29 de abril de 2020

A Pensar Alto. Confinar... Ter limites, ter confins...

Sinceramente em toda a minha vida nunca tinha empregue esta palavra. Sabia o que queria dizer mas como há sinónimos mais usuais e mais doces, maneiras de dizer, para expressar este isolamento, nunca a tinha escrito. E se calhar nunca a tinha dito. Perdoem a repetição, agora que lhe conheço na prática o significado, vivia bem sem ela. Por estes dias não haverá palavra que todos, nunca mais iremos querer pronunciar esta do confinar. Sabemos agora o que quer dizer ter limites, estar prisioneiro sem ter cometido qualquer crime ou delito, a injustiça a massacrar nos diariamente sem olhar a nada nem ninguém. Cá estamos, quase todos confinados, com dias e dias a passar, assustados com o vazio do futuro à espera de qualquer coisa, qualquer noticia, que nos alegre de novo e nos devolva os dias felizes, assim a modos do alívio quando o mar chega mansinho e refresca o corpo quente do sol. Até lá a maioria confinada, os indispensáveis a trabalhar todos com as suas e nossas prioridades, todas importantes e fundamentais. Nós os confinados, os mais velhos, e aqueles cujas atividades foram interrompidas, cá estamos a apreciar os dias mais longos, as horas sem fim, a arrumar pensamentos que muitos tínhamos esquecido mas voltaram com este repouso, tentando  não perder de vista o mundo, o de longe e o de perto e cada vez mais habituados e aperfeiçoados com as novas formas de comunicação. Sempre a resistir e ver se passamos despercebidos ao inimigo invisível. E nem tudo é mau. Descobri, melhor recordei, p.ex. que somos um povo fantástico. Do dia para a noite e através das redes sociais o que não faltam são entendidos em gráficos, em picos, em planaltos e quejandos. Descobrem se maquinações terríveis vindas do Oriente, problemas matemáticos são canja, todos sabem cozinhar bolos e doces com esmero, em relação ao presente soluções não faltam, pena não poderem ir todos para o Governo, criticas nascem a rodo, e do futuro então todos traçam um cenário, os do poder, meio côr de rosa, os da oposição moderada um pouco mais negro e os outros catastrófico que isso dá sempre audiência, nada como antever sofrimento e pesadelos. Alguns e como não tem havido futebol, impossibilitados que estão de ir para os campos insultar os árbitros e quem lhes apareça pela frente, insultam quem transmite as noticias, quem escreve opiniões que vão contra os seus interesses, e por dá cá aquela palha, com erros de ortografia ou frases mais delicadas não fica nada por dizer. O importante é mostrar indignação mesmo sem saber bem contra quê, ou que alternativas se escolhiam e se eram viáveis É tudo incompetente, onde já se viu. A oposição a nível nacional tem andado meio colaborante a ver onde param as modas, não vá vir por aí mais derrotas nas próximas eleições com atitudes que não se esqueçam facilmente nestes tempos de surpresas e de decisões pouco populares. Cá em Arouca a oposição, optou por manter a indignação em alto, para se manter fiel aos aderentes, divulgou as suas propostas fundamentais, quais vacina de ultima hora, num jornal da terra, on line que é mais rápido, com um dente a piscar no fim das páginas que o mais distraído até se assusta com tal aparição. Fiquei na dúvida se é preciso ter dentes para tais propostas, ou se se concretizarem tais intenções ficamos em paralelo com dentes melhorados, sei lá, mensagens sub liminares com certeza de uma publicidade moderna e meio americanizada lá das terras da aberração trumpiana. As propostas eram todas boas, tudo a descer, impostos, águas, e mais. E têm razão, está tudo sobrecarregado, uns mais que outros mas assim ficava tudo mais aliviado. Podiam ter falado na luz, nos seguros e por aí fora mas sabemos bem quem andou a vender as empresas rentáveis para salvar o País e incentivar a iniciativa privada, que isto do Estado nasceu para ter prejuízos e é a dividir por muitos.Mas afinal até isso,as simples propostas deram polémica, são nervos á flor da pele,è do tempo que vivemos. Adiante, anda no ar uma expetativa de que vai tudo acabar bem e que vamos todos aprender a lição do que muito se tem errado. Regressarão os valores propositadamente esquecidos, vamos todos olhar para os outros de uma maneira muito diferente, enfim, há males que vêm por bem. Não estou tão otimista, pelo andar da carruagem antevejo mais do mesmo, no entanto quero esperar para ver as mudanças e quem irão ser os mais penalizados e os mais favorecidos, porque disso vai haver de certeza. Tempos de reflexão, de atuação, pleno de surpresas e decisões das quais podem depender as nossas vidas. A nossa terra tem sido bem dirigida e o nosso País não tem sido dos piores numa Europa bem atingida pela calamidade. Mas claro isto é o meu ponto de vista, sei que muitos não irão concordar porque de conversa está o mundo cheio, e isso pelo menos está na mesma.

Carlos S. Sousa em quarentena.

25 de abril de 2020

Não comemoro Abril nem Maio!

cravos de várias cores...
Respeito muito todos quantos, depois do anterior regime "ter caído", em virtude de uma simples queda, - passo a aparente redundância - fizeram a “Revolução” de Abril, e até muito mais todos quantos por este país fora, com conhecimento de causa sobre o tempo vivido antes, suspiraram e alimentaram a esperança de passar a viver um tempo novo. Afinal, o tempo que ainda hoje vivemos. Este tempo em que nasci e vivo e, pelo que sei doutros tempos, quero, sem dúvida alguma, continuar a viver.

Porém, o tempo que ainda hoje vivemos, não é resultado daquela dita “Revolução”. Quando muito, pode afirmar-se que sem os acontecimentos ocorridos em Abril de 1974 não teríamos os acontecimentos que, em definitivo, levaram à construção e estabelecimento da democracia e liberdade plenas. E assim, se me é permitido, sem temer os habituais e sobranceiros reparos de militantes e adeptos “abrileiros”, comemoro antes Novembro, o 25 de Novembro de 1975! Posso até ficcionar que estamos em Novembro e sair à rua também, mas é isto que comemoro e não aquilo! A Construção e não a "Revolução". A Democracia construída e a Liberdade estabelecida por várias e não por uma só cor!

Comemorar Novembro de 1975, cujo “Golpe” também não teve os contornos que alguns narram, até porque foi mal sucedido enquanto Golpe, e ainda bem, - tal como Abril, que de “Revolução” tem apenas o nome, de que “dos Cravos” nos diz tão bem -, é comemorar a efectiva implantação da democracia e liberdade, da passagem do processo revolucionário (indefinidamente em curso) ao processo constitucional. É comemorar o fim da anarquia e dos conflitos entre grupos de esquerda e direita, instigados no 1.º de Maio de 1974, cujas tradicionais manifestações ainda hoje revelam algum saudosismo. É, quiçá, comemorar o não vivermos hoje ou durante muito tempo um certo social-fascismo.

Contudo, como vivemos em democracia e liberdade plenas, conseguidas em definitivo pelo Novembro de 1975, respeito, e respeito muito - emociono-me até às vezes com certos episódios de homens e mulheres de esquerda e de direita unidos pelo que mais importa... -, mas, dizia: respeito, e respeito muito, todos quantos não ousem apagar e reescrever a história (nenhuma parte dela) e pese embora façam tábula rasa do período entretanto e então vivido, entendam ter razões para comemorar Abril e Maio de 1974.

23 de abril de 2020

Arouca no pós Covid-19

A pandemia Covid-19 atacou-nos a todos enquanto sociedade de uma forma nunca antes sentida na era moderna. Tão fracturante como o ataque a que fomos submetidos, mais ou menos bruscamente, temos também que estar conscientes que a curto/médio prazo o vírus estará aí para nos fazer repensar a nossa forma de agir, estar, interagir e viver em sociedade. Seremos capazes de aprender ou reaprender  algo após isto tudo ou quando "a vacina chegar", quando "um tratamento mais eficaz chegar" seguiremos o nosso caminho desenfreado como até aqui vínhamos fazendo?
Até agora foi tempo de pensar quase exclusivamente na saúde, na não ruptura do nosso SNS. Parece que o conseguimos fazer, felizmente, com sucesso. Agora será também altura de começar a pensar como sair deste buraco económico em que nos fomos obrigados a esconder. E Arouca, como foi ou será afectada economicamente por esta epidemia?


