13 de novembro de 2018

A Pensar Alto... Nando.


Manoel  Fernando  Cabral  Teixeira, nasceu no Brasil, viveu a meninice e juventude em Mansores terra dos pais e avós, a partir daí viveu no Porto e lá terminou os seus dias numa madrugada da semana passada com muitas chuvas e silêncios.
A escola, a igreja, os caminhos por entre os campos, da Vila á Estrada, o velho coreto da Vila, os amigos que restam, as paredes da antiga mercearia, a casa da Mó onde viveste com os teus pais e irmãos, e mais sítios e mais pessoas de Mansores, lembram se bem de ti. Lá deixaste a criança e partiste homem feito. Não te vão esquecer.

Tendo uma confirmação do que nos dói, sentimo-nos meio vazios, o nosso organismo quase deixa de respirar mas vivemos na mesma, e os passos que damos passam a não orientar bem as nossas direções, parecendo que passamos a seguir sem destino. Quase sem dar por isso e entregue a este estado, abriu- se-me  na frente a praça da aldeia com o vazio do costume. Sentei-me  no primeiro banco que veio ao meu encontro, nem reparei que era o mais gasto, o único em que as únicas cores das madeiras puídas eram as raras risadas de alguma criança que por lá se sentara tempos antes, e  aparentemente sozinho, deixei os olhos escorregar em toda a volta e senti-me mais uma vez vazio de ideias, só os pensamentos ao meu lado. E soube naquele momento que os pensamentos, pelo menos os mais tristes, podem ser ruidosos, e quebram os silêncios que se escondem ao vê-los chegar. Estava triste, num sitio triste e até o fim de tarde que se aproximava, a luz era já mais próxima da sombra, era triste. Nunca entendemos a morte de quem gostamos. A escolha parece-nos desonesta e imerecida, mas nada adianta, resta-nos o abraço dos que como nós sentem a mesma ingratidão de quem fez tal escolha. Neste passo, recordamos tudo, mesmo tudo, e não foram só conversas, não foram só risadas, não foram só lágrimas partilhadas de alegria ou tristeza, foram pedaços de vida que nunca mais se irão repetir. E o muito que ficou por dizer não é bem um arrependimento, é mais uma esperança que a história nunca mais se repita. Sabes que gostávamos de ti. Eras meu primo, e os primos são assim como uns irmãos afastados. Devia ter-te dito muitas coisas que se vão adiando mas sei que o entendes porque tinhas um coração bonito e tranquilo e entendias bem os silêncios, os olhares e as pausas no meio das gargalhadas que demos nos últimos tempos. Sabes que gostávamos de ti. Alegramo-nos muito com as tuas recordações da meninice que dividimos. Ficamos felizes por teres seguido e feito uma vida repleta da tua velha serenidade. Ficamos felizes por teres uma família linda. Ficamos felizes por muitas coisas porque o merecias. Não devia ter adiado muitos momentos, mas a esperança em que o inevitável passe de largo ajuda-nos a respirar todos os dias. Sei que entendeste e ficaste também feliz. Sabes que gostávamos de ti.
O velho banco passou a ser incómodo, a noite chegou e com ela trouxe gente anónima que por nada saber trazia sorrisos e aguardava por amenas cavaqueiras antes de enfrentar novo dia. É isso, a vida não pára, mais dorida mas não pára. Hoje recebe um abraço mais longo que o normal. A nossa mesa passa a ter menos um lugar. É tudo.

12 de novembro de 2018

Fernando Mendes, Alvarenguense e Músico

Porque o tempo mais frio traz consigo alguma melancolia, e porque tenho conhecimento que está prestes a ser editado um livro sobre a Banda Filarmónica de Alvarenga, da autoria do Prof. Madureira, veio-me à memória um homem alvarenguense que, se fosse vivo, teria 90 anos. Chama-se Fernando Mendes e fruto do seu percurso extraordinário na música, continua a ser recordado no panorama nacional das bandas filarmónicas e homenageado pela Banda Filarmónica de Santa Cruz de Alvarenga que faz questão de terminar todas as atuações anuais da festa de S. António, em Alvarenga, com "Alvarenga em marcha", composta por ele, a par com várias outras composições de Fernando Mendes, das quais destaco em particular o "Hino a Alvarenga".

Deixo convosco algumas notas biográficas sobre este homem que se destacou na Música, citando livremente a entrevista que o próprio deu, na altura com 76 anos, disponível em linha e que cito abaixo:

Fernando Mendes nasceu na freguesia de Alvarenga, a 17 de maio de 1928.
É filho de Joaquim Mendes e de Emília Alves Mendes e começou a aprender música porque era necessário formar um grupo de músicos para acompanhar uma missa nova de um padre que se ia ordenar.
Aprendeu solfejo em 1945 com um rapaz de S. Pedro da Cova (Gondomar), a quem chamavam “O Arouca” por trabalhar na extração do volfrâmio em Alvarenga. Quando acabou o Volfrâmio, continuou a estudar de forma autodidata.
Foi “descoberto” por uma senhora da ilustre família Galvão Teles que residia em Lisboa e que estava a passar férias em Alvarenga. Ela tinha o curso de Piano do Conservatório e interessou-se por ele quando o viu dirigir um grupo com obras escritas por ele próprio. Ela pediu-lhe uma partitura sua e levou-a para Lisboa, mostrando-a a um professor de Harmonia do Conservatório Nacional - António Eduardo da Costa Ferreira que lhe dissera que ele teria vocação para a música. A convite dessa senhora, e a expensas da mesma, foi para Lisboa estudar em 1947, matriculou-se no Conservatório e aí fez todas as disciplinas.
Aos 18 anos estudava também solfejo e Harmonia, tendo como professor António Eduardo da Costa Ferreira, muito conhecido do maestro de então da Banda da GNR, Capitão Alves Ribeiro.
Fez carreira na Música: Entrou para a Banda da GNR, inicialmente em Trompa de Harmonia. Concorreu a Cabo em Trompa. Passou para 2º Sargento em Tuba, depois para 1º Sargento em Contrabaixo de Cordas em 1965. Em 1958 já havia entrado para a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, como reforço, até ao ano de 1966. Nesse ano concorreu para o quadro da Orquestra, cumulativamente com a Banda da GNR, tendo ficado na Orquestra até à sua extinção em 1988.


