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29 de abril de 2019

O cerco e a cerca

Mosteiro de Arouca e cerca. Fonte: Revive

   Em Mafra há, mesmo ao lado do palácio-convento, um belíssimo jardim público de acesso livre e gratuito. Chama-se Jardim do Cerco. Jardim botânico, com relvados, parque infantil, espaço de merendas, bar concessionado. Com portaria e jardineiros. A gestão é municipal. Provém da primeira metade do século XVIII. Passei lá neste 25 de abril.
   Em Arouca há uma cerca, a dita cerca do mosteiro, coeva do jardim do cerco de Mafra. Entre outras diferenças, impõem-se as de que no caso da cerca do mosteiro de Arouca não foi nunca nem o será, pelo vistos, de usufruto livre, gratuito, permanente dos munícipes e demais cidadãos que pretendam usufruir dele nesses moldes. Há alguns anos constou que ali fazia horta para uso próprio certa personalidade local que ali teria privilégios de acesso e uso.
   Agora que foi assinado um contrato de concessão por 50 anos da Ala Sul do mosteiro e da quase totalidade da cerca para um empreendimento hoteleiro, ao abrigo do projeto Revive, os cerca de 2,5ha da cerca serão finalmente fruídos. Por alguns, i.e, os hóspedes do “estabelecimento de cariz turístico [que] deverá ocupar a Ala Sul do Mosteiro, os edifícios da antiga Enfermaria, Botica e Apoios Agrícolas, bem como a maioria da área da Cerca, com a exceção do Passal.”
   É verdade..., “Estes espaços podem ser aproveitados e projetados de forma a criar um circuito de visita, para uma melhor fruição da Cerca, bem como para a implementação de um programa de lazer, nomeadamente através da construção de uma piscina e todas as estruturas de apoio necessárias.”
   Continuando…, “Na Cerca pretende-se também a implementação de um plano de arquitetura paisagista que contemple a reabilitação da cobertura vegetal e a recuperação dos elementos existentes, nomeadamente os tanques e a fonte. O muro da cerca deve também ser alvo de obras de manutenção. Nesta zona insere-se a área de possível construção, onde será permitido expandir a área edificada ao nível do subsolo e criar as infraestruturas necessárias para a instalação de um programa de vertente lúdica.”
   Para que não restem dúvidas..., “A recuperação deste imóvel, não será apenas benéfica para a vila, mas também, num âmbito mais alargado, para o concelho, tendo em conta que esta região não dispõe de muitos alojamentos turísticos de elevada qualidade e, principalmente, com as características arquitetónicas singulares patentes no conjunto edificado e cerca, bem como o cenário privilegiado e as potencialidades que este monumento evidência.”
   Para o povo..., “Fica, no entanto, salvaguardado o direito ao acesso público à Cerca, para visitas guiadas e previamente agendadas, em quatro datas comemorativas. Estes dias abrangem a Jornadas Europeias do Património (Setembro), o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios (18 de Abril), o Dia Internacional dos Museus (18 de Maio) e o Dia da Rainha Santa Mafalda (2 de Maio), feriado municipal de Arouca.”
   Todas as citações que faço provêm dos Termos de referência da DGPC anexos ao caderno de encargos do concurso da concessão acima mencionada.

26 de novembro de 2018

A favor de uma Pousada no Mosteiro, mas...

Em sequência do já anunciado há algum tempo, com a criação do Projecto Revive (que tem em vista a recuperação e valorização do património cultural e histórico, presente em todo o território nacional, e a sua transformação em activo económico para o país), na passada sexta-feira, 23 de Novembro, o Instituto do Turismo de Portugal lançou o Concurso Público para a concessão da exploração de uma unidade hoteleira no Mosteiro de Arouca, por 50 anos. O prazo para apresentação de propostas corre agora por três meses.

Há já alguns anos que defendo também a instalação de uma unidade hoteleira no Mosteiro, nomeadamente, para salvaguarda, manutenção e dignificação de uma parte hoje totalmente devoluta, mas, no entanto, nunca com a ambição do que está agora projectado. Defendia apenas, e ainda defendo, a instalação de uma Pousada, mas, exclusivamente na parte Nascente da Ala Sul (assinalada na imagem).


O caderno de encargos do Concurso agora lançado prevê a concessão de toda a Ala Sul do Mosteiro e a quase totalidade da Cerca (demarcada na imagem abaixo), com vista a adaptação, inclusive com possibilidade de construção em parte da Cerca, para posterior exploração para fins turísticos, como estabelecimento hoteleiro, estabelecimento de alojamento local ou outro projecto de vocação turística com elevados padrões de qualidade, que privilegie o alojamento, podendo ainda incluir outras valências como restauração e lazer.

Ainda de acordo com o programa e respectivo caderno de encargos, - que ignora a ocupação do 2.º Piso da parte Poente pela Associação de Defesa do Património Arouquense -, da área a concessionar, apenas o Pátio dos Comuns e o espaço de acesso a este, através do Largo Santa Mafalda, funcionarão como espaços de utilização partilhável, mas com acesso condicionado, para serventia do museu. Os restantes espaços ficarão exclusivamente afectos ao uso privado do empreendimento turístico. Fica, no entanto, salvaguardado o direito ao acesso público à Cerca, para visitas guiadas e previamente agendadas, em três datas comemorativas nacionais e uma municipal: o Dia da Rainha Santa Mafalda.


Confesso que não antevejo muito provável a candidatura nem muito viável a instalação de uma unidade de 5 estrelas, como já chegou a ser aventada, mas, também não será de ver com bons olhos a instalação de uma unidade de gama inferior, com aquela dimensão. Sendo certo que, apesar da muito boa qualidade das unidades hoje existentes em Arouca, um hotel de 5 estrelas dificilmente concorreria com aquelas, mas, já uma unidade de gama inferior, com a aliciante do edifício em causa, certamente que concorrerá e poderá mesmo comprometer a viabilidade de algumas delas. Factor que não deverá ser subestimado pelas entidades que têm ou podem ter uma palavra a dizer neste processo.

Contudo, sendo já a segunda vez que a procissão a esta santa sai da igreja, está ainda no adro... a aguardar quem pegue no andor... E, manifestamente, há agora muito mais a dizer. Será, pois, uma boa altura para que muito boa gente, com responsabilidades acrescidas, volte a reflectir e a pronunciar-se sobre o tema, também na perspectiva de ganhos e perdas, e dos interesses de Arouca e dos arouquenses a salvaguardar.