Naquela manhã Adriano integrava pela primeira vez um grupo
de caminheiros em busca do cansaço físico que as semanas sedentárias fazem pensar
que não existe. Viu, já nem se lembra onde, o anúncio desta saída e como há
muito tempo já não calcava estas terras, serviu lhe isso de pretexto e desculpa,
e cá ia ele. A inscrição não tinha tido dificuldades e manhã bem cedo despediu
se dos miúdos e da mulher, atarefada com imensas coisas, meteu-se no carro e
com ar de filho pródigo, rapidamente passou aquela distância que tem alturas
demora tanto, e deu de caras com o local de partida que tão bem conhecia e que ao
aproximar se, fez muitas recordações aproximarem-se também. Ali para os lados
de Moldes, uma bela freguesia do nosso Concelho, Arouca, que desta maneira ele
podia visitar e revisitar como era o caso. Já não vinha por estas bandas desde
o casamento daquele primo com quem brincara em criança e que tanto insistira tê-lo
presente. Teve que vir pois a vida não andava nada fácil e pensou que o alento
dos ares de infância desse uma ajuda. E deu. Agora, tempos depois, cá estava de
novo. Fazer o PR, nome de um percurso a pé, por caminhos antigos e dificuldades
quase esquecidas. Já ouvira falar muito dos Passadiços do Paiva mas pela
distância ficou se desta vez por este percurso, menos falado mas quem sabe a
merecer os mesmos elogios. Numa tentativa de não deixar morrer e valorizar a
região tentando que as recordações, o sacrifício pelo esforço, a busca
incessante de novas sensações e a teimosia de muitos habitantes colaborassem em
conjunto, a Câmara fazia a divulgação de um passeio-aventura, através de um
percurso, agora chamam-lhe assim, sinalizado de longe em longe com pequenas
placas e risquinhas as cores, com vários guias que não deixavam ninguém perder-se
pelo caminho e até com oferta de garrafas de água e um mata bicho à moda
antiga. E lá ia ele pelo PR número tal e coisa, não se lembrava bem do número, misturado
com novos turistas curiosos, caminheiros quase profissionais, amantes da
natureza esforçados em recuperar velhos lugares, saudosos das gentes e dos
lugares que não regressam, e alguns como ele num roteiro de lembranças, a
calcar caminhos muito antigos que muitas histórias teriam para contar. Já tinham
sido as artérias de uma economia agrícola que se espalhava por todo o Concelho
e assentava em pequenos transportes de pessoas e mercadorias em carros de bois,
fosse o mato que vinha do monte, o bagaço que iria no alambique transformar se
em aguardente, doce e forte, e até o estrume que o gado levava do seu próprio
curral para fertilizar as pequenas leirotas todas muito aproveitadinhas. E os
turistas sem saberem de nada disto, preocupados em aproveitar o ar puro, dar
uma espreitadela pelas paisagens, lindas de perder o fôlego, ouvir a música ondulante
de mais que um rio, ou se possível rever algum costume já abandonado. E sempre
a caminhar, como se fossem a fugir de algum lobo que estivesse à espreita
destes tão variados capuchinhos. Por estas razões ou outras o grupo era
numeroso, as conversas tinham um espaço pequeno mas lá apareciam para passar o
tempo, e todos iam cansados mas felizes. E queriam era mais percursos, mais
caminhadas, como se fosse possível estes momentos serem o melhor remédio, se
calhar são, para mais uma temporada de stress, competições, correrias, zangas,
apitadelas, reclamações, faltas de tempo, angústias pelo futuro e muitas mais questões
que são agora o dia a dia da maioria. A busca da felicidade, numa tentativa em
alguns casos, de recuperar ao mesmo tempo a agilidade passada. As horas foram por
isso ligeiras, de repente estavam todos de novo no já familiar local de
partida, uns tiravam fotos, outros davam se os parabéns por esta conquista de
lutar contra o seu descanso, outros trocavam até números de telefone e
combinavam mais e mais saídas numa sofreguidão de quem quer abranger o céu com
as pernas. Que bela ideia esta de recuperar os velhos caminhos. Que belo
percurso este. Todos a aproveitar os PRs. A nossa terra tem para aí uma dúzia
deles, e segundo por lá ouviu, nenhum é igual ao outro, os motivos da visita
são sempre diferentes, mas os olhos ficam sempre esbugalhados. Adriano para
tudo olhou, recordou o tempo das botas enlameadas, das escorregadelas naquelas
pedras tão incertas, do resfolegar dos touros e da vara que lhes dava força,
dos cantos que se ouviam ao longe misturados com o ruído cantante do carro de
bois. Imaginou os moinhos e viu a brancura da farinha a aparecer nas mós tão
redondas. Num repente sentiu o tempo andar para trás, soltou uma lágrima de
saudade que lhe fugiu sem contar, logo envergonhado se despediu e continuou a
sua vida. Apesar de tudo tinha sorte e continuava a ser feliz. Tinha pessoas
que muito amava à sua espera. Mas antes de partir ainda tomou mais uma
providência, queria fazer outros PR. Arouca não tinha só os Passadiços. Diferentes mas elegantemente belos os percursos podem ser concorrentes de peso.
Arouca pode esperar por ele de novo, agora com toda a família e vai falar com
os amigos. Foi embora como todos os outros, mais preparado para a rudeza da
vida, alma cheia. Arouca tem sempre novas surpresas. Que sorte ter vindo!
4 de dezembro de 2018
2 de dezembro de 2018
Os passadiços e os seus parentes
Mais dois prémios para o projeto dos Passadiços que, sendo do Paiva por causa do rio, são de Arouca porque são em Arouca. Este percurso marginal ao rio Paiva construído em tábuas de madeira é um sucesso do qual, como arouquenses, só nos podemos orgulhar. Temos um dos entabuados mais famosos e percorridos do mundo.
Tanta fama fez-me lembrar outros percursos, os tradicionais percursos pedestres, dos quais em Arouca creio haver 14 de pequena rota e um de grande rota. Percorri a maioria, alguns por várias ocasiões. Prefiro-os aos passadiços. Pela sua maior discrição e naturalidade. Porque são endógenos. Porque percorrendo-os se vivem Arouca e as suas matizes, andando por caminhos, carreiros, estradões, pontões e escadas, atravessando aldeias, serras, vales, encostas, montes, bosques, campos, socalcos e ribeiros.
Até ao ano passado, não havia um único destes percursos nas freguesias mais ocidentais do concelho. Como mansorense, fiquei feliz ao ver inaugurado em abril passado um destes percursos (o PR 11 – Trilho das Levadas) na minha freguesia natal. Até porque tive uma pequena ligação ao projeto.
A Câmara Municipal de Arouca investiu a certa altura nestes percursos e, creio que por 2008, registou a marca “Arouca, capital do Pedestrianismo”, mas dá impressão que não se tem feito tanto uso desta marca quanto se poderia. Exceto, obviamente, se considerarmos que “Arouca = Passadiços do Paiva”.
Não é segredo nenhum que o valor intrínseco de um projeto turístico não basta para que ganhe prémios. É preciso muito marketing, muito lobby, muito “soft power” para se levar o turista a julgar que descobriu aquilo que queríamos que descobrisse. Pois bem, agora que temos em Arouca um percurso “vip” e milionário, mais do que consolidado, porque não instrumentalizar a sua fama e a sua riqueza em favor dos seus parentes pobres, os tradicionais percursos pedestres? Fica a ideia.
1 de dezembro de 2018
A propósito do piedoso e bom povo que somos.
Um caso recente, sobre antigas propriedades foreiras, levou-me a folhear, mais uma vez, o precioso estudo histórico-jurídico "Arouca e o Fisco", publicado em 1897 pelo doutor Adriano Carlos Vaz Pinto. Trata-se de uma edição muito rara, com os exemplares ainda hoje existentes quase a desfazerem-se, mas muito rica sobre diversos pontos de vista, e que vale a pena ser conhecida e copiada, senão mesmo transcrita e republicada. Com efeito, o referido estudo, é o que, em minha opinião, melhor analisa e sintetiza a controversa questão da extinção dos foros que durante muitos anos se continuaram a pagar ao extinto Mosteiro de Arouca.
Longe de querer retirar mérito e desmerecer a paternidade comummente atribuída ao doutor Inácio Teixeira Brandão de Vasconcelos sobre essa questão, o certo é que não pode ignorar-se o empenho e clarividência com que o também foreiro Vaz Pinto analisou o assunto e defendeu a extinção, como deve ser, do ponto de vista histórico, legislativo, doutrinário e jurisprudencial, deixando aos vindouros a transcrição de documentos de relevantíssimo interesse para a questão em analise, mas também para a história de Arouca. O que, inevitável e justificadamente, o coloca, se não mais, a par de Brandão de Vasconcelos, no que a essa questão histórica diz respeito.