11 de novembro de 2018

Ricos e pobres

(Capela da Senhora da Mó. Foto tirada a 13-10-2018)

   Faz hoje três anos, a 11 de novembro de 2015 participei numa sessão promovida pelo projeto Ler Todos++ dinamizado pela Escola Secundária de Arouca. A iniciativa, em registo de tertúlia, denominou-se “Por entre livros, castanhas e Pão-de-Ló” e a sua memória está registada aqui.
   Vem isto a respeito de uma sugestão que apresentei na ocasião e que volto a colocar sobre a mesa.
   Em 1965 Miguel Torga visitou Arouca e subiu ao monte da Senhora da Mó, onde registou no seu diário: “Arouca, Senhora da Mó, 23 de agosto de 1965. / Também no reino de Deus há ricos e pobres. Os que vivem nas sedes do poder, e os que vegetam nas sucursais. Lá em baixo, no convento, a segurança, a opulência, o convívio; aqui, nesta pequena ermida, a incerteza, a miséria, a solidão. Mas são os divinos desafortunados que eu admiro. Negam na própria desgraça a graça sobrenatural, e proclamam de cada píncaro a extensão maravilhosa do natural.” (Miguel Torga – “Diário X”. [1ª ed.]. Coimbra: [ed. autor], 1968, p. 60).
   O registo é uma crítica social através de uma sucessão de metáforas e comparações. Permite muitas leituras. Não o vejo como uma simples e datada crítica à Igreja Católica do seu tempo. No meu entender, este texto transmite, entre outras mensagens, uma experiência existencial, um certo pessimismo e descrédito na humanidade. Um pessimismo que é normal que nos tome quando nos percebemos membros desta humanidade desumana, que é capaz de investimentos astronómicos para colocar sondas em planetas distantes ao tempo que abandona o próximo à fome. Um pessimismo contrabalançado, porém, com o otimismo que advém de se ver além da mesquinhez humana. Torga viu-o do monte da Senhora da Mó.
   Pois bem, a minha sugestão foi e é a seguinte: instalar-se no monte da Senhora da Mó uma placa com este registo do diário de Miguel Torga aí gravado. Colocá-la num local do qual se possa ver aquilo que Torga viu: o mosteiro, a ermida e os píncaros das montanhas. Se alguém dos “que vivem nas sedes do poder”, e com poder-vontade para tal, quiser, agarre a sugestão e ordene a obra. Se não, deixe estar.

10 de novembro de 2018

O Emprego em Arouca

No Entre Douro e Vouga (EDV), em 2001, Arouca era o concelho que apresentava a maior taxa de desemprego, com 6,9%, enquanto a média do EDV era de 4,6%.

Após 10 anos, em 2011, o cenário era diferente. O município de Arouca era, a par com o de Vale de Cambra, o que apresentava a menor taxa de desemprego (8,1%), no contexto do EDV, onde a média dos cinco municípios era de 12,0%. Este valor, que numa leitura imediata parece óptimo, quando comparado com a restante região e país, se tivermos em linha de conta o facto do concelho ter vindo a perder população e a não conseguir ainda fixar muitos dos seus jovens ou a captar população para aqui residir ameniza um pouco estes números.

Outro dado interessante a ser analisado, tendo em linha de conta os três sectores económicos (primário, secundário e terciário), é o que nos mostra que Arouca era, no contexto do EDV, o concelho que, em 2011, tinha o valor de ordenado mais baixo - 788,20€ (ilíquido). Vale de Cambra era o município com o ganho médio mensal mais elevado - 1038,10€, o que não será alheio a ser um município altamente industrializado e com trabalho especializado. Esta situação não deixa de ser um contrassenso para os nossos vizinhos, pois apesar de terem o ganho médio mensal mais elevado continuam sem conseguir fixar população.

Estes e outros dados datam de 2011. Seria muito interessante e importante ter dados mais recentes e actuais para que possamos aferir de forma mais correcta o impacto que os últimos anos de ouro do sector do turismo, bem como o desenvolvimento das zonas industriais e suas indústrias têm e tiveram nestes números e na qualidade de vida dos Arouquenses.

Quantos serão os Arouquenses que cá vivem e saem todos os dias para trabalhar fora do concelho e quantos serão os que de fora do concelho para cá se deslocam todos os dias para trabalhar?

9 de novembro de 2018

Dos equívocos entre o Marialva e a Agualva.

Alegoria da Água e da Terra
Quem percorre a parte antiga da vila, até ao canto onde outrora a Lavandeira e a Gualva se punham à conversa de pés postos na água, depara-se com uma moça, herdeira daquela segunda, estendida sobre um velho senhor. Quem os conhece bem, sabe que a jovem Agualva faz tempo aí se deita sobre o velho Marialva, cobrindo-o de jusante para montante, onde lhe afaga a garganta e lhe sossega a impetuosidade que outrora o fazia desabrir-se e cavalgar vila abaixo, levando tudo à frente... como sucedeu em 29 e 34 do século passado.

A impetuosidade de 1929 foi tal que deslocou pedras e poldras, danificou e derrubou pontes e amolgou gradeamentos. Em 1934 o desarranjo não foi tamanho, mas levou a que fossem adoptadas medidas com vista a pôr cobro aos ímpetos que ao mais precipitado acicate lhe faziam rasgar as vestes e de manso o transformavam em destruidor, amedrontando até os parentes Gondim e Silvares que, timidamente, seguiam no seu encalço, para se juntarem e irmãmente se atirarem para leito comum. Não tardou, ainda vivo, foi aqueloutro amordaçado e enterrado, assim permanecendo desde 30 de Junho de 1949, não se lhe conhecendo até hoje qualquer outra agressão ou ofensa.

Insistentemente, à jovem parece quererem dar o nome do velho e amordaçado senhor, mas, é também a ele que frequentemente dão o nome dela. O caso mais paradigmático é recente: sucedeu entre 2013 e 2017, no âmbito de uma ação de despoluição do velho senhor levada a cabo pela Câmara Municipal. Anunciou-se então a ação a levar a cabo no rio Marialva, mas a prospecção fez-se no rio Agualva. O objetivo era a elaboração de um plano de despoluição do rio Marialva, mas o contrato teve por objeto a despoluição do rio do Agualva.

E assim, como com a facilidade que se lhe trocam os nomes, despercebendo o que ambos são (bem ao jeito do radicalismo inerente à igualdade de género), se dá a perceber que Marialva é a denominação do pequeno rio ou ribeiro que, subterraneamente, atravessa a vila e, Agualva é a designação de uma pequena rua ou ruela que aí se estende sobre parte daquele.

Nenhum pecado ou litígio se oferece por a rua ser Agualva e o rio Marialva, a menos que, bem vista a origem toponímica de um e outro, se aclare incestuosa relação, por descendência direta ou comum, que lhe tenha provocado a hodierna crise de identidade, não se podendo ignorar que ele tem uma denominação um tanto ou quanto afeminada, que dita sem artigo facilmente se lhe consegue dizer o género. 

