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26 de março de 2021

A Pensar Alto! Vamos todos ficar bem... O arco-íris de cores carregadas.

Um ano. Passou um ano que de repente sem grandes discussões, experimentamos pela primeira vez o confinamento, uma espécie de prisão dourada, quase todos nos domicílios sem contactos ,o mínimo de  companhias, com receios a substituir as conversas e futuros negros nos pensamentos. Num instante, lá foi a vida que julgávamos nunca sofreria tais alterações, nunca na pior das hipóteses e logo da maneira que foi. Assustados, intimidados com as notícias e mais, cada um se fechou num casulo de aparente segurança, e esperou que os dias passassem com muita rapidez, para numa qualquer manhã quando os olhos se abrem mais, com sol mais quente e pensamentos mais brilhantes, tudo tivesse terminado e lá íamos de novo para o costume, aquelas rotinas de que temos saudades. Sem abraços, sem beijos, muitos sem família, sós com os receios que podíamos ser os escolhidos pelo vírus invisível e mais assustador, presente em todo o lado, até nos sorrisos de uma inocente criança. Raio de doença, e logo nesta altura, como se houvesse data escolhida para mal de tal dimensão. Como conforto à medida do passar dos dias, os arco-íris com coloridos a apagar o negro da situação, e muitas esperanças que no fim, sim, porque isto ia ter um fim, íamos ficar todos bem. Mas não era só isso, no final o mundo ia ficar diferente, passe de mágica que o tal estranho vírus ia conseguir. Nunca mais se repetiriam erros tão habituais, de ganância a atropelar homens e natureza, o ambiente ia ficar um brinco, as sociedades iam cair em si e alterar as produções, a poluição reduzida a quase zero, enfim cada respiro só com ar do mais puro, tudo embrulhado naquela solidariedade de oportunidades que muitos já nem se lembravam que existia e que finalmente iria permitir um mundo mais solidário e igual. Passou um ano, um ano e mais alguns dias. Alguns, muitos, não conseguiram terminá-lo porque as coisas foram ficando mais complicadas, ora melhor ora menos pior, sempre os receios presentes, a esperança a ter dias, os desânimos a aparecer cada vez mais como aquelas visitas que nem precisam que se abra a porta principal e vão entrando nem que seja pelos fundos mais escondidos.  Mais um dia, de repente outro, mais um mês e é verdade mais um ano, um instantinho. Agora sei que não vamos ficar todos bem, pelo contrário, muitos vão ficar bem piores, outros além de se esconderem do horrível diário, ensaiam já a indiferença que foi sempre o rumo que mais os orienta. Não está para contemplações como dizia o meu pai quando jogava o Porto. Salve-se quem puder, ou cada um por si e logo se vê. Afinal está tudo na mesma e não vamos ficar todos bem, uns melhores que outros, o costume sem novidades. As vacinas chegaram. Primeiro passo ou último, para que regressem os abraços e o estalar dos dedos num aperto de mão a que temos que nos habituar de novo antes que isto se prolongue tanto tempo que já nem nos iremos lembrar do calor de coisas tão banais. Critérios sempre a deixar dúvidas, “porque ele e não eu??” Casos a aparecer em catadupa, “sou eu o prioritário”, “e eu?” “ainda mais prioritário que todos os outros”, “estou em contato com muita gente,” “foi para aproveitar pois iam para o lixo”, em resumo, “eu é que devo ser o primeiro, perguntem ao meu médico,” “logo vão ver que a minha intenção era a melhor.”  Tudo na mesma, bastou caírem os primeiros raios de sol de uma possível melhoria que tudo voltou, o pior voltou. Fraco sinal para o que ainda nos aguarda. Agora são as marcas, entendidos em marcas de vacinas aparecem como cogumelos, “só tomo a tal, as outras não me servem”, “não inspiram confiança”, organismos diferenciados neste retorno que não aparenta ser definitivo. Tudo igual. Com a cabeça mais enfeudada às tristes e longuíssimas horas de televisão com a acefalia no máximo, estão de regresso. Pelo menos não enganam, durou pouco a esperança de melhores dias e melhores tempos. Vai ficar tudo pior ou é impressão minha? Aguardemos para ver. Foi bonito enquanto durou e é pena mudar as cores ao arco-íris da esperança para um arco-íris de cores quase negras que perpetuem a falta de esperança. Isto sou eu a pensar, porque estou num momento de pessimismo e as luzes ao fundo do túnel estão a ficar raras e muito caras para quem começa a ficar sem grandes alternativas. Estamos a ficar assim a modos de esgotados, nervosos e os dias passam e as soluções de tanto procuradas parecem querer brincar ao esconde, esconde, aparecendo num dia e desaparecendo no outro. De resto a vida prossegue cavando ainda mais as diferenças e isso não há arco-íris capaz de esconder, isso será mais uma coisa que irá depender de todos, de nós, de si em particular. Não contribuamos para ser culpados neste retrocesso que se aproxima na vida de muita gente, por omissão ou comodismo. Da mesma forma que acreditamos nas vacinas e no esforço que muitos fazem para a nossa saúde, devemos acreditar que ninguém vai ser abandonado e mesmo com dificuldades o indispensável não está perdido. Temos que acreditar no bom senso e em que vale a pena acreditar nos desenhos das crianças porque estas os fazem com o coração pequenino, mas os sentimentos muito grandes.

