19 de outubro de 2018

Sobre atribuições toponímicas e numerações de polícia que tardam.

Quase a abeirar-se o fim da segunda década deste século, muitas das nossas estradas, avenidas, ruas, caminhos, largos e calçadas, entre outras vias e vielas, locais e sítios, permanecem sem atribuição toponímica e, por falta desta, também os prédios (urbanos) sem numeração de polícia, ou seja: ruas sem nome e edifícios sem números de porta. Há ainda lugares densamente povoados e freguesias inteiras assim. Onde o "carteiro novo" não encontra quem quer que seja sem bater a três ou quatro portas, apregoar no meio do lugar e, quantas vezes, por fim, deixar a carta ou encomenda na caixa que melhor lhe parecer. Valham-nos as boas relações de vizinhança, quando são boas...

Não é uma falha do “carteiro novo” ou dos vizinhos. É uma falha das autarquias, câmara e freguesias, e um problema para todos e cada um de nós. E não é apenas uma questão de distribuição postal, apesar do problema tender a agudizar-se nestes novos tempos, da contratação e compra de bens e serviços online ou à distância. Com efeito, nunca foram nem são agora apenas o carteiro e o transportador que nos procuram em casa, na nossa morada, residência, domicílio fiscal ou profissional. Nem são apenas esses que, por questões de comodidade e segurança, queremos que nelas nos encontrem.


Em causa está, tão simplesmente, estabelecer os mais básicos elementos de localização, orientação e de identificação no território, contribuindo, assim, para a organização e orientação dos serviços e pessoas no espaço. E, claro está, contribuir para evitar o mais variado tipo de dificuldades, incómodos e inconveniências. Sendo certo que esta situação não pode ser já, nestes nossos dias, um incómodo, prejuízo ou insegurança para nós e, principalmente, para aqueles que quisermos ou nos interesse que saibam o nome da nossa rua e o número da nossa porta.

Há cerca de ano e meio, as freguesias de Arouca e Burgo, no que a esta diz respeito, Albergaria da Serra e Cabreiros, Canelas e Espiunca, Covelo de Paivó e Janarde, Rossas, São Miguel do Mato, Urrô, e Várzea, teriam já dado inicio aos respectivos processos de atribuição toponímica. No entanto, a menos que os dados que se encontram no site da Câmara Municipal estejam desactualizados, a esta data, só há toponímia atribuída e homologada nas ruas da vila, nas freguesias de Mansores, Chave, Escariz e na zona ocidental da freguesia de Fermêdo. Casos como os dos nomes das ruas do lugar de Souto Redondo, na freguesia de Urrô, atribuídos há já muitos anos pelos moradores – justamente para pôr cobro aos mais diversos incómodos e dificuldades -, também não se encontram ainda homologados.

É, pois, muito importante retomar e/ou concluir aqueles processos, dado estar em causa muito mais do que uma mera facilidade à distribuição postal. É até mesmo, como já aludi, uma questão de segurança, para pessoas em situação de perigo ou urgência, neste nosso tempo de, apesar de tudo, também algum isolamento e indiferença.

Para além do que se acaba de referir, e de permitir a categorização das vias ou lugares, a atribuição toponímica é também uma forma excelente de homenagear os maiores e benfeitores de cada freguesia, evocar denominações, acontecimentos e efemérides com relevância local, municipal ou mesmo nacional, ou ainda perpetuar designações ancestrais dos sítios ou lugares, entre outras atribuições com dignidade e merecimento toponímico. O que vale por dizer, não dever ser este um exercício de algibeira - como aqueles que atribuem por nomes “Rua da Estrada”, “Rua Direita” ou “Rua do Caminho de Terra” -, mas sim um rigoroso e criterioso trabalho de identificação e correspondência com os elementos e aspectos naturais, patrimoniais, históricos e sociológicos de cada lugar e cada freguesia. Algo que possa dizer, a nós e aos vindouros, do nosso torrão natal e dos nossos maiores.

17 de outubro de 2018

Pobreza em Arouca - Sim ou Não?