Pode, com efeito, bem lidos os papéis velhos, ser mais adequado defender que ela, apesar de alva como ele, não lhe é mais do que mero reflexo. E que, assim, faz muita diferença perceber que há uma recorrente e incompreensível insistência em adequar a rua ao rio, e não à sua água límpida - talvez porque o tenha deixado de ser - fazendo com que «da» Agualva, como se disse, pelo menos de 1614 a 1974, passasse a «do» Agualva, como expressa a placa aí hoje pregada e; por isso, tal como com ele, também alguns equívocos com ela.

Tudo visto, ainda que à laia de romance, importante é que, por fim, se tratem ambos com a decência que em resultado seja devida a cada um.

6 de novembro de 2018

A Pensar Alto...

História que pode ser verdade...Terras mágicas.

“Aqui por Leirosa encontrei finalmente o que sempre procurei, gente boa, terra boa, um ar tão limpo que até me lavou os desgostos. Não tenho nada mas sou feliz com isto”.
Via o chegar sempre aos domingos à tardinha. Muito devagarinho abria o portão com aquela  intimidade de quem conhece os sítios, e sem ruído, sem olhar, parecia que os seus passos só conheciam aquele banco de pedra debaixo da enorme japoneira. Sentava se, e afastava com aquelas mãos pequenas e sujas com o pó de muitas canseiras, aquele tapete de flores que a árvore, como se adivinhasse a sua chegada sempre espalhava naquele dia. Tinha mais uma vez à sua espera aquele enorme tapete de cores avermelhadas. Remexia o velho e sujo saco que lhe servia de companhia e mala de viagem, às vezes encontrava o que procurava, outras vezes nem sei, e lá ficava a aguardar que a noite não faltasse àquele encontro que marcara há muito tempo atrás e se transformara numa rotina permanente. De domingo à noite até segunda de tarde a sua casa, o seu conforto, a sua família eram aquelas coisas que o rodeavam e nunca o tinham abandonado, substituindo sei  lá amigos de que já não se lembrava. Ah, esquecia me, preparava o banco de pedra com uma manta decorada com enormes buracos e colocava-se sempre de maneira que pudesse ficar a ver o pequeno vale de Lourosa de Campos, mas ao mesmo tempo, o brilho das muitas estrelas que mal vinha a noite, por lá passavam num desfile de brilhos e segredos que talvez só ele conseguia descobrir. Na manhã seguinte por muito cedo que fosse estava sempre sentado no banco a olhar na mesma direção como se não conseguisse soltar o olhar do que tanto o encantava. Tinha uns olhos muito pequeninos ou fazia por nunca os abrir na totalidade, via no entanto os dias e noites partir sempre com a mesma expressão de quem é feliz. Qualquer comida ou bebida  lhe abraçava os pensamentos e dava forças para repetir as visitas, sem incómodos, sem conversas, sem explicações. Diziam por lá os mais antigos que tinha sido um desgosto de amor a causa de tal modo de vida. Que mais poderia ser penso eu agora, foi de certeza. “Que veio de longe, subiu e desceu montes e mais montes, pensou na morte, pensou em como tudo poderia ter sido diferente, envelheceu com os pensamentos de sempre, e finalmente aqui na nossa Arouca, num lugarzito ali deitado na encosta, encontrou o que sonhou e não pensava já possível”, diziam também. As únicas palavras que lhe arranquei e ouvi com a curiosidade de quem descobriu um tesouro foram aquelas com que iniciei este pequeno texto. Se já amava estes lugares, como pude não o fazer com muito mais força? É possível acreditar que há lugares mágicos que até fazem esquecer um desgosto de amor. Ficou a lembrança mas um enorme vazio, nunca mais o vi por aqueles lados. A velha árvore continua lá, sempre fiel e atenta como se soubesse que ele não deve regressar  mais. Abraço.

5 de novembro de 2018

Desenterrar os mortos. Parte 2 de 2



   Nascemos, crescemos, vivemos, morremos. Somos esquecidos. Por vezes somos lembrados. Permitam-me que evoque o Pe. Manuel António Fernandes (1881-1968), pároco que serviu em Mansores por 60 anos e foi um autêntico exemplo do “cura de aldeia” de outros tempos.
   Manuel António Fernandes nasceu a 7 de abril de 1881 no lugar de Merlães, freguesia de Cepelos, concelho de Cambra. Filho de Manuel Fernandes e de Maria Custódia de Pinho, lavradores. Aos 16 anos entrou para o seminário na diocese do Porto, onde prosseguiu estudos e foi ordenado presbítero a 31 de julho de 1904, às mãos de D. António Barroso, o reconhecido bispo-missionário.
   Foi pároco em Mansores desde 9 de fevereiro de 1905 até meados de outubro de 1965, quando faltava praticamente um mês para o encerramento do segundo Concílio do Vaticano. Assumiu o ofício de pároco em Mansores com 23 anos e transmitiu-o com 84. Foram 60 anos completos e ininterruptos ao serviço da freguesia. É obra e não é comum. Quantas centenas de fiéis, quantas gerações de paroquianos batizou, levou à comunhão, casou, sepultou?
   Nos primeiros cinco anos e meio de pároco acumulou a função de Presidente da Junta, como era de lei. Poucos meses após ter assumido a presidência da Junta conseguia esta receber do Estado aquela que foi a sua primeira “casa das sessões”. Até então a Junta não tinha uma sede própria e permanente.
   Durante o período conturbado da Primeira República, sendo ainda jovem, resistiu com firmeza a diversas ameaças e ataques lançados sobre si; há registos de ter explodido uma bomba à porta da sua residência, onde, noutra ocasião, foi deixado um alguidar e uma faca, em ameaça de morte. Há memória de ter sido perseguido, tendo de se refugiar na torre da igreja. Também nesse período rejeitou a proposta de “pensão eclesiástica” oferecida pelo governo republicano e foi um acérrimo opositor à venda do Passal e da Residência.
   Embora não assinando, subentende-se que foi o correspondente em Mansores da Defesa de Arouca nos primeiros anos deste periódico. Cá estamos nós a tropeçar de novo na Defesa de Arouca.
   Faleceu a 24 de novembro de 1968 na Residência paroquial de Mansores, casa onde viveu 63 anos. Foi o último habitante dessa secular residência, destruída em 1999 para no local se edificar o chamado salão paroquial. Se da residência, demolida há quase duas décadas, já é vaga a memória, quanto mais do seu derradeiro habitante, desaparecido de entre nós faz 50 anos no próximo dia 24.
   Viveu para a comunidade e morreu pobre. Deixou aos seus o que os seus lhe deixaram. Deixou rastos documentais, deixou muitas memórias. Memórias que urge avivar, registar, antes que se extingam definitivamente.

3 de novembro de 2018

Rosas, muitas rosas para todos!

