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16 de agosto de 2019

José Nuno Pereira Pinto - o autor, a vida, o homem

José Nuno Pereira Pinto em Alvarenga, 02/08/2019
Em linha de continuidade com alguma tradição existente no nosso concelho em tornar público dados e informações biográficas de personalidades arouquenses, dignas de destaque (pelo percurso singular de vida, pela participação relevante em factos históricos, pela dedicação a causas nobres, pelo altruísmo, pela empatia, pelo percurso profissional ou académico, ou simplesmente pelas relações pessoais criadas), sem a pretensão de uma biografia académica nem exaustiva, partilharei alguns dados e observações sobre arouquenses que, por variadas razões, suscitam o meu apreço e a minha admiração e que julgo ser de interesse local, na medida em que a história de um concelho se cruza com a história da sua população e das suas famílias. 

Em jeito de homenagem, mas sobretudo em manifestação pública do meu apreço, estima e admiração, inicio esta minha pretensão convocando o Dr. José Nuno Pereira Pinto, arouquense, natural da freguesia de Alvarenga, meu conterrâneo.

Julgo sobejamente conhecida a bibliografia do Dr. José Nuno Pereira Pinto, na minha opinião, um dos maiores e mais ilustres autores arouquenses, pelo número, diversidade, rigor e qualidade das cerca de duas dezenas de publicações, nas mais diversas áreas (romance, teatro, poesia, ensaio, diário, crítica literária, historiografia). De facto, enquanto leitora, perscruto no “Da Outra Margem” um autor hábil, um historiador perspicaz e um narrador/ficcionista que nos enreda numa teia sedutora, com personagens, estilos e recursos linguísticos, ambientes e histórias incríveis e únicas tendo como tema principal a extração mineira, o volfrâmio e a II Guerra Mundial em Alvarenga. Depois da mestria revelada neste romance, o autor continua a surpreender com a sua poesia, que sugere uma sensibilidade extrema, numa relação quase transcendental do poeta com a sua terra natal, com a sua família, mas também com a natureza com que se funde desde o raiar do dia ao crepúsculo, em sentimentos profundos, talvez inexplicáveis, de saudade, melancolia, onde a felicidade surge como naturalidade, originalidade, afetividade e inocência.

Se pensarmos que é já o bastante, José Nuno Pereira Pinto revela-se um excelente dramaturgo, recorrendo à tragédia clássica para dar voz à crítica mordaz e acutilante em “Quando a tirania mata pelo silêncio”, contra o Bispo António Ferreira Gomes, que conheceu bem, numa tentativa de honrar a memória do Pe. Coelho da Rocha, que se suicidou, e de desmistificar a imagem do Bispo, repondo alguma verdade àquela figura que, segundo JNPP, é de certa forma inventada e politizada. Esta coragem do autor, muitas vezes incómoda para algumas elites nortenhas e do Porto, repete-se no seu “Diário Imperfeito”, onde revela alguns episódios que vivenciou e que, para um bom entendedor, são esclarecedores do seu carácter e do seu percurso, nunca facilitado, pela Igreja, levando-o mesmo ao descrédito desta enquanto instituição, sem nunca, porém, ver abalada a sua fé. Alvo de algumas críticas foi também a figura do Bispo Dom Domingos de Pinho Brandão, arouquense, do qual JNPP foi discípulo.

José Nuno Pereira Pinto, atualmente nos seus 85 anos de vida, e depois de tantas páginas publicadas em livro, publicou recentemente “Esparsos” de seu pai, José Pereira Pinto, onde acrescenta biografias sobre os filhos deste, num gesto singelo que pretende homenagear o legado de seu pai que lutou para que todos os seus filhos tirassem um curso, que se concretizou e que os fez seguirem as suas pegadas na carreira de ensino, sendo das raras famílias dedicadas à docência (todos os onze filhos de José Pereira Pinto foram professores).

Se a bibliografia de JNPP é impressionante, não o é menos o seu percurso de vida.