16 de fevereiro de 2021

COVID(A) com Humor - Isto de usar máscara

     “Isto de usar máscara está-me a parecer uma grande treta”, ouvi de raspão, ao atravessar a nossa linda Praça Brandão de Vasconcelos, em Arouca. Esta tirada tão sui generis (ou talvez nem tanto), logo me despertou a curiosidade, como não podia deixar de ser. Sou uma pessoa atenta aos que os outros pensam, interesso-me pelas opiniões e modos de sentir as coisas daqueles que me rodeiam. Ser curioso não é crime (por enquanto).

Abrandei o passo, disfarçadamente, apurei os ouvidos e lá consegui apanhar mais algumas coisitas da conversa entre dois senhores já de alguma idade. “Pois… não tenhas dúvidas…foram os chineses, claro…estou em crer que isso do bicho até é invenção só para nos prejudicarem”. “Achas?” “Acho, acho… não tenhas dúvidas… qual bicho qual quê… primeiro inventam o bicho, depois é só vender máscaras.” “Às tantas…eles têm é inveja… tinham de arranjar maneira de estragar a economia mundial”. “Pois… e arranjaram… enquanto isso, a deles… é só subir à nossa custa! É máscaras, é ventiladores…mas as máscaras então… ui, ui!”

Gostei, sobremaneira, deste “ui, ui!”. Gostava de ter visto as caras que acompanharam esta expressão, mas para isso, teria de olhar de frente os dois interlocutores, e não me atrevi a tanto. Também gostei das máscaras colocadas no queixo (isso ainda vi pelo canto do olho), usadas como quem diz “Se é obrigatório usar, usa-se, mas que não servem para mais do que aquecer o queixo, lá isso bem sabemos que não servem”.

Segui o meu caminho, imersa em mil reflexões, como gosto de fazer quando deambulo pelas ruas calmas da nossa linda Vila.

Ora não é que aqueles senhores até não deixavam de ter razão?! Nunca tinha pensado nisso desta forma, mas isto de usar máscaras… Acho que nos devíamos recusar a cair nestas armadilhas dos chineses. É só mais uma forma de nos enganarem e nos sugarem o nosso rico dinheirinho. As máscaras serão todas de fabrico chinês? Que importa isso? É apenas um pormenor. O que importa é que estávamos muito bem sem elas antes de eles terem inventado “o bicho”. Lá se vai o nosso rico dinheirinho e pronto! Devíamos recusar-nos, volto a dizer!

Aliás… pesando bem… se calhar, há muito mais coisas que são um perfeito abuso e não são só as máscaras. E não é de agora, isto já dura há muito, muito mais tempo do que podemos imaginar. Não sei se é tudo culpa dos chineses, mas enfim…

Se não, vejamos.

Nos bons e saudosos tempos do paraíso bíblico, os nossos pais andavam nus. Hoje pode parecer-nos estranho e despropositado. Mas, o facto é que para eles era bastante normal. É claro, temos de reconhecer, que nos dias de hoje, esse uso (ou falta dele, depende do ponto de vista) seria inadequado ao nosso clima. Mas, suspeito eu, que, precisamente desde aquela decisão de se usar esses trapinhos a cobrir-nos, foi que o nosso corpo se desadaptou do clima e começou a sentir necessidade de se cobrir para não morrer de frio. Nós em Portugal, até temos um clima (dizem) bastante ameno, por isso, se calhar, pensando bem, até poderíamos passar bem sem essas roupinhas inventadas sabe-se lá por quem. Mas não. Pegou a moda e agora… temos todos de segui-la como carneirinhos. É ou não verdade que, seguindo a versão das máscaras, são tudo invenções para gastarmos o nosso rico dinheirinho e fazer subir a economia de alguém que lucra à nossa custa? Devíamos pensar bem nisso e rever a nossa posição em relação a esta questão.

Outro exemplo. E este, parece que até é mesmo culpa (mais uma vez) dos chineses. Estou a falar dos guarda-chuvas. Não há registo histórico de quem e em que data exata foi este instrumento inventado. Mas, segundo se sabe, foi na China que surgiu, por volta do séc. XI antes de Cristo. Ah, pois é! Mais uma perseguição dessa cultura, e esta já de longa data. Ora, também me está a parecer que vou deixar de comparar esse malfadado instrumento de tortura. Tortura, digo e repito. Nem sei ao certo quantos guarda-chuvas compro por ano, mas vai em boa conta. Estão sempre a perder-se, a ser deixados em todo o lado. Então para que servem. Compramos… compramos… e, quando deles precisamos, nunca estão lá! E ainda por cima, o melhor sítio para se comprarem, para além das feiras, é mesmo nas lojas chinesas.

Não que eu tenha alguma coisa contra esse povo. Antes pelo contrário. O mundo é um lugar que obtemos de empréstimo (por sinal, por uns quantos anos, às vezes até bem poucos) e que temos o dever de partilhar. Sinto-me, acima de qualquer outra coisa, cidadã do mundo). Um pequeno quinhão chega-me bem (até me hei de, um dia, contentar com bem menos). E, se os chineses inventam coisas, acho muito bem. Eles ou quaisquer outros, evidentemente. Mas, o que me aborrece é que tenhamos que usar tantas e tantas coisas, eu que até sou (digo eu!) pouco consumista. Ou gostaria de ser.

Para concluir, deixo aqui algumas dicas. Isto das máscaras, das roupinhas, dos guarda-chuvas… e até das comidinhas, se pensarmos bem, não passam de invenções para nos fazer gastar dinheiro e consumir a paciência.

Recuso-me! Vou deixar-me disso! Máscaras, então, nem pensar!

O vírus? Bem… não sei se é invenção, mas logo se vê. Se vier… bem… há hospitais, não há? E UCIs, não há? E ventiladores, se me faltar a capacidade de respirar sem ajuda, não há?