Mas essa, no entanto, não é a questão que mais pretendo relevar desta feita, também com créditos a esse nosso ilustre conterrâneo.
Aqueles que se interessam por estas coisas da nossa história e que já se tenham deparado com a data em que, oficialmente, se declarou a extinção dos foros sobre a exploração das terras que outrora se pagavam ao Mosteiro, sendo também conhecedores da extinção dessa Casa em 1834, ou até mesmo se se preferir em 1886 (ano em que faleceu a última monja), acharão certamente muito estranho que os arouquenses tenham continuado a pagar foros até tão tardiamente, mais concretamente até 4 de junho de 1898.
Esse 4 de junho, de resto, pela importância de Dia da Independência que se lhe atribuiu - muito mais até que ao 1 de dezembro de 1640 -, foi mesmo considerado como um dos dias historicamente mais relevantes para a vida dos arouquenses, sendo mesmo consagrado como feriado municipal. E foi assim até 19 de março de 1956, data em que se alterou o feriado municipal para 2 de maio, dia em que faleceu a Rainha Santa Mafalda.
Pois bem, em face da lei e jurisprudência (já especificamente sobre os foros do Mosteiro de Arouca) a remontar a 1832 e 1846, respectivamente, pagaram os arouquenses os foros até tão tarde, porque, - à falta de melhor explicação -, somos piedoso e bom povo!
Com efeito, como se sabe, o Mosteiro de Arouca tinha sido um dos mais ricos do país, mas, depois da implantação do liberalismo e extinção das ordens religiosas ficaram as monjas privadas das vastas propriedades que possuíam e, progressivamente, se viram também impedidas de reclamar foros cobrados noutras terras, vendo-se reduzidas aos foros que percebiam no concelho de Arouca e pouco mais.
Negar-lhes os foros por completo era reduzi-las à quase miséria e impossibilita-las, portanto, de continuarem a sustentar o culto da sua patrona Rainha Santa Mafalda, que elas exerciam sempre com grande esplendor, atraindo ali em numerosa peregrinação os fieis que de longe vinham implorar socorro ou agradecer os benefícios alcançados por intercessão daquela Santa, que escolhera Arouca para sua última jazida. Todas as grandes festas religiosas do ano eram celebradas no vasto templo do Mosteiro com magnificência e luzido brilho; e não havia miséria em Arouca que não encontrasse conforto e amparo nos sentimentos piedosos daquelas boas almas, sempre prontas a acudir aos deserdados da fortuna.
Por isso, os arouquenses, apesar de não terem conseguido, de todo, socorrer as monjas da miséria a que foram deixadas - e muito menos «algumas meninas de coro e criadas, estando estas todas decrepitas e algumas entrevadas, pobres e sem família» -, continuaram a ajuda-las a desempenharem a sua elevada missão como podiam, nomeadamente, pagando impostos que há muito já não eram devidos. Atitude apenas digna de piedoso e bom povo!
30 de novembro de 2018
EXPRESSO «ARDA-DOURO»...
Esta fotografia, tirada a partir do cume da Senhora da Mó, revela bem um facto muito claro, com validade ontológica, que quem não conhece Arouca devia saber. A Vila de Arouca, que tem cerca de 5 200 habitantes (sede de um concelho da Área Metropolitana do Porto e da Região Norte com cerca de 22 360 habitantes) localiza-se num vale de grande dimensão e não na Serra da Freita. A serra que está mais próxima da Vila de Arouca é a Serra da Senhora da Mó e não a Serra da Freita. A Vila de Arouca localiza-se no Vale do rio Arda, na Bacia Hidrográfica do rio Douro. As zonas de vale e de meia-encosta do concelho de Arouca são as mais populosas e não as zonas de serra, que são muito pouco populosas. Nesse sentido, a componente humana do concelho de Arouca que mais contribui para a definição identitária do concelho de Arouca como um todo, em termos estruturais, é, como sempre foi, forjada a partir da identidade das populações das zonas de vale e de meia-encosta do concelho e não das zonas de serra, que são exíguas em habitantes. A Vila de Arouca e o Vale do rio Arda, que se distende, depois, no espaço administrativo de várias freguesias arouquenses, para oeste e que se liga, em Rôssas, ao Vale do rio Urtigosa, são o território mais populoso que mais contribui, em termos de componente humana, para a definição identitária do concelho de Arouca como um todo. Não a Serra da Freita.
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| Vila de Arouca, que se localiza no Vale do rio Arda |
A Vila de Arouca localiza-se na área onde nasce e se forma o rio Arda (um dos afluentes estruturais do rio Douro), que se direcciona para o litoral e desagua em Pedorido, no rio Douro (a cerca de 7 Km das fronteiras norte e oeste do concelho de Arouca e a cerca de 22 Km da cidade do Porto), como se pode verificar nesta outra fotografia:
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| Foz do rio Arda, que desagua no rio Douro, em Pedorido, a 7 Km do concelho de Arouca e a 22 Km do Porto |
Há mais de três décadas atrás, a Aditur, uma das empresas de autocarros que existia em Arouca, criou um serviço de expresso diário (entre Arouca e o Porto e entre o Porto e Arouca) que se denominava «Expresso Arda-Douro». Essa designação é muito simbólica e reveladora da ligação muito forte que Arouca e os Arouquenses sempre mantiveram com o Porto e com o Grande Porto e da sua tendência de mobilidade sócio-económica para o litoral (as fronteiras oeste e noroeste do concelho de Arouca localizam-se, em linha recta, a cerca de 22 Km do Porto e a cerca de 19 Km do oceano Atlântico), a fazer lembrar a direcção do percurso do rio Arda, que nasce e se forma em Arouca, num percurso que se direcciona para o litoral, onde desagua, em Pedorido, no rio Douro, que, por sua vez, desagua na magnífica Foz do Douro, na cidade do Porto, no oceano Atlântico. Contudo, essa mobilidade não é unívoca, porque os Arouquenses vêem esses locais unidos e coesos, por fazerem parte, de modo dinâmico e permanente, da sua vida quotidiana, num espaço coeso e identitário que é habitado e vivido de modo contínuo.
rio Arda e rio Douro: rios da Área Metropolitana do Porto
P.S.- Ainda a propósito da identidade...E estamos aqui a considerar a identidade do concelho de Arouca por referência às divisões territoriais identitárias mais vastas onde está inserido, num contexto macro...A identidade de um determinado território é, perfeitamente, definível, com conceitos racionais, com métodos e técnicas científicas: ela é apurada a partir dos elementos físicos, naturais, humanos e sociais autóctones e endógenos desse território, bem como da interacção dinâmica que ocorre, entre esses elementos, de modo espontâneo. Vários elementos civilizacionais exógenos podem, no entanto, associar-se a esse núcleo estrutural identitário mais originário e devem também ser sempre considerados, ao se considerar a evolução e o percurso histórico da identidade endógena desse território. Os vários ramos das Ciências têm capacidade para, com rigor, apurar a identidade autóctone de um determinado território. No domínio das Ciências Sociais, por exemplo, os conceitos de «área natural» (elementos autóctones) e de «área administrativa» (divisões territoriais e administrativas do Estado) da Escola Sociológica de Chicago (EUA) são úteis para dar inteligibilidade a um dos problemas do concelho de Arouca, em termos das suas divisões territoriais mais vastas, porque uma das graves lacunas administrativas de Arouca é o facto de pertencer, de modo arbitrário, desde 1835, ao distrito de Aveiro, já que o espaço urbano principal de referência de Arouca e dos Arouquenses sempre foi a cidade do Porto/Grande Porto, não apenas pelo facto de estar próximo, mas pelo facto do território identitário de Arouca se inserir nas divisões territoriais identitárias mais vastas protagonizadas pelo Porto e pela Região Norte que respeitam os elementos autóctones do território. E elas são, desde o início da nacionalidade de Portugal, a região de Entre-Douro-e-Minho e a região Norte e, durante o século XX, a província do Douro Litoral, que é a divisão territorial mais adequada para o território endógeno mais vasto onde Arouca se insere e que constitui quase a totalidade do distrito do Porto, que tinha, como cidade principal, a cidade do Porto. Ou seja, o concelho de Arouca está bem enquadrado, em termos endógenos, na região de Entre-Douro-e-Minho, na região Norte, na província do Douro Litoral e na Área Metropolitana do Porto, mas não está nada bem enquadrado, desde 1835, no distrito de Aveiro. Isso é um facto muitíssimo claro, evidente, com validade ontológica. Arouca, se se mantiverem os distritos, devia pertencer ao distrito do Porto.