Como já foi referido, José Nuno Pereira Pinto é filho de José Pereira Pinto, professor, que foi colocado como titular em Alvarenga em 1926, tendo sido o primeiro professor a estrear a escola do Paço, em 1930. Morou com os seus pais e as suas irmãs nesse estabelecimento até 1945, tendo recordações muito vivas e claras da sua infância, dos serões onde se rezava o terço, onde ouvia seu pai a ler em voz alta Garrett, onde se tocava piano e das manhãs em que acordava pelo dedilhar de guitarra de seu pai. Cresceu no seio de uma família numerosa, zeladora, protetora, rodeado de irmãs, em liberdade plena. Nascido em 1934, tinha 8 anos quando se deu o motim de Alvarenga, tendo memórias muito visuais do motim, da PVDE a cercar a Casa do Santo, que via da janela do seu quarto, de ver o seu pai preso para interrogatório, de se recordar da sua mãe que, na ausência de seu pai, assumia a proteção da família, dormindo com uma espingarda carregada debaixo do travesseiro e do regresso do seu pai a casa, na camioneta que vinha do Porto e que só parava à frente da escola do Paço para deixar entrar ou sair o Sr. Professor, a quem lhe era simpaticamente reservado o banco da frente.

Único filho varão de uma prole de onze que sobreviveram, JNPP viu recaírem em si sonhos académicos que seu pai desejava mas que lhe foram impossíveis e que a sua irmã mais velha, Maria Helena, gorava, ao abandonar a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, após dois anos de frequência, para se casar e emigrar para o Brasil.

Em 1945, José Nuno Pereira Pinto, com onze anos, muda-se com a família para o Porto, pois seu pai é impulsionado pela necessidade de dar continuidade aos estudos dos filhos.

Influenciado pelo contacto com o seu tio cónego, da educação religiosa que tivera e da possibilidade de vir a concluir os seus estudos no Seminário, José Nuno Pereira Pinto decide dedicar a vida ao sacerdócio, vontade que é respeitada e aceite pelos pais. Da sua passagem pelo seminário, JNPP confidencia e partilha o sofrimento que sentia, enclausurado no quarto, sujeito a uma disciplina rígida, quase tirânica, relembrando as disciplinas lecionadas sem espírito crítico nem pedagogia, a recriminação de quaisquer conversas entre pares, normais entre jovens, a hora de recolher obrigatória, os castigos, a ausência de quaisquer meios de comunicação como fossem jornais ou correspondência, o distanciamento imposto relativamente à família e sobretudo a escassa humanidade e solidariedade dos superiores. As memórias mais relevantes que JNPP relembra são de escuridão, proibição, medo, tirania, clausura, opressão e autoritarismo repressivo, memórias essas que contrastavam com as que até então conhecera, em Alvarenga, totalmente opostas.

Sob o jugo da Igreja, quer enquanto seminarista, quer depois, como sacerdote, os seus desejos de tirar uma licenciatura nunca foram considerados nem permitidos pelo Bispo Dom António Ferreira Gomes, o que fez com que JNPP se sentisse marginalizado, secundarizado e ostracizado, factos que talvez também o tenham levado à rutura e o tenham levado a pedir dispensa de votos. Apesar da rejeição do Bispo, JNPP matriculou-se em Coimbra, licenciou-se e depois de abandonar o sacerdócio concluiu várias outras licenciaturas, sendo diplomado em Teologia, Filologia Clássica, Direito e Pedagogia.

O abandono do sacerdócio foi outra prova pela qual JNPP teve de passar, juntamente com a sua família que aceitou e respeitou a sua decisão. JNPP recorda que sentiu o estigma, que socialmente deixou de ser considerado, que houve “amigos” que lhe viraram as costas, o que o obrigou a recomeçar e a redobrar as suas forças, revigoradas com a possibilidade de ser professor. Apesar de inicialmente pensarem que seria professor de Educação Moral, JNPP inicia a sua carreira de docente orgulhosamente a lecionar português, latim e grego (e a demarcar-se orgulhosamente da etiqueta de ex-sacerdote)…

Já professor e liberto dos votos enquanto padre, conheceu a mulher que havia de desposar, Natividade, também ela professora e mais tarde poetisa. Com ela teve um filho, a quem deu o nome de Nuno.

Nestas cinco décadas, JNPP teve uma vida repleta, instalando-se em Matosinhos. Foi professor, tirou várias licenciaturas (não tantas como queria, pois lamenta não ter tido tempo para tirar Medicina nem ter tirado Música), exerce advocacia com seu filho, e publicou obras de relevo para a História Local e Nacional.