Nos últimos anos tivemos um desenvolvimento económico, à semelhança do resto do país, muito alicerçado no sector do turismo com os Passadiços do Paiva como ex-libris desse desenvolvimento. Se existem  sectores que poderão ser exemplo máximo do "fechar tudo" são o sector do turismo e restauração. Todo o sector terciário foi severamente atingido.
De portas fechadas, sem turistas, sem receitas, com as despesas que se adiarem agora a terem que se pagar no futuro (são estas as indicações do governo). As empresas vêem-se em enormes dificuldades.
O turismo em Arouca é essencialmente um turismo de natureza, ao ar livre onde a proximidade e distanciamento social são por si só potencializados pela prática em si mesmo. Caminhadas nos nossos percursos pedestres, nos passadiços com lotação limitada, prática de desportos radicais, passeios na Serra da Freita, etc., têm certamente um factor de contágio e transmissão mais baixo que o fazer turismo em museus e ruas de grandes cidades de Portugal ou mundiais. Poderá isto ser visto como uma vantagem turística a médio prazo? Mas não nos interessa em termos comerciais ter turismo se não podermos tirar os dividendos económicos do mesmo. E esses dividendos indirectos vêm-se na restauração, no alojamento... em resumo: na generalidade de todo o consumo local que o turismo arrasta. 
A gastronomia é outro ponto muito forte do nosso turismo, seja através da marca "Raça Arouquesa" ou através dos Doces Conventuais e todas as outras iguarias tradicionais. Iremos a breve prazo poder voltar a ter os restaurantes lotados ou com lotação limitada? As pessoas terão receio de se reunir socialmente e preferirão "vir passear à nossa natureza e trazer a sua "marmita"?
Temos uma nova ponte pedonal a inaugurar, com um custo de mais de 2  milhões de euros, com um target de público alvo nacional e internacional. Um investimento que necessitará de milhares de turistas para fazer reverter o investimento. Os turistas, que acredito terão vontade de nos visitar, terão receio de atravessar  a ponte ou terão um receio ainda mais prejudicial que será o receio de vir?
E a médio prazo, a sociedade arouquense aprenderá a viver com o vírus? Temos uma população envelhecida, principalmente nas zonas mais rurais e serranas onde algumas aldeias têm uma população com média de idade acima dos 70 anos, o que faz com que toda a aldeia seja população de risco. E se a epidemia aí chegar?
Não temos uma data definida para isto terminar pelo que teremos que ir pensando e projectando ou desprojectando a curto, médio e longo prazo.
As festividades como as conhecemos, do São João do Porto, por exemplo, foram canceladas, as do Senhor de Matosinhos, pela primeira vez na história, foram canceladas. E as nossa Feira das Colheitas? O espaço temporal que medeia entre a data actual e o final de Setembro será suficiente para que possa acontecer nos moldes que a conhecemos?
Felizmente todos as ERPI's de Arouca testaram negativo para os seus utentes, mas como já escrevi teremos que aprender a viver com a doença. Deveremos manter a longo prazo um local para onde possam ser deslocadas pessoas que necessitem de quarentena e isolamento fora da estrutura da ERPI? Essa solução, a médio prazo, não poderá ser o pavilhão municipal porque as nossas escolas terão que obrigatoriamente reabrir. 
Todo um novo mundo de dúvidas, questões e incógnitas nos trouxe este surto. Estas são só algumas dúvidas no imenso mar de interrogações que podemos ter. O desconhecido também nos obriga a questionar e a tentar antecipar todos os cenários.

20 de abril de 2020

Depois da tempestade, virá a bonança e, necessariamente, um tempo novo.

A situação que estamos a viver, por força da ameaça do novo Coronavírus, está a obrigar-nos a apressar novos conhecimentos e aprendizagens e a conhecer e implementar novas ferramentas e metodologias de trabalho, e até de mero contacto e convívio.

Imagem: Olivier Douliery/AFP/Getty Images
Com efeito, aquilo que estamos a aprender e implementar agora, para colmatar o distanciamento social a que esta pandemia nos obriga, permanecerá para além desta fase e será muito útil para imprimir maior eficácia ao funcionamento das organizações. 

Refiro-me concretamente aos contactos pessoais e de grupo, para trabalho e mero convívio, como é já hoje possível e está a ser feito por muitos de nós através da aplicação WhatsApp. Mas também às aulas, conferências e formações online, reuniões de trabalho, de gestores ou administradores de empresas, às reuniões de direcção de associações e instituições, às assembleias gerais de umas e outras, de freguesias e municípios, como já é possível e está ser participado por muitos de nós através, entre outras, da aplicação Zoom. Mas também do contacto e conversação com familiares acamados e/ou adoentados, internados em lares e hospitais, como é já hoje possível e está ser feito por muitas instituições através da disponibilização de um contacto de aparelho com videochamada, para ligações pré-agendadas. E até da assistência à própria Missa, cujas transmissões em directo via Facebook estão já a ser implementadas por vários párocos e paróquias, possibilitando a assistência de muitos que, já antes da circunstância que estamos a viver, não o podiam e continuarão a não poder fazer presencialmente.

Enfim, todo um conjunto de plataformas e ferramentas que, a reboque deste distanciamento que agora nos é imposto e continuará a ser recomendado por mais algum tempo, nos está a aproximar e relacionar com grande eficácia, nomeadamente, em proveito do funcionamento das organizações de que fazemos parte.

19 de abril de 2020

Como é óbvio, o 25 de Abril deve ser sempre celebrado...

Como é óbvio, o 25 de Abril, este ano, deve ser também celebrado, na Assembleia da República, no Parlamento da República Portuguesa, cumprindo as devidas regras de interacção social que são necessárias nesta altura da crise pandémica do corona vírus. 
O 25 de Abril é um feriado estrutural da organização política estrutural do Estado português e deve ser sempre celebrado, porque (como já referi neste blogue) conduziu-nos, felizmente, com a extinção do Conselho da Revolução no ano de 1982 (da era comum), à Democracia Parlamentar e Representativa, que é um regime bom e benéfico de Liberdade, com eleições livres e com direitos sociais e garantias cívicas: de Liberdade política e partidária, de Liberdade económica, laboral e sindical, de Liberdade de reunião e de associação, de Liberdade epistémica, científica e técnica, de Liberdade estética e artística, de Liberdade de imprensa e de informação, de Liberdade de aprendizagem e de ensino ou de Liberdade religiosa, que deve ser sempre acompanhada com a estruturação concomitante de um 'Estado-Providência'/'Estado-Social' forte, dinâmico e eficaz, que nunca falhe em tempos de crise económica, na linha do ‘Welfare State’ e da ‘Welfare Society’ de tradição europeia, de comprovado sucesso. E o Capitalismo e a Economia de Mercado são benéficos para os países e para os seus cidadãos, desde que haja sempre liberdade política e sindical responsável e com sentido responsável de Estado.
Liberdade, como é óbvio, repito, nunca significou nem significa desordem, indisciplina, caos, irresponsabilidade, anarquia, libertinagem, ausência de valores e ausência de rumo. Pressupõe deveres e responsabilidades, num exercício de cidadania permanente, porque os cidadãos têm direitos, mas têm que cumprir, escrupulosamente, de modo ético, os seus deveres e responsabilidades, para, assim, a Democracia Parlamentar e Representativa amadurecer, ser mais funcional e se aperfeiçoar. E o sistema axiológico absoluto para ser praticado, por todos os seres humanos de todos os continentes, é, como sempre foi, o sistema axiológico das sete leis noaítas: os valores morais noaítas da Torá Sagrada do Criador Absoluto dos Céus e da Terra.
Brasão de Armas da República Portuguesa
Portugal, desde a sua fundação, infelizmente, teve, quase sempre, ao longo dos séculos, regimes ditatoriais, repressivos, injustos e obscurantistas, com cosmovisões malévolas ou erradas, que perseguiram e destruíram vários elementos benévolos da configuração societal de Modernidade, o que fez com que o País muito se atrasasse relativamente aos países livres de Primeiro Mundo e ainda não possua a robustez sócio-económica e institucional desses países centrais e avançados, apesar de Portugal ter muitas potencialidades e estar muito melhor, em muitos e variados aspectos, do que no passado. O regime político de Liberdade que é proporcionado pela Democracia Parlamentar e Representativa é, até ao presente, o melhor regime político conhecido, que deve ser legado com consistência (num acto prospectivo de muitíssimo longo prazo, sempre enquadrado no espaço mais amplo da União Europeia), às novas gerações, porque se estão a verificar, na actualidade, alguns movimentos políticos extremistas e populistas que não trarão nada de bom e de benévolo para Portugal e para os Portugueses.
Entre os anos de 2013 e 2015 (da era comum), de modo muito irresponsável e num acto de muita ignorância, o Governo de coligação da altura eliminou dois feriados estruturais do Estado português: o 5 de Outubro (Dia da Implantação da República, o Dia da República) e o 1º de Dezembro (Dia da Restauração da Independência de Portugal)!!!!!!! Esses feriados, como é óbvio, nunca deveriam ter sido abolidos. Felizmente, esses dois feriados estruturais foram restaurados, em 2015 (da era comum), por outro Governo. 
Os feriados estruturais da organização política estrutural do Estado português nunca, mas nunca, podem ser abolidos e devem ser sempre, mas sempre, celebrados em Portugal. Para bem de Portugal e dos Portugueses e porque são elementos estruturais do Portugal livre, moderno e europeu, que comemoram a configuração política (a Democracia Parlamentar e Representativa e o Regime Republicano) que nos assegura o avanço e o desenvolvimento, que devem sempre progredir num acto ético e responsável (valores morais noaítas) de prática da cidadania e de aperfeiçoamento racional do mundo envolvente.

