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12 de setembro de 2020

Por uma Hemeroteca Digital de Arouca

Antes de mais, Hemeroteca, refere-se a qualquer colecção ou conjunto organizado de periódicos (jornais e/ou revistas). Pode ser uma secção de biblioteca apenas reservada à conservação de material escrito deste género, a uma colecção temática de recortes de jornais e revistas ou, mesmo, uma base de dados, em suporte informático, com este tipo de publicações. É, pois, a esta última que me refiro e de que há já vários exemplos associados a arquivos e bibliotecas municipais e nacionais.

E se é verdade que nem todos os concelhos dispõem de um acervo que justifique o investimento na criação de uma ferramenta deste tipo, não é o caso de Arouca. Pois, com efeito, contam-se mais de 50 títulos de jornais e revistas publicados, alguns dos quais, ao longo de largas dezenas de anos, como foi o caso da Defesa de Arouca.

O primeiro jornal a surgir na nossa vila, no entanto, tinha o título de "O Commercio d'Arouca" e o seu primeiro número viu a luz da publicidade em 19 de Abril de 1888. Rareiam os exemplares deste título, mas ainda se conseguem. O primeiro jornal, editado, composto e impresso em Arouca, no entanto, foi "A Voz de Portugal", Órgão dos interesses do concelho de Arouca. Inaugurou a estampa na véspera de 4 de Junho de 1904. Em 24 de Agosto do ano seguinte surgiu a "Gazeta de Arouca" e, a partir daí surgem muitos outros títulos, nos quais é possível compulsar a quase história diária de Arouca, desde pelo menos 1904.

No entanto, salvo uma raríssima e louvável excepção privada, não é em Arouca, nem sem procurar, muito..., que a maior parte desses periódicos, principalmente os mais antigos, se encontra. Parece-me, pois, importante a referenciação dessas publicações, bem como a indicação das existências e fundos ou colecções, tanto mais quando em nenhuma biblioteca ou colecção se encontram todas e, de todas, nenhuma se encontra completa.

Já aqui tinha abordado este assunto a outro propósito, em 13 de Fevereiro de 2019, mas, entretanto, em 19 de Fevereiro último, foi tornado público o protocolo celebrado entre a Câmara Municipal e a Associação de Defesa do Património Arouquense, para digitalização, obtenção e disponibilização digital de cópia dos jornais "Gazeta de Arouca", "Gazeta", "Defesa de Arouca" e "Notícias de Arouca" coleccionados ao longo dos últimos anos por esta Associação.

Oxalá que esse protocolo e cedência seja apenas o primeiro passo para a digitalização de outras colecções com vista à criação de uma Hemeroteca Digital, onde, como é próprio de um fundo desta natureza, se disponibilizem, para consulta em linha e difusão pública, os jornais e revistas publicados em Arouca ao longo dos últimos, pelo menos, 132 anos, bem como raridades bibliográficas e/ou apontamentos inéditos de autores e personalidades Arouquenses.

27 de julho de 2019

Sobre Elísio de Azevedo: "expoente máximo do jornalismo"...

Na sequência de um texto anterior da autoria de António Brandão de Pinho, publicado neste blogue «Defesa de Arouca», que informa o falecimento, no dia 14 de Julho de 2019 da era comum, de Elísio de Azevedo (meu saudoso e estimado tio Elísio), será oportuno citar algumas partes da notícia biográfica, publicada no jornal 'Discurso Directo' (26-7-2019 da era comum), sobre este arouquense ilustre, relativamente à excelência do seu tipo de escrita e à sua paixão pelo jornalismo:
"Nasceu na freguesia de Rossas em 1930. Filho de António de Almeida Brandão, uma das figuras marcantes da Arouca do século XX, e de Florinda Joaquina de Azevedo. Era o terceiro duma prole de oito filhos. Terminada a 4ª classe do antigo Ensino Primário, estudou no Porto, na Escola Raul Dória, onde tirou um curso de contabilista. (...) em plena juventude, cerca dos 20 anos, a vida de Elísio de Azevedo tomava um novo rumo: a bordo do navio Pátria partia para Moçambique. Ali, na antiga colónia, exerceu várias actividades e constituiu família. Ao mesmo tempo sentia uma atracção irreversível pelo jornalismo, que o notabilizou mais tarde como cronista de reconhecidos méritos a ombrear com os melhores da imprensa escrita. Foi colaborador assíduo do Notícias de Moçambique e responsável pela delegação em Nampula. (...) o jornalismo estava-lhe no sangue e assim continuou para o resto da vida. Primeiro na “Defesa de Arouca” e até muito recentemente no jornal “Roda Viva”, Elísio Azevedo marcava a diferença, não se furtava às polémicas, incluindo as de natureza política, não vacilava perante as contrariedades com uma prosa fluente, incisiva, própria da personalidade que todos lhe reconheciam."
Foto: jornal 'Roda-Viva'