José Nuno Pereira Pinto, como se pode facilmente constatar, é um homem notável, de uma enorme erudição, com conhecimentos diversificados muito acima da média, amante das artes, da música clássica e da ópera, exímio pianista (há poucos dias brindou-me a mim e à Cátia Cardoso com um concerto particular, em Alvarenga, onde sentado ao piano tocou alguns dos seus improvisos que compôs), detentor de uma memória visual incrível, capaz de relembrar factos, situá-los em tempo e local precisos (!), muito humano e sensível, altruísta, orgulhoso da sua terra e defensor do seu património (mostra-se incrédulo que ainda ninguém tenha publicado a monografia do concelho de Arouca de Manuel Rodrigues Simões Júnior!), impulsionador da Cultura e do Conhecimento, de uma perspicácia aguda, associando a memória do passado, à atualidade ao mesmo tempo que projeta o futuro, com esperança e positivismo.

Por vezes desconhecido ou nem sempre compreendido, José Nuno Pereira Pinto é de facto uma figura ímpar, que prima pela retidão, pela honestidade intelectual, pela verdade por vezes difícil de digerir e inoportuna, pelo qual nutro estima e admiração e a quem agradeço a amizade, o apreço e a partilha do seu conhecimento e da sua vida, registada em livros, ao alcance dos leitores!

11 de novembro de 2018

Ricos e pobres

(Capela da Senhora da Mó. Foto tirada a 13-10-2018)

   Faz hoje três anos, a 11 de novembro de 2015 participei numa sessão promovida pelo projeto Ler Todos++ dinamizado pela Escola Secundária de Arouca. A iniciativa, em registo de tertúlia, denominou-se “Por entre livros, castanhas e Pão-de-Ló” e a sua memória está registada aqui.
   Vem isto a respeito de uma sugestão que apresentei na ocasião e que volto a colocar sobre a mesa.
   Em 1965 Miguel Torga visitou Arouca e subiu ao monte da Senhora da Mó, onde registou no seu diário: “Arouca, Senhora da Mó, 23 de agosto de 1965. / Também no reino de Deus há ricos e pobres. Os que vivem nas sedes do poder, e os que vegetam nas sucursais. Lá em baixo, no convento, a segurança, a opulência, o convívio; aqui, nesta pequena ermida, a incerteza, a miséria, a solidão. Mas são os divinos desafortunados que eu admiro. Negam na própria desgraça a graça sobrenatural, e proclamam de cada píncaro a extensão maravilhosa do natural.” (Miguel Torga – “Diário X”. [1ª ed.]. Coimbra: [ed. autor], 1968, p. 60).
   O registo é uma crítica social através de uma sucessão de metáforas e comparações. Permite muitas leituras. Não o vejo como uma simples e datada crítica à Igreja Católica do seu tempo. No meu entender, este texto transmite, entre outras mensagens, uma experiência existencial, um certo pessimismo e descrédito na humanidade. Um pessimismo que é normal que nos tome quando nos percebemos membros desta humanidade desumana, que é capaz de investimentos astronómicos para colocar sondas em planetas distantes ao tempo que abandona o próximo à fome. Um pessimismo contrabalançado, porém, com o otimismo que advém de se ver além da mesquinhez humana. Torga viu-o do monte da Senhora da Mó.
   Pois bem, a minha sugestão foi e é a seguinte: instalar-se no monte da Senhora da Mó uma placa com este registo do diário de Miguel Torga aí gravado. Colocá-la num local do qual se possa ver aquilo que Torga viu: o mosteiro, a ermida e os píncaros das montanhas. Se alguém dos “que vivem nas sedes do poder”, e com poder-vontade para tal, quiser, agarre a sugestão e ordene a obra. Se não, deixe estar.

27 de outubro de 2018

Um roteiro pelos brasões de Arouca

Antes de mais, quando para este efeito me refiro a brasões, reporto-me exclusivamente aos resultantes dos títulos e cartas de brasão d'armas concedidas a pessoas singulares; das quais, na maior parte dos casos, resultaram as denominadas pedras d'armas, de brasão ou, simplesmente, brasões, que vemos ainda hoje nos portais, tectos, fachadas ou cunhais de alguns templos e casas de Arouca. Por isso, a forma como a eles me vou referir (por referência às casas onde estão) não é correta - pois o brasão deve ser sempre reportado ao seu titular e as armas à respetiva família. Porém, o propósito é apenas o de sugerir e facilitar, sem grandes delongas ou apreciações técnicas, um pequeno roteiro de simples observação.