13 de abril de 2020

Uma Páscoa muito diferente.

Arranjo colocado na frente da Porta (fechada) da Igreja do Mosteiro
in Facebook da Paróquia de Arouca
A Páscoa de 2020 fica para a história individual e colectiva como uma Páscoa muito diferente, necessariamente diferente. Tanto mais quando não existe memória nem noticia de alguma vez assim ter acontecido e, espera-se, nunca mais venha a ser necessário que assim aconteça.

É, por isso, muito importante registar o momento que vivemos este ano e ter presente que ele significará, necessariamente, um marco também no que aos nossos comportamentos sociais, práticas e tradições comunitárias e religiosas, diz respeito. Haverá um antes e um depois da Páscoa de 2020.

É verdade que, em sentido mais amplo, para todos os efeitos - todos mesmo, mas, nomeadamente, no que à saúde e economia diz respeito - haverá sempre um antes e um depois do primeiro semestre de 2020. Em rigor, haverá sempre um antes e um depois da pandemia do Covid-19. 

No entanto, para quem é de meios mais pequenos e rurais, para quem sente e vive de forma mais intensa as tradições e práticas religiosas da época, ou até de quem julga não as sentir e viver, mas a arrasto delas convive e confraterniza com a família e amigos como em nenhum outro momento do ano, esta Páscoa de 2020 teve um significado muito especial e não deixará de ser um marco na nossa memória individual e colectiva, a recordar e comentar por muitos anos.

8 de abril de 2020

A Pensar Alto. Lugares do meu lugar.

Lugares do meu lugar. Uma historinha com muitas felicidades para assustar estes dias de poucas alegrias. O Burgo sempre presente.

Conheci-o era criança. Ele, um rapazinho muito calado, tímido, envergonhado mas sempre com aquele sorriso que por maus que fossem os dias encontrava lhes sempre um motivo para ser feliz, e mostrava o nos olhos grandes que transportavam a luz daqueles campos imensos. E fazia felizes os outros. Quando somos crianças é muito fácil olharmos em volta nas brincadeiras e encontrar mos um herói. Para mim era um herói desde que numa tarde apareceu com uma manta meio velha, meio gasta por variadíssimos usos, nunca os de capa, e com uma improvisada espada de um pau meio torto quase tão abandonado como ele, fez com que as crianças do lugar fugissem todas, pelo menos nessa tarde, para batalhas enormes onde os gritos eram de entusiasmo, os nervos eram de excitação e os sorrisos ou lágrimas eram por alguma pancada perdida num dedo. Tantas algazarras e lá ao longe adivinhava-se a donzela prisioneira à espera do beijo salvador. Foi um herói pela invenção da brincadeira e daí para a frente foi um amigo de muitos dias até que a vida entra na parte mais real, é triste não haver só um caminho, e cada um seguiu o seu. Nunca mais o vi, mas as memórias ninguém mas tira. Nem sei bem o nome dele, para nós ficou o espada, o espada do Porto Escuro. Vivíamos relativamente perto e sempre que as horas de brincadeira apareciam mesmo naqueles dias tristes de invernos frios, lá ia a correr procurar o companheiro, e num ápice, capa nas costas e espada na mão o seguia para encontros e descobertas tão perigosas que até tenho mêdo em recordar, pois pelo menos altos castelos, rios abundantes, dragões assustadores havia muito disso tudo. Passávamos por lugares que são uma mistura da imaginação, do amor á natureza, da beleza das paisagens e das pessoas,  boas pessoas que estão sempre presentes. Vivi quase sempre ali na parte mais alta de Lourosa de Campos numa casa encurralada por um caminhito estreito e por enormes árvores que davam sombra em fartura mas ao mesmo tempo ajudavam à sensação de se estar meio prisioneiro. Não a procurem que não a encontram, é difícil. Atrás da casa, bem no alto, aqueles enormes rochedos da Péna que no inicio me pareciam pintados no meio do arvoredo, mas que depois entendi estavam aprisionados, bem firmes, e agarrados pelos braços das terras da nossa Freita. Lá, descia os olhos e via o lugar da Forcada a trocar olhares comigo. Parecia-me um lugar de brincadeira e só poderia ter sido formado quando algum Criador daqueles cheios de força e que viveram em tempos afastados mas não existem por estes dias, subiu  curioso a esses enormes  rochedos e  de cima deles atirou as casas e espalhou-as por ali, por aquela encosta, como quem dá um prémio para toda a vida, ficando à espera da presença das  pessoas, formando o inicio deste belo lugar que até o nome faz lembrar tempos antigos, Forcada. Ali, mesmo a seus pés e perto de mim o lugar de Porto Escuro. Tão perto e tão intimo que até lhe aumentou o nome, Porto Escuro, era sempre o Espada do Porto Escuro. Estranho nome para um lugar colocado num degrau de uma montanha sem água por perto. Nem rio, nem regatos, um ou outro rêgo foreiro, mais nada. Para mim os portos são sempre lugares com o brilho das águas e a limpidez que muitas lágrimas enfeitam com as muitas chegadas e partidas. Luz nunca lhes falta e até as noites são luminosas com as alegrias de quem regressa, e as angústias e surpresas das partidas. Mas ali sem se saber porquê, foi sempre assim, Porto Escuro. Era no entanto um ponto de importância geo-estratégica  como se diz agora, um entroncamento que em vez de desunir, aproximou e serviu de ponto de encontro a muitos miúdos como eu. Para mais logo a seguir, até lá surgiu uma escola, um lugar pequeno com uma escola é caso raro mas aconteceu e enquanto durou ajudou a combater as ausências e a diminuição de gentes que por lá viviam. E acabou por sobrar alguma coisa para os dias de hoje, já tão desertos, ganhou uma das nossas Bandas, um sitio para reunir e ensaiar, a Banda de Figueiredo. Lá atrás e com ares de sobranceria um lugar pequenino com os perfumes e sons da Freita, Póvos, terra de piscos, tão perto e longe, disfarçado de verdes das árvores e de sons enrolados em cantares de águas como pano de fundo, a esconder aquele silêncio que nos deixa a cabeça zonza e os olhos semi cerrados. E se a aventura durasse aquele tempo que parecia não acabar, Bustelo, que era longe, mas as bicicletas velhas serviam de montadas  e até nos atiravam ao chão quais montadas indomáveis. E lá,  ficavam muito calmas e tranquilas encostadas ao coreto. Valia o esforço. Eram estas as terras de muitas brincadeiras. Nunca nos cansávamos de abraçar aqueles chãos, e respirar o nosso ar como se fosse possível ser para sempre só nosso. É verdade, por ali abaixo estendia se o lugar de Figueiredo de um lado e Lourosa de Campos por outro. Um vale pequenino com ares de quinta de família, com muitas marcas de sonhos que só a juventude descobre e momentos que nos levam sempre de volta. Era por aqui e por ali que decorriam as vidas de muitas pessoas que o mundo afastou mas permitiu pelo menos não se esquecessem. Eram estas as terras que amávamos sem saber, são estas as terras que o espada me descobriu e mostrou que há momentos em que por maior que seja  a tristeza, a simples lembrança nos faz de novo acreditar na felicidade. Arouca tem destas coisas, destas terras que parecem enfeitiçadas e ficam presas a nós como abraços perdidos em dias de festa.Abraço ao Espada do Porto Escuro, grande abraço. Nestes dias muito gostava de partir com ele mais uma vez á descoberta…

4 de abril de 2020

Um agradecimento a todos os profissionais de saúde de Arouca. Um reconhecimento especial aos Bombeiros Voluntários de Arouca.


Atacados por um inimigo invisível, que não olha a origem, raça ou credo e que nos faz sentir que, na realidade, perante os desígnios da natureza somos todos iguais, este período pelo qual passamos, tem-nos levado ao limite da nossa paciência e resistência.

Limite e resistência que parecem não ter fim para todos aqueles que continuam a trabalhar e a contribuir para que a vide não pare.

Reconhecendo a importância de todos aqueles que diariamente se continuam a sujeitar ao ataque de guerrilha deste elemento hostil, não posso deixar de agradecer de um modo mais caloroso o trabalho daqueles que se encontram na linha da frente de combate. Porque são esses que, deixando a família, separando-se daqueles que mais gostam, se assumem como os bravos soldados que, sem manha ainda clara para derrotar o inimigo, não se amedrontam com a inferioridade de meios e com a incerteza das estratégias usadas. Lutam por eles, pelos que lhes são mais próximos, mas também e acima de tudo, lutam por nós todos. Lutam pela humanidade.

Não sabem como regressarão a casa. Não sabem, sequer, em alguns momentos, se regressarão. Ainda assim, de forma dedicada e altruísta, recusam desistir. 