Arouca e os Arouquenses têm dado provas de boas práticas de desenvolvimento sustentado. Também é muito importante combater a anarquia irracional que, infelizmente, costuma caracterizar as várias divisões administrativas do território português. Nesse sentido, Arouca, os Arouquenses e as suas várias instituições devem empenhar-se em reforçar, cada vez mais, o enquadramento institucional do «território de mobilidade natural dos Arouquenses», que sempre foi protagonizada pelo Porto e pela Região Norte e que nunca foi protagonizada pela cidade de Aveiro. A ligação dos Arouquenses com Aveiro é, sobretudo, meramente, burocrática, como sempre foi, devido ao facto de, a partir de 1835, um concelho tipicamente nortenho e típico da Região do Entre-Douro-e-Minho ter sido integrado, de modo arbitrário e sem nexo, no distrito de Aveiro, que é uma cidade da Região Centro.
Arouca e os Arouquenses têm dado provas de boas práticas de desenvolvimento sustentado. Também é muito importante combater a anarquia irracional que, infelizmente, costuma caracterizar as várias divisões administrativas do território português. Nesse sentido, Arouca, os Arouquenses e as suas várias instituições devem empenhar-se em reforçar, cada vez mais, o enquadramento institucional do «território de mobilidade natural dos Arouquenses», que sempre foi protagonizada pelo Porto e pela Região Norte e que nunca foi protagonizada pela cidade de Aveiro. A ligação dos Arouquenses com Aveiro é, sobretudo, meramente, burocrática, como sempre foi, devido ao facto de, a partir de 1835, um concelho tipicamente nortenho e típico da Região do Entre-Douro-e-Minho ter sido integrado, de modo arbitrário e sem nexo, no distrito de Aveiro, que é uma cidade da Região Centro.
29 de novembro de 2018
Desporto ou Desportos em Arouca
O desporto faz parte da vida do homem, da sua forma de conviver em sociedade e de construção da própria sociedade. Praticado de forma amadora ou profissional com muitíssimos níveis e motivos de prática intermédia o desporto é, por tudo o que representa, componente essencial da história do Homem.
Em Portugal como em muitos outros países quando falamos ou escrevemos sobre desporto é o futebol que primeiramente nos vem à memória. De forma muitas vezes injusta são renegados para segundo plano outras centenas de desportos que se praticam com mais ou menos adesão e popularidade na sociedade portuguesa. Também em Arouca temos um espelhar desta forma de nos relacionarmos com esta actividade; procura no entanto este texto referenciar o que se tem vindo a modificar, particularmente em Arouca, no que toca a prática do desporto e versar sobre os desportos que se praticam.
Obrigatoriamente, em Arouca, o Futebol Clube de Arouca é a referência máxima quando ao desporto concelhio nos queremos referir. Desde a década de cinquenta do século passado, com o Futebol de Onze e, mais recentemente, com o Futebol de Salão. Também o Grupo Desportivo Santa Cruz de Alvarenga, a A.C.R.D. de Mosteirô, a U.D. de Mansores e o C.C.R. de Vila Viçosa, são equipas no activo com prática desportiva de futebol federado sénior e algumas delas também juvenil. A União Desportiva de Fermedo e a Associação Unidos de Rossas são outras duas associações com prática de futebol federado juvenil.
O Centro Juvenil Salesiano de Arouca tem vindo ao longo dos últimos anos a tomar a dianteira na forma de fomentar a prática de outro tipo de desportos. É louvável que à data actual conte já com a prática e formação de desportos que vão para além do futebol (em que também são referência na formação jovem do concelho): natação, ténis, basketball, atletismo e, mais recentemente, voleibol, foram e continuam a ser uma lufada de “ar fresco” na prática desportiva Arouquense.
Mais recentemente surgiu uma outra entidade: a SportArc, que vem, em meu entender, permitir um enquadramento desportivo legal a dezenas de desportistas amadores que praticam diferentes desportos: atletismo de estrada e de montanha, B.T.T., motociclismo e desportos motorizados, foram também enquadrados no “chapéu legal” desta nova associação. Os meus votos de uma linha e produtiva vida desportiva a esta associação.
Não são ainda muitos os desportos que se praticam de forma organizada e federada em Arouca, muito menos são aqueles que atrás referíamos em que é oferecida aos jovens de Arouca oportunidades de formação nos diferentes desportos. Se pensarmos ainda que no passado já se praticaram em Arouca e já existiram equipas e prática de desportos como rugby, hóquei em patins, ou até mesmo boxe, veremos que muito mais poderemos fazer.
Outro apontamento poderá ser efectuado ao facto de sermos um concelho com um potencial enormíssimo, já reconhecido em desportos de rio e radicais, e não termos até à data qualquer clube desportivo “dedicado” à formação nestas áreas.
Muito de bom e de novo se fez e está a ser feito mas muito, muito mais, poderá e deverá ser feito.
28 de novembro de 2018
Quem foi Albano Ferreira?...
Na «Defesa de Arouca», desde a infância, muito convivi, de modo cordial, durante anos, com Arlindo Matos (cujo perfil biográfico está bem descrito, neste blogue, pelo seu filho António Matos) e com Alberto de Pinho Gonçalves, que faz a descrição biográfica (jornal «Discurso Directo»: 5-12-2014) do insigne etnógrafo arouquense Albano Ferreira, que foi um colaborador ilustre da «Defesa», cujas obras constituem alguns dos melhores e mais fidedignos textos que se escreveram sobre a identidade autóctone e endógena de Arouca e dos Arouquenses. Albano Ferreira viveu entre Arouca e o Porto e entre o Porto e Arouca.
Albano da Cunha Pinto Ferreira
« Vulgarmente conhecido como Albano Ferreira. Nasceu a 12 de Março de 1897, na Praça, Arouca. Filho de Ernesto Pinto Ferreira e Maria Carolina da Cunha Alegria. Neto paterno de José Ferreira de Oliveira, de Vila Nova, Burgo, e Maria Luísa da Conceição, do Rio de Janeiro, Brasil; e materno de João de Oliveira e Cunha, de Ovar, Chefe da Estação Telégrafo-Postal de Arouca, e Rita Ferreira Alegria, de Oliveira de Azeméis. O seu pai exerceu a profissão de escrivão-notário de Arouca.
Talvez a convivência paterna tenha influído na profissão que teve de escrivão judicial, em diversas comarcas do País, incluindo a de Arouca. Esta sua vivência com as populações, através da sua profissão, deu-lhe um conhecimento extraordinário de todos os aspectos etnográficos e antropológicos da população arouquense, que o apaixonaram toda a vida. Por tal motivo esteve durante muitos anos ligado ao folclore arouquense, e de um modo especial, ao Conjunto Etnográfico de Moldes, de que foi seu grande divulgador, nomeadamente nos anos 60, do século passado, conseguindo, através do seu grande amigo, o poeta Pedro Homem de Melo, ir várias vezes à RTP, mostrar o nosso folclore. Quem o quisesse ver zangado era falar mal do folclore e, de um modo especial, do Conjunto Etnográfico de Moldes.
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| A rua Albano Ferreira, numa zona central da Vila de Arouca |
Ainda está na lembrança de muitos arouquenses, aquando da Feira das Colheitas, quando subia ao tablado o grupo de Moldes, para a sua actuação, ia também o «Albaninho» com a sua caixinha de cordões de ouro (pois ele tinha um grande espólio de peças de ouro antigas), e por sua mão os colocava ao peito das raparigas de Moldes, para a sua exibição. Pode dizer-se que era um «doente», no bom sentido, de tudo o que dizia respeito aos costumes e tradições das gentes de Arouca. Essa sua «doença» levou-o a escrever, durante muitos anos, na imprensa, principalmente no jornal “Defesa de Arouca”, belos artigos que mostram as vivências dos arouquenses, os seus usos e costumes, com uma prosa simples, objectiva e graciosa, que a todos deliciava.
Não resisto a contar uma passagem que se passou na minha presença, há muitos anos. Trabalhava eu no dito jornal, onde ele colaborava, ainda sediado na rua Dr. Figueiredo Sobrinho (rua D´arca), num prédio hoje em ruínas. Naquela altura o jornal publicava uma secção denominada “Movimento Demográfico do Concelho”. Ora sobre os casamentos a notícia era dada mais ou menos nestes termos: fulano de tal, do lugar de tal, com fulana de tal, do lugar de tal, da freguesia de tal. Coincidiu que num casamento da freguesia de Canelas, em que há o lugar de Cima e o lugar de Baixo, saiu a notícia que dizia fulano de tal, de Cima, com fulana de tal, de Baixo. A perspicácia do «Albaninho» levou-o para a brejeirice. E então dirigiu-se ao jornal para adquirir um novo exemplar (talvez para guardar religiosamente...), e com grande satisfação, ria-se do caso.