 Esperem lá!... Quem terá inventado estas coisas?! 

5 de janeiro de 2021

COVID(A) com Humor - Crescei e multiplicai-vos

“Pandemia pode acelerar perda da população portuguesa”, dão-nos conta as notícias recentes, referentes à diminuição da natalidade no nosso país. Não só em Portugal, mas no mundo em geral, parece que o Covid-19 está a fazer com que as nossas futuras criancinhas adiem os seus planos para nascer, deixando para melhores dias.

Este facto vem contrariar o que tanto ouvíamos dizer (por graça? por convicção?) nos tempos em que a quarentena se instalou: “Agora é que vai ser teletrabalhar em série. Daqui a nove meses é que vamos ver nascer meninos”. Pois, se calhar o problema terá sido mesmo esse: teletrabalhou-se demais e trabalhou-se ao vivo e em presença de menos. Deu nisto! Dizia-me, alguém, um destes dias, que “não admira, tem andado tudo com medo de se tocar, até um beijo é perigoso”. Isso ou a regressão económica, a perda de confiança no futuro, o medo de enfrentar uma gravidez covídica… Tantos podem ser os motivos!

O certo é que estão a nascer cada vez menos crianças. Parece que nada as convence a vir a um mundo infestado de vírus por todo o lado, mesmo com coloridos arco-íris a dizer-nos que “Tudo vai ficar bem”, pintados por outras criancinhas que já por cá andavam antes da “bomba” estourar e não tiveram tempo de adiar a viagem para cá. E isto não é nada bom, principalmente para um país tão envelhecido como o nosso. As nossas mais belas flores vão murchando e começa a não haver ninguém para fazer novas sementeiras.

“Crescei e multiplicai-vos”, disse Deus (Génesis, 9:7).

Pois bem: até agora sempre pensei que este dito de Deus se dirigia a nós humanos. E como eu, penso que muitos outros terão pensado o mesmo. Afinal, naquela altura, Ele falava com Noé e sua família, acabadinhos de ser salvos de um dilúvio que dizimara a humanidade inteirinha, e sem dúvida, era preciso começar a (re)produção em massa para substituir os afogados e repovoar a Terra (imagino a trabalheira que deve ter dado!).

            Mas não! Temos andado, todos estes milénios, completamente equivocados. Não podemos esquecer que, com Noé, na Arca por ele fabricada, estava também um casal de cada ser vivo do planeta, para que a Natureza também ela se refizesse. O engraçado é que, segundo as ilustrações que se divulgaram desde essa altura, e chegaram, sabe-se lá por que meios, até aos nossos dias, acostumámo-nos a ver, na Arca, elefantes, girafas, cobras, macacos, galinhas (não! nunca vimos galinhas, mas certamente teriam de estar lá, se não ter-se-iam extinguido). Sabe-se lá porquê, também nunca vimos, nessas belas ilustrações bíblicas, vacas arouquesas (nem de outra espécie, reparo agora), mas também devia haver. De outro modo, como teriam elas chegado a Arouca? Terá sido nesse dilúvio que se extinguiram os famosos dinossauros? Não, acho que estou a confundir as coisas. Mas também não é de galinhas, vacas arouquesas ou dinossauros que quero falar.

            De quem eu quero falar é desse bichinho estranho que dá pelo nome de SARS-COV-2 (mais conhecido como coronavírus), que, sem qualquer dúvida, também deve ter sido salvo na Arca (mal imaginavam eles as consequências para os descendentes de Noé). Ninguém o viu, mas disso não me admiro nada. Ainda não tinha sido inventado o microscópio.

            Chego agora à conclusão que, ao fim e ao cabo, era para esse famigerado vírus que Deus falava. Só não teria sido preciso o “crescei”. Essa parte está a mais. Este bichinho é tão minúsculo, tão minúsculo, que não há quem o enxergue. No entanto, lá multiplicar-se, multiplica-se ele. Bem mais do que seria de desejar.

Ter-se-á o Deus do Génesis enganado? Teria estado a enganar-nos a nós, fazendo-nos pensar que se nos dirigia, enquanto preconizava o crescimento de uma espécie tão malévola (pelo menos do nosso ponto de vista)? Isso não sei.

O que acho é que, a par das ordens de Deus para que crescêssemos e nos multiplicássemos (e isso, mal ou bem, até fomos cumprindo, porque até nos ia dando jeito) temos andado à ordem dos nossos póprios projetos (ou falta deles, às vezes mais parece), nos quais temos incluido como  meta primordial, a curto e longo prazo, a destruição da nossa habitação planetária, fazendo extinguir umas espécies e contribuindo para a disseminação de outras, a nosso bel-prazer. E pronto: cá estamos com o “crescei e multiplicai-vos”, mas no sentido inverso do que seria aceitável.

O que nos vale é que “Tudo vai ficar bem”, dizem alguns arco-íris que ainda vão havendo por aí, meio desbotados. Esperemos que, antes que desbotem de vez, a Esperança não se esvaia e a Humanidade ainda vá a tempo de crescer noutro sentido.

E já agora… quem tiver idade para isso, logo que estejam imunizados pela vacina (vamos a ver quando será), vá lá, multipliquem-se! Façam criancinhas, que bem precisamos delas.

 Entretanto, cuidem-se. Continuem a manter o necessário distanciamento social e a cumprir todas as regras previstas pela DGS, a ver se saímos desta o mais depressa possível. Já ninguém aguenta!