Os Bombeiros Voluntários de Arouca, precisamente pelo seu voluntarismo, merecem neste momento, uma particular admiração. Homens e mulheres que nada ganham com o seu serviço nesta corporação, a não ser a sua própria satisfação por ajudar o outro, merecem todo o nosso respeito. Também eles deixam as suas famílias. São, na maioria das vezes, o primeiro contacto com quem está a ser atacado por este impiedoso inimigo e, por isso, correm riscos acrescidos. Ainda assim, movidos pelo desígnio de ajudar os que mais precisam, de forma voluntária e abnegada, não assumem os naturais receios de qualquer ser humano e enfrentam cada situação de espírito absolutamente desinteressado e humanista. Que bom é saber que, independentemente, dos riscos, da falta de meios que possam ter ou até do natural receio que vos possa tolher a coragem em alguns momentos, o vosso esforço, puro, genuíno e caridoso estará sempre com os arouquenses.

Assim, de forma simples, mas sincera, deixo o meu muito obrigado a todos pela resiliência demonstrada e pelo incansável espírito de cidadania. Bem hajam!

Imagm: Noticias ao minuto

27 de março de 2020

Que o milagroso São Pedro de Sanfins nos valha!

Chaves de São Pedro, gravadas na empena da fachada posterior da
capela de São Pedro, de Sanfins, Várzea
Corria o ano de 1734, pouco mais ou menos, estando gravemente enferma uma pequena, de seu nome Josefa Rosa, do lugar de Eidim, da freguesia de Rossas, acamada em sua casa, com uma inchação de sete palmos do ventre, sem poder mover-se havia cerca de dois anos e meio, e estando já quase moribunda e com assistência continua, de dia e de noite, de familiares e vizinhos, que faziam o que podiam para auxiliar a pobre pequena no último trânsito da vida, quando sua mãe, D. Maria Teresa de Jesus, tendo ido na manhã do Domingo da Paixão à igreja confessar-se e comungar por intenção da dita sua filha e, depois, à tarde, a uma pequena ermida, lá no cimo do monte, dito de Sanfins, fazer orações a São Pedro, suplicando-lhe que pedisse ao Senhor pela desesperança daquela criatura ou pela sua saúde, conforme fosse sua Divina vontade, o que esperava até ao seu dia festivo, e depois de feita esta oração e pedido, continuado em sua casa em oração, de manhã e de tarde e nas horas da Santíssima Trindade, diante do Santo Cristo, do seu oratório, até à véspera do dia de São Pedro, altura em que, diante do seu Santo Cristo, que do oratório recebeu em suas mãos, pondo-se de joelhos com Ele a uma janela virada para o monte da ermida de São Pedro, suplicou ao Santo Apóstolo que era chegada a gloriosa noite, véspera do seu dia festivo e glorioso, em que confiava e esperava por sua intercessão o alivio e remédio da saúde de sua filha, tão enferma nessa noite. Chegada a hora da recompensa, querendo os familiares e vizinhos fazer a costumada assistência à dita enferma, que estava ungida temendo que naquela noite morresse, disse ela que fossem todos descansar do grande trabalho, que com ela haviam tido nas demais noites, porque se sentia algum tanto aliviada; e, resolvendo-se todos, descansou ela também, pegando no sono. Terá então vislumbrado em sonhos que um varão respeitável de corpo agigantado vestido de azul, que disse ser São Pedro, lhe pôs o pé sobre a referida inchação e disse: levanta-te e vem comigo à minha capela, que amanhã se concretizará um milagre; respondeu a enferma: eu não posso levantar-me; e então vislumbrou, também ao seu lado, de sobrepeliz vestido, São Gonçalo (a cujo Santo, que se venera na matriz de Rossas, também a dita mãe em todo o tempo tinha oferecido sua enferma filha), que lhe disse: eu te dou a mão. E, com efeito, sonhando, ela se amparou e levantou, acompanhando depois São Pedro à dita sua ermida, desaparecendo aí o Santo. Acordando assustada, parecendo-lhe que estava em uma devesa, chamou em voz alta por sua mãe, a cujas vozes todos acordaram, achando-se ela em pé junto ao leito de sua mãe, sem inchação nem moléstia alguma, para espanto de todos, que a trémula luz a viram sã como se nunca tivera enfermidade alguma, atribuindo a surpreendente cura a São Pedro. Com grande alegria e contentamento de todos, caminhou a pequena com seus irmãos pela porta fora, referindo o beneficio que havia recebido por intercessão do Santo Apóstolo, ao que se apercebendo os vizinhos, tendo também um menino molestado com um pólipo no nariz, logo o ofereceram a São Pedro, pedindo à devota mãe e filha tocada pelo Santo que orassem também por aquele menino para que São Pedro também nele fizesse um milagre tirando-lhe aquela queixa incurável, pois que eles vizinhos foram incansáveis na assistência daquela menina no longo período de sua moléstia. E com efeito, no dia seguinte se achou o menino sem o pólipo nem sinal dele. Amanhecendo o dia 29 de Junho do dito ano, foram todos dar as Graças de suas casas a São Pedro e assistir à festividade que em honra do Santo se celebrou nesse dia. E de tão viva a representação de ir a pequena enferma com o Santo à sua capelinha, seguiu ela nesse dia diante de todos, dizendo conhecer o caminho, sem nunca lá ter ido em tempo algum, ficando a dita ermida a um quarto de légua de sua casa, por trás de um grande monte e outeiros, com a qual sempre custava a acertar a outros que já lá tinham ido mais vezes, acertou ela com a dita ermida como se lá tivesse ido todos os dias. E havendo sermão fez publico o pregador, com ela Josefa Rosa presente e à vista de todos, o milagre que se havia nela realizado. Tanto quis o Santo corroborar este milagre que, sendo ela Josefa Rosa chamada ao Porto por umas tias e tios, afim de aí contar a Graças que havia recebido, aí chegada, foi chamada a casa de um enfermo que estava entrevado e sem esperança de vida havia cerca de um ano, o qual, constando-lhe aquele milagre, se quis oferecer àquele Santo, pedindo à menina tocada, que por ele fizesse oração e que a devota sua mãe também rogasse e orasse por ele a São Pedro, oferecendo-lhe uma oferta em dinheiro para reedificação e renovação da sua capela. Permitiu Deus que logo depois lhe passasse aquela queixa por intercessão de São Pedro e, cumprindo logo a promessa se fez de novo uma capela grandiosa, com o milagre representado em uma pintura posta num quadro, onde hoje existe a mesma imagem de São Pedro e se instituiu uma festa anual aos 29 de Junho e uma celebração aos 29 de todos os meses do ano. Como se já não fossem de monta as Graças recebidas, contou ela Josefa Rosa que, quando em sonho foi com São Pedro à sua capelinha, lhe dissera o Santo que passado algum tempo haveria de se purgar e sangrar, pois que daí a um ano haveria de padecer de outra grande enfermidade e passado dois anos havia de se livrar de um grande perigo. Destas duas circunstâncias não se fez caso, atribuindo-se a fantasia do entendimento, mas, o certo é que, daí a um ano completo, estando ela no Porto, teve uma grande enfermidade, em virtude da qual se purgou e sangrou como lhe tinha insinuado o Santo e logo se encontrou inteiramente sã, afirmando que assim lhe dissera São Pedro, do que sempre tivera lembrança, assim como de perigo que se havia de livrar e, com efeito, completos dois anos, estando ela descuidada fazendo uma cama, um seu primo, já rapaz, lhe disse: prima Josefa queres ver dar-te um tiro? E virando-se ela para ele, viu-se apontada de uma espingarda, atacada e carregada, ao que, aflita, invocou em altas vozes: São Pedro valei-me! E, proferidas as Santas palavras, disparado o tiro, que lhe estava apontado, a não tocou nem ofendeu, num fortúnio que a todos admirou, prostrando-se ela depois diante do Santo Cristo do seu oratório, dando muitas graças e louvores a Deus com uma fé viva de que São Pedro, seu intercessor, a livrou também deste perigo que trazia em lembrança desde o dia em que, em sonhos, acompanhou o Santo à sua capelinha.

Transcrição livre e inédita do relato feito pelo Reverendíssimo Bispo de Lamego, com vista ao reconhecimento e confirmação do «Milagre de S. Pedro de Arouca, venerado na sua Imagem adorável na sua Ermida, sita na Devesa e Monte de S. Fins da freguezia de Varzia, Bispado de Lamego, feito a Josepha Rosa de S. Pedro, filha do Cappitam Félis Soares de Carvalho e de sua mulher D. Maria Thera de Jesus, que existe viuva na idade de noventa annos, moradora no lugar de Eydim da freguezia de N. Senhora da Conceição da Sagrada Religião de Malta de Rossas, do Concelho de Arouca...» (transcrição literal).