Confesso... não sou muito dada a efemérides e não fora a imprensa e alguma rede social e, para mim, passariam despercebidas algumas datas e lembranças que (a todos) ligam a memórias mais ou menos doces e amargas.

Há poucos dias terminou Outubro!

Um mês de múltiplas e pessoais interpretações. Um tempo de outono que trouxe o frio e o sempre confortável desejo de aconchego à lareira. Mas Outubro, de há uns tempos para cá, não só é prenúncio de Outono como também  se coloriu de Rosa e assim se foi multiplicando a imagem, sempre ternurenta, de um OUTUBRO ROSA!

Um dia destes, no supermercado, um rosto olhou-me e sorriu! Olhei-a e notei o lenço que lhe envolvia a cabeça e adivinhei a luta daquela pessoa face ao imprevisto, indesejável e, dizemos nós...(in)dispensável grito de sobrevivência!

Não sei o nome desta MULHER....sei apenas que é mais uma a dizer eu não desisto, eu sei e quero e vou lutar por mim e por todos!
Sim, que o cancro e a luta a ele associada não tem género, credo, idade, raça, nem sequer tempo de preparação para uma luta cada vez mais, (e as descobertas científicas trazem-nos esse conforto), envolvida de esperança esperançada.

A este propósito, ou mais exactamente por causa disto, há já alguns anos (ainda poucos, eu sei) a ADOA (Associação de Doentes Oncológicos de Arouca) constituiu-se como grupo de pessoas que colocou de lado as suas particularidades dolorosas e as suas subjectividades familiares e partilhou formas de reinventar a vida, modos de olhar o futuro que sempre será de horizontes de esperança.

Tenho estado atenta às suas iniciativas, tenho acompanhado o enorme esforço que fazem para, num verdadeiro gesto de altruísmo, compartilharem o seu sorriso de firmeza, determinação e abertura ao OUTRO o que muito nos enobrece como pessoas.

Como mãe e filha que quem já partiu com o mesmo nome de doença...como Mulher que já teve de viver de forma muito intensa o sabor amargo da SAUDADE, tiro o meu chapéu a estes seres maravilhosos que transformaram frases ditas num espaço branco de um qualquer hospital em oportunidades de vida que a todos nós nos admiram, surpreendem e envolvem.


Um dia destes vou ao espaço da ADOA para passar uma tarde a rir,  sem preconceitos ou tabus, focada, apenas, no lado solar da vida!

Quero rever o sorriso doce da Lídia, a serenidade do olhar da Alexandra ou mesmo a atitude divertida de todas elas do qual ainda não sei o nome mas cuja existência me deslumbra!

Um dia destes vou tornar-me sócia desta associação que, em boa hora, surgiu no nosso concelho para nos fazer lembrar que a vida é tarefa conjunta e que estar acompanhada nos fortalece e empurra para a vida que tem e deve sempre ser vivida com DIGNIDADE.

Querem fazer o favor de me acompanhar?

2 de novembro de 2018

Sobre cemitérios, essa nossa última morada.

Não sendo uma realidade de que se fale muito, os cemitérios (e, mais recentemente, também as casas ou capelas mortuárias) - que em Arouca têm um asseio assinalável - são das mais importantes obras levadas a cabo pela câmara, respectivas juntas e paróquias. E, para além de serem os locais onde acaba a história terrena de cada um e onde, por cada um, nos deslocamos frequentemente, os cemitérios também têm a sua própria dimensão histórica e social. Um dimensão que nos diz sobre o passado, presente e, necessariamente, sobre o futuro. Uma dimensão que, no entanto, ainda que se perceba, tem ficado de fora dos estudos e relatórios sociais. Talvez por ser uma realidade de que, até familiarmente (ainda que mal, porque frequentemente eivada de pressas e comoções), só se fala quando tem mesmo que se falar.

Esse também um dos motivos, de resto, para que os cemitérios - terrenos murados, Campos Santos ou Sagrados -, tal como os conhecemos hoje, tenham sido motivo de grande oposição popular, controvérsias, revoltas, tumultos e, por fim, sucessivos e prolongados adiamentos. Com efeito, tendo sido uma das primeiras imposições do liberalismo, logo nos anos trinta do século XIX, a sua implementação arrastou-se até aos finais desse mesmo século e, em alguns casos, até ao século seguinte. 



Como por todo o país, mormente no norte e interior, também foi assim entre nós. A mais do que anunciada, mas depois repentina e abrupta proibição definitiva dos enterramentos no interior das igrejas, originou também por cá inúmeros e inquietantes episódios de enterramentos às escondidas, nas capelas de instituição particular ou em cemitérios improvisados. O que aconteceu em todas as freguesias até que, finalmente, estivessem prontos os respectivos cemitérios.

Tal como os conhecemos hoje, em Arouca, os cemitérios (mais antigos) não têm mais de cento e quarenta anos. O mais antigo será o de Fermedo, já a funcionar em 1875. Depois terá sido o de Santa Eulália, em Setembro de 1884; a que se seguiu o de Arouca, em Agosto de 1886; o do Burgo, em Maio de 1887; o de Chave, em Janeiro de 1889; o de Moldes, em Abril daquele mesmo ano; o de Rossas, em Fevereiro de 1890; o de Tropeço, em Janeiro de 1891; o de Canelas, em Janeiro de 1897; o de Alvarenga, pouco antes de 1902; o de Mansores, em Junho de 1903; o do Merujal, Urrô, em 1905; o de Urrô, em Agosto de 1906; o de São Miguel do Mato e o de São Martinho da Espiunca, em Junho de 1910; e o de Várzea, em Novembro daquele mesmo ano. Escariz, em 1911, ainda não tinha terreno murado para o efeito.

Em muito menos de cento e quarenta anos, quase todos eles mais do que quadruplicaram a área das respectivas igrejas e adros circundantes, onde até então e durante séculos se inumaram os nossos antepassados. Nos últimos quarenta anos, a grande maioria dos cemitérios sofreu obras de ampliação e, em quase todos eles, se ocupou já mais de metade do novo espaço disponível. Para isso contribuiu, desde então, um aumento significativo da população em todas as freguesias, que, regra geral, tem estado a diminuir nestes últimos anos. Alguns cemitérios estão já sobrelotados e outros para lá caminham, alguns dos quais sem espaço adjacente por onde crescer. O que em todo o caso - exceptuando desejos e vontades próprias, que se devem respeitar - não é um problema muito grave, dado o princípio imposto aos demais cemitérios em se disponibilizarem a receber cadáveres de pessoas de freguesias vizinhas, onde os respectivos já não tenham espaço. No entanto, é um ponto a que não se deve chegar.