7 de junho de 2020

Crónica com nome: Matilde


Matilde é uma menina de seis anos, semelhante a qualquer outra menina da sua idade que vive 

com a sua mãe, Angelina.
Matilde tem no seu olhar meigo o reflexo das cores do arco-íris que nos fazem recordar a nossa infância, com os aromas e os paladares que persistem na nossa memória e que nos levam a acreditar e a sentir que ficaremos bem.

Matilde é a protagonista desta crónica e desta história que tanto têm de real como de peculiar, em tempos de pandemia.
Durante cerca de dois meses e meio, os jardins-de-infância estiveram encerrados, os alunos passaram a ter aulas à distância, através da ressurgida telescola ou estudo em casa, foi decretado distanciamento social, circularam veículos nas ruas com altifalantes a apelar à população, repetidamente, para “ficar em casa”. As ruas ficaram esvaziadas de pessoas, de frenesim, de barulho, de gargalhadas, de apitadelas de condutores impacientes, e os cafés, os restaurantes, o comércio e as repartições públicas encerraram o atendimento ao público.
Os encarregados de educação de filhos menores de 12 anos ficaram em casa para os acompanhar neste novo modelo de ensino, à distância, a partir de casa.
Vilas e cidades guardaram silêncio para serem palco de grandes e inusitados concertos e despiques esvoaçantes da passarada, que há muito não se ouviam por serem ensurdecidos pelo barulho citadino ou, simplesmente, porque estes são esquivos à confusão.
E a Matilde? Como viveu ela esta quarentena? Com a sua mãe, à janela, a perscrutar e a ouvir os trinados dos pássaros nas pausas do estudo?
Já devem calcular que a resposta à última interrogação é negativa, não tratasse esta crónica de uma história peculiar…
Matilde foi das poucas crianças que não pôde ficar em casa porque a sua mãe teve de continuar a trabalhar, uma vez que é funcionária hospitalar e integra o corpo de bombeiros, assumindo assim funções indispensáveis, ainda mais neste contexto pandémico.
A nossa menina (sim, nossa, porque quando gostamos tendemos a apoderarmo-nos afetivamente), contrariamente à maioria das crianças da sua idade e apesar das escolas terem encerrado, continuou todos os dias a levantar-se cedo, a vestir-se, a tomar o pequeno-almoço, a escovar os dentes, a preparar a mochila e a ir para a escola, não para a sua, mas para outra nova e depois ainda outra!
Numa primeira fase, Matilde e um aluno do 3.º ano de escolaridade eram os únicos alunos a frequentarem a escola primária de Arouca e a serem acompanhados por professores novos que se revezavam diariamente, durante a manhã, e por educadoras, à tarde. Dois dias depois, os dois meninos passaram a frequentar a escola secundária, e a surpresa foi muita! Os dois pequenos conheceram uma escola enorme, conheceram os funcionários, a direção, o porteiro e as câmaras de videovigilância, a cantina, a sala dos professores e, claro, conheceram e foram “paparicados” por todos os adultos que assumiram a sua “guarda” e que ficaram rendidos aos seus encantos.
Quando perguntei à Matilde de que escola gostava mais, se da escola normal, ou se desta escola nova, ela disse-me que gostava mais desta escola nova e que não tinha saudades dos seus colegas, porque nestes dois meses e meio não havia tanta confusão.
Por incrível que possa parecer, Matilde experimentou realmente o ensino personalizado, com diálogo e interação constante entre aluno/professor, estando os “holofotes” centrados em si, sendo alvo de toda a atenção.
Matilde entrava na escola às 8h da manhã e saía às 18h e estava sempre acompanhada por professores e por educadores, que a ajudavam e a desafiavam a manter as rotinas de estudo: de manhã assistia a telescola na televisão com o aluno do 3.º ano de escolaridade, ouvia com atenção a hora da leitura, dedicava-se nas expressões plásticas e no desenho, na matemática, no estudo do meio, fazia exercício físico, treinava a escrita e aprendeu a escrever melhor com letras maiúsculas! De tarde as atividades eram de carácter mais lúdico e artístico.
Matilde confessou-me que gosta mais de ir à escola do que de estar em casa, porque gosta de trabalhar e de estudar. Mostrou-me a capa com os trabalhos que fez, as fotografias que as professoras tiraram com ela, as mensagens que lhe escreveram, para que não as esquecesse e disse que a diretora, a Prof. Amélia, a convidou para a ir visitar, que as portas da secundária estariam sempre abertas!

Nestes dois meses e meio, Matilde ganhou novas amizades da Prof. Helena e da Prof. Margarida e de outros de que já não recorda o nome…

Aprendeu a desinfetar as mãos, percebeu que esta não era uma situação normal e que não podia estar na sua escola habitual com os seus colegas por casa do “bicho”, do “coronavírus” e do “Covid-19”, nomes que ela referiu de uma só vez e que ficarão, certamente, na sua memória.

O coronavírus para a Matilde é mau, mas o saldo desta experiência inusitada é positivo, porque lhe trouxe ainda mais atenção, carinho, afeto e novas amizades!



O que os olhos da Matilde nos dizem é que quando há bondade, honestidade e amizade, as dificuldades são ultrapassadas, o sol aparece e, juntamente com a chuva, faz surgir um grande e colorido arco-íris!

29 de maio de 2020


Mobilidade em Arouca na ordem do dia

Foi noticiada oficialmente pela Câmara Municipal de Arouca a assinatura do auto de consignação da empreitada de ligação do Parque de Negócios de Escariz à A32, pelas Infraestruturas de Portugal e o Consórcio Ferrovial Agroman S.A. que decorrerá no dia 3 de junho, no salão nobre dos paços do concelho, com a presença de SE o Ministro da Habitação e das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, e dos presidentes de câmara de Santa Maria da Feira e de Oliveira de Azeméis, Emídio Sousa e Joaquim Jorge, respectivamente.