O pedido para reconhecimento e autenticação foi feito por Constantino Soares de Carvalho, irmão de Josefa Rosa de S. Pedro, em carta dirigida a Sua Majestade o Rei D. Pedro III, o qual, para o efeito, ordenou ao Bispo de Lamego que mandasse fazer as diligências de estilo com as exactas inquirições pelo pároco da freguesia de Várzea, na qual está sita a mesma ermida, como também pelo pároco de Santa Marinha de Tropeço, também vizinho da dita ermida, e pelo pároco da freguesia de Rossas, também contigua ao mesmo lugar aonde se venera a dita Imagem do Apóstolo São Pedro, tudo afim de se anunciar o dito Milagre.

Não estão juntas a este processo (que por felicidade encontrei nos arquivos da Torre do Tombo, e está já disponível), as ditas inquirições, nem sei se algum dia chegaram a realizar-se, não se tendo, nunca, reconhecido e autenticado aqueles sucessivos milagres de São Pedro de Arouca, venerado na capela de Sanfins, de Várzea, cuja reedificação e melhoramento se ficou a dever àquelas circunstâncias.

Capela de São Pedro, de Sanfins, Várzea
Valha-nos este conhecimento por felicidade obtido recentemente e tratado nos meus apontamentos sobre a Comenda da Ordem de Cristo de Várzea, coroado com a belíssima oração que D. Maria Teresa de Jesus, do lugar de Eidim, de Rossas, pôs nas sagradas mãos da milagrosa imagem de São Pedro, nada a despropósito neste dia em que, da sua Basílica, no Vaticano, será feita a bênção Urbi et Orbi pelo Santo Padre, e que passo a transcrever:

«Glorioso Apóstolo S. Pedro, Príncipe da Igreja de Deus, Discípulo e Defensor de Jesus Cristo, Santo, em quem o Senhor se mostrou sempre admirável, Vós, que intercedeste ao mesmo vosso Divino Mestre, que é o que somente faz as maravilhas e somente o que põe os prodígios sobre a terra, que fizesse a singular maravilha e obrasse o estupendo prodígio de restituir a saúde de muitos tempos desejada a minha filha Josefa Rosa, achando-se gravemente enferma, desconfiada de todo o remédio humano, e  em perigo de vida naturalmente inevitável, sendo por vossa piedosa e eficaz intercessão e por vossas sagradas mãos levantada do leito de dores em que jazia e posta em pé repentinamente sã, como se nunca houvesse padecido a menor enfermidade, como quem foi tornada da sombra da morte à luz da vida, concedei propício o mesmo favor da vossa poderosa e eficaz intercessão aos nossos bons Reis e Senhores que no mundo governam, livrando-os de enfermidades e rogando ao mesmo Senhor Deus de todas as virtudes, que os encha das mesmas virtudes e derrame sobre eles muitas bênçãos afim  de que governem os seus fieis povos em paz e felicidade e recebam em prémio do seu feliz e pacífico reinado neste mundo uma prolongada e Santa vida, e no outro, a merecida coroa de perpétua e interminável glória: tudo pelos merecimentos, piedade e clemência do mesmo vosso Divino e amado Mestre e Senhor, que vive e reina com o Padre e Espírito Santo por todos os séculos dos séculos. Amém.»

Por fim, apenas uma pequeníssima nota biográfica e genealógica sobre Josefa Rosa de S. Pedro: era filha do Capitão de Malta e Monteiro-Mor do concelho de Arouca Félix Soares de Carvalho e de sua mulher D. Maria Teresa de Jesus, aquele natural do lugar da Cavada, freguesia de Rossas, e esta natural de Vila Nova de Gaia, ambos moradores no lugar de Eidim, da referida freguesia, onde tiveram, entre muitos outros filhos, Josefa Rosa, baptizada a 17 de Outubro de 1726, que, por curiosidade, vem a ser tia avó paterna de António Soares Júnior, ex-voto de Nossa Senhora do Campo, de Rossas.

Oxalá que o milagroso São Pedro de Sanfins nos valha e que a nossa comunidade passe imune a este flagelo que hoje estamos a viver.

24 de março de 2020

A Pensar Alto. O campo da bola de Figueiredo... anos sessenta do século passado.

O lugar de Figueiredo ali na encosta do Burgo era um lugar famoso. Tinha lá um campo de futebol, coisa rara mas com um valor imenso para todos. Numa sociedade muito fechada como a de então, aquele espaço servia para mostrar que todos queriam ter asas e mostrava que a liberdade conseguia dar nos momentos de puro prazer. Os meus pais, nem me lembro bem porquê, deram me uma bola de futebol . Não sei de que material, só me recordo dos ruídos que fazia quando se chutava e dos gritos, uns de espanto, outros de alegria que se ouviam logo a seguir. Recebi a embrulhada num papel muito colorido que pressentia coisas festivas e depois de passada a surpresa foram difíceis as negociações para uma utilização única e exclusiva nos momentos de folga ,e esses eram poucos apesar do tempo ser muito. Que linda aquela bola redondinha e com medidas para poder jogar futebol. Daí a importância do campo. Eu que nem era de Figueiredo gostava de passar por lá quando regressava a casa só para olhar aquele espaço que mesmo vazio estava sempre repleto de promessas e de alegrias enormes. Figueiredo era um lugar como outros, nem era bonito nem feio era um lugar de risca ao meio, não sei se a estrada separava as casas se as casas nasceram e preferiram ficar ao lado desta. Passava por lá a estrada que durante muito tempo foi a principal ligação para o cimo da serra, até a carreira semanal do Calçada a frequentava e Figueiredo era conhecido por local de passagem, agrícola, mas apesar de tudo com uma população abundante que lutava pela vida e acolhia outros que o tinham feito lá pelas terras distantes. Ontem como hoje. Terra dos Reimões, dos da Nogueira, dos do Pinho ali na curva, dos Marinhas, das lojas do Cardoso e do Júlio Rafeiro, duas boas mercearias, dos do Júlio, o do Benjamim, e entre mais, da casa do Alto que lá bem em cima tudo observava e pela vista compensava o esforço da subida. E tinha também a capela do Senhor da Boa Morte, um nome estranho, que algum santo descontente com a vida decidira ser apelativo. Ali ao lado via passar os moradores que respeitosamente se inclinavam ao dirigir lhe um olhar e os que continuavam serra acima muitos distraídos nem se apercebiam de tal pequena capela. E a padaria, que todos os dias exceto aos domingos nos permitia ter sempre o pão mais fresco da zona. E um alfaiate e mais artistas e mais profissões, um lugar para se viver com tranquilidade numa pequena comunidade. Mas o mais importante de Figueiredo era o campo da bola. Já na descida para o Marvão a dois passos da igreja de Salvador. Sabe se que o proprietário do terreno, um Dr. muito conhecido, com grande amor pelo desporto, amante do futebol, as suas visitas para ver jogar o Porto eram assíduas, resolveu fazer um campo de futebol para que os filhos que eram 3 tivessem a possibilidade de praticar o desporto que tanto gostava. Assim o fez e de um anónimo campo agrícola, com mais ou menos cavadela, nasceu o Campo de Figueiredo, tão famoso na altura como qualquer conceituado estádio olímpico dos dias de hoje. Sempre que podíamos calçavam se os sapatos mais velhos, que jeito deu a minha bola, não era preciso juntar sequer 11 para cada lado, era com os que estavam e lá se passava uma tarde cheia de gritos, correrias e uma algazarra que só era interrompida com a presença de algum pai mais enervado e com uma vara na mão. Para nós, os de Figueiredo como tinham os filhos do Dr. na equipa e eram proprietários do campo jogavam a um nível elevado e esperavam algum recato de quem os desafiava. Mas precisavam de adversários e aí entravam os de Lourosa com os da Obra à frente, mais os do Coelho, os da Quinta, tudo família, e reforçavam se com os dos Milheiros, um ou outro do Marelha, do Piolho, e se preciso fosse um do Arregaçado que eram muitos e a escolha era fácil. Durante alguns dias até se reforçaram com um brasileiro que veio passar férias, jogava pouco mas falava com o sotaque do Pelé e isso já era suficiente sinal para atemorizar o adversário. E jogava se até ser escuro nem contando o resultado porque o que interessava era a brincadeira. E quando vinham os de Sta. Maria do Monte? com reforços de Lourosa de Matos e até um ou outro quase adulto para intimidar, e os da Vila, era como receber o Porto ou o Benfica, só vedetas. Eram jogos sem fim, tardes imensas caneladas e calcadelas, encontrões e arranhões que levavam uma eternidade a cicatrizar mas valia a pena. Aprendi lá o que queria dizer amizade, espírito de equipa, solidariedade, convívio, igualdade, numa sociedade tão vincadamente em socalcos de classe. Quando nos aproximava-mos do campo aquela ultima curva era já dada em velocidade de aquecimento, todos queriam ser os primeiros como se esse facto nos ajudasse no jogo seguinte. Depois uns pontapés à baliza, sem redes, e com cada vez mais impaciência formavam se as equipas porque o dia mesmo que com muitas horas de dia era sempre curto e não dava para recuperar resultados menos felizes. Agora tantos anos depois ainda lá passo e ouço, é impossível não ouvirem todos, os gritos, os incentivos, as ameaças, os pedidos, passa, passa, chuta, foi golo, falta, aquelas enormes tardes de tanta transpiração que já não cabem nas memórias. Agora tantos anos depois passo lá e vejo um pomar todo orgulhoso por estar ali à beira da estrada, todo alinhado e viçoso. E não quero que perca o orgulho, não vou dizer uma palavra e vou voltar só com os meus pensamentos. Com que cara ficaria se soubesse que ali foi o famoso Campo de Futebol de Figueiredo. Vamos todos guardar este segredo. Pode ser que um dia… Apesar de tudo...