Por fim, entre outros aspectos, deve merecer atenção especial por parte das freguesias, que ainda não os possuem, a criação e aprovação de regulamentos de funcionamento e utilização dos cemitérios e casas mortuárias. Pois, pese embora haja suficiente legislação sobre estas matérias; controvérsias, conflitos e até litígios relacionados com a "aquisição" de terreno e jazigos, posse, "propriedade", abandono e extinção de jazigos e sepulturas, não são já caso raro. Situações que, como está bom de ver, assumem também uma dimensão espiritual e emocional, que se pode e deve evitar.

30 de outubro de 2018

A estrada para o Porto.

A Pensar Alto...

Vamos ter finalmente alguns kms. mais de nova estrada que vai cumprir promessas velhas, e aproximar nos do Porto e do litoral. Aos poucos e contrariando a velha tradição de não reclamar porque há outros pior, o poder central  lá vai ouvindo os antigos queixumes e vai daí lá vem mais um bocadinho porque tudo ao mesmo tempo podia levar nos a empanturrar com tantas viagens e tanta rapidez e ser pior a cura que a doença. Estou a levar a promessa a sério e comecei já a despedir me da velhinha estrada e das recordações das muitas voltas que por lá fui dando e que felizmente sempre me devolveram a casa com satisfação. Fiz estas voltas milhares de vezes, é natural que sinta saudades. Repetindo agora aquele chavão que fica bem em qualquer lado... eu sou do tempo, tinha para aí 12,13 anos, em que ir ao Porto ou vir  de lá não era só uma viagem incómoda, lenta e atribulada, era uma espécie de ritual prazeiroso com paragens, intervalos e muitas memórias para ir juntando ao nosso álbum de vida. Antes de sair de casa, a roupa era a domingueira, os sapatos a brilhar, não se podiam fazer má figuras, e discretos e calados sentiam se aqueles momentos antes da partida com um espirito o mais solene possível. Daqui para lá era mais concentração, menos conversa e algum treino de preparação pois íamos ao encontro ou dos médicos especialistas, ou dos professores mais conceituados, ou fazer uma compra que nos fazia rivalizar com o pessoal de Paris ou Nova Iorque ou ver uma coisa qualquer  que se trazia debaixo de olho, ou levar umas lembranças a amigos, sempre com sabor a terra e cheiros de que guardávamos os segredos, tudo tão bom.  Em resumo, íamos quase para um mundo novo, daí a preparação atempada. Já nem me recordo se até metia orações mas se as houve foi para aconchegar melhor aquele nervoso miudinho pois sempre se iam enfrentar caminhos repletos de perigos, e a emoção de novas descobertas. Lá chegados, era despachar rápido, porque no regresso anoitecia cedo fosse verão ou inverno, e ainda tínhamos pela frente  as voltas da Abelheira e os seus perigos que cabiam na imaginação de cada um. Para cá e como sabíamos de cor o que nos esperava, havia uma paragem ali por Grijó, para arrefecer a viatura daquele enorme esforço, pois era sempre a subir desde o rio Douro, metia se gasolina no Silva de Lourosa, na Laurita da Corga escolhia se a regueifa mais brilhante para nos adoçar a chegada, em S. Vicente, tanto para trás como para a frente, em Mansores só um abracinho á família e depois carro desligado até à ponte da Ribeira que a gasolina nunca foi barata e os carros de então permitiam. Por fim sentia se aos poucos a chegada, o meu pai por muito que tentasse eramos sempre apanhados pela noite, umas vezes quase de repente, outras aos bocadinhos, mas dava para chegar quase sem ligar os faróis. E cá estávamos. A nossa terra de novo, a alma começava a inquietar se, agora ainda é igual, os nervos fugiam de vez e era usufruir de tudo que parecia termos abandonado há muito tempo e só horas tinham decorrido, estávamos na nossa terra. Tudo feito com calma. Os dias eram longos e tempo era coisa que por vezes até apetecia vender. Gostava destas viagens. Aos poucos tudo se foi modificando, as distâncias começaram a ser intermináveis, as curvas até pareciam desabrochar a cada passagem, o relógio voava, os carros eram muito mais rápidos mas ficava sempre a sensação que o litoral e o Porto andavam a aproveitar para se distanciarem de nós. E no fundo dessa estrada interminável estavam os locais de estudo, os empregos, as oportunidades, e foram se acumulando os amigos. Agora tanto  tempo depois vamos dar mais um passo, nem grande nem pequeno, mais um. Estou feliz com isso e sei que havemos de conseguir, acabaremos por esquecer a velha estrada e quando circularmos num instante até ao Porto nem tempo teremos para aquelas lembranças que nessa altura até se vão querer esconder envergonhadas. Aproveitei para não as deixar esquecer todas. Esperemos por esses tempos novos. Venha a estrada e tudo de bom que nos trará, já não é sem tempo.

29 de outubro de 2018

Arouca

Arouca, terra dos pais, conheci-te nas minhas várias férias de verão.

Ruas em terra, nas quais adorava brincar descalça, porque não as tinha, onde nasci e cresci.

O teu cheiro era diferente, era pura, "era"? Não! É!

Uma terra que se tornou minha também,

Cá, finalmente, encontrei o meu lugar, de uma tranquilidade eterna

Arouca, por ti me apaixonei, em ti me encontrei.


Ana Almeida
(texto recebido em defesadearoucablog@gmail.com)

Dryocosmus kuriphilus Yasumatsu

A Dryocosmus kuriphilus Yasumatsu é um pequeno insecto que ataca os castanheiros. Ataca os gomos foliculares de crescimento da árvore evitando que este se desenvolva naturalmente e inibindo desta forma a sua frutificação ou levando mesmo à sua morte.
É uma praga com uma disseminação quase mundial e que em Portugal está a atacar e a dizimar milhares de castanheiros e soutos.
O ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas) é a entidade nacional responsável pela coordenação do combate a esta praga que se pode fazer de forma cultural (abatendo as árvores infectadas), biológica (a mais usual e que consiste na libertação de um parasitoide que irá parasitar e destruir o insecto, pese embora os resultados não sejam imediatos) e química (através da aplicação de fitofarmacêuticos).
O concelho de Arouca está, na sua totalidade, identificado como uma zona demarcada para o insecto, o mesmo será dizer que este tem provocado enormíssimos estragos na produção da castanha.


Este fim de semana decorreu o festival da castanha e foi possível, conversando com técnicos, produtores e vendedores de castanhas, verificar que Arouca já no presente ano teve uma quebra muito acentuada na produção deste fruto, podendo a mesma chegar a apenas 2/3 da produção habitual. Por esta mesma razão, a castanha de Arouca foi e será escassa ao longo do presente ano produtivo.
Vêm já sendo implementadas no concelho as medidas de controlo da praga que deverão ser fortalecidas no presente ano.
É importante que a população geral, a autarquia, entidades públicas e privadas, acompanhem a gravidade desta situação, como de outras (ex: vespa asiática) para que Arouca possa continuar a ser também a terra das castanhas... quentes e BOAS.