E essa excelência na escrita e essa paixão pelo jornalismo surgiram, em Elísio de Azevedo, desde muito jovem, devido, em boa parte, ao tipo de educação familiar que teve na Casa de Eidim, em Rôssas-Arouca, protagonizada pelo seu pai, meu saudoso avô, António de Almeida Brandão...
Como é referido no texto biográfico do jornal 'Discurso Directo', Elísio de Azevedo viveu no Moçambique colonial...E viveu lá durante cerca de 24 anos, entre os anos de 1950/51 e o ano de 1974 da era comum, altura, no 'período pós-25 de Abril', em que regressa, definitivamente, para a sua Rôssas-Arouca natal e de residência definitiva, com a esposa Lucinda, o filho Elísio e as duas filhas, Maria Teresa e Ana Maria... Em Moçambique, trabalhou no jornal 'Notícias de Moçambique' e foi responsável (delegado) pela Delegação de Nampula do periódico moçambicano...E, devido a essa excelência na escrita e a essa paixão pelo jornalismo, Elísio de Azevedo, na actualidade, ainda é recordado, pelos seus colegas moçambicanos, como uma «grande referência do jornalismo» e como «expoente máximo do jornalismo» em Moçambique, tal como descreve o seu primeiro sucessor do Moçambique pós-colonial Vasco Fenita, numa entrevista relativamente recente concedida ao 'Notícias de Moçambique':
      
" P - Quais são as grandes referências de jornalistas do seu tempo?

 R - Na província de Nampula pontificam Elísio de Azevedo (meu antecessor na Delegação do Notícias) e Pires Teixeira (que chefiava a Delegação do Notícias da Beira). Ambos eram, inquestionavelmente, os expoentes máximos do nosso jornalismo. Mas apesar do êxodo de muitos deles por alturas da independência nacional, o país pode vangloriar-se com a presença dos nomes sonantes de Mia Couto, Abel Faife, Mário Ferro, José Catorze e muitos outros de que agora não me recordo. Dá para perceber que se escrevia a língua portuguesa correctamente pelo naipe de jornalistas que o “Notícias” teve o privilégio de albergar na circunstância e cuja mística continua a preservar através dos actuais editores. "

Para além do acervo numeroso de textos e de escritos de qualidade elaborados em Portugal (grande parte deles publicados, mas uma certa parte deles ainda inéditos), Elísio de Azevedo tem também um conjunto significativo de textos e de escritos publicados do tempo em que viveu em África, que deveriam também, como é óbvio, fazer parte de uma compilação dos seus textos e escritos completos, realizada e editada pelas instituições de Arouca às quais Elísio de Azevedo pertenceu e esteve associado.     

14 de julho de 2019

Arouca e a imprensa arouquense ficaram hoje mais pobres.