18 de março de 2020

O que significa e o que implica o Estado de Emergência?

Para fazer face à situação de calamidade, prevenção e incerteza, que estamos a viver, parece cada vez mais inevitável que Sua Excelência o Presidente da República decretará hoje o Estado de Emergência Nacional. É uma situação inédita na vigência da actual Constituição e em Democracia, pelo que importa estar ciente das suas implicações.

Para o efeito, cumpre analisar o que se encontra previsto na Constituição da República Portuguesa (CRP) e no Regime do Estado de Sítio e do Estado de Emergência (RESEM).


Antes de mais, como é sabido, a Constituição consagra e assegura aos cidadãos um vasto leque de direitos, liberdades e garantias, designadamente o direito à liberdade, o direito de deslocação e o direito de reunião. Tais direitos, liberdades e garantias não podem ser suspensos pelos órgãos de soberania, excepto em caso de Estado de Sítio ou Estado de Emergência, declarados nos termos previstos na própria Constituição.

O Estado de Emergência significa, assim, a suspensão dos direitos, liberdades e garantias, podendo ser declarado, para todo ou parte do território nacional, nos casos de agressão efectiva ou iminente por forças estrangeiras, de grave ameaça ou perturbação da ordem constitucional democrática ou de calamidade pública.

O Estado de Emergência é declarado quando se verifiquem situações de menor gravidade do que aquelas que levariam ao decretamento do Estado de Sítio, nomeadamente quando se verifiquem ou ameace verificar-se casos de calamidade pública. Caso em que apenas poderá ser determinada a suspensão parcial do exercício de direitos, liberdades e garantias, prevendo-se, se necessário, o reforço dos poderes das autoridades administrativas civis e o apoio às mesmas por parte das Forças Armadas. A opção pelo Estado de Emergência, bem como a respetiva declaração e execução, deve respeitar o princípio da proporcionalidade e limitar-se, nomeadamente quanto à sua execução e duração e aos meios utilizados, ao estritamente necessário ao pronto restabelecimento da normalidade. Assim, a suspensão dos direitos, liberdades e garantias deverá observar e respeitar o princípio da igualdade e da não discriminação, com as limitações estabelecidas no artigo 2.º/2 do RESEM.

A declaração do Estado de Emergência não afectará nunca, no entanto, os direitos à vida, à integridade pessoal, à identidade pessoal, à capacidade civil e à cidadania, a não retroactividade da lei criminal, o direito de defesa dos arguidos e a liberdade de consciência e de religião. Na vigência do Estado de Emergência, os cidadãos manterão, igualmente e na sua plenitude, o direito de acesso aos tribunais, de acordo com a lei geral, para defesa dos seus direitos, liberdades e garantias lesados ou ameaçados de lesão por quaisquer providências inconstitucionais ou ilegais.

Dentre as limitações a impor aos cidadãos, salienta-se a possibilidade de restrição da liberdade e da livre circulação de pessoas e veículos, podendo impor-se desde o isolamento ao condicionamento ou interdição de trânsito, cabendo às autoridades assegurar os meios necessários ao cumprimento do disposto na declaração, particularmente no que diz respeito ao transporte, alojamento e manutenção dos cidadãos afectados. A violação do disposto na declaração do Estado de Emergência ou na lei, nomeadamente quanto à execução daquela, faz incorrer os respetivos autores em crime de desobediência, podendo ser punidos com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias.

Por fim, como já se sabe, a declaração do Estado de Emergência compete ao Presidente da República e depende da audição do Governo e da autorização da Assembleia da República.

A declaração reveste a forma de decreto do Presidente da República e a sua execução compete ao Governo, que dos respectivos actos manterá informados o Presidente da República e a Assembleia da República. A declaração confere às autoridades competência para tomarem as providências necessárias e adequadas ao pronto restabelecimento da normalidade.

A declaração do Estado de Emergência terá de ser adequadamente fundamentada e conterá a especificação dos direitos, liberdades e garantias cujo exercício ficará suspenso, não podendo o estado declarado ter duração superior a quinze (15) dias, sem prejuízo de eventuais e necessárias renovações.

14 de março de 2020

Covid-19: a pandemia do nosso tempo

Está aí, em evolução, a pandemia do nosso tempo. Ou seja, o surgimento de uma doença com propagação geográfica internacional muito alargada e simultânea. Em 12 de Março, estavam confirmados mais de 153.000 casos, em cerca de 150 países, com maior propagação na China (mais de 80.000 casos), em Itália, Irão e Coreia do Sul. Nessa data tinham já morrido cerca de 6.000 pessoas (cerca de 3.200 na China), embora se considerassem já cerca de 72.500 pessoas curadas.

No dia 2 de Março foi confirmado o primeiro caso em Portugal. Trata-se de um médico de 60 anos, regressado de Itália, onde o surto irradia actualmente com proporções avassaladoras, tendo já dizimado 1266 pessoas, 250 das quais num só dia. Nesta altura estão confirmados 169 casos de infecção, tendo sido registados 1.704 casos suspeitos desde o início da epidemia, estando já, no entanto, mais de 5.000 pessoas sob vigilância das autoridades de saúde.


A causa deste surto não está ainda definitivamente estabelecida, embora a doença tenha sido identificada pela primeira vez na China, em Wuhan, Hubei, no dia 1 de dezembro de 2019, num grupo de pessoas que comerciavam no Mercado de Frutos do Mar de Huanan, onde também se vendiam animais vivos, como pangolins, morcegos e cobras, num dos quais se poderá ter desenvolvido o parasita ou bactéria que depois passou a infectar os humanos. Não se sabe, no entanto, se foi aí que teve origem ou se foi apenas aí que se identificou o primeiro caso, podendo Wuhan ter sido apenas um local e evento de maior difusão.

De resto, tal como aconteceu com a conhecida Peste Negra, que teve o seu auge entre 1343 e 1353, mas que, por cá, nunca se conseguiu erradicar em definitivo até ao século XVIII, pelo que se fala dela ainda hoje como se dela houvesse ainda memória. Foi efectivamente uma das pandemias mais devastadoras da história, tendo resultado na morte de cerca de 75 a 200 milhões de pessoas na Europa e na Ásia, estimando-se que tenha mesmo dizimado pelo menos um terço da população do continente europeu. A doença foi então causada por uma bactéria transmitida aos humanos através de pulgas e ratos-pretos, que, como está bom de ver, se revelaram um foco de enorme propagação e difícil eliminação.

É, pois, também agora, importante saber a origem e forma de transmissão ao ser humano, para que se consiga um tratamento eficaz e se erradique em definitivo este flagelo do nosso tempo.

No entanto, enquanto isso não acontece, e de forma a prevenir a infecção, a Organização Mundial de Saúde recomenda que se lavem as mãos com regularidade e se protejam boca e nariz ao tossir e espirrar, e, mais importante do que tudo, se evite o contacto próximo com alguém que mostre sintomas de doença respiratória (como tossir e espirrar). Ou seja, as recomendações para ficar em casa, são mais propriamente para evitar a concentração e contacto físico de pessoas.

Por outro lado, mostra-se muito prudente evitar a desinformação, fazendo uma selecção de fontes de notícias de organismos, entidades e instituições credíveis, nomeadamente, da Direcção Geral de Saúde e do Governo (das quais, mais do que nunca, se reclama que sejam verdadeiras nos números e nas previsões), de forma a que cada um de nós possa proceder em conformidade com esses cenários e instruções, cabendo-nos também evitar derivas, desorientações, irresponsabilidades e egoísmos, que possam prejudicar ou agravar a situação de pessoas mais indefesas, incautas ou desprevenidas.

Trata-se, com efeito, de uma luta de todos, contra um inimigo que não é nenhum de nós. Devemos, pois, defendermo-nos uns aos outros para um combate mais eficaz. Para já, evitarmo-nos, pensando em todos, é apenas o que se pede.