Perspetiva da Casa e Brasão de Eiriz, na freguesia do Burgo

Os brasões mais conhecidos da maior parte dos arouquenses são os existentes no cunhal da Casa do Burgo, no cunhal da Casa dos Malafaias e os que encimam o portal do Terreiro ou a entrada dos Claustros do Mosteiro. É indesmentível que esses brasões, apesar do seu cunho e atributos pessoais e particulares, conferem maior valor aos imóveis em que estão colocados, imprimem maior nobreza ao meio e suscitam a atenção e curiosidade de quem com eles se depara. Não é para menos, pois antevê-se encerrarem muita história para nos contar.

No entanto, nem sempre aqueles brasões que temos como mais importantes ou historicamente relevantes, o são. Os brasões do cunhal da Casa dos Malafaias, na rua Dr. Figueiredo Sobrinho, do cunhal da Casa do Aro, no largo de Santo António, ou o do portal da Quinta da Lameira, na freguesia de Urrô, apesar de ricos do ponto de vista heráldico, são dos mais insignificantes do ponto de vista da importância que os seus respetivos titulares tiveram para a história de Arouca. O que não quer dizer que as Casas em questão e até outros parentes dos nobilitados o não tenham tido também. A dos Malafaias, por exemplo, foi muito importante. 

Desse ponto de vista, da importância para a história de Arouca, e por ordem de antiguidade, podemos reputar como mais significativos os do portal do Terreiro e da entrada dos Claustros, como é óbvio, o do portal da Quinta de São Pedro, o do cunhal da Casa de Eiriz, o da fachada da capela da Casa Nobre de Cela, e o do cunhal da Casa do Burgo. Mais antigos ainda, paredes-meias com o período medieval, são os dos Pintos, na padieira da capela de Santo António, em Santa Eulália, e dos Tavares, na base do cruzeiro à entrada da matriz de Urrô. Este último mais difícil de descortinar...

E ainda o de Dona Melícia de Melo, que estava na padieira do antigo lagar do Mosteiro e está hoje visível, ainda que invertido, numa moradia particular, no centro da vila. Entretanto, também de Dona Melícia de Melo se recolheram recentemente no Mosteiro partes de um outro, que estaria sobre o portal da antiga matriz de São Bartolomeu. Dos recuperados aos perigos de levarem rumo incerto, ficou também o de um comendador de Malta, no adro da matriz de Rossas, que melhor se lê pela comparação com o que fecha o altar-mor da referida igreja.

Houve outros, - pelo menos quatro -, que entretanto tomaram outro paradeiro nos últimos anos. Desses, os mais importantes e mais antigos eram os que se encontravam na fachada da Casa de São Pedro, em frente à capela desse orago, na vila, e a encimar o portal da Casa de Romariz, no Burgo. Os outros dois, eram réplicas do da Casa do Burgo e estavam colocados, por descendentes, na fachada da Casa dos Magalhães, do outro lado da estrada, e na entrada da Quinta do Boco, sobranceira à vila. Esses, ainda os vi e reconheço. Curiosamente, são essas as armas que estão na Casa da Terça, em Mansores, onde seriam esperadas as do Visconde de Albergaria de Souto Redondo. Já sobre o brasão da Casa do Castelo, em Fermedo, apenas obtive noticia.

Foram ainda outorgadas cartas de mercê e brasão d'armas a alguns outros ilustres arouquenses, que, no entanto, não deixaram por cá brasão. Foi o caso de dois capitães de ordenanças da Cavada de Rossas, aos quais foram concedidas duas belíssimas cartas, de que o mais velho fez pedra, mas colocou-a na casa onde foi casar, às portas de Oliveira de Azeméis e, depois, na casa onde foi viver, em Bemposta; o mais novo não foi dessas vaidades ou não encontrou canteiro à altura, apesar do mais belo trabalho que com certeza resultaria (é a primeira leitura/reprodução na imagem abaixo).