Não era pessoa religiosa; mas tinha em muitos padres os seus grandes amigos. De um modo geral tinha a simpatia de toda a gente, que o admirava e respeitava. Era um óptimo conversador. Mantinha um diálogo correcto e interessante com todos. Casou em 20 de Agosto de 1922, com Maria Helena Casimiro Leão Pimentel, natural da cidade do Porto, de quem teve dois filhos, o Alfredo e o Rui Pimentel Ferreira, creio que já ambos falecidos. Faleceu a 7 de Julho de 1978, na sua residência, na freguesia de Massarelos, Porto. A notícia do seu falecimento só chegou dias depois de ter acontecido, por sua expressa vontade. »(A.P.G.)
Para além das suas obras ainda não estarem compiladas e publicadas, convenientemente, em livro, a casa de Albano Ferreira do Porto, na rua de Vilar, em Massarelos, perto do Palácio de Cristal, encontra-se esquecida! Como é óbvio, em face destas duas situações lamentáveis, a Câmara Municipal de Arouca, bem como as instituições de Arouca, da Área Metropolitana do Porto e da Região Norte ligadas à cultura, deviam interessar-se, impreterivelmente, por elas, publicando as obras completas de Albano Ferreira e adquirindo a casa de Albano Ferreira do Porto, que poderia funcionar como uma Casa da Cultura Arouquense no Porto, com vários tipos de actividades, numa dinâmica vital e identitária que consolidasse, ainda mais, a forte ligação que Arouca e os Arouquenses sempre tiveram com o Porto e o Grande Porto. Na contemporaneidade, através da acção permanente de várias instituições, como a Área Metropolitana do Porto ou a CCDR-N, esse território identitário deve ser ainda mais solidificado e tem de estar sempre vivo, sadio, ético e dinâmico.
27 de novembro de 2018
A Pensar Alto... O Café.
Os primeiros cafés ou cafetarias apareceram em Portugal no
séc. XVII inspirados nas tertúlias francesas. Tornam se espaços de animação
cultural e artística e são os locais preferidos de diplomatas, artistas,
intelectuais e escritores entre outros. Surgem principalmente em Lisboa
espalhando se depois pelo resto do País. Os cafés nos dias de hoje têm uma
função social muito importante e estão disseminados por todas as vilas e
freguesias do País. Arouca não é exceção. Locais de muitas conversas e muitas
histórias, cá vai uma.
O Costinha, nunca
percebi porque lhe chamavam assim, era um homem de mais de 100 kilos, mais de
1.90m de altura, com umas mãos de dedos longos, que nos adivinhavam o pedido, pois
de repente aparecia como que abandonado no balcão, quando falava as palavras soavam
enormes por pequenas que fossem, e apesar disto e de outras coisas semelhantes
era sempre o Costinha como se este tratamento o tornasse mais próximo de nós, pequenos
e poucos clientes. E a voz? Parecia sempre acima do tom, quase nos lembrava o
tempo das cavernas, se como me contaram era preciso falar grosso para se ter o
respeito dos companheiros. Então quando o seu clube de futebol preferido perdia,
já ouvi trovões em noites de temporal, mais tímidos e singelos. Ficava mais
enorme, mais gigante, mais vermelho que um pôr do sol de verão, e soltava um ou
vários palavrões que nem vou repetir porque me ocupavam o resto da folha. Mas
era sempre o Costinha, o amigo, o confidente de muitas más e boas horas que o
calendário tem guardadas, e o contador de novidades, algumas tão surpreendentes
que nunca chegaram a acontecer. O Costinha. E sabia sempre tudo. Como dizia por
entre gargalhadas e ares de matreirice, era especialista nos 4 esses, o de
sexo, o de sangue, o de segredos e o mais importante, o de solidão. Quem roubou
as armas em Tancos? Lá vinha resposta certeira sem contestação, Se alguém ia
ser preso por tanta aldrabice e tanto roubo? Com ar sério, a questão era grave
lá vinha resposta pessimista, Onde esconderam o corpo? Às vezes até parecia que
era ele que o escondia tal a certeza, O homem era corrupto ou não? dependia da
côr partidária mas as hipóteses da tentação são muitas..Problemas conjugais era
especialista e desconfio que até passou uma fase em que era meio conselheiro
matrimonial ,no tempo em que se pensava que o casamento era para durar. Era
infalível, qualquer questão que aparecesse o Costinha à vontade nas respostas,
sem pestanejar. Ouvi-lo era muito melhor que assistir aqueles comentários de
ilustres na tv pois nem precisava de um ar tão sério, nem de tirar um curso de
Dr. nos fins de semana. Um dia faltou às conversas do costume, quem nos atendeu
foi o seu empregadito, uma espécie de aprendiz sem jeito que lhe servia mais de
companhia que de utilidade para descansar do trabalho, e apesar de todos
repararem nas respostas evasivas ninguém fez insinuações ou levantou questões,
esperou-se. Quando se adivinham notícias desagradáveis é melhor ir adiando,
como quem acredita em milagres. No dia seguinte e nos outros nada, e então
começaram as dúvidas que logo foram certezas. Nada de bom, doença daquela que ninguém
quer, poucas esperanças, daquela novidade não tinha ele falado, como se fosse
possível o esquecimento trazer a cura. Mas não trouxe. Alguns dias depois, não
contei mas foram poucos, a surpresa do aviso. E dessa vez, e pela primeira vez
o Costinha pareceu me pequenino a fazer juz ao carinhoso diminutivo. A foto que
acompanhava a noticia que com enorme tristeza colocaram na parede exterior do
seu café, onde, apesar do desconforto da roupa domingueira, o ar sorridente, o cabelo
penteado, o olhar a prometer novidades, pela primeira vez o Costinha me pareceu
pequenino, ali encostadinho no lado esquerdo da folha, meio a contra gosto para
dar espaço ao resto da noticia. Na foto que ilustra a noticia onde os grandes
são pequenos e os pequenos grandes, tudo igual. Triste dia. Nunca mais vai ser
igual o serão no café naquela Vila. Falta por lá o Costinha.
26 de novembro de 2018
A favor de uma Pousada no Mosteiro, mas...
Em
sequência do já anunciado há algum tempo, com a criação do Projecto Revive (que tem em vista a recuperação e valorização do património cultural e histórico, presente em todo o território nacional, e a sua transformação em activo económico para o país), na
passada sexta-feira, 23 de Novembro, o Instituto do Turismo de Portugal lançou
o Concurso Público para a concessão da exploração de uma unidade hoteleira no
Mosteiro de Arouca, por 50 anos. O prazo para apresentação de propostas corre agora por três meses.
Há já alguns anos que defendo também a instalação de uma unidade hoteleira no Mosteiro, nomeadamente, para salvaguarda, manutenção e dignificação de uma parte hoje totalmente devoluta, mas, no entanto, nunca com a ambição do que está agora projectado. Defendia apenas, e ainda defendo, a instalação de uma Pousada, mas, exclusivamente na parte Nascente da Ala Sul (assinalada na imagem).
O caderno de encargos do Concurso agora lançado prevê a concessão de toda a Ala Sul do Mosteiro e a quase totalidade da Cerca (demarcada na imagem abaixo), com vista a adaptação, inclusive com possibilidade de construção em parte da Cerca, para posterior exploração para fins turísticos, como estabelecimento hoteleiro, estabelecimento de alojamento local ou outro projecto de vocação turística com elevados padrões de qualidade, que privilegie o alojamento, podendo ainda incluir outras valências como restauração e lazer.
Ainda de acordo com o programa e respectivo caderno de encargos, - que ignora a ocupação do 2.º Piso da parte Poente pela Associação de Defesa do Património Arouquense -, da área a concessionar, apenas o Pátio dos Comuns e o espaço de acesso a este, através do Largo Santa Mafalda, funcionarão como espaços de utilização partilhável, mas com acesso condicionado, para serventia do museu. Os restantes espaços ficarão exclusivamente afectos ao uso privado do empreendimento turístico. Fica, no entanto, salvaguardado o direito ao acesso público à Cerca, para visitas guiadas e previamente agendadas, em três datas comemorativas nacionais e uma municipal: o Dia da Rainha Santa Mafalda.