Esta empreitada terá a duração de 870 dias e custará mais de 30 milhões de euros, co-financiada por fundos europeus, no âmbito do Programa de Valorização das Áreas Empresariais.

Esta é uma obra desejada há muitos anos pelos arouquenses, como continuidade à tão prometida e sempre adiada 2.ª fase da Variante à N326, que apesar de não cumprir a totalidade da extensão anteriormente reivindicada, com sacrifício do troço entre Rossas e Escariz, é a solução possível, fruto do trabalho e da pressão dos municípios de Arouca e de Santa Maria da Feira junto do poder central, em defesa do direito à mobilidade das populações de interior, como as de Arouca.

É de enaltecer o esforço e o investimento que a autarquia de Arouca fez para que este “sonho”, há muito almejado e tantas vezes malogrado, se concretizasse. Esta ligação será uma mais-valia para diminuir o isolamento e distanciamento geográfico de Arouca face ao Porto, sede da Área Metropolitana que Arouca integra.

Contudo, há ainda muito a fazer e a investir em termos de construção de infraestruturas e de mobilidade. Arouca tem uma única central de transportes, a necessitar de obras de remodelação, funcional e arquitectónica, pois é e deve ser uma porta de entrada para Arouca, serve os arouquenses, trabalhadores e estudantes que se deslocam diariamente para a sede do concelho para frequentar os 2.º, 3.º ciclos e o ensino secundário e, finalmente, alguns turistas (seriam mais se o Andante e o plano de mobilidade na AMP tivesse discriminação positiva para Arouca).

Em linha com as recomendações europeias, o transporte público deve ser o meio privilegiado para uma mobilidade mais amiga do ambiente, mais cómoda, mais segura e menos onerosa, representando um importante fator na qualidade de vida das populações e símbolo de desenvolvimento económico e social das localidades.

Em Arouca ainda não se conseguiram colmatar as deficiências da rede (?) de transporte público existente nas diversas freguesias e destas para o exterior do concelho, apesar do tão apregoado Andante, acessível verdadeiramente para os utilizadores dos municípios mais urbanos e próximos da sede da AMP.

Desde março até agora, devido aos constrangimentos por causa da COVID-19 que limitou a circulação das pessoas e encerrou escolas, a maioria dos transportes públicos em Arouca foram suspensos, deixando a população sem esse serviço básico que deveria ser universal. Não têm os residentes de Alvarenga, Canelas, Moldes, Ponte de Telhe, Cabreiros, Albergaria da Serra, Tropeço, entre outras, o mesmo direito à mobilidade dos residentes noutros municípios e freguesias da AMP?

Além de estradas, os arouquenses merecem legitimamente o direito ao transporte público. É necessário pensar e pôr em ação um plano estratégico para a mobilidade em Arouca, com todos os seus constrangimentos e especificidades, que assegurem as necessidades quer de residentes, quer de turistas que optem por deslocações mais amigas do ambiente. Será utópico reivindicar que um turista aterre no aeroporto Sá Carneiro e em 3 horas de viagem em transporte público intermodal, chegue a Alvarenga, via vila de Arouca? Será demais pedir que haja transporte público independentemente do calendário escolar?

Os horários das carreiras devem também ser ajustados às necessidades, para motivar o uso do transporte público em detrimento da utilização de veículos próprios e individuais. As cidades estão a limitar o tráfego e a circulação de veículos ligeiros de passageiros e a apostar em redes eficientes de transportes públicos, de forma a devolver os espaços públicos e as ruas e avenidas aos peões. Arouca deverá seguir estas boas práticas e lutar por infraestruturas estruturantes para garantir a fluidez, rapidez e segurança da rede viária (se possível com vários centros urbanos com que delimita fronteiras (não apenas com o litoral), necessária à boa circulação de bens e mercadorias e, concomitantemente, pugnar e investir no transporte público, indispensável à fixação da população nas freguesias mais distantes, como é o caso de Alvarenga, que também tem uma zona industrial para “avivar” e que tem vindo a perder serviços públicos como os CTT, obrigando a deslocações frequentes à vila de Arouca que, na ausência de transporte próprio, tem de ser feitas com recurso a táxi.

De resto, apesar destes constrangimentos que não sendo novos restringem o transporte público ao transporte escolar, ao tempo letivo e a 5 dias por semana, em várias freguesias, Arouca tem investido em formas e modos de mobilidade suave, de que é exemplo a “Ciclovia” que, estou certa, trará à população do vale de Arouca e do vale do Arda uma nova forma de deslocação, mais sustentável, amiga do ambiente, agradável, saudável, em harmonia com a paisagem ribeirinha, por este modo, acessível à fruição. Falta agora garantir uma rede de transportes públicos eficiente e com serviços mínimos assegurados, durante todo ano, em todas as freguesias do concelho, através de empresas privadas (se o serviço for rentável), ou através de serviços de transporte municipais, relembrando que a autarquia já teve 2 autocarros, dois motoristas e que mais que assegurar passeios e visitas de estudo (igualmente necessários e pertinentes), não serão prioritários relativamente ao direito de circulação da população local. Por que não garantir um ou dois dias por semana, pelo menos, de transporte público municipal gratuito, das freguesias à sede de concelho, através da criação de circuitos, como se tem feito nos últimos anos, na Feira das Colheitas? Fica a sugestão...