Outros ainda, apesar de terem obtido merecimento por cá, como foi o caso de um capitão-mor de Arouca, casado na Casa Nobre de Cela, colocaram a pedra d'armas na casa da sua naturalidade: no caso, em São Pedro do Sul. Assim sucedeu, mas ao contrário, com o brasão do cunhal da Casa dos Malafaias. O titular, descendente e herdeiro dali, mas que raramente por ali estanciou, mandou fazer e enviar para cá o brasão. Em situação semelhante, quanto aos brasões da Quinta da Lameira, mandou o titular para cá cópia da carta para que se replicassem duas pedras na respetiva propriedade.

Reprodução de alguns brasões, através de cartas e pedras existentes
(Ressalve-se que na execução apenas há que cumprir regras heráldicas quanto ao escudo, elmo timbre.
T
udo o mais fica ao livre, mas razoável e adequado, critério do executante)

De tudo, realizei um estudo há já alguns anos, com a necessária tentativa de reprodução manual e devidamente iluminada, com as respetivas cores e metais, das cartas e pedras que existem ou de que obtive noticia, mas o qual, apesar das imensas curiosidades históricas, genealógicas e heráldicas que aborda, seria fastidioso desenvolver aqui. Não queria, no entanto, e a propósito, deixar de sugerir este despercebido roteiro e suscitar maior curiosidade sobre este tema, que também enobrece a nossa terra.

Assim, à laia de rally paper, proponho então o seguinte roteiro de visita às principais pedras de brasão ainda hoje existentes em Arouca: i) brasões do portal do Terreiro e entrada dos Claustros do Mosteiro; ii) brasão do cunhal da Casa dos Malafaias, na rua Dr. Figueiredo Sobrinho; iii) brasão do cunhal da Casa do Aro, no largo de Santo António; iv) brasão do portal da Casa da Quinta de São Pedro, no lugar do mesmo nome; v) brasão do cunhal da Casa do Burgo, na freguesia do mesmo nome; vi) brasão do cunhal da Casa de Eiriz, no lugar do mesmo nome, na freguesia do Burgo; vii) brasão dos Pintos, na capela de Santo António, em Santa Eulália; viii) brasão do portal da Quinta da Lameira, na freguesia de Urrô; ix) brasão de Tavares, no cruzeiro do adro da matriz de Urrô; x) brasão da Casa Nobre de Cela, no lugar do mesmo nome, na freguesia de Urrô; xi) brasões da Igreja Matriz e adro de Rossas e; xii) brasão da fachada da Casa da Terça, na freguesia de Mansores. Bom roteiro!

17 de outubro de 2018

Pobreza em Arouca - Sim ou Não?

Porque hoje, 17 de outubro, se assinala o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, comemorada oficialmente pela primeira vez em 1992, com o objetivo de alertar a população para a necessidade de defender um direito básico do ser humano, urge refletir sobre o tema.
A erradicação da pobreza continua, nos dias de hoje e apesar de estarmos num século de modernidade e de tecnologia, a ser prioridade mundial. Parece que a pobreza da maioria da população mundial é o reverso da medalha da progressão tecnológica e económica das potências dominantes e talvez por isso é a primeira prioridade da Agenda 2030, proclamada pelas Nações Unidas.
Para que a pobreza deixe efetivamente de existir, todos os estados, países, regiões e localidades devem contribuir com boas práticas.
Arouca, através das políticas locais, de associações humanitárias como as IPSS e da sociedade civil, tem trabalhado em prol do desenvolvimento social e económico da sua população. Isso é incontestável. Veja-se a valorização do património como recurso económico, a criação de projetos que alargam cuidados de saúde primários à população (como a oferta de dentista no Centro de Saúde de Arouca), projetos que tendem a valorizar a agricultura sustentável, entre vários outros.
Mas será suficiente? Sem querer desvalorizar o que tem sido feito, devemos querer sempre mais, ser ambiciosos e auspiciar o ideal de forma a atingirmos o Bom.
Em Arouca há pobreza? Os dados estatísticos existentes numa primeira análise afirmam que não, que há boas condições de vida. Será verdade?
Penso que inserida na AMP, Arouca continua com atraso significativo de desenvolvimento. Tem uma grande mancha territorial, e o rendimento per capita é dos mais baixos da AMP, derivados sobretudo de serviços e construção (censos 2011).
Falta-nos atrair a indústria para que os jovens e as famílias em idade laboral não tenham de emigrar ou deslocar-se para outros municípios.
Falta-nos uma rede eficiente de transportes que garantam à população bons serviços a preços justos.
Falta-nos assegurar às freguesias mais distantes da vila cuidados primários de saúde, médicos de família e serviços de enfermagem de forma continuada e não apenas poucos dias por semana, como acontece.
Faltam-nos serviços de proximidade com a população de aldeias mais distantes que se sentem isolados, esquecidos, longe de tudo e de todos.
Falta-nos passes sociais para os transportes dos idosos e famílias numerosas, como acontece no Porto.
Falta-me perceber como idosos com cerca de 300 a 400 euros mensais, frutos de pensões de invalidez conseguem fazer face a todas as despesas.
Falta-me perceber como os idosos são efetivamente ajudados e como conseguem tarifas sociais na água e na luz, serviços essenciais.
Pobreza extrema, felizmente não creio existir em Arouca, mas que há várias famílias a sobreviver com muito pouco dinheiro ao fim do mês, isso há!
Deixo aqui este tema, porque não podemos pensar que está tudo feito, que está tudo muito bem.
Temos de pensar que temos todos de continuar a trabalhar porque ainda há muito para fazer, tanto à escala local, como regional, como global.
Em Arouca, há pobreza? Sim ou Não?