Ainda de acordo com o programa e respectivo caderno de encargos, - que ignora a ocupação do 2.º Piso da parte Poente pela Associação de Defesa do Património Arouquense -, da área a concessionar, apenas o Pátio dos Comuns e o espaço de acesso a este, através do Largo Santa Mafalda, funcionarão como espaços de utilização partilhável, mas com acesso condicionado, para serventia do museu. Os restantes espaços ficarão exclusivamente afectos ao uso privado do empreendimento turístico. Fica, no entanto, salvaguardado o direito ao acesso público à Cerca, para visitas guiadas e previamente agendadas, em três datas comemorativas nacionais e uma municipal: o Dia da Rainha Santa Mafalda.
Confesso que não antevejo muito provável a candidatura nem muito viável a instalação de uma unidade de 5 estrelas, como já chegou a ser aventada, mas, também não será de ver com bons olhos a instalação de uma unidade de gama inferior, com aquela dimensão. Sendo certo que, apesar da muito boa qualidade das unidades hoje existentes em Arouca, um hotel de 5 estrelas dificilmente concorreria com aquelas, mas, já uma unidade de gama inferior, com a aliciante do edifício em causa, certamente que concorrerá e poderá mesmo comprometer a viabilidade de algumas delas. Factor que não deverá ser subestimado pelas entidades que têm ou podem ter uma palavra a dizer neste processo.
Contudo, sendo já a segunda vez que a procissão a esta santa sai da igreja, está ainda no adro... a aguardar quem pegue no andor... E, manifestamente, há agora muito mais a dizer. Será, pois, uma boa altura para que muito boa gente, com responsabilidades acrescidas, volte a reflectir e a pronunciar-se sobre o tema, também na perspectiva de ganhos e perdas, e dos interesses de Arouca e dos arouquenses a salvaguardar.
25 de novembro de 2018
Homo sapiens arouquensis? A identidade dos arouquenses
Dei comigo há dias a folhear o livro “Entre Freita e Montemuro”, editado em 1997 pela Associação para a Defesa da Cultura Arouquense. Tem boas sínteses sobre as características geológicas e naturais do chamado maciço montanhoso da Gralheira – ao qual pertence parte do território de Arouca – e sobre a identidade tradicional das comunidades humanas que o habitam. Dá particular destaque à serra da Freita, sobretudo nas fotografias que publica.
Transcrevo, deste livro, cerca de metade da conclusão do texto “Um pouco de História”, de Filomeno Silva, que versa sobre a identidade dos arouquenses:
“Tudo o que de uma forma linear procuramos mostrar é aquilo que melhor define a identidade cultural de um povo e de uma gente. Por mais que queiramos ou pretendamos estabelecer paralelos entre estas gentes e as ditas da ‘Terra de Santa Maria’, além de ser uma pura retórica senão ilusão, são interesses mesquinhos de quem pretende apropriar-se de valores ímpares, únicos e indissociáveis destas gentes. Além disso, Arouca historicamente nunca pertenceu a essa terra que vai desde Vila Nova de Gaia até quase Estarreja. Por isso Arouca sempre dispôs de autonomia, bem definida pelo Arda e pela Freita – não é terra do interior mas também não é litoral.
Do Minho tem a verdura dos seus campos e a abundância da água que a converte num dos rincões mais férteis do país. De Trás-os-Montes tem a graciosidade das suas paisagens, a hospitalidade dos seus habitantes e a majestade das suas elevações. Nas courelas onde mal cabe um arado, persistem as pessoas apegadas à terra. Nos nossos dias até se torna impensável como é isto possível. São esses factores que separam os arouquenses dos seus vizinhos mais litoralistas e ao mesmo tempo melhor definem esta terra como um povo e uma gente diferente e extraordinariamente dotada de valores humanos, culturais, paisagísticos e gastronómicos.”
Do Minho tem a verdura dos seus campos e a abundância da água que a converte num dos rincões mais férteis do país. De Trás-os-Montes tem a graciosidade das suas paisagens, a hospitalidade dos seus habitantes e a majestade das suas elevações. Nas courelas onde mal cabe um arado, persistem as pessoas apegadas à terra. Nos nossos dias até se torna impensável como é isto possível. São esses factores que separam os arouquenses dos seus vizinhos mais litoralistas e ao mesmo tempo melhor definem esta terra como um povo e uma gente diferente e extraordinariamente dotada de valores humanos, culturais, paisagísticos e gastronómicos.”
Foi esta, era esta há 20 anos a identidade dos arouquenses?
Uma comunidade, salvo raras exceções, é um conjunto de comunidades mais pequenas e uma parte de comunidades maiores. Tem modulações históricas, permutas e mobilidades que tornam difícil representar a sua identidade. Pode correr mal àqueles que tentam defini-la; como tudo na vida, não corre mal àqueles que não tentam.
Como definiríamos, em síntese, a identidade dos arouquenses de hoje, se possível fosse?
Uma ‘Cana Verde’ sublime, que entoa Arouca e os Arouquenses: autêntica e telúrica!...
Esta ‘Cana Verde’, de um dos melhores períodos do Conjunto Etnográfico de Moldes de Danças e Corais Arouquenses (uma das instituições identitárias estruturais de Arouca), é sublime e
comovente!...Penso que não há palavras para descrever a pureza e a autenticidade
dos sons desta versão desse período, que entoa, de modo genuíno, Arouca e os Arouquenses...:
Na origem desta autenticidade autóctone de uma dança típica do Douro Litoral (que tinha, como capital, a cidade do Porto), está a obra de muita qualidade de um dos colaboradores ilustres do jornal «Defesa de Arouca»: o insigne etnógrafo arouquense Albano Ferreira, que legou, a Arouca, nas páginas da «Defesa», alguns dos melhores e mais fiéis textos que, alguma vez, se escreveram sobre Arouca e sobre os Arouquenses. Obra inigualável que era posta em prática, no Conjunto Etnográfico de Moldes, pela acção dirigente de outro arouquense ilustre e personalidade central e estruturante do grupo: Fernando Miranda. E, mais uma vez (nada melhor para comprovar esse facto, através destes dois arouquenses ilustres), se constata a forte ligação dos arouquenses e de Arouca à cidade do Porto, que continua a ser a capital identitária do Douro Litoral, que é o território autóctone da 'Cana Verde' e que é o espaço mais vasto onde a identidade de Arouca e dos Arouquenses melhor se enquadra.
24 de novembro de 2018
Recuperação das antigas Casas Florestais
Vai para dezasseis anos, o Governo de então, através do Ministério da Agricultura, resolveu proceder à cedência por vinte anos, em regime de comodato, de 287 casas florestais desactivadas. Podiam candidatar-se pessoas colectivas ou singulares, desde que prosseguissem objectivos compatíveis com o desenvolvimento das zonas rurais, com a preservação dos recursos naturais e da paisagem e com a manutenção do ambiente. Intenção que não passou disso mesmo.
Há meia dúzia de meses, o actual Governo recuperou e refrescou a ideia de fazer alguma coisa com esse património, manifestando agora a intenção de, por iniciativa própria, recuperar essas antigas casas para fins turísticos. Segundo a intenção manifestada, por esta altura, estarão a ser identificados os imóveis que integrarão esse novo programa. Segundo o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), entidade responsável pela gestão florestal, existem agora disponíveis cerca de mil casas florestais espalhadas por todo o país. Em Arouca existem quatro.
Há meia dúzia de meses, o actual Governo recuperou e refrescou a ideia de fazer alguma coisa com esse património, manifestando agora a intenção de, por iniciativa própria, recuperar essas antigas casas para fins turísticos. Segundo a intenção manifestada, por esta altura, estarão a ser identificados os imóveis que integrarão esse novo programa. Segundo o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), entidade responsável pela gestão florestal, existem agora disponíveis cerca de mil casas florestais espalhadas por todo o país. Em Arouca existem quatro.
| Casa Florestal do Merujal, tirada de “onossorasto.blogspot.com” |
Relativamente às casas existentes em Arouca, que, tal como os Viveiros da Granja, resultaram do Plano de Povoamento Florestal de 1938, reforçado e ajustado entre 1954 e 1972, essa intenção só será aceitável se, por desinteresse do Município, não surgir entretanto uma alternativa melhor - isolada ou em parceria com outra entidade concelhia -, que socorra aqueles imóveis da degradação e vandalização a que estão deixados pelo Estado desde a década de oitenta.
Porque, se assim não for e algum dia vier a concretizar-se aquela intenção do Governo, será uma péssima notícia para um concelho com pendor turístico, nomeadamente para o turismo de natureza, como é o nosso. Pior ainda, se se tratar de uma medida a reverter proventos para uma qualquer empresa pública nacional ou fundo imobiliário, que o mesmo é dizer para os sacos sem fundo do Estado.