9 de março de 2020

5ª Conferência Internacional Noaíta - Academia Noaíta de Jerusalém - Israel

Como já foi referido, várias vezes, neste blogue, Arouca (no contexto mais amplo do Noroeste Peninsular), possui muitos elementos de origem cripto-judaica e cristã-nova que configuraram o inconsciente colectivo arouquense e a identidade de Arouca, ao longo dos séculos. 
A Torá Sagrada do Criador dos Céus e da Terra, Bendito Seja O Seu Nome Sagrado, é um sistema axiológico absoluto para os Judeus (613 Mitzvot) e para os Não-Judeus (7 Leis Noaítas). Esse sistema axiológico absoluto (sistema de índole moral e ético, mas também de índole epistémico, científico, técnico, estético, jurídico e político, etc.) reporta-se e refere-se à estrutura ontológica e orgânica de qualquer ser humano e qualquer ser humano sadio reconhece esse sistema axiológico como bom, benévolo e justo. E não poderia ser de outro modo, uma vez que esse sistema axiológico é absoluto, tendo origem no Criador Perfeito e Infinito dos Céus e da Terra, que é Absoluto e Absolutamente Verdadeiro, Bendito Seja O Seu Nome Sagrado. 
Nos Céus e na Terra, só existe uma única autoridade infalível, que é a única entidade perfeita e absoluta: o Próprio Criador Uno e Absoluto dos Céus e da Terra, com a Sua Torá Sagrada, escrita em Hebraico, com o sentido originário do Criacionismo Hebraico e que se refere ao facto da combinação infinita das letras da Torá Escrita ser o blueprint de todos os fenómenos que existem nos Céus e na Terra, sendo um padrão prático absoluto para guiar os seres humanos no planeta Terra. Nesse sentido, qualquer pensamento, noção, acto ou prática que colida com os valores universais e absolutos das 7 Leis Noaítas é um grave retrocesso pessoal e um grave retrocesso civilizacional, no contexto teleológico da escatologia humana direccionada para a Era Messiânica, que ocorrerá, no futuro, a partir de Jerusalém - Terra de Israel, liderada pelo Moshiach Ben David e pela linhagem davídica, com a construção do Terceiro Templo, no Monte do Templo, em Jerusalém. A Humanidade está numa escatologia e essa escatologia é Judaica Ortodoxa «Shomer Torá uMitzvot». Não outra.
Este ano, mais uma vez, fui convidado, pelo rabi haredi Moshe Perets, para participar na Conferência Internacional Noaíta, em Jerusalém - Israel: um evento de muita qualidade, organizado e promovido pela Academia Noaíta de Jerusalém, que divulga e promove as 7 Leis Noaítas a todas as nações. Sou um rigoroso 'Noaíta-Observante-Chassid' (“Chassid Umot Ha’Olam”). Tenho origens familiares cripto-judaicas e cristãs-novas muito consistentes ao longo dos séculos e estou muitíssimo ligado, de modo directo, ao Povo Judeu haredi e ortodoxo Shomer Torá uMitzvot, há cerca de 16 anos, mas o meu interesse e a minha participação, em estudos académicos, sobre a Cultura Judaica Shomer Torá uMitzvot, é regular, há quase 25 anos.
As 7 Leis Noaítas (que só começaram a ser mais e melhor divulgadas no presente) vão ser, no futuro, na Era Messiânica, o sistema axiológico axiomático absoluto que guiará todos os seres humanos do planeta Terra, nos 7 continentes, com A Protecção Divina do Criador Absoluto dos Céus e da Terra, Bendito Seja O Seu Nome Sagrado, Bendito Seja Ele.



3 de março de 2020

A Pensar Alto. A maior ponte do mundo.

foto: Manuel Cruz
Há empreendimentos que muito antes de nascer parecem destinados a ter sucesso. É este o caso. Em Arouca, ali perto dos famosos Passadiços do Paiva, a atravessar duas montanhas que até agora só se olhavam de longe, a sentir aquela vertigem de quem gostava de voar muito alto e no fundo sempre olhou para os pássaros com inveja, a contemplar um rio que desce por uma encosta escorregadia colorida por salpicos sem côr, com esforços  impotentes para abrandar o ímpeto daquelas águas claras que só se tranquilizam lá para os lados do Vau, vamos ter uma ponte, uma espécie de grande pássaro sem asas que nos pode transportar e deixar ver o que só nos sonhos em que voamos bem alto, conseguimos. Vamos ter tudo isto e de pés assentes.Com uma ponte, e logo com a maior ponte do mundo. O tempo foi passando, as dificuldades foram aparecendo, todos sabemos como são as obras neste País, mas quando existe aquela vontade de terminar e cumprir o projeto que de tão estranho causa invejas e maus olhados confirma se que a fé move montanhas ou desta vez a fé constrói pontes, e bem compridas. Finalmente e ultrapassados prazos, e despesas acrescidas parece finalmente começar a ver se a estrutura simples e elegante em que muitos vão gritar de emoção, outros mesmo de mêdo e outros vão deixar os olhares substituir os pés e de longe ainda se vai conseguir ter aquele friozinho que alguns chamam de adrenalina e outros de cagunfa, fica à escolha. Bem sei que as verbas envolvidas poderiam se canalizadas para outras coisas, carências encontram se de modo avulso, mas qualquer responsável politico deve saber encarar o risco e enfrentá-lo depois de ponderar o indispensável. Os caminhos fáceis ás vezes conduzem nos a marasmos e águas paradas e nós sinceramente admiramos o rafting e o ruído de águas bravas que sempre se movimentam. Estamos ansiosos por ver a obra terminada. A nossa ponte vai ficar na história e nós só por isso, como a vimos crescer, como vimos as discussões de quem avalia o futuro, como antecipamos as imagens de quem com os olhos a rebentar de surpresa põe o pé, enche os pulmões e se precipita quase para o vazio, também estamos nesta história. Para além de tudo  pressentimos que vem aí mais uma onda de entusiasmo, as nossas ruas vão continuar a estar repletas, o turismo vai continuara a crescer e com isso os benefícios para todos. Bem sei que isso não será o suficiente mas havemos de provar aos mais descrentes que apesar de sermos poucos e ter mos pouco peso politico lá nos corredores do poder, ninguém vai querer ficar fora desta história e pode ser que nós e todo o interior melhore as condições de vida, desde os acessos aos empregos e ao essencial que ainda falta e que todos tenham finalmente igualdade de tratamento, é só isso. Esperemos que esta ponte tão arrojada una muito mais que dois pontos lá nos altos de Canelas, esperemos que una também um País pequeno, próximo e ao mesmo tempo distante e desigual. Venha a Ponte.

21 de fevereiro de 2020

A Regionalização é mesmo uma reforma estrutural MUITO URGENTE em Portugal: -a propósito de algumas afirmações irresponsáveis e irracionais do deputado André Ventura

Como já foi referido, várias vezes, neste blogue, a Regionalização de Portugal, nas cinco regiões identificadas, é uma das reformas estruturais mais urgentes que têm de se concretizar, para bem de todos os Portugueses e de todo o território português, para bem de todos os Nortenhos e de toda a Região Norte, para bem de todos os Arouquenses e de todo o território de Arouca.  Porque um dos GRANDES PROBLEMAS do funcionamento de Portugal surge, há bastante tempo, do ultra-centralismo ultra-parasita de Lisboa e arredores, aliado ao facto da actual suposta capital de Portugal não se localizar no núcleo identitário e idiossincrásico de Portugal e dos Portugueses, que é, como sempre foi, o território do Entre-Douro-e-Minho. Ou seja, a capital de Portugal não está localizada, há vários séculos, no sítio certo e adequado. A dita Descentralização anunciada não vai, de modo algum, resolver este GRANDE PROBLEMA. Só mesmo a Regionalização (prevista, outorgada e consagrada pela Constituição da República Portuguesa há cerca de 44 anos) o pode resolver. 
Contudo, infelizmente, em Portugal, há vozes muito irresponsáveis e muito ignorantes, relativamente a este assunto, como é a do deputado André Ventura com o seu partido Chega, que, num debate recente, disse, a certa altura, numa intervenção sobre a Regionalização, que "está-se nas tintas" para o que diga a Constituição sobre o tema"!...Teve, de imediato, como é óbvio, a contestação no Parlamento.
O ultra-centralista André Ventura (deputado com várias afirmações irresponsáveis, irrealistas e demagógicas) é, nesse aspecto, também um reflexo de um dos males que, infelizmente, se verificam, com frequência, em Portugal, nalguns cidadãos e nalgumas instituições, que é o de pensar que as leis do Estado não têm validade, bem como a recusa negligente e arrogante em cumprir as leis do Estado! É um indicador da anarquia irresponsável que, infelizmente, muito afasta Portugal dos países avançados da Europa central. Este André Ventura (que é um político com um percurso incoerente, com o Chega, que é um partido sem coerência ideológica, com elementos irresponsáveis, irracionais e absurdos) afirma que "está-se nas tintas para a Constituição Portuguesa"?! Como é que um deputado eleito pode afirmar isso, em pleno Parlamento, perante a lei fundamental que regula os direitos e deveres dos cidadãos e das instituições em Portugal?!...Irracionalidade. Absurdo. Irresponsabilidade. Atrevimento. Populismo perigoso, num partido com várias ideias perigosas e que esperemos que não aumente a sua representação no futuro, porque a própria Constituição da República Portuguesa, que é uma magna-carta do Estado português, proíbe, e bem, várias das ideias extremistas e irresponsáveis do partido de André Ventura, que pouco trará de bom e de benévolo para Portugal e para os Portugueses. 
Estado subordina-se à Constituição e funda-se na legalidade democrática. A Constituição deve ser sempre norteada pelo sistema axiológico axiomático absoluto dos valores morais noaítas da Torá Sagrada do Criador Absoluto, Infinito e Perfeito dos Céus e da Terra, Bendito Seja O Seu Nome Sagrado. As revisões da Constituição devem sempre ser para a Constituição estar em conformidade com esse sistema axiológico absoluto de origem divina e que se reporta e que se refere à estrutura ontológica e orgânica dos seres humanos. 
Gravura: blogue 'Regionalização'