15 de outubro de 2018

Memórias de muito dinheiro (bem) desperdiçado

Deixem-me falar-vos de uma época que os menores de 40 anos não podem entender.
Uma época em que os videojogos não eram apenas o apanágio de salas de estar ou de quartos individuais.

Estou a falar de uma época em que as salas de arcadas eram lugares de socialização.
Estou a falar de uma época em que desperdicei as minhas parcas poupanças para ver o meu nome registrado no pódio do Trivial Pursuit ou do Pizza Man.
Estou a falar de uma época em que criei amizades inabaláveis
Estou a falar de uma época em que jovens de universos diferentes tiveram a oportunidade de se misturar
Estou a falar de uma época em que o "Abec", que eu sou, se acotovelou com "queques"
Estou a falar de um lugar de socialização emblemático da minha juventude: A STOP!


Até breve neste meu Arouca do relembrar e da saudade !

11 de outubro de 2018

Arouquense Maria Lurdes Correia Fernandes homenageada

Porque Arouca é rica pelo seu património, natural, cultural e edificado, mas não menos importante, pelas suas gentes e famílias, é com muito gosto que partilho a notícia de mais uma homenagem justa à arouquense, natural de Chave, Maria de Lurdes Correia Fernandes, de quem tive o privilégio de ser aluna.

Ela foi uma das personalidades distinguidas no passado dia 26 de setembro, pelo Rei Felipe VI de Espanha no âmbito da Homenagem ao Hispanismo Internacional, uma iniciativa promovida pela Fundação Duques de Soria como forma reconhecer o contributo de académicos de todo o mundo para a promoção da língua e da cultura hispânicas.

De destacar que Maria Lurdes Correia Fernandes é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas e doutorada em Cultura Portuguesa dos séculos XV a XVIII pela FLUP, foi ainda Presidente do Instituto de Estudos Ibéricos da FLUP e Diretora da revista Península: Revista de Estudos Ibéricos (2002-2008), Presidente do Conselho Diretivo da FLUP (2005-2006) e Presidente do Conselho de Administração da Fundação Arquitecto José Marques da Silva (2008-2014).

Entre 2006 e 2014, desempenhou funções como Vice-Reitora da Universidade do Porto para a área da Formação e Organização Académica, cargo ao qual regressou este ano de 2018.

Em 2013, foi nomeada pelo Papa Francisco para integrar o Comité Pontifício de Ciências Históricas, tornando-se a primeira portuguesa eleita para este órgão da Cúria Romana que junta um  grupo restrito de especialistas internacionais em História Religiosa.

Recebeu a medalha de mérito municipal - grau ouro, a 2 de maio de 2014, da Câmara Municipal de Arouca e a 29 de abril de 2017, o seu trabalho e mérito profissional foi reconhecido pelo Rotary Club de Arouca.

28 de setembro de 2018

Nascido na Rua D´arca. Criado no Calvário. Feito no Espingardeiro.