Com efeito, parece-me muito lógico que a recuperação e rentabilização destas casas, à semelhança do que está a ser feito por outros municípios, deva ser reclamada pela Câmara Municipal, de forma a que a sua utilidade ou resultados de uma eventual exploração turística, revertam para o concelho e, nomeadamente, para a recuperação e manutenção das florestas em que se encontram inseridas. Ou até mesmo para voltarem a ser uma espécie do que já foram, adequando-se a apoio logístico à prevenção de incêndios e ao tão propalado reordenamento florestal - com que (para já, e também desde a década de oitenta...) apenas se enche a boca quando o "diabo" nos visita e consome ou quando se abeiram eleições.
Durante muitos anos, serviu de desculpa à falta de ideias a propriedade estatal das referidas casas e, por isso, a alegada impossibilidade da Câmara poder fazer alguma coisa. Porém, a ineficiência do Estado, por um lado, e as oportunidades que têm sido criadas, por outro; a recuperação e valorização que vai agora ser feita (e muito bem!) nos Viveiros da Granja, bem como o que já foi e está a ser feito noutros concelhos, contrariam aquela desculpa e alegada impossibilidade.
Por isso, só por culpas próprias, nossas, se perderá a oportunidade de recuperar e rentabilizar a favor de Arouca também as Casas Florestais do alto da Freita e do monte da Senhora da Mó.
Por isso, só por culpas próprias, nossas, se perderá a oportunidade de recuperar e rentabilizar a favor de Arouca também as Casas Florestais do alto da Freita e do monte da Senhora da Mó.
23 de novembro de 2018
Sá de Albergaria, portuense ilustre, com Arouca no coração
António José da Costa Couto Sá de Albergaria foi um reconhecido escritor, jornalista e pedagogo portuense, que nos deixou um interessante legado literário, do qual destaco os romances “Os Meus Pecados” (1878), “Noites do Porto” (1879), “O Segredo do Eremita” (1902), “Irmã Doroteia” (1902) e “Os filhos do Padre Anselmo” (1904). Utilizou também os pseudónimos João Chorinca e Gabriel da Rasa.
Enquanto jornalista, foi colaborador do “Jornal de Notícias” onde manteve, durante anos, a mordaz crónica "DE RASPÃO - Collecção de artigos humoristicos de critica política, litterária e de costumes”, mais tarde editada autonomamente pela editora “Agência de Publicações”.
Fundou e dirigiu uma conceituada escola na Foz, por onde passaram várias gerações de alunos.
Sá de Albergaria, nasceu a 15 de Agosto de 1850, na quinta da Lameira, freguesia de Urrô, concelho de Arouca. Era filho de António José da Costa Couto, natural da vila de Tabuaço, e de sua mulher D. Maria de Sá Rebelo Vasconcelos e Albergaria, natural da freguesia de Cedofeita, da cidade do Porto; neto paterno do Dr. Luís José da Costa Couto e de D. Maria Cândida Alves de Gouveia, da referida vila de Tabuaço; neto materno de José António de Sá Rebelo e Vasconcelos, também natural da vila de Tabuaço e falecido a 3 de Maio de 1855, na vila de Moimenta da Beira, e de D. Joaquina Leite Soares de Albergaria, nascida a 3 de Outubro de 1792 na Vila de Freixieiro, da freguesia de Britelo, concelho de Celorico de Basto. Foram seus padrinhos de baptismo os nossos bem conhecidos João Pinto Varela e D. Francisca Cândida de Sá Pereira Pinto Rebelo Aranha, sua mãe, da quinta da Lameira.
Não fossem as pistas lançadas por alguns sobrenomes comuns à gente da Lameira, e que decidi seguir, as circunstâncias que envolvem o seu nascimento em Arouca, permaneceriam obscuras.
Afortunadamente, a pesquisa da ascendência do avô materno de Sá de Albergaria, veio a desvendar parcialmente o enigma: José António de Sá Rebelo e Vasconcelos, era primo direito de D. Francisca Cândida, por ser filho de D. Maria de Sá Rebelo, irmã inteira de Francisco de Sá Rebelo Aranha Pereira de Aguilar, avô da senhora da Lameira, ambos naturais da freguesia de Arcozelos, Moimenta da Beira. É pois possível que o seu nascimento em Arouca tenha ocorrido acidentalmente, no decurso de uma visita social aos parentes de Arouca.
Não duvido, no entanto, do carinho que o ligava a esta terra, pois nunca deixou de, orgulhosamente, dizer que era natural do concelho de Arouca.
Ascendência de Sá de Albergaria
22 de novembro de 2018
Hoje é dia de Benfica-Arouca (e do tanto que mudou...)
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| Foto: Liga Portugal |
No dia 16 de Outubro de 2010,
jogou o Futebol Clube de Arouca no estádio da Luz, tal como hoje, para a Taça
de Portugal.
À data, tal evento, constituiu o momento mais importante de um clube fundado 57 anos antes, no dia de Natal, mas que, apesar do simbolismo do dia do seu aniversário, nunca havia recebido tamanha prenda, em contexto de competição. Muito embora já registasse dois encontros com o Futebol Clube do Porto, que muito honraram o clube e as gentes da vila, estes aconteceram em tom de “jogo amigável”.
À data, tal evento, constituiu o momento mais importante de um clube fundado 57 anos antes, no dia de Natal, mas que, apesar do simbolismo do dia do seu aniversário, nunca havia recebido tamanha prenda, em contexto de competição. Muito embora já registasse dois encontros com o Futebol Clube do Porto, que muito honraram o clube e as gentes da vila, estes aconteceram em tom de “jogo amigável”.
Portanto, naquele dia encheram-se
todos os arouquenses de orgulho e, mesmo que alguns com o coração dividido,
vestiram orgulhosamente a camisola do clube da terra e festejaram todo um
percurso que se havia iniciado poucos anos antes, ainda o FCA jogava nos
distritais.
O percurso, que naquele jogo
assumia contornos quase épicos, e que envaidecia todos aqueles que gostavam de
Arouca, havia começado com muita desconfiança e até oposição de uma grande
maioria dos adeptos do clube. Não faltava quem dissesse que o Arouca era clube
para distritais (como sempre havia sido) e que se lá não jogassem jogadores do
concelho, que se recusavam a assistir aos jogos. Esta atitude nada tinha de
criticável. Era o que era. Os arouquenses, à época, eram bem mais resignados que no presente e, talvez por isso, não se sentissem absolutamente confortáveis
com horizontes demasiado descerrados, que os fizessem sair da sua zona de
conforto.
Naquele estádio, tudo se
esqueceu. Apenas se celebrou o exemplo que um clube de uma vila tão pequena
estava a dar ao país. O resultado não interessou. Apenas se celebrou o exemplo
que um clube de uma vila tão pequena estava a dar ao país.
Não imaginavam os arouquenses que
ainda mais estava para vir.
Hoje, depois do FCA ter passado
pela primeira liga de futebol, jogar esporadicamente, para a Taça de Portugal,
no estádio da Luz já sabe a pouco. O que os arouquenses querem é o seu clube a
jogar nos principais estádios portugueses, todas as semanas.
A exigência e a ambição dos
arouquenses mudou. Hoje todos nós queremos sempre mais e melhor, não só no
futebol, como em tudo o que envolve o nome Arouca. Hoje não nos contentamos com
o pouco. Hoje somos mais exigentes. Hoje não nos resignamos aos
circunstancialismos da vida. Hoje lutamos.
Não sei se estarei a exagerar,
mas se for esse o caso, permitam-me o exagero. Julgo que muita desta nova
ambição arouquense começou precisamente no caminho que o FCA traçou e na forma
como potenciou um sonho no qual sempre acreditou.
Que o jogo de hoje sirva para
reforçar a ambição em regressar a um sítio que já foi o nosso.
21 de novembro de 2018
Grandes imprecisões sobre Arouca nos «mass media» nacionais
São muito frequentes as grandes imprecisões sobre Arouca, difundidas nos «mass media» de impacto nacional, sobretudo dos que estão localizados em Lisboa, que padecem de um certo ultra-centralismo autista, petulante e provinciano de Lisboa e arredores, que, na minha sincera opinião, não é uma boa suposta capital para o país como um todo, em parte, precisamente, devido a esse ultra-centralismo político e administrativo, que é mesmo excessivo, auto-centrado e auto-referente e que, portanto, não é nada benéfico para os cidadãos de Portugal, bem como para o desenvolvimento sadio, equilibrado e justo de todas as regiões do Estado português... Algumas dessas imprecisões são mesmo muito irritantes, dado que são erradas e são repetidas com frequência e podem ser aceites, como verdadeiras, por uma parte considerável das pessoas que as acolhem.