28 de outubro de 2018

Desenterrar os mortos. Parte 1 de 2

Retrato atribuído a Manuel Baptista Camossa Nunes Saldanha
Fonte: geneall
   Sepultar os mortos é uma obra de misericórdia. Desenterrá-los – no sentido figurado de resgatá-los do esquecimento –  pode sê-lo também. Há múltiplas formas de fazermos memória daqueles que partiram, que nos dizem, e que não queremos que sejam esquecidos. Uma dessas formas passa pela celebração da Solenidade de Todos os Santos e pela comemoração de Todos os Fiéis Defuntos que, embora distintas, não por acaso são sequenciais.
   Em janeiro deste ano passaram 100 anos da morte de um arouquense que, embora tenha tido um percurso político e cívico que faz dele um protagonista, está entre nós, como tantos da mesma estatura, esquecido. Venho simplesmente lembrá-lo. Seu nome: Manuel Baptista Camossa Nunes Saldanha.
   Nasceu em Mansores, na casa da Terça, a 24-06-1834, filho primogénito de José António Nunes Saldanha e de Ana de Oliveira Camossa [Nunes Saldanha]. Formou-se em Leis na Universidade de Coimbra em 1860. Foi: vogal da Junta de Freguesia de Mansores de 1864 a 1866, vereador da Câmara Municipal de Arouca de 1866 a 1870; presidente da Câmara Municipal de Arouca de 1870 a 1885; presidente da Junta de Freguesia de Mansores de 1886 até data que ainda não apurámos; vereador da Câmara Municipal da Feira em 1890 e presidente dessa câmara de 1893 a 1897; administrador do Concelho de Arouca de 1897 a 1902. Foi chefe do Partido Regenerador de Arouca e cofundador do jornal Correio da Feira. Em 1890 o rei D. Carlos criou o título nobiliárquico de Visconde de Albergaria de Souto Redondo a seu favor, tornando-o 1º visconde de Albergaria de Souto Redondo. Casou no Porto em 1871 com Margarida Augusta Pais dos Santos. Teve quatro filhos: Alfredo António Camossa Nunes Saldanha, Maria da Conceição Camossa Nunes Saldanha, Ana Maria Camossa Nunes Saldanha e Augusto Camossa Nunes Saldanha, todos nascidos em Lamas, donde era natural a esposa de Manuel Baptista. Faleceu em Espinho, a 11-01-1918.
   Desde que em 1835 se começaram a eleger as Câmaras por voto, julgo que foi a pessoa que mais tempo exerceu o cargo de presidente da Câmara Municipal de Arouca. Não há uma rua ou travessa em qualquer parte do concelho que tenha o seu nome e assim lhe faça memória. Isto, apesar de ter sido, na prática, o grande promotor da via estruturante de ligação de Arouca ao litoral. Não me refiro à variante à Estrada Nacional 326. Refiro-me “apenas” à Estrada Nacional 326, a histórica ligação entre Arouca e Lourosa. O traçado desta estrada tem o cunho e o interesse de Manuel Baptista Camossa Nunes Saldanha: iniciado em Arouca, a cuja Câmara presidia, atravessa Mansores, sua terra (e, aqui, atravessa o monte do Borralheiro, grande parte do qual lhe pertencia, e passa à porta da casa da Terça, a sua casa), e termina em Lourosa, localidade próxima de Lamas, donde era sua mulher e onde também tinha propriedades. A estrada, creio, previa-se na altura que terminasse o seu traçado em Espinho. Manuel Baptista terminou a sua vida em Espinho. Soube fazê-la.

27 de outubro de 2018

Um roteiro pelos brasões de Arouca

Antes de mais, quando para este efeito me refiro a brasões, reporto-me exclusivamente aos resultantes dos títulos e cartas de brasão d'armas concedidas a pessoas singulares; das quais, na maior parte dos casos, resultaram as denominadas pedras d'armas, de brasão ou, simplesmente, brasões, que vemos ainda hoje nos portais, tectos, fachadas ou cunhais de alguns templos e casas de Arouca. Por isso, a forma como a eles me vou referir (por referência às casas onde estão) não é correta - pois o brasão deve ser sempre reportado ao seu titular e as armas à respetiva família. Porém, o propósito é apenas o de sugerir e facilitar, sem grandes delongas ou apreciações técnicas, um pequeno roteiro de simples observação.

Perspetiva da Casa e Brasão de Eiriz, na freguesia do Burgo

Os brasões mais conhecidos da maior parte dos arouquenses são os existentes no cunhal da Casa do Burgo, no cunhal da Casa dos Malafaias e os que encimam o portal do Terreiro ou a entrada dos Claustros do Mosteiro. É indesmentível que esses brasões, apesar do seu cunho e atributos pessoais e particulares, conferem maior valor aos imóveis em que estão colocados, imprimem maior nobreza ao meio e suscitam a atenção e curiosidade de quem com eles se depara. Não é para menos, pois antevê-se encerrarem muita história para nos contar.

No entanto, nem sempre aqueles brasões que temos como mais importantes ou historicamente relevantes, o são. Os brasões do cunhal da Casa dos Malafaias, na rua Dr. Figueiredo Sobrinho, do cunhal da Casa do Aro, no largo de Santo António, ou o do portal da Quinta da Lameira, na freguesia de Urrô, apesar de ricos do ponto de vista heráldico, são dos mais insignificantes do ponto de vista da importância que os seus respetivos titulares tiveram para a história de Arouca. O que não quer dizer que as Casas em questão e até outros parentes dos nobilitados o não tenham tido também. A dos Malafaias, por exemplo, foi muito importante. 

Desse ponto de vista, da importância para a história de Arouca, e por ordem de antiguidade, podemos reputar como mais significativos os do portal do Terreiro e da entrada dos Claustros, como é óbvio, o do portal da Quinta de São Pedro, o do cunhal da Casa de Eiriz, o da fachada da capela da Casa Nobre de Cela, e o do cunhal da Casa do Burgo. Mais antigos ainda, paredes-meias com o período medieval, são os dos Pintos, na padieira da capela de Santo António, em Santa Eulália, e dos Tavares, na base do cruzeiro à entrada da matriz de Urrô. Este último mais difícil de descortinar...