Foto: Roda Viva Jornal
Arouca e a imprensa arouquense ficaram hoje mais pobres com o falecimento de Elísio de Azevedo. Um homem discreto, mas culto e honesto, corajoso e frontal, à antiga. Desses que começam a escassear.
«Político e homem cívico», - como a ele se refere José Carlos Silva, director do Roda Viva Jornal, periódico local que completou ontem trinta anos e onde ultimamente mantinha a sua coluna de opinião -, Elísio de Almeida Azevedo, foi o terceiro dos oito filhos de António de Almeida Brandão e Florinda Joaquina de Azevedo, da casa de Eidim, da freguesia de Rossas, onde nasceu em 9 de Fevereiro de 1930.
Também nas palavras de José Carlos Silva, que subscrevo, «Elísio Azevedo foi ainda um brilhante cronista da imprensa local, com textos publicados na Defesa de Arouca e, mais tarde, no RODA VIVA jornal. Homem de inteligência superior e de forte sentido cívico, o desaparecimento de Elísio Azevedo deixa Arouca mais pobre.»
Partiu o homem, mas fica a obra. Sim, a obra. Uma obra enorme (para além da discreta actividade política, funções públicas, associativas e profissionais), que contribuiu sobremaneira para a formação da opinião pública e crítica dos Arouquenses, mesmo daqueles que dele terão discordado ou se tenham visto visados nas suas crónicas. A maior homenagem que se lhe poderá prestar, será, pois, sem dúvida, reunir e publicar as centenas de artigos que nas últimas décadas escreveu na Defesa de Arouca e no Roda Viva Jornal. De resto, foi uma ideia que quase se concretizou, ainda que parcialmente, no pós polémica do Viaduto de Rossas da projectada e ainda "inconseguida" Via Estruturante Arouca-Feira, temas que mais tinta lhe consumiram na viragem do século e lhe valeram mesmo um inédito diferendo judicial sobre liberdade de imprensa, que extrapolou até a jurisdição nacional.
Inconseguido fica também o meu desafio para que escrevesse umas linhas a titulo de prefácio ao meu trabalho Publicações Periódicas Arouquenses. Mas...,"é a vida...", como, resignado, me acaba de responder um dos seus irmãos. Que descanse em paz!

13 de fevereiro de 2019

Publicações Periódicas Arouquenses

Há dias, com a obtenção das últimas digitalizações de exemplares existentes na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, bem como com a abertura e estudo do pequeno processo de suspensão do título "Defesa de Arouca" pela Comissão de Censura, existente na Torre do Tombo, dei por concluída a parte de recolha e referenciação relativa ao meu trabalho "Publicações Periódicas Arouquenses". São quase cinquenta títulos. Todos com imensas curiosidades, factos de interesse, polémicas e controvérsias, que compulsei com imenso proveito para vários trabalhos inacabados, mas principalmente para o referido.
E, feita a colecção, a certeza de uma entre muitas curiosidades: há, de facto, um «buraco negro» na nossa imprensa local e, também assim, na história de Arouca, desde que Portugal é uma República. Com efeito, no período em que a "Defesa de Arouca" viu o seu titulo suspenso, de 1952 a 1955, não havia outra publicação periódica no nosso concelho. No entanto, nada de monta, se comparada a nossa realidade com dos concelhos vizinhos.
Ainda assim, um facto importante quando se conclui também que, em República, independentemente de perseguições e censuras, sempre houve no nosso concelho pelo menos um jornal, e quase sempre mesmo mais do que um.
É certo que se trata de história recente e parece ser até de relativa ou mesmo pouca importância. Mas não. Acho que, independentemente do seu valor próprio, que é muito, é indiscutível tratar-se de uma das principais fontes, senão mesmo a mais importante fonte da história de Arouca e dos Arouquenses.
Acresce que, desse acervo, não existe no nosso concelho qualquer hemeroteca ou colecção pública, de originais ou cópias, por mais pequena que seja. O que é muito lamentável. Valha-nos, pois, a colecção considerável de alguns títulos existente na Associação de Defesa do Património Arouquense.
A história das publicações periódicas em Arouca é mesmo mais antiga que a República. O primeiro jornal a surgir na nossa vila tinha o título de "O Commercio d'Arouca" e o seu primeiro número viu a luz da publicidade em 19 de Abril de 1888. Rareiam os exemplares deste título, mas lá se conseguiu a digitalização desse primeiro número. O primeiro jornal, editado, composto e impresso em Arouca, no entanto, foi o "Voz de Portugal", Órgão dos interesses do concelho de Arouca. Inaugurou a estampa na véspera de 4 de Junho de 1904. Em 24 de Agosto do ano seguinte surge a "Gazeta de Arouca" e, a partir daqui surgem muitos outros títulos, nos quais é hoje possível compulsar a quase história diária de Arouca, desde pelo menos 1904. No entanto, não é em Arouca, nem sem procurar, muito..., que a maior parte desses periódicos, principalmente os mais antigos, se encontra.
Parece-me, pois, importante a referenciação dessas publicações periódicas, bem como a indicação das existências, tanto mais quando, em nenhuma biblioteca ou colecção se encontram todas e, de todas, nenhuma se encontra completa. Está feita. E, no final, ainda que por aí..., quase completa!