23 de abril de 2020

Arouca no pós Covid-19

A pandemia Covid-19 atacou-nos a todos enquanto sociedade de uma forma nunca antes sentida na era moderna. Tão fracturante como o ataque a que fomos submetidos, mais ou menos bruscamente, temos também que estar conscientes que a curto/médio prazo o vírus estará aí para nos fazer repensar a nossa forma de agir, estar, interagir e viver em sociedade. Seremos capazes de aprender ou reaprender  algo após isto tudo ou quando "a vacina chegar", quando "um tratamento mais eficaz chegar" seguiremos o nosso caminho desenfreado como até aqui vínhamos fazendo?
Até agora foi tempo de pensar quase exclusivamente na saúde, na não ruptura do nosso SNS. Parece que o conseguimos fazer, felizmente, com sucesso. Agora será também altura de começar a pensar como sair deste buraco económico em que nos fomos obrigados a esconder. E Arouca, como foi ou será afectada economicamente por esta epidemia?


Nos últimos anos tivemos um desenvolvimento económico, à semelhança do resto do país, muito alicerçado no sector do turismo com os Passadiços do Paiva como ex-libris desse desenvolvimento. Se existem  sectores que poderão ser exemplo máximo do "fechar tudo" são o sector do turismo e restauração. Todo o sector terciário foi severamente atingido.
De portas fechadas, sem turistas, sem receitas, com as despesas que se adiarem agora a terem que se pagar no futuro (são estas as indicações do governo). As empresas vêem-se em enormes dificuldades.
O turismo em Arouca é essencialmente um turismo de natureza, ao ar livre onde a proximidade e distanciamento social são por si só potencializados pela prática em si mesmo. Caminhadas nos nossos percursos pedestres, nos passadiços com lotação limitada, prática de desportos radicais, passeios na Serra da Freita, etc., têm certamente um factor de contágio e transmissão mais baixo que o fazer turismo em museus e ruas de grandes cidades de Portugal ou mundiais. Poderá isto ser visto como uma vantagem turística a médio prazo? Mas não nos interessa em termos comerciais ter turismo se não podermos tirar os dividendos económicos do mesmo. E esses dividendos indirectos vêm-se na restauração, no alojamento... em resumo: na generalidade de todo o consumo local que o turismo arrasta. 
A gastronomia é outro ponto muito forte do nosso turismo, seja através da marca "Raça Arouquesa" ou através dos Doces Conventuais e todas as outras iguarias tradicionais. Iremos a breve prazo poder voltar a ter os restaurantes lotados ou com lotação limitada? As pessoas terão receio de se reunir socialmente e preferirão "vir passear à nossa natureza e trazer a sua "marmita"?
Temos uma nova ponte pedonal a inaugurar, com um custo de mais de 2  milhões de euros, com um target de público alvo nacional e internacional. Um investimento que necessitará de milhares de turistas para fazer reverter o investimento. Os turistas, que acredito terão vontade de nos visitar, terão receio de atravessar  a ponte ou terão um receio ainda mais prejudicial que será o receio de vir?
E a médio prazo, a sociedade arouquense aprenderá a viver com o vírus? Temos uma população envelhecida, principalmente nas zonas mais rurais e serranas onde algumas aldeias têm uma população com média de idade acima dos 70 anos, o que faz com que toda a aldeia seja população de risco. E se a epidemia aí chegar?
Não temos uma data definida para isto terminar pelo que teremos que ir pensando e projectando ou desprojectando a curto, médio e longo prazo.
As festividades como as conhecemos, do São João do Porto, por exemplo, foram canceladas, as do Senhor de Matosinhos, pela primeira vez na história, foram canceladas. E as nossa Feira das Colheitas? O espaço temporal que medeia entre a data actual e o final de Setembro será suficiente para que possa acontecer nos moldes que a conhecemos?
Felizmente todos as ERPI's de Arouca testaram negativo para os seus utentes, mas como já escrevi teremos que aprender a viver com a doença. Deveremos manter a longo prazo um local para onde possam ser deslocadas pessoas que necessitem de quarentena e isolamento fora da estrutura da ERPI? Essa solução, a médio prazo, não poderá ser o pavilhão municipal porque as nossas escolas terão que obrigatoriamente reabrir. 
Todo um novo mundo de dúvidas, questões e incógnitas nos trouxe este surto. Estas são só algumas dúvidas no imenso mar de interrogações que podemos ter. O desconhecido também nos obriga a questionar e a tentar antecipar todos os cenários.

20 de abril de 2020

Depois da tempestade, virá a bonança e, necessariamente, um tempo novo.

A situação que estamos a viver, por força da ameaça do novo Coronavírus, está a obrigar-nos a apressar novos conhecimentos e aprendizagens e a conhecer e implementar novas ferramentas e metodologias de trabalho, e até de mero contacto e convívio.

Imagem: Olivier Douliery/AFP/Getty Images
Com efeito, aquilo que estamos a aprender e implementar agora, para colmatar o distanciamento social a que esta pandemia nos obriga, permanecerá para além desta fase e será muito útil para imprimir maior eficácia ao funcionamento das organizações. 

Refiro-me concretamente aos contactos pessoais e de grupo, para trabalho e mero convívio, como é já hoje possível e está a ser feito por muitos de nós através da aplicação WhatsApp. Mas também às aulas, conferências e formações online, reuniões de trabalho, de gestores ou administradores de empresas, às reuniões de direcção de associações e instituições, às assembleias gerais de umas e outras, de freguesias e municípios, como já é possível e está ser participado por muitos de nós através, entre outras, da aplicação Zoom. Mas também do contacto e conversação com familiares acamados e/ou adoentados, internados em lares e hospitais, como é já hoje possível e está ser feito por muitas instituições através da disponibilização de um contacto de aparelho com videochamada, para ligações pré-agendadas. E até da assistência à própria Missa, cujas transmissões em directo via Facebook estão já a ser implementadas por vários párocos e paróquias, possibilitando a assistência de muitos que, já antes da circunstância que estamos a viver, não o podiam e continuarão a não poder fazer presencialmente.