E ainda o de Dona Melícia de Melo, que estava na padieira do antigo lagar do Mosteiro e está hoje visível, ainda que invertido, numa moradia particular, no centro da vila. Entretanto, também de Dona Melícia de Melo se recolheram recentemente no Mosteiro partes de um outro, que estaria sobre o portal da antiga matriz de São Bartolomeu. Dos recuperados aos perigos de levarem rumo incerto, ficou também o de um comendador de Malta, no adro da matriz de Rossas, que melhor se lê pela comparação com o que fecha o altar-mor da referida igreja.

Houve outros, - pelo menos quatro -, que entretanto tomaram outro paradeiro nos últimos anos. Desses, os mais importantes e mais antigos eram os que se encontravam na fachada da Casa de São Pedro, em frente à capela desse orago, na vila, e a encimar o portal da Casa de Romariz, no Burgo. Os outros dois, eram réplicas do da Casa do Burgo e estavam colocados, por descendentes, na fachada da Casa dos Magalhães, do outro lado da estrada, e na entrada da Quinta do Boco, sobranceira à vila. Esses, ainda os vi e reconheço. Curiosamente, são essas as armas que estão na Casa da Terça, em Mansores, onde seriam esperadas as do Visconde de Albergaria de Souto Redondo. Já sobre o brasão da Casa do Castelo, em Fermedo, apenas obtive noticia.

Foram ainda outorgadas cartas de mercê e brasão d'armas a alguns outros ilustres arouquenses, que, no entanto, não deixaram por cá brasão. Foi o caso de dois capitães de ordenanças da Cavada de Rossas, aos quais foram concedidas duas belíssimas cartas, de que o mais velho fez pedra, mas colocou-a na casa onde foi casar, às portas de Oliveira de Azeméis e, depois, na casa onde foi viver, em Bemposta; o mais novo não foi dessas vaidades ou não encontrou canteiro à altura, apesar do mais belo trabalho que com certeza resultaria (é a primeira leitura/reprodução na imagem abaixo).

Outros ainda, apesar de terem obtido merecimento por cá, como foi o caso de um capitão-mor de Arouca, casado na Casa Nobre de Cela, colocaram a pedra d'armas na casa da sua naturalidade: no caso, em São Pedro do Sul. Assim sucedeu, mas ao contrário, com o brasão do cunhal da Casa dos Malafaias. O titular, descendente e herdeiro dali, mas que raramente por ali estanciou, mandou fazer e enviar para cá o brasão. Em situação semelhante, quanto aos brasões da Quinta da Lameira, mandou o titular para cá cópia da carta para que se replicassem duas pedras na respetiva propriedade.

Reprodução de alguns brasões, através de cartas e pedras existentes
(Ressalve-se que na execução apenas há que cumprir regras heráldicas quanto ao escudo, elmo timbre.
T
udo o mais fica ao livre, mas razoável e adequado, critério do executante)

De tudo, realizei um estudo há já alguns anos, com a necessária tentativa de reprodução manual e devidamente iluminada, com as respetivas cores e metais, das cartas e pedras que existem ou de que obtive noticia, mas o qual, apesar das imensas curiosidades históricas, genealógicas e heráldicas que aborda, seria fastidioso desenvolver aqui. Não queria, no entanto, e a propósito, deixar de sugerir este despercebido roteiro e suscitar maior curiosidade sobre este tema, que também enobrece a nossa terra.

Assim, à laia de rally paper, proponho então o seguinte roteiro de visita às principais pedras de brasão ainda hoje existentes em Arouca: i) brasões do portal do Terreiro e entrada dos Claustros do Mosteiro; ii) brasão do cunhal da Casa dos Malafaias, na rua Dr. Figueiredo Sobrinho; iii) brasão do cunhal da Casa do Aro, no largo de Santo António; iv) brasão do portal da Casa da Quinta de São Pedro, no lugar do mesmo nome; v) brasão do cunhal da Casa do Burgo, na freguesia do mesmo nome; vi) brasão do cunhal da Casa de Eiriz, no lugar do mesmo nome, na freguesia do Burgo; vii) brasão dos Pintos, na capela de Santo António, em Santa Eulália; viii) brasão do portal da Quinta da Lameira, na freguesia de Urrô; ix) brasão de Tavares, no cruzeiro do adro da matriz de Urrô; x) brasão da Casa Nobre de Cela, no lugar do mesmo nome, na freguesia de Urrô; xi) brasões da Igreja Matriz e adro de Rossas e; xii) brasão da fachada da Casa da Terça, na freguesia de Mansores. Bom roteiro!

25 de outubro de 2018

A castanha anima Arouca
















Decorria o ano de 2011 quando três amigos arouquenses se juntaram à Associação da Casa do Povo de Arouca e organizaram, com o apoio da Câmara Municipal de Arouca, o primeiro Festival da Castanha mais precisamente nos dias 11 e 12 de Novembro desse mesmo ano. O nome deste festival surge devido ao facto  de Arouca ser conhecida como a “terra da castanha”. A ideia principal desta primeira edição, era associar a gastronomia tradicional à música e danças tradicionais.
Nestes 8 anos de existência o festival evoluiu de um festival direcionado apenas para a música e danças tradicionais para um festival onde além da música e das danças, se pode apreciar mostras gastronómicas, showcookings e onde há uma serie de atividades associadas à castanha, como concursos, feira de produtos agrícolas, magustos, workshops, teatro, etc...
Quanto à cena musical é de salientar a participação de alguns grupos de música folclórica de algumas associações arouquenses e também alguns grupos, com muita qualidade, ligados á música folk e tradicional que passaram por este festival desde o sua primeira edição, como os Andarilhos, Fonte na Pipa, Retimbrar, Pé na Terra, Sebastião Antunes, Diabo na Cruz, Dazkarieh, Uxukalhus, Celina Piedade.

É já neste fim de semana entre 26 e 28 de Outubro, que se vai sentir pela 8ª vez o cheiro de castanhas assadas nas ruas de Arouca com muita animação.

23 de outubro de 2018

A Serra da Freita em imagens: Pastorícia


Naquele final de tarde regressava a casa já com o equipamento arrumado na mochila. Ao contrário do que se possa pensar, fotografia de paisagem é “melhor” com ”mau” tempo (qualidade fotográfica e más condições climatéricas são sempre subjectivas, daí o abuso nas aspas), mas o céu limpo daquele frio dia de Inverno não trouxe grandes resultados fotográficos.

Avisto um rebanho guiado pelo seu pastor regressando a casa. Encosto o carro, que fica com o motor a trabalhar, tiro da mala apenas a máquina fotográfica e reposiciono-me à espera de uma oportunidade de concretizar uma boa imagem.

Não poderia ter tido mais sorte. O céu que lamentavelmente não inspirou grandes resultados durante o dia, brilhava intensamente à medida que o sol se escondia no horizonte. Perante este cenário, tirei umas duas ou três dezenas de fotografias, todas elas representando silhuetas sobre um céu cor de laranja.