Uma delas, entre outras, prende-se com a nomeação, num tom discriminatório e pouco elegante, que se faz do Futebol Clube de Arouca (e, de modo concomitante, dos seus adeptos, sendo a maioria deles Arouquenses), como o «clube da Serra Freita», o «clube serrano», «os serranos» ou «os aveirenses»... Como se, em Lisboa, também não existissem colinas e montanhas e como se não existissem serras no distrito de Lisboa!... A equipa de futebol do Estoril, que está sediada em Alcabideche, no concelho de Cascais, distrito de Lisboa, está tão próxima da Serra de Sintra (que se localiza nos concelhos de Cascais e de Sintra), como a Vila de Arouca da Serra da Freita. Talvez até mais próxima... Porque é que também não nomeiam, de modo análogo, a equipa de futebol do Estoril como «o clube da Serra de Sintra», o «clube serrano» ou também como «os serranos»?... Aí seriam, como é óbvio, «os serranos da Serra de Sintra» e não «os serranos da Serra da Freita»...
Como se sabe, a Vila de Arouca não se localiza na Serra da Freita, mas sim no Vale do Rio Arda, um vale fértil de grande dimensão onde nasce um dos afluentes estruturais do rio Douro, na Bacia Hidrográfica do rio Douro. A serra que está mais próxima da Vila de Arouca não é a Serra da Freita, mas sim a Serra da Senhora da Mó e o Futebol Clube de Arouca, que está sediado na Vila de Arouca, no Vale do Rio Arda, que representa o concelho de Arouca como um todo, não pode ser vinculado unicamente a uma, entre as várias serras que existem no concelho de Arouca, nem muito menos somente a uma que não é a mais próxima da Vila de Arouca e que não é exclusiva do concelho de Arouca. E, se Arouca tem várias serras, também tem vários vales, vários planaltos e várias meias-encostas, que sempre tiveram mais importância que as serras, como é o caso, precisamente, do Vale do Rio Arda, que tem uma centralidade muito maior que a Serra da Freita, no contexto geral do concelho de Arouca. Para além disso, repetimos, a Serra da Freita não é exclusiva de Arouca, porque também se distende, numa parte considerável, aos concelhos de Vale de Cambra e de São Pedro do Sul.
Seria muito mais adequado e verdadeiro, nesse sentido, apelidar o Futebol Clube de Arouca como o «clube do Vale do Rio Arda» ou o «clube do Vale do Arda». Embora alguns desses «mass media» nacionais já nomeiem (e aí correctamente...) o Futebol Clube de Arouca de «clube nortenho» ou de «emblema nortenho».
Assim, a denominação de «aveirenses», para uma equipa nortenha de um concelho que se localiza apenas a cerca de 35Km, por estrada, da cidade do Porto, em plena Área Metropolitana do Porto, também é muito irritante, porque é muito errada. Os Arouquenses não são, como nunca foram, Aveirenses, para além da sua ligação a Aveiro ter sido sempre escassa e fugaz, ao passo que, em relação ao Porto, a ligação dos Arouquenses sempre foi muito forte e, no futuro, será ainda mais forte. Tanto mais que o insigne Futebol Clube de Arouca encontra-se, desde a sua génese, fortemente ligado ao invicto Futebol Clube do Porto.
Ver, pf: Futebol Clube de Arouca
20 de novembro de 2018
A Pensar Alto... O Circo.
De tempos em tempos, como se fosse uma visita de velhos
companheiros, recebemos cá por Arouca uma companhia de circo. Sem datas
marcadas, sem grandes avisos, só damos por eles quando se começam a instalar
quase sempre ali à entrada da Vila na Rotunda do Lavrador, e a espalhar pelos
sítios do costume e ondas da rádio, os pequenos avisos gastos de muito
repetirem as mesmas proezas, anunciando os espetáculos que irão fazer sorrir as
crianças e sonhar muitos adultos. Para mim e por ser cá, o circo é sempre
melhor e diferente...
O espetáculo do circo iniciou se no séc.200 a.C. e era um
divertimento necessário para evitar atos revolucionários. De lá para cá foi
adotando diversas cambiantes, manteve se sempre com atitudes de lazer e
distração, refinou a magia e o encantamento, inventou mais truques e motivos de
curiosidades, mas ganhou concorrentes muito mais modernos, eficientes e
poderosos. A maior parte das companhias que nos visitam são humildes com reportório muito limitado, sem grandes adereços, animais selvagens substituídos
por pequenos domésticos que muito se esforçam para parecerem suplentes à altura,
pássaros de uma brancura esmerada que só lhes falta falar, instalações que já
viram melhores dias, e artistas multifacetados que saltam do trapézio para
palhaços ou malabaristas, com a magia e habilidade a nunca faltar para deleite
dos nossos olhos. Nos intervalos vendem pipocas e pequenas máquinas com luzes e
sons que fazem lembrar a India, o Paquistão ou a China, mas que as crianças
desejam mostrando como o Mundo está global e tudo serve para quebrar o enfado
da TV e dos smartphones dos pais. Daí para a frente, vontades satisfeitas, assumem
uma postura de recato e bom comportamento, quiçá por influência das luzinhas e
monotonia dos acordes. Depois deste espaço é até possível para os mais audazes,
calcar a pista ondulada pelas muitas voltas, no dorso de um cavalinho, mesmo ao
lado de um verdadeiro artista, e sentir mais intensamente esta magia de
cavaleiros em busca de novas descobertas. Depois falta mesmo é esperar pelas atrações
finais. Aí as estrelas do espetáculo, podem transformar-se em domadores, mágicos
ou porteiros, e até colocam a vida em risco como diz com sotaque e tremuras de
aflição o apresentador, subindo para um canhão e sendo projetados como homens
bala, mas para perto, que nos dias de hoje prenhes de dificuldades a pólvora é quase toda sêca e
o corpo é frágil e desarranja-se num instante. O que não perdem é a dignidade e
o orgulho de pertencerem a uma classe de nómadas dos tempos de hoje e levam a
vida que muitas vezes identificamos com alegria, prazer, viagens, descobertas e
imensa felicidade, tudo muito embrulhado em ambientes de mistérios e surpresas
de espantar. Sempre que cá vêm são bem recebidos e mudam radicalmente o dia a
dia de muitas crianças desfavorecidas ou não. Até os pais agradecem. E os avós
já agora. Para mim nunca foi sacrifício visitar o circo e partilhar aquelas
emoções com os meus filhos e agora netos. Sempre que posso vou acompanhá-los.
Desta vez fiquei surpreso com a magia, tinham uma máquina que trespassava um
corpo e nem um ferimento acontecia, espada para cá, espada para lá e nada. O
artista tanto estava aqui, como aparecia acolá. Seria com um caixote destes que
o membro da Assembleia que faltava estando presente conseguia tal proeza? E
aqueles ares de inocentes dos sempre falsamente acusados, tão em moda no
desporto, nos criminosos, de grandes ou pequenos delitos, teriam eles aprendido
com os palhaços ricos, aquele ar sorumbático? Ou com os palhaços pobres? Com
estes não, que é o mais o nosso papel. Grande circo por aí anda. Tinha assunto
para deixar o picadeiro, vermelho de vergonha. Continuo a preferir os que nos
visitam, sei o que vou encontrar e melhor ou pior, com os pés quentes ou frios,
faça chuva ou calor, num banco torto ou numa bancada a tremer das emoções,
sinto aquela vertigem de olhar para o pequeno trapézio que anda para cá e para
lá, vou espreitando para a gasta cortina que serve de entrada a tantas
surpresas boas, dou umas boas gargalhadas, respiro aqueles pedacinhos de
aventura e mistério e até estremeço de susto quando um cão feroz ou outro
animal disfarçado de tal dá um salto maior para apanhar um pedaço de prémio. No
circo temos que acreditar em tudo. Para a próxima não se esqueçam, venham ao
circo.
Os acessos directos e funcionais ao concelho de Arouca
O território da Área Metropolitana do Porto é a principal porta de entrada, via terrestre, via ferroviária, via aérea, via marítima e via fluvial, de acesso ao concelho de Arouca, que se localiza em plena Bacia Hidrográfica do rio Douro.