Enfim, todo um conjunto de plataformas e ferramentas que, a reboque deste distanciamento que agora nos é imposto e continuará a ser recomendado por mais algum tempo, nos está a aproximar e relacionar com grande eficácia, nomeadamente, em proveito do funcionamento das organizações de que fazemos parte.

4 de abril de 2020

Um agradecimento a todos os profissionais de saúde de Arouca. Um reconhecimento especial aos Bombeiros Voluntários de Arouca.


Atacados por um inimigo invisível, que não olha a origem, raça ou credo e que nos faz sentir que, na realidade, perante os desígnios da natureza somos todos iguais, este período pelo qual passamos, tem-nos levado ao limite da nossa paciência e resistência.

Limite e resistência que parecem não ter fim para todos aqueles que continuam a trabalhar e a contribuir para que a vide não pare.

Reconhecendo a importância de todos aqueles que diariamente se continuam a sujeitar ao ataque de guerrilha deste elemento hostil, não posso deixar de agradecer de um modo mais caloroso o trabalho daqueles que se encontram na linha da frente de combate. Porque são esses que, deixando a família, separando-se daqueles que mais gostam, se assumem como os bravos soldados que, sem manha ainda clara para derrotar o inimigo, não se amedrontam com a inferioridade de meios e com a incerteza das estratégias usadas. Lutam por eles, pelos que lhes são mais próximos, mas também e acima de tudo, lutam por nós todos. Lutam pela humanidade.

Não sabem como regressarão a casa. Não sabem, sequer, em alguns momentos, se regressarão. Ainda assim, de forma dedicada e altruísta, recusam desistir. 

Os Bombeiros Voluntários de Arouca, precisamente pelo seu voluntarismo, merecem neste momento, uma particular admiração. Homens e mulheres que nada ganham com o seu serviço nesta corporação, a não ser a sua própria satisfação por ajudar o outro, merecem todo o nosso respeito. Também eles deixam as suas famílias. São, na maioria das vezes, o primeiro contacto com quem está a ser atacado por este impiedoso inimigo e, por isso, correm riscos acrescidos. Ainda assim, movidos pelo desígnio de ajudar os que mais precisam, de forma voluntária e abnegada, não assumem os naturais receios de qualquer ser humano e enfrentam cada situação de espírito absolutamente desinteressado e humanista. Que bom é saber que, independentemente, dos riscos, da falta de meios que possam ter ou até do natural receio que vos possa tolher a coragem em alguns momentos, o vosso esforço, puro, genuíno e caridoso estará sempre com os arouquenses.

Assim, de forma simples, mas sincera, deixo o meu muito obrigado a todos pela resiliência demonstrada e pelo incansável espírito de cidadania. Bem hajam!

Imagm: Noticias ao minuto

18 de março de 2020

O que significa e o que implica o Estado de Emergência?

Para fazer face à situação de calamidade, prevenção e incerteza, que estamos a viver, parece cada vez mais inevitável que Sua Excelência o Presidente da República decretará hoje o Estado de Emergência Nacional. É uma situação inédita na vigência da actual Constituição e em Democracia, pelo que importa estar ciente das suas implicações.

Para o efeito, cumpre analisar o que se encontra previsto na Constituição da República Portuguesa (CRP) e no Regime do Estado de Sítio e do Estado de Emergência (RESEM).


Antes de mais, como é sabido, a Constituição consagra e assegura aos cidadãos um vasto leque de direitos, liberdades e garantias, designadamente o direito à liberdade, o direito de deslocação e o direito de reunião. Tais direitos, liberdades e garantias não podem ser suspensos pelos órgãos de soberania, excepto em caso de Estado de Sítio ou Estado de Emergência, declarados nos termos previstos na própria Constituição.

O Estado de Emergência significa, assim, a suspensão dos direitos, liberdades e garantias, podendo ser declarado, para todo ou parte do território nacional, nos casos de agressão efectiva ou iminente por forças estrangeiras, de grave ameaça ou perturbação da ordem constitucional democrática ou de calamidade pública.

O Estado de Emergência é declarado quando se verifiquem situações de menor gravidade do que aquelas que levariam ao decretamento do Estado de Sítio, nomeadamente quando se verifiquem ou ameace verificar-se casos de calamidade pública. Caso em que apenas poderá ser determinada a suspensão parcial do exercício de direitos, liberdades e garantias, prevendo-se, se necessário, o reforço dos poderes das autoridades administrativas civis e o apoio às mesmas por parte das Forças Armadas. A opção pelo Estado de Emergência, bem como a respetiva declaração e execução, deve respeitar o princípio da proporcionalidade e limitar-se, nomeadamente quanto à sua execução e duração e aos meios utilizados, ao estritamente necessário ao pronto restabelecimento da normalidade. Assim, a suspensão dos direitos, liberdades e garantias deverá observar e respeitar o princípio da igualdade e da não discriminação, com as limitações estabelecidas no artigo 2.º/2 do RESEM.