Porque hoje, 17 de outubro, se assinala o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, comemorada oficialmente pela primeira vez em 1992, com o objetivo de alertar a população para a necessidade de defender um direito básico do ser humano, urge refletir sobre o tema.
A erradicação da pobreza continua, nos dias de hoje e apesar de estarmos num século de modernidade e de tecnologia, a ser prioridade mundial. Parece que a pobreza da maioria da população mundial é o reverso da medalha da progressão tecnológica e económica das potências dominantes e talvez por isso é a primeira prioridade da Agenda 2030, proclamada pelas Nações Unidas.
Para que a pobreza deixe efetivamente de existir, todos os estados, países, regiões e localidades devem contribuir com boas práticas.
Arouca, através das políticas locais, de associações humanitárias como as IPSS e da sociedade civil, tem trabalhado em prol do desenvolvimento social e económico da sua população. Isso é incontestável. Veja-se a valorização do património como recurso económico, a criação de projetos que alargam cuidados de saúde primários à população (como a oferta de dentista no Centro de Saúde de Arouca), projetos que tendem a valorizar a agricultura sustentável, entre vários outros.
Mas será suficiente? Sem querer desvalorizar o que tem sido feito, devemos querer sempre mais, ser ambiciosos e auspiciar o ideal de forma a atingirmos o Bom.
Em Arouca há pobreza? Os dados estatísticos existentes numa primeira análise afirmam que não, que há boas condições de vida. Será verdade?
Penso que inserida na AMP, Arouca continua com atraso significativo de desenvolvimento. Tem uma grande mancha territorial, e o rendimento per capita é dos mais baixos da AMP, derivados sobretudo de serviços e construção (censos 2011).
Falta-nos atrair a indústria para que os jovens e as famílias em idade laboral não tenham de emigrar ou deslocar-se para outros municípios.
Falta-nos uma rede eficiente de transportes que garantam à população bons serviços a preços justos.
Falta-nos assegurar às freguesias mais distantes da vila cuidados primários de saúde, médicos de família e serviços de enfermagem de forma continuada e não apenas poucos dias por semana, como acontece.
Faltam-nos serviços de proximidade com a população de aldeias mais distantes que se sentem isolados, esquecidos, longe de tudo e de todos.
Falta-nos passes sociais para os transportes dos idosos e famílias numerosas, como acontece no Porto.
Falta-me perceber como idosos com cerca de 300 a 400 euros mensais, frutos de pensões de invalidez conseguem fazer face a todas as despesas.
Falta-me perceber como os idosos são efetivamente ajudados e como conseguem tarifas sociais na água e na luz, serviços essenciais.
Pobreza extrema, felizmente não creio existir em Arouca, mas que há várias famílias a sobreviver com muito pouco dinheiro ao fim do mês, isso há!
Deixo aqui este tema, porque não podemos pensar que está tudo feito, que está tudo muito bem.
Temos de pensar que temos todos de continuar a trabalhar porque ainda há muito para fazer, tanto à escala local, como regional, como global.
Em Arouca, há pobreza? Sim ou Não?

16 de outubro de 2018

Futebol Clube de Arouca

Faz hoje oito anos que o Futebol Clube de Arouca defrontou pela primeira vez o Sport Lisboa e Benfica, em pleno estádio da Luz. Nesse jogo, perdemos por cinco a zero em jogo a contar para a Taça de Portugal. No entanto, este resultado, pouco lisonjeiro é certo, em nada anunciava o auspicioso futuro que o clube viria a alcançar.
Nos anos seguintes o Arouca subiu à Primeira Divisão Nacional, ganhou muitos jogos (inclusive ao Futebol Clube do Porto, em pleno estádio do Dragão), classificou-se num impensável e inimaginável lugar Europeu, foi jogar à Holanda e no conjunto das duas mãos venceu a primeira eliminatória da Taça UEFA.
Porém, para contrapor este ciclo de sucessos conseguiu também o mais difícil: descer de Divisão quando nada nem ninguém já o esperava com a singular e impensável diferença de um golo a decidir toda uma época e a quebrar um ciclo extraordinário de ascensão no panorama futebolístico nacional.
Estes foram apenas alguns dos momentos mais marcantes dos últimos 8 anos, que, na verdade, são 12, se atendermos ao início deste caminho. E neste caminho a história do clube funde-se muito com a história do seu presidente... para o bem mas também para o mal... mas, isso seria tema para outro artigo...
Hoje, como há oito anos atrás, em altura de menos sucessos continuo apoiar o clube como “arouquista” de alma e coração.

Vamos Arouca!... Orgulho Arouquense!

15 de outubro de 2018

Arouca, um alfobre de felizes

 
   Hoje passa um ano desde um dia muito infeliz para Arouca e seguramente para muitos arouquenses. Faz um ano que um terrível incêndio florestal destruiu parte substancial da floresta da zona ocidental do nosso concelho. Queimou pinheiros, talvez a maior mancha de pinhal do concelho, que não volta (nada que se compare ao Pinhal de Leiria, i.e, do Estado). Queimou vegetação ripícola. Queimou eucaliptos, que agradeceram e no entretanto deram (e foram ajudados a dar) mais um passo para transformar Arouca num alfobre de felizes espécimes desta espécie. Quem ali vive ou por ali passa, basta olhar para o lado para saber do que falo. São mesmo alfobres, como aqueles das couves ou do cebolo que se costumam semear nas hortas, só que neste caso ocupam muitos quilómetros quadrados que não têm intenção de desocupar. Pelo contrário, despejam, sufocam, quem já lá vivia.
   O eucalipto é uma árvore. Não é o advento do diabo. O problema é que tem características próprias e não pode ser plantado como se de couves se tratasse, porque depois não se consegue controlar. Ouvi isto a um especialista há uns dois meses. Nós por cá, por este caminho, e também por isto, não tarda e teremos de reclamar uma versão revista, i.e, abreviada, do relativamente recente “Guia à descoberta da Biodiversidade do Arouca Geopark”.
   Felizmente, podemos declarar que este ano não fomos visitados pela negra sombra dos incêndios do passado. Podemos voltar a celebrar, encher manchetes de jornais só com boas notícias de dias felizes e amealhar mais óscares. Não há que olhar para trás nem para o lado. É em frente. O céu é o limite!

Memórias de muito dinheiro (bem) desperdiçado

Deixem-me falar-vos de uma época que os menores de 40 anos não podem entender.
Uma época em que os videojogos não eram apenas o apanágio de salas de estar ou de quartos individuais.

Estou a falar de uma época em que as salas de arcadas eram lugares de socialização.
Estou a falar de uