita à espera que o vírus passe e estão à altura de continuar a fazer acontecer, mesmo dentro de regras apertadas.

Mas, atingida a bonita idade de dezoito anos, uma palavra também para o Director do Festival: uma palavra de reconhecimento pela sua resiliência, dedicação sincera e abnegada. Porque ao fim de dezoito anos, só daquela forma se consegue continuar… Dezoito anos a pensar, organizar e cumprir um programa, por mais curto e menos trabalhoso que seja – que não o é, antes pelo contrário – só pode dizer bem, da capacidade de compromisso e de cumprir, de quem o faz, ainda por cima transparecendo sempre aquele entusiasmo e emoção de primeira vez, apesar de todas e muitas dificuldades ou desencantos que inevitavelmente ocorrem em tão grande período de tempo.

É com o à vontade de quem já, uma vez por outra, o aconselhou a "dar" o lugar a outros, que o escrevo. Ainda bem que não me deu ouvidos, porque mais uma vez conseguiu concluir uma boa edição e passar uma mensagem de garantia e segurança quanto ao futuro do evento, sustentado nas parcerias e compromissos que continua a estabelecer, com aquele acreditar com que nos falou ontem na Loja Interactiva de Turismo de Arouca. Um bem haja ao João "Rita" e à sua equipa, bem como a todos quantos com eles colaboram!

Como escrevi em 2012, à passagem da 10.ª Edição: «Se todos nós, cada um na área da sua formação ou naquilo para que tem mais gosto ou mais jeito, se empenhasse numa actividade deste género, de forma tão duradoura e persistente, como se tem empenhado o meu amigo João “Rita” – fundador e director do Festival – teríamos, certamente, uma terra mais dinâmica e mais rica.»

15 de setembro de 2020

Bom Ano Novo de 5781

A herança da Cultura Judaica (ainda que, a partir de determinada época, seja cripto-judaica e cristã-nova) está bem presente em Portugal e com muitíssimo mais intensidade no Norte de Portugal. E, portanto, também em Arouca, como já se demonstrou neste blogue. 
Estamos a aproximar-nos do início do Ano Novo Judaico, que ocorre no início do mês judaico de Tishrei: mês judaico que corresponde, no calendário português comum, ao período de algumas semanas de Setembro e de Outubro…E essa noção de ano novo, de um novo começo nesta altura de Setembro, herdada do calendário judaico (que é o único que não é artificial, porque é divino e está estruturado, com precisão quântica, segundo a dinâmica dos movimentos cósmicos, etc.), encontra-se no inconsciente colectivo dos Portugueses, visto que costuma ser a altura em que se inicía o ano de trabalho em vários tipos de instituições, bem como o início do ano escolar e académico, para além da rentrée política, etc…Há, de facto, nesta altura, um sentimento humano e um claro ritual de um novo começo que está presente no ciclo anual do calendário português comum, reportando-se, portanto, a essa herança judaica, cripto-judaica e cristã-nova em Portugal.
 
O Ano Novo Judaico comemora a criação identitária do primeiro hominídeo com «neshamá»: Adam, que foi criado há 5781 anos atrás, depois das longas etapas de formação orgânica dos vários tipos de hominídeos. Ou seja, Adam é o primeiro ser humano com consciência moral e com a estrutura ontológica que define a identidade própria de um ser humano, etc. Com Adam, inicia-se a presente escatologia humana do tempo terrestre com dias de 24 horas. Antes de Adam, os "dias" que a Torá Sagrada e a Cabalá Sagrada descrevem são, na realidade, eras (a palavra hebraica para dia pode significar dia de 24 horas do tempo terrestre ou eras e idades de biliões de anos). Essas eras ou idades, antes de Adam, são períodos de biliões de anos do tempo cósmico, em que, no último período, se dá a formação orgânica, em longas várias etapas evolutivas, dos vários tipos de hominídeos sem «neshamá» até Adam, que eram hominídeos inteligentes mas não tinham essa estrutura que Adam começou a ter e que define a Humanidade dos seres humanos. Assim, os hominídeos foram formados em etapas evolutivas e, depois, a sua criação identitária, como seres humanos, ocorre com o surgimento de Adam. A Torá Escrita assinala bem esse facto: para os hominídeos inteligentes sem «neshamá» utiliza o termo hebraico simples 'adam' e para o primeiro ser humano utiliza a expressão com artigo definido 'Ha Adam'.
Os seres humanos são o propósito da Criação mas somente no planeta Terra, no contexto do tempo terrestre em que está a ocorrer a escatologia humana com dias de 24 horas, direccionada para a Era Messiânica. Nunca a Torá afirma que o ser humano e o planeta Terra são o centro do Universo, ou seja, dos Céus. Nunca. A Terra aparece sempre mencionada de modo secundário, a seguir aos Céus. E a Torá Sagrada e a Cabalá Sagrada descrevem a existência de seres inteligentes não-adámicos (muito mais avançados que os seres humanos) dos Céus, ou seja, nos incontáveis planetas das incontáveis galáxias dos Múltiplos Universos (que serão quase infinitos...), nas 26 dimensões físicas identificadas, que, por sua vez, podem estar ligadas a densidades físicas, a energias, a frequências, a vibrações, etc. A luz cósmica e originária referida no Beresheit/Génesis (que não é, como é óbvio, a luz solar) é o primeiro elemento a ser criado, que, por sua vez, é o elemento fundamental na formação da matéria, nos Céus e na Terra.
  
A obra notabilíssima do eminente físico Professor Doutor Gerald L. Schroeder (que tenho a honra de conhecer pessoalmente) explica, com muita clareza e com muita precisão científica, todos esses fenómenos, confirmando que a Ciência mais avançada só corrobora, cada vez mais, o verdadeiro sentido originário dos textos estruturais do verdadeiro Judaísmo Shomer Torá uMitzvot e o verdadeiro sentido originário do verdadeiro Criacionismo Hebraico. E não poderia ser de outro modo: O Criador Uno, Absoluto e Infinito dos Céus e da Terra é Perfeito. As letras hebraicas sagradas e as palavras hebraicas sagradas da Torá Escrita não podem, como é óbvio, conter um pequeno erro. O autor desse texto sagrado é Perfeito, sendo o único Ser Absoluto e Infinito que existe nos Céus e na Terra. Mas só podemos mesmo conhecer a Torá Escrita, com a leitura concomitante e consistente dos textos da Torá Oral e dos textos da Cabalá Sagrada.
 

Bom Ano Novo de 5781:
-que ocorre no próximo dia 18 de Setembro do calendário português comum.

Nós, a Humanidade, ao longo dos tempos, aqui no planeta Terra, através das várias gerações sucessivas, estamos mesmo numa escatologia, num processo evolutivo gerado pelo Criador dos Céus e da Terra e possuímos um livre-arbítrio condicionado, supervisionado e julgado por esse mesmo Criador Absoluto. Esta nossa escatologia humana direcciona-se para uma Nova Era (a Era Messiânica) que ocorrerá, no futuro, a partir do Monte do Templo, em Jerusalém - Israel. Essa escatologia é unicamente, como sempre foi, desde que a Humanidade existe, a Hebraica/Judaica Shomer Torá uMitzvot, do próprio e único Criador Absoluto dos Céus e da Terra com a sua Torá Sagrada. Não outra.
Todos os seres humanos «Não-Judeus» das várias nações têm que ser Noaítas-Observantes.

12 de setembro de 2020

Por uma Hemeroteca Digital de Arouca

Antes de mais, Hemeroteca, refere-se a qualquer colecção ou conjunto organizado de periódicos (jornais e/ou revistas). Pode ser uma secção de biblioteca apenas reservada à conservação de material escrito deste género, a uma colecção temática de recortes de jornais e revistas ou, mesmo, uma base de dados, em suporte informático, com este tipo de publicações. É, pois, a esta última que me refiro e de que há já vários exemplos associados a arquivos e bibliotecas municipais e nacionais.

E se é verdade que nem todos os concelhos dispõem de um acervo que justifique o investimento na criação de uma ferramenta deste tipo, não é o caso de Arouca. Pois, com efeito, contam-se mais de 50 títulos de jornais e revistas publicados, alguns dos quais, ao longo de largas dezenas de anos, como foi o caso da Defesa de Arouca.

O primeiro jornal a surgir na nossa vila, no entanto, tinha o título de "O Commercio d'Arouca" e o seu primeiro número viu a luz da publicidade em 19 de Abril de 1888. Rareiam os exemplares deste título, mas ainda se conseguem. O primeiro jornal, editado, composto e impresso em Arouca, no entanto, foi "A Voz de Portugal", Órgão dos interesses do concelho de Arouca. Inaugurou a estampa na véspera de 4 de Junho de 1904. Em 24 de Agosto do ano seguinte surgiu a "Gazeta de Arouca" e, a partir daí surgem muitos outros títulos, nos quais é possível compulsar a quase história diária de Arouca, desde pelo menos 1904.

No entanto, salvo uma raríssima e louvável excepção privada, não é em Arouca, nem sem procurar, muito..., que a maior parte desses periódicos, principalmente os mais antigos, se encontra. Parece-me, pois, importante a referenciação dessas publicações, bem como a indicação das existências e fundos ou colecções, tanto mais quando em nenhuma biblioteca ou colecção se encontram todas e, de todas, nenhuma se encontra completa.

Já aqui tinha abordado este assunto a outro propósito, em 13 de Fevereiro de 2019, mas, entretanto, em 19 de Fevereiro último, foi tornado público o protocolo celebrado entre a Câmara Municipal e a Associação de Defesa do Património Arouquense, para digitalização, obtenção e disponibilização digital de cópia dos jornais "Gazeta de Arouca", "Gazeta", "Defesa de Arouca" e "Notícias de Arouca" coleccionados ao longo dos últimos anos por esta Associação.

Oxalá que esse protocolo e cedência seja apenas o primeiro passo para a digitalização de outras colecções com vista à criação de uma Hemeroteca Digital, onde, como é próprio de um fundo desta natureza, se disponibilizem, para consulta em linha e difusão pública, os jornais e revistas publicados em Arouca ao longo dos últimos, pelo menos, 132 anos, bem como raridades bibliográficas e/ou apontamentos inéditos de autores e personalidades Arouquenses.

8 de setembro de 2020

A Euro-região de Arouca: 'Galiza-Norte de Portugal'

A Euro-região de Arouca é 'Galiza-Norte de Portugal'. E ainda bem que o é. E só podia mesmo sê-lo. Arouca insere-se e enquadra-se, em termos identitários, autóctones e endógenos, na Euro-região 'Galiza-Norte de Portugal', à qual pertence com todo o acerto, que são, na verdade e na realidade, uma nação una e identitária. Os Galegos falam Português e os Nortenhos falam Português, com as devidas cambiantes entre o Português do Norte de Portugal e o Português da Galiza, em termos fonéticos, sintácticos, semânticos, morfológicos, etc. A Língua Portuguesa (que deriva do Galego-Português arcaico, que, por sua vez, deriva da fusão dinâmica e evolutiva do Hebraico edénico e antigo e do Hebraico com o Latim) nasceu neste nosso território endógeno do noroeste da Ibéria, sendo, no presente, uma língua global: o Português é a quarta língua mais falada no Mundo.

Mas a coesão dessa origem identitária, mesmo antes do Português existir, é das mais antigas, senão a mais antiga, da História da Humanidade (não exagero) e tem de ser melhor dinamizada e consolidada, no concerto dinâmico das euro-regiões, à escala continental e à escala planetária. No actual contexto da União Europeia, entre o Norte de Portugal e a Galiza, já não existem fronteiras físicas, mas as fronteiras físicas que existiram no passado, na realidade, eram apenas muito arbitrárias e muito artificiais, porque, entre o Norte de Portugal e a Galiza, o território sempre foi contínuo e coeso em termos endógenos e autóctones: porque são, repito, talvez o mais antigo ou um dos mais antigos territórios identitários da História da Humanidade.
Este território identitário, localizado no muito antigo e milenar Noroeste da Península Ibérica, no presente tem uma superfície total de 51 mil Km2 (Galiza 29.575 e Norte de Portugal 21.284) e tem cerca de 6,4 milhões de habitantes (Galiza 2.796.089 e Norte de Portugal 3.745.439), com uma densidade populacional de 125,8 hab/Km2. O Norte de Portugal tem muito, muito mais que ver com a Galiza do que com o Centro e o Sul de Portugal. E a Galiza tem muito, muito mais que ver com o Norte de Portugal do que com Castela e Leão ou do que com todas as outras comunidades autónomas de Espanha.
As declarações do actual Presidente da Câmara do Porto, numa entrevista concedida ao jornal Voz de Galicia, de que "se sente melhor em Sanxenxo do que no Algarve" e que "El AVE de Oporto es Vigo, y a la vez el aeropuerto de Vigo tiene que ser Oporto", são muitíssimo verdadeiras e fazem todo o sentido e simbolizam e sintetizam, de modo lúcido e subtil, todos esses factos acima descritos. Rui Moreira é, com toda a certeza, um dos líderes que melhor personifica a identidade do Porto e da Região Norte de Portugal. Esperemos que ele e o seu movimento se candidatem a mais um mandato às eleições autárquicas do Porto, que vencerão, de certeza, com A Protecção Divina de HaShem, Bendito Seja O Seu Nome Sagrado, com uma maioria absoluta, clara, inequívoca e consolidada. Isso seria bom para todos os habitantes do Porto e de toda a Região Norte de Portugal. E, terminado esse terceiro mandato, Rui Moreira seria o melhor substituto de Jorge Nuno Pinto da Costa, no cargo da presidência do Futebol Clube do Porto, que é outra personalidade carismática de relevo e outra voz identitária do Porto e do Norte que, como se sabe, entrou, no F.C. do Porto, pela mão do presidente do clube da altura: o arouquense Afonso Pinto de Magalhães, fundador da Sonae, amigo de António de Almeida Brandão, meu saudoso avô. Foi Afonso Pinto de Magalhães quem, estruturalmente, financiou o lançamento e a IIª Série do jornal «Defesa de Arouca» e quem convidou meu avô para ser seu director, que, por sua vez, foi a personalidade real e pragmática que configurou a idiossincrasia identitária deste jornal, no contexto de Arouca, do Porto e da Região Norte: semanário bastante prestigiado, tal como sempre foi reconhecido ao longo das décadas, a partir do qual se alicerça este blogue «Defesa de Arouca».      

5 de setembro de 2020

Percurso Pedonal e Ciclável do Vale de Arouca

 

Como é sabido, e de acordo com a descrição da obra, o Percurso Pedonal e Ciclável do Vale de Arouca - já comummente designado de Ciclovia - irá desenvolver-se ao longo de 6 freguesias do vale de Arouca, numa extensão aproximada de 11 Km, com um traçado que visa acompanhar o curso do rio Arda, fazendo a interligação entre os diversos aglomerados, freguesias e pólos escolares existentes na imediação do percurso, promovendo os modos suaves como prática quotidiana.

A obra teve o seu inicio em finais de Novembro último e, se tudo correr conforme previsto, estará concluída em Maio próximo. No entanto, o percurso, ou partes dele, já vai sendo regularmente frequentado, com manifestações de agrado e apreço.

Não é para menos. Do meu ponto de vista, para além daquilo que visa proporcionar, é uma obra de enorme valia, potencialmente estruturante para a organização da mobilidade no vale de Arouca e particularmente para a manutenção e asseio da bacia do Arda, bem como para a identificação, recuperação e preservação do património rural aí existente.

Segundo a política seguida pela Direcção-Geral da Agricultura e Desenvolvimento Rural, - com a qual concordo e não pode deixar de se concordar -, «reconhecer o valor do passado, proteger e valorizar o património rural, torná-lo conhecido, acessível e interactivo com as populações rurais é uma tarefa indispensável à manutenção dos equilíbrios ecológicos, à preservação da autoestima e do desenvolvimento económico, social e cultural. Esta tarefa incumbe, não só às instituições oficiais e entidades privadas ligadas ao sector, mas também às populações que deverão ter orgulho no património existente no seu território.»

Oxalá que o Município e as Freguesias envolvidas estejam à altura de ir para além do mero percurso pedonal e ciclável. Estejam à altura de cooperar, mobilizar e contribuir para alavancar aquela incumbência maior, que esta obra vem agora evidenciar e proporcionar.

Nota: apesar de ir sobrecarregada a agenda, julgo conseguir (ainda) preservar livres as matinas de sábado e domingo para, entre outros "ócios", retomar o compromisso inicial de aqui deixar semanalmente quatro ou cinco parágrafos de opinião.

17 de agosto de 2020

Alvorada em Alvarenga

Alvorada em Alvarenga

Por entre a bruma que se desfaz suavemente,

Descobrindo a Terra de seu manto matinal,

O Sol espreita, abençoando toda a gente,

Desde o Nicho até ao Alto do Merouçal.

 

Trinam pássaros, que acordam num repente,

Verdejam campos, beijados por orvalho divinal,

A Vida se ativando, luminosa, lentamente…

Sons e cores em perfeita harmonia, surreal.

 

É Alvarenga que desperta para um novo dia!

Princesinha, se espreguiça em sua graça,

Pelo Montemuro, belo e altivo, tutelada.

 

No Paiva, vai beber gáudio e magia,

E em suas margens deslumbrantes se enlaça.

Vai à lida, Alvarenga, jubilosa, abençoada!

 

Maria de Lurdes Duarte

16 de agosto de 2020

NUMA CURVA DA ESTRADA… AROUCA

Nuvens de nevoeiro vão subindo em espiral, serpenteando por entre as árvores semeadas pela encosta. Parecem novelos de algodão cinzento a envolver a vegetação, conferindo-lhe um aspeto algo fantasmagórico. 

A montanha, no virar de cada curva, surge recortada no horizonte, com o céu e a terra a tocar-se, numa tangente em que os limites de cada um se confundem. Projeto o olhar em frente, momentaneamente, sem perder de vista o ato de conduzir, que requer absoluta concentração. Mesmo assim, não posso deixar de apreciar a imponência e altivez do dorso serrano que se deleita, longínquo e simultaneamente tão próximo, desafiador e misterioso.

Vou avançando, ao sabor de cada meandro da estrada, com a Freita, ao longe, a despontar por entre o muro de neblina matinal, que escala a encosta, vinda do rio Paiva, adormecido aos meus pés. 

Mas, de súbito, numa volta da estrada, é o Montemuro que me espreita, ora lateralmente, ora na faixa frontal, como uma onda verdejante por entre a espuma branca da névoa que tardiamente se desfaz. 

É assim a estrada que liga Alvarenga, freguesia em que resido, há quase vinte anos, e a vila de Arouca, vale encantado, encaixado entre as duas elevações que, quais vigilantes atentos, por ela velam incansáveis.

Por mais que este percurso faça parte da minha rotina quase diária, não consigo evitar ser assaltada por emoções intensas quando percorro esta estrada. É o meu cantinho do mundo, o lugar a que pertenço, mesmo sem ter nascido no concelho. Faz parte de mim. Quando me afasto, um pedaço de mim fica por cá; um pedaço deste local vai comigo, onde quer que eu vá. 

A estrada lá vai deslizando sob os pneus do meu carro, que avança pelo asfalto, ora firme, ora a medo, que ali mesmo ao lado, os declives precipitam-se como abismos, em direção ao Paiva. 

E num ápice, como saída de um conto de fadas, ao virar de uma curva… Arouca! Lá está ela, a despertar timidamente, com as suas casinhas semeadas pela encosta das colinas verdes e doiradas, aglomerados de vida simples e doce, bucólica mas prenhe de labor, fazendo lembrar as cascatas que encantavam a minha infância. 

Vou-me aproximando. À minha direita, um desvio que, sem dúvida, encurta o percurso, mas que raramente utilizo. Prefiro adentrar-me, devagarinho na vila, saborear o bulício de quem inicia os afazeres do dia, sentir a vila a murmurejar, que é como o pulsar do sangue nas veias, as batidas da alma das gentes. 

À minha esquerda, em toda a sua majestade, o Mosteiro de Arouca, morada da padroeira de Arouca, a Rainha Santa Mafalda, sorri a quem passa. É o centro da vila, o coração histórico de uma povoação que cresceu e se desenvolveu orgulhosamente à sua sombra. Um foco turístico, certamente, mas também, e acima de tudo, um farol a iluminar as gentes arouquenses. A identidade de uma terra que se preza da sua herança, enraizada no passado e projetada no futuro.

À minha direita, a Praça, deliciosamente talhada em volta do garboso fontenário, rodeada de história e pulsante de vida, lugar de reflexão e descanso. 

Em qualquer cantinho, os canteiros floridos, singelos, bem tratados, a embelezar com as suas cores e aromas doces. A brisa da manhã vai trazendo os odores dos campos em redor, brindando-nos com a alegria do dia que começa. É hora de avançar, firme e segura, aproveitando as oportunidades que o dia oferece. Cada coisa e cada ser está no lugar onde tem de estar. O lugar certo.

Para mim… Para mim, inexplicavelmente, ou talvez não, este lugar que é Arouca sinto-o como o meu lugar de sempre. O seu Mosteiro, as suas avenidas, a Praça, o casario, a estrada de Alvarenga, o rio Paiva, a serrania, tudo, vá-se lá saber porquê, aparece-me como surgido de um passado gravado em mim, como se sempre ali tivesse estado. Ter-me vindo instalar neste concelho, parece-me um regresso a um lugar de onde nunca deveria ter saído. De onde me parece, ao mesmo tempo, nunca ter, realmente, saído.

Os caminhos cruzam-se e descruzam-se. Em cada curva da estrada da vida, aproximamo-nos e afastamo-nos dos lugares que amamos. Às vezes, é sem retorno. Implacável. Outras vezes, a vida é mais gratificante e permite-nos retomar o que sentimos como nosso. Pelo menos, temporariamente. Nada é definitivo. 

Sou uma pessoa de sorte. Hoje estou aqui, no lugar certo. No lugar que é meu. No lugar que o meu coração elegeu.

Maria de Lurdes Duarte

2 de agosto de 2020

45,1 mil milhões de euros da U.E. - nos próximos três anos, mais do que nunca, o Norte e os Nortenhos têm que se unir...

A partir de 2021, Portugal começará a receber, da União Europeia, em parte a fundo perdido, cerca de 45,1 mil milhões euros, com um prazo de três anos para o aplicar.

Mais do que nunca (para que o rapto do ultra-parasitismo de Lisboa e arredores não se repita, em relação à sua habitual captação ultra-centralista de fundos europeus) é necessário que as instituições da Região Norte e os cidadãos da Região Norte (onde Arouca se insere e se enquadra, desde que Portugal é Portugal) se unam, como nunca, na aplicação concreta, legítima, legal e merecida de uma grande parte da totalidade desses fundos no território da Região Norte e nos vários tipos de instituições nortenhas.

A Região Norte, que tem muita coerência identitária, é, em Portugal, a região mais populosa, a mais industrializada, a única que exporta mais do que importa, a mais laboriosa, a que mais produz e a que mais contribui para o PIB, entre outros muitos e variados aspectos positivos, etc. etc., mas, por paradoxo, continua, em termos estatísticos, ao contrário do que acontecia no passado, a ser a mais pobre de Portugal!!! Isto porque as estatísticas (que encobrem processos com frequência e revelam, sobretudo, quantidades, mas não revelam as qualidades e as idiossincrasias, que também são elementos de várias espécies de capital) encobrem os grandes problemas e as grandes injustiças que estão na origem desta situação nacional lamentável do Estado português: que é o modo ultra-centralista como funciona o Estado português há bastante tempo, a partir de Lisboa e arredores. E o ultra-centralismo ultra-parasita de Lisboa e arredores, para mal de todos os Portugueses, infelizmente, radicalizou-se nas últimas décadas. Isto aliado ao facto da maioritariamente sub-urbana Lisboa ser, como sempre foi, uma péssima capital  de Portugal.

A partir de 2021, Portugal vai receber, da U.E., 45,1 mil milhões de euros para aplicar durante 3 anos 

É tempo de acabar, de vez, com essa grande injustiça gritante. A Região Norte tem, por essa razão, direito a uma grande parte da totalidade desses fundos europeus, uma vez que é, na realidade, como sempre foi, «o verdadeiro motor económico de Portugal», para que, assim, melhor se efective a tradicional dinâmica endógena do Norte e dos Nortenhos. Para que seja gerada mais riqueza aqui no Norte, mas para ser aplicada aqui no Norte e não em Lisboa e arredores. Para isso, o processo de Regionalização de Portugal tem também de se concretizar, com muita urgência, nos próximos anos, para bem de todos os Portugueses, no contexto da União Europeia e das suas euro-regiões.

Portanto, repito, é necessário que as instituições da Região Norte e os cidadãos da Região Norte (onde Arouca se insere e se enquadra) se unam, mais do que nunca, nos próximos três anos da aplicação desses fundos, provenientes da União Europeia, a que, legitimamente, têm direito.

Ler, por favor, estes artigos: 1)  e  2) e  3)

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Pelos vistos, como revelam algumas notícias de ontem (4/8/2020), o actual Governo ultra-centralista (se se não fizer nada, com urgência, para contrariar esta situação muito preocupante) prepara-se para, mais uma vez, praticar o rapto ultra-centralista de fundos europeus, ao pretender canalizar esses fundos, maioritariamente, para Lisboa e arredores, num acto muitíssimo injusto e que parece ser ilegal!!!

É escandaloso!!! Ler, por favor, estes artigos, a esse propósito: A) e  B)

ESTA SITUAÇÃO MUITÍSSIMO INJUSTA NÃO PODE CONTINUAR MAIS ASSIM: A REGIONALIZAÇÃO DE PORTUGAL TEM QUE SER MESMO CONCRETIZADA, O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL, PARA BEM DE PORTUGAL COMO UM TODO E PARA BEM DE TODOS OS PORTUGUESES:

"Os problemas das regiões têm de ser tratados e resolvidos por quem nelas vive, precisamos de meios e decisores de proximidade, que respondam perante as pessoas, que sejam democraticamente eleitos através de sufrágio universal. Os custos da regionalização serão um investimento nas pessoas que nelas vivem. Os argumentos patéticos de que com a regionalização se estariam a criar novos lugares políticos e mais “tachos” é uma imbecilidade, pois esses lugares existem há muito numa administração concentrada e que não responde perante os cidadãos. Elegermos os decisores regionais (e sermos eleitos) é uma responsabilidade cívica e um direito democrático de todos."