9 de fevereiro de 2020

As réguas eleitorais

Esta semana li duas notícias que me fazem escrever o texto que agora apresento. Uma de âmbito mais local e relacionada com a construção da variante à estrada nacional 326 em Arouca e outra de âmbito regional/nacional relacionada com as obras de construção da ala pediátrica do Hospital de São João. Em comum têm o facto de serem obras e projectos anunciados com um largo historial de promessas pré e pós-eleitorais sempre adiadas. Neste espaço de opinião de índole mais local focar-me-ei principalmente na primeira, até porque as obras da ala pediátrica apesar de envoltas em muita polémica já arrancaram. As da Variante? Não. Esta tudo na mesma como há 17 anos atrás!!!! 

Passaram já quase 500 dias desde mais um anúncio que aconteceu a 10 de outubro de 2018 “Lançamento da empreitada de construção da nova Ligação Rodoviária do Parque de Negócios de Escariz à A32.” A variante, que agora já só é meia variante, continua a aguardar luz verde para avançar. Desde um concurso sem concorrentes com orçamentos abaixo do fixado pelas entidades responsáveis até outras vicissitudes, a adicionar ao largo lastro de percalços que esta obra arrasta, tudo continua na mesma. As próximas eleições são daqui a cerca de outros 500 dias. Acredito que esta obra em particular, mas também outras em curso, acabará por avançar ou estarem prontas em tempo “conveniente”. Lamento é que seja necessária recorrer a uma régua de desenvolvimento em que as unidades de medida são os períodos pré-eleitorais.  Daqui a alguns meses teremos novo avanço e quem sabe até teremos mesmo as “máquinas na estrada” ali perto das eleições. Será uma coincidência esta e outras inaugurações e a população ficará agradada. Por mim, acho que seria possível fazer mais e mais cedo talvez com uma escala de medição mais imediata: a das necessidades imediatas e justas de todos dos Arouquenses.

Novo artigo da Wikipédia sobre a Variante à EN 326 / Via Estruturante

Há um novo artigo na Wikipédia sobre a Variante à EN 326 / Via Estruturante. Embora seja um artigo pequeno, está bem elaborado. Vale a pena conhecer e ler, aqui:

28 de janeiro de 2020

Verba para passes na AM de Lisboa é superior em 80% à da AM do Porto (área metropolitana e NUTS III onde o concelho de Arouca pertence e se insere)!...

A verba deste ano (de modo análogo àquilo que aconteceu no ano passado) para passes na Área Metropolitana de Lisboa é superior em 80% à da Área Metropolitana do Porto (área metropolitana e NUTS III onde o concelho de Arouca pertence e se insere, sendo servido pelos autocarros da Transdev e da Auto Viação Feirense).
Esta GRANDE INJUSTIÇA do ultra-centralismo ultra-parasita de Lisboa e arredores (sobretudo em relação à Região Nortenão pode mesmo mais continuar. É UMA GRANDE INJUSTIÇAComo refere o editor-executivo do JN: "A Região Norte foi responsável pela diminuição, em quase 50%, do desemprego do país, desde o pico da crise, dando um contributo decisivo para alavancar a economia. Mas na hora de o Poder Central distribuir riqueza, outras latitudes são privilegiadas. E, assim, a regionalização começa, cada vez mais, a fazer sentido."
Para se resolver esta GRANDE INJUSTIÇA do ultra-centralismo ultra-parasita de Lisboa e arredores (onde se discute e onde se decide, todos os anos, o ultra-centralista Orçamento do Estado) tem de se concretizar, portanto, com muita urgência, o processo de Regionalização, prevista e consagrada, desde 1976 (era comum), pela Constituição da República Portuguesa, que é um dos processos mais urgentes e mais necessários a ser concretizados, de vez, em Portugal, para bem de todos os Portugueses e para bem das cinco regiões identificadas. Mas que está a ser, no presente, bastante dificultada pelos próprios actuais governantes eleitos de Portugal (do Poder Central) que, como é óbvio, não estão acima das leis e são eleitos pelos cidadãos de todas as localidades do País. As últimas sondagens realizadas são muito claras: a maioria dos Portugueses é a favor da Regionalização. A Regionalização é um processo (iniciado, portanto, há cerca de 44 anos atrás, com a Constituição da República Portuguesa) que tem mesmo de se concretizar com MUITÍSSIMA URGÊNCIA, de vez, para bem de todo o território português e para bem de todos os Portugueses. Tem de ser uma realidade concreta e funcional em Portugal.

27 de janeiro de 2020

PORTANTO, É AGORA OU PODE SER TARDE DEMAIS. APROVEITE-SE A 2ª REVISÃO DO PLANO DIRETOR MUNICIPAL



É recorrente a temática do envelhecimento da população a nível nacional e ainda mais, e já evidente, do abandono ou desertificação do chamado interior. Arouca não foge à regra e é sabido por todos que a população do Município tem vindo a diminuir. Aliás, e pegando nas palavras de um artigo de Vítor Arouca na passada edição do Jornal Roda Viva, “…perdemos 1 habitante a cada dois dias que passam.” Também na mesma edição,  José Carlos Silva no seu editorial faz referência a municípios que se preocupam com a diminuição da população e que vão dando incentivos aos mais jovens para se fixarem e para terem mais filhos.

Olhando para o Município de Arouca, encontramos os dois problemas. Baixa natalidade e migração dos jovens adultos para os centros urbanos do litoral.

Mas, olhando para a Freguesia de Arouca há um ponto interessante e que deve ser analisado e alvo de reflexão por parte dos técnicos que definem a estratégia populacional do território. Esta foi a única que aumentou a sua população nos censos de 2011, certamente e não só pela população que fixou mas também por aquela que atraiu das freguesias do restante Município. E porquê? Porque certamente ainda é a única zona urbana do Município onde se constrói habitação plurifamiliar que permite aos jovens casais fixarem-se em habitações com menos encargos mensais (mesmo que um dos membros do casal ou mesmo os dois tenha que realizar deslocações diárias para trabalhar). Constata-se que à medida que se constroem edifícios plurifamiliares os mesmos são rapidamente absorvidos pelo mercado e, fundamentalmente, pelos tais jovens casais.

Logo, pode Arouca fazer alguma coisa para além de dar prémios a quem tenha filhos para fixar e incentivar os jovens casais a permanecerem na sua terra? Pode. E está no momento propício para o fazer.

Arouca dispõe das principais infraestruturas básicas que dão comodidade à sua população – educação, saúde e serviços. Claro que a falta da via de ligação continua a ser a eterna pedra na engrenagem de um desenvolvimento sustentável. Espera-se agora mais um troço dentro de dois anos, sensivelmente.

Mas voltando ao porquê de este ser o momento propício. Porque neste momento encontra-se o Plano Diretor Municipal na sua 2ª revisão. Tudo o que nele ficar definido traçará  os destinos do Município em termos territoriais para os próximos 10 a 15 anos. Está na altura de perceber que não tem mal nenhum e poderá mesmo ser uma “salvação” para combater ou atenuar a tal desertificação da própria sede de concelho, aumentar a capacidade construtiva na sua área urbana. A construção de mais um piso. O aumento do índice de construção traz não só o aumento da população como tornaria mais rentável o gasto com o rendimento das infraestruturas municipais, para além de se obter com isso mais impostos ligados ao imobiliário.

Temos que nos lembrar que as populações de uma maneira quase maioritária gostam das “cidades”. Gostam de viver em comunidade. Gostam de ter os espaços de lazer e comércio próximos de si. É nas ruas da Vila de Arouca que vemos pessoas durante todo o dia nos seus passeios, nas suas praças e jardins, caminhando em trabalho ou simplesmente saboreando a apreciando a vida em comunidade. Mas fundamentalmente porque as habitações plurifamiliares em prédios são mais baratas. Mais fáceis de obter para quem está em começo de vida e de constituição familiar.

Portanto, é agora. Aproveite-se a 2ª Revisão do Plano Diretor Municipal. De outra forma, lá para 2035 poderemos novamente alterar o rumo do desenvolvimento mas aí poderá ser tarde demais.