A declaração do Estado de Emergência não afectará nunca, no entanto, os direitos à vida, à integridade pessoal, à identidade pessoal, à capacidade civil e à cidadania, a não retroactividade da lei criminal, o direito de defesa dos arguidos e a liberdade de consciência e de religião. Na vigência do Estado de Emergência, os cidadãos manterão, igualmente e na sua plenitude, o direito de acesso aos tribunais, de acordo com a lei geral, para defesa dos seus direitos, liberdades e garantias lesados ou ameaçados de lesão por quaisquer providências inconstitucionais ou ilegais.

Dentre as limitações a impor aos cidadãos, salienta-se a possibilidade de restrição da liberdade e da livre circulação de pessoas e veículos, podendo impor-se desde o isolamento ao condicionamento ou interdição de trânsito, cabendo às autoridades assegurar os meios necessários ao cumprimento do disposto na declaração, particularmente no que diz respeito ao transporte, alojamento e manutenção dos cidadãos afectados. A violação do disposto na declaração do Estado de Emergência ou na lei, nomeadamente quanto à execução daquela, faz incorrer os respetivos autores em crime de desobediência, podendo ser punidos com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias.

Por fim, como já se sabe, a declaração do Estado de Emergência compete ao Presidente da República e depende da audição do Governo e da autorização da Assembleia da República.

A declaração reveste a forma de decreto do Presidente da República e a sua execução compete ao Governo, que dos respectivos actos manterá informados o Presidente da República e a Assembleia da República. A declaração confere às autoridades competência para tomarem as providências necessárias e adequadas ao pronto restabelecimento da normalidade.

A declaração do Estado de Emergência terá de ser adequadamente fundamentada e conterá a especificação dos direitos, liberdades e garantias cujo exercício ficará suspenso, não podendo o estado declarado ter duração superior a quinze (15) dias, sem prejuízo de eventuais e necessárias renovações.

14 de março de 2020

Covid-19: a pandemia do nosso tempo

Está aí, em evolução, a pandemia do nosso tempo. Ou seja, o surgimento de uma doença com propagação geográfica internacional muito alargada e simultânea. Em 12 de Março, estavam confirmados mais de 153.000 casos, em cerca de 150 países, com maior propagação na China (mais de 80.000 casos), em Itália, Irão e Coreia do Sul. Nessa data tinham já morrido cerca de 6.000 pessoas (cerca de 3.200 na China), embora se considerassem já cerca de 72.500 pessoas curadas.

No dia 2 de Março foi confirmado o primeiro caso em Portugal. Trata-se de um médico de 60 anos, regressado de Itália, onde o surto irradia actualmente com proporções avassaladoras, tendo já dizimado 1266 pessoas, 250 das quais num só dia. Nesta altura estão confirmados 169 casos de infecção, tendo sido registados 1.704 casos suspeitos desde o início da epidemia, estando já, no entanto, mais de 5.000 pessoas sob vigilância das autoridades de saúde.


A causa deste surto não está ainda definitivamente estabelecida, embora a doença tenha sido identificada pela primeira vez na China, em Wuhan, Hubei, no dia 1 de dezembro de 2019, num grupo de pessoas que comerciavam no Mercado de Frutos do Mar de Huanan, onde também se vendiam animais vivos, como pangolins, morcegos e cobras, num dos quais se poderá ter desenvolvido o parasita ou bactéria que depois passou a infectar os humanos. Não se sabe, no entanto, se foi aí que teve origem ou se foi apenas aí que se identificou o primeiro caso, podendo Wuhan ter sido apenas um local e evento de maior difusão.

De resto, tal como aconteceu com a conhecida Peste Negra, que teve o seu auge entre 1343 e 1353, mas que, por cá, nunca se conseguiu erradicar em definitivo até ao século XVIII, pelo que se fala dela ainda hoje como se dela houvesse ainda memória. Foi efectivamente uma das pandemias mais devastadoras da história, tendo resultado na morte de cerca de 75 a 200 milhões de pessoas na Europa e na Ásia, estimando-se que tenha mesmo dizimado pelo menos um terço da população do continente europeu. A doença foi então causada por uma bactéria transmitida aos humanos através de pulgas e ratos-pretos, que, como está bom de ver, se revelaram um foco de enorme propagação e difícil eliminação.

É, pois, também agora, importante saber a origem e forma de transmissão ao ser humano, para que se consiga um tratamento eficaz e se erradique em definitivo este flagelo do nosso tempo.

No entanto, enquanto isso não acontece, e de forma a prevenir a infecção, a Organização Mundial de Saúde recomenda que se lavem as mãos com regularidade e se protejam boca e nariz ao tossir e espirrar, e, mais importante do que tudo, se evite o contacto próximo com alguém que mostre sintomas de doença respiratória (como tossir e espirrar). Ou seja, as recomendações para ficar em casa, são mais propriamente para evitar a concentração e contacto físico de pessoas.

Por outro lado, mostra-se muito prudente evitar a desinformação, fazendo uma selecção de fontes de notícias de organismos, entidades e instituições credíveis, nomeadamente, da Direcção Geral de Saúde e do Governo (das quais, mais do que nunca, se reclama que sejam verdadeiras nos números e nas previsões), de forma a que cada um de nós possa proceder em conformidade com esses cenários e instruções, cabendo-nos também evitar derivas, desorientações, irresponsabilidades e egoísmos, que possam prejudicar ou agravar a situação de pessoas mais indefesas, incautas ou desprevenidas.

Trata-se, com efeito, de uma luta de todos, contra um inimigo que não é nenhum de nós. Devemos, pois, defendermo-nos uns aos outros para um combate mais eficaz. Para já, evitarmo-nos, pensando em todos, é apenas o que se pede.