Os acessos directos e funcionais ao concelho de Arouca
Extinta a NUTS III de Entre-Douro-e-Vouga (o que foi um acontecimento muito acertado, porque era e é um erro apartar os concelhos do extremo norte do distrito de Aveiro dos concelhos do denominado 'Grande Porto'), a Área Metropolitana do Porto (AMP) é a actual NUTS III onde Arouca, com toda a razão e com todo o direito, se insere, protagonizada pela cidade do Porto, que sempre foi a cidade principal de referência para Arouca e para os Arouquenses. A prioridade das prioridades, para Arouca, em termos de acessos, é a conclusão da variante à EN326, que vai tornar, muito mais rápido, directo e funcional, o acesso e a mobilidade de pessoas, bens e serviços ao concelho de Arouca, a partir do litoral da AMP, via aérea (Aeroporto Francisco Sá Carneiro e Aeródromo Municipal da Maia), via ferroviária (Estação Ferroviária de Porto-Campanhã), via marítima (Porto de Leixões e Marina 'Porto-Atlântico') e via fluvial (Marina 'Douro-Marina' e Marina do Freixo), bem como a mobilidade inversa a partir de Arouca. No futuro, com a conclusão da variante à EN326, a deslocação, de automóvel, pela A32, entre o Porto e a vila de Arouca, sede do concelho, demorará cerca de 35 a 40 minutos.
19 de novembro de 2018
Ternura dos 40
Ontem fiz 40 anos.
Meio caminho de uma vida entre aqui e aí.
Metade para trás e outra metade para a frente.
" Foram tantas as idades
Da vida que atrás deixei
Não quero sentir saudades
Vou em outras amizades
Amar o que [ainda] amei "
Retrospectivamente, passei por vários estados na minha relação com Arouca, mas sempre mantive o mesmo fio condutor: o orgulho das minhas raízes e o desejo de transmitir este amor por este cantinho de Portugal. Do perímetro limitado do quintal dos meus avós, caminho na vida fazendo, alarguei o meu perímetro de descobertas e tenho mantido constantemente o mesmo olhar espantado para todos esses elementos que tornam Arouca um bem comum mesmo à parte. Falo de um património e de uma história que forjam sua grandeza mas também, e especialmente, homens que por seu apego indefectível a sublimam. A riqueza de Arouca é isso mesmo.
Como já o mencionei num artigo anterior, não foi sempre fácil fazer entender toda a beleza e poder da alma do MEU Arouca. Foi difícil anos após anos justificar isso. Hoje é quase fácil demais. Não vou listar os artigos publicados aqui e ali e os inúmeros prémios recebidos. Durante anos, os meus primeiros 30, tantas vezes os procurei. Porém, «Foram tantas as idades / Da vida que atrás deixei».
Estes últimos 10 anos têm sido fortes em razões de orgulho (Geopark, FC Arouca e companhia), que me permitiram justificar FACTUALMENTE o carácter excepcional de Arouca e dos arouquenses. Para meu aniversário dos 40 anos, Arouca foi nomeado "município do ano". Belo presente de aniversário. Mais água para accionar o meu moinho de embaixador de Arouca...
"Não quero sentir saudades
Vou em outras amizades
Amar o que [ainda] amei"
Estou hoje no meio do vau. Que venham mais razões para me orgulhar. Que possa descobrir e redescobrir Arouca para «Amar o que [ainda] não amei»
Até breve neste meu Arouca do relembrar e da saudade!
O Sobreiro
Morreu o Sobreiro do Calvário e, por isso, cortaram-no!!!
Morreu?!... Mas quando é que se morre? Na minha perspectiva, no meu sentir, morre-se quando as pessoas ou as "coisas" não ficam dentro de nós, não ficam no nosso coração, não ficam na nossa memória. Por isso, eu tenho a certeza que ainda levará muitos anos até que o Sobreiro morra. Ele atravessou gerações, ele "conheceu" muita gente, ele foi abrigo para namorados, ele foi confidente de alegrias, tristezas, planos, revoltas...
Subir a escadaria do Calvário ou atravessar a "montanha de granito" e sentar-se debaixo da cúpula do Sobreiro ficando a olhar a Serra da Freita, o Convento, a Vila e muito do verde que o Vale de Arouca oferece, ou então, sentar-se debaixo dele à noite, no escuro da sua sombra, e procurar, no Céu, a Ursula Maior, a Menor, a Orion e a Estrela Polar foi um privilégio de alguns. Tenho a certeza que não foi privilégio de todos! E para quem teve esse privilégio, O SOBREIRO DO CALVÁRIO AINDA NÃO MORREU.
Naturalmente, digo eu, terá morrido para quem o conheceu menos, para quem não usufruiu do bem estar que ele oferecia, para quem não lhe confidenciou nenhum segredo; terá morrido para os turistas que visitam o Calvário e para os quais o Sobreiro era apenas uma árvore grande e velha; terá morrido para muitos daqueles que, no dia da Procissão dos Fogaréus, se sentavam debaixo dele enquanto o padre fazia a pregação... porém, tal como já disse, o Sobreiro ainda vai atravessar a minha geração, a que vem atrás de mim e a que vem atrás desta.
O Calvário está mais pobre, porque o Sobreiro secou, desapareceu. O Calvário perdeu parte da sua beleza, porque o verde do Sobreiro que fazia harmonia perfeita com o cinzento do granito, também desapareceu. Para mim, no entanto, sempre que vá ao Calvário hei-de lá ver o Sobreiro com as suas folhas verdes a (re)nascer, como acontecia todas as primaveras.
Maria
Arouca - Porto - Norte / Norte - Porto - Arouca
A identidade de um território apura-se a partir dos seus elementos
físicos, naturais, humanos e sociais, bem como na interacção dinâmica que
ocorre entre esses elementos. Ao considerarmos o território de Arouca e os
elementos da sua identidade autóctone, conclui-se, facilmente, que Arouca está
bem enquadrada em quase todas as suas divisões territoriais, menos numa: o
distrito de Aveiro. Infelizmente.
Arouca devia pertencer ao distrito do Porto. Desde
o início da nacionalidade de Portugal, Arouca pertenceu, com todo o acerto, à Região do
Entre-Douro-e-Minho e à Região Norte, que tinham, como cidade
principal, a cidade do Porto. Também pertenceu à província do Douro Litoral,
que talvez seja a divisão territorial mais adequada para o território mais
vasto onde Arouca se insere e que constitui quase a totalidade do distrito do
Porto, que tinha, como cidade principal, a cidade do Porto. Mas, por paradoxo,
desde 1835, Arouca foi inserida, de modo errado, no distrito de Aveiro, à
semelhança daquilo que aconteceu com outros municípios que nada têm que ver com
Aveiro, como Santa Maria da Feira ou Espinho, para darmos mais dois exemplos!...
Esta é, de facto, uma grave lacuna, em termos administrativos, do concelho de
Arouca, já que o espaço urbano principal de referência de Arouca e dos Arouquenses sempre foi a cidade do Porto/Grande Porto, não apenas pelo facto de
estar próximo, mas pelo facto do território identitário de Arouca se inserir
nas divisões territoriais identitárias mais vastas protagonizadas pelo Porto e
pela Região Norte.
![]() |
| Área da província do Douro Litoral |
Assim, Arouca, de facto, nada tem que ver, nada mesmo tem que ver, com Aveiro. Nada. Por essa razão, Arouca pertence à Região Norte, enquanto Aveiro pertence à Região Centro. Por essa razão, Arouca pertence à Área Metropolitana do Porto, enquanto que Aveiro pertence à Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro. Por essa razão, Arouca pertenceu à província do Douro Litoral, enquanto que Aveiro pertenceu à província da Beira Litoral. Por essa razão, Arouca pertenceu ao Entre-Douro-e-Minho, enquanto que Aveiro pertenceu à Beira, no contexto da primeira divisão territorial do Estado português.
Numa altura em que Arouca vence a distinção nacional de ‘Município do Ano 2018’, bem como, pela segunda vez, vence na categoria regional da Área Metropolitana do Porto (área metropolitana que tem, como vice-presidente da direcção do Conselho Metropolitano, a actual presidente da câmara municipal de Arouca), é necessário que todos os Arouquenses, bem como as várias instituições públicas e privadas do concelho de Arouca, congreguem esforços permanentes para reforçar, cada vez mais, de modo adequado, em termos administrativos e identitários, esse «espaço natural de sempre de Arouca e dos Arouquenses», com o vínculo e o reforço das instituições de Arouca às instituições de âmbito mais geral protagonizadas pelo Porto e pela Região Norte. A Área Metropolitana do Porto é a principal porta de entrada, via terrestre, via ferroviária, via aérea, via marítima e via fluvial, de acesso ao concelho de Arouca, que se localiza em plena Bacia Hidrográfica do rio Douro. Esse enquadramento deve ser muito vincado, para que, quer os residentes quer as pessoas exógenas, fiquem bem conscientes da identidade territorial de sempre do concelho de Arouca, cujo território mais vasto é, como sempre foi, protagonizado pelo Porto e pela Região Norte.
Os bons elementos de uma identidade autóctone, como bem sabem os economistas e os sociólogos, são um meio poderoso de valorização económica de um território que, por sua vez, contribui para aumentar o bem-estar dos cidadãos residentes.
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