Desta série há três ou quatro imagens das quais gosto bastante, mas escolho partilhar esta que para mim melhor representa como as condições antes “imperfeitas” se alinharam numa representação épica de uma das mais importantes actividades da Serra da Freita.

22 de outubro de 2018

DESEMPREGO

A apresentação do projeto de ligação à A32 foi feita numa empresa de Escariz. Uma entre tantas de sucesso comprovado, com uma atividade baseada na inovação e na exportação, detida e gerida por pessoas com determinação e visão.
Arouca tem várias empresas dessas - e com certeza aparecerão mais - que, mesmo confrontadas com as dificuldades nas vias, nunca baixaram braços e tornaram-se empresas de dimensão e de referência.
Mas o que me faz escrever sobre isso é uma das frases usadas pelo Administrador dessa empresa aquando do discurso de "boas-vindas" à comitiva que acompanhou a cerimónia. No seu discurso, a expressão que passou quase despercebida foi quando o mesmo se referiu a Arouca como um "concelho sem desemprego".
Esta frase vinda de um gestor de uma empresa de dimensão, é importantíssima e valida muito do que várias pessoas trouxeram a público, inclusive empresários que davam conta da dificuldade em recrutar.
Aliás, esse mesmo gestor referiu a importância da obra que agora se inícia como sendo critica para atrair mais mão de obra e mais mão de obra especializada.
E esta marca de um concelho com um tal dinamismo empresarial e de serviços que permite que um gestor se refira a ele como "sem desemprego" é um selo que nos deve orgulhar.

21 de outubro de 2018

O lobo que atravessou a vila de Arouca



   Vi um lobo em Arouca. Um “Canis lupus signatus” autêntico. Vi-o ao vivo, embora estivesse morto. Explico-me. Não recordo a data precisa, mas terá sido nos dois ou três primeiros anos dos 90’s do século passado, era eu aluno da Escola Secundária de Arouca. Certo dia circulou na escola a notícia de que estava um lobo no posto da GNR, então nas traseiras do complexo escolar. Fomos espreitar e lá o vimos. Estendido no chão, jazia morto, esvaziado da dignidade mítica e da ferocidade que nas nossas terras se reconheceu a esta espécie. Recordo os tons da cor do seu pelo, entre o castanho e o bege e, àquela distância, uma certa semelhança com um cão de raça pastor alemão. 
   Que fazia ele ali? A justificação que correu foi que um homem de uma aldeia serrana de Arouca o matara à paulada e, dando-se aras de Hércules lá do sítio, ao tempo que ignorava a lei que punia quem tirasse a vida a estes animais, o amarrara na sua motorizada, vindo depois exibi-lo pelas ruas da Vila. A GNR viu ou foi avisada e o incauto lobicida, o homem que caçou o lobo, foi também ele “caço” ali mesmo. O homem, detido, terá visto a sua vida a andar para trás. O lobo, cadáver, ficou ali a aguardar ser recolhido pelas autoridades a quem competia recolhê-lo.
   Foi o único lobo que vi na vida. Sempre tive um certo fascínio pelo lobo ibérico, creio que à custa de ter crescido a ouvir lendas e memórias sobre lobos, nalguns casos sem perceber onde é que nessas lendas e memórias começava a realidade e acabava a ficção. Como sucede com a explicação etiológica para a Cruz de Santas Cristinas, em Escariz. A cruz lá está; o lobo, terá existido?
   Ignoro se nos tempos que correm passam lobos por Arouca. Mas, anima-me uma informação que acabo de descobrir no website Arouca Geopark a respeito desta espécie de canídeos. Transcrevo: “Onde encontrar no Arouca Geopark: Serra da Arada e Serra da Freita.” Este “onde encontrar”, assim, sem reservas e no infinitivo, reforçado pela credibilidade da fonte, dá a entender que por ali se “encontram” lobos. Alguém que partilhe fotos dos que for encontrando.

O Parque

A Pensar Alto...

Sem grande pompa, tão discretamente que até é de desconfiar, apesar de não estar ainda finalizado abriu-se à população o novo parque de Vila Nova ali no centro do nosso vale, um pé no Burgo, outro na Vila. E tem sido um sucesso. Arouca tinha já alguns parques e de uma maneira ou outra todos tinham uma função que os distinguia e melhorava a qualidade de vida dos de cá e de quem nos visita. Para se fazer um saboroso pic nic, para jogar aquelas cartas que preenchem os dias mais vazios, para dar duas de conversa com amigos de longa data ou daqueles que um acaso juntou por instantes, para estarmos à sombra sós e tranquilos, para levar mos as crianças às distrações e dar mos conta de como estão tão grandes, para ver mos e ouvir mos um concerto nas Colheitas, para ensinar mos porque aqueles peixinhos tão coloridos escolheram fazer companhia à rainha Santa e não andam perdidos por qualquer rio ou mar, ou para passar e passear tranquilamente por baixo das árvores, ver cair as folhas, e entender que se pode namorar mesmo nos dias de chuva, Já tínhamos isto e mais pois todos os nossos parques gostam de partilhar as razões da sua criação. Mas o novo, que parecia mais um, começou a nascer e a espalhar se ali aos pés de Vilanova e agora que está quase concluído, melhorou já imenso a vida de muita gente, do vale à encosta. Nunca como nos dias de hoje se precisaram tanto de locais amplos, que nos permitam correr, caminhar, brincar, conviver, ver as crianças, e muito mais, sempre em segurança, sem sobressaltos, com pequenos riscos que não façam diminuir o prazer destas e outras atividades. E estes primeiros dias do novo Parque de Vila Nova, comprovam no. Anda pelo ar uma vontade transpirante como nunca tinha visto, pessoas de todas as idades praticam a atividade física que mais os entusiasma e cansam se muito menos, o tempo parece mais comprido, o transporte ali ao lado é um pulinho para casa, a nossa qualidade de vida melhorou muito quase sem dar por isso. E além do mais já está bonito apesar de começar agora uma longa vida, e isso é também fator de agrado. Até o pequeno ribeiro de Gondim que o atravessa, vê com espanto e gargalhadas tanto movimento e esforços, ele que bastam umas chuvadas para ficar forte e em forma, e que tem que correr sempre apressado pois tem ali pertinho das Eiras o rio Arda que lhe vai fazer companhia por muitas distâncias lado a lado, até aonde os mares começam. A Dra. Margarida Belém que encontrei por lá mais que uma vez a acompanhar as obras, deve estar satisfeita. No seu primeiro ano de mandato foi também esta uma obra que vai ficar a atestar que viver em Arouca vai continuar a ser bom e cada vez melhor. Esperemos por mais.
Carlos S. Sousa