Rua antiga. Calçada gasta pelo andarilhar do tempo. Casa gémea da rua. Poucos luxos que há coisas que mesmo só para os ricos. Quartos estreitos e de porta aberta para desfrute da uma sala em alcatifa enrugada. Cozinha antiga, exígua. Fogão de lenha em cozedura branda e lenta. Latrina de madeira, amiúde visitada pela Guida do Zacarias, de regador na mão, para limpar a fossa e de lá sair com a gorjeta que lhe deixavam na mão. Banhos de bacia, em água trazida em baldes pelos braços do “Larai”, lá do fundo, do tanque onde lavava a roupa a Alcina. Na casa ao lado, a visavó que cedo foi visitar um Senhor e não voltou. Mais abaixo a São da Laura que tantas vezes me recebia e pacientemente atendia.

Lá em cima, no Calvário, pedras grandes, cruzes altas e o sobreiro que nos dava a sua guarita. O escorrega era ali. Bendita cera daquelas velas daquela procissão que vinha à noite com muita gente de círio pascal na mão. Rabo esfarrapado. Sermão da Natália em preparação para o chinelo “quando a mãe chegasse da escola de São João” (da Madeira). Casa dos avós ao lado da capela que, rodeada por terra, era ideal para a bicicleta. Joelhos esfarrapados. Sermão da Natália em preparação para o chinelo “quando a mãe chegasse da escola de São João”. Vinha de manhã, a correr com o “Larai”, porque queria ir às olimpíadas. Saía à noite, embalado pelas histórias da Natália e no aconchego dos braços da Alcina.

Lá no Espingardeiro, cresci. Sair da casa nova, de manha, e andar na rua ate o sol se ir. Os primeiros palavrões começaram a sair. Correr nos campos feitos pelo Mota, para não nos apanhar com a fruta que levávamos dali. Responder aos “Joãoooooo” da Maria da Bigoda, que o Binqueca estava na vila e nem a ouvia. Descobrir novos caminhos, novos campos e novos montes. Descobrir novas liberdades e novas responsabilidades. A minha história vincou-se aqui: cresci, sorri, chorei, sofri.

Sei-me nascido em Arouca, criado em Arouca, feito em Arouca.

23 de setembro de 2018

As bibliotecas de Arouca


    A primeira biblioteca que conheci e usei era móvel, era uma carrinha, um furgão que percorria o concelho. Foi ainda nos anos 80, andaria eu ainda na escola primária, ou talvez já na telescola. Lembro-me vagamente de, num intervalo da escola, ir a essa biblioteca-que-vinha-até-nós e requisitar livros para levar para casa. Quando chegou o tempo de ir para o 7º ano, fui para a Escola Secundária de Arouca e ainda cheguei a frequentar a biblioteca que havia na antiga sede da Misericórdia, onde agora funciona a ADRIMAG. Assisti pouco depois à instalação e abertura da Biblioteca Municipal de Arouca.
    Há dias dei comigo a pensar nas bibliotecas de Arouca e, se bem que pelas suas distintas naturezas sirvam distintos públicos, são várias. Excluindo-se aqui, obviamente, bibliotecas pessoais e familiares, enfim, puramente privadas, há pelo menos estas:
    1. A biblioteca do Mosteiro de Arouca. É a mais antiga de todas. Não corresponde, de todo, àquilo que foi nos tempos em que no mosteiro vivia uma comunidade de monjas, mas ainda assim podemos hoje consultar com a maior comodidade os espécimes que permanecem no mosteiro, graças ao projeto de catalogação e digitalização cujos resultados estão em http://arouca.fcsh.unl.pt/.
    2. A Biblioteca Municipal de Arouca. Dispensa apresentações. Segundo tenho ideia, trabalha em rede com as bibliotecas escolares e dispõe de dois serviços de extensão: bibliomóvel e bibliomala.
    3. O fundo documental da Associação de Defesa do Património Arouquense. Muito mais do que uma biblioteca, é um valioso repositório especializado sobre o concelho: bibliografia, hemeroteca, arquivo.
    4. A Biblioteca Memorial D. Domingos de Pinho Brandão. Inaugurada em 2015, tutelada pela Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda e instalada no Mosteiro de Arouca.
    5. As bibliotecas escolares. Servindo as comunidades escolares respetivas, dispensam igualmente apresentações.
    6. A Casa da Cultura de Fermedo. Espaço cultural que, sendo um polo de memória da região, inclui valência de biblioteca. Situada em Cabeçais no edifício que foi sede do concelho de Fermedo.
    Com tantas bibliotecas, haja leitores com tempo e vontade, porque os livros não se leem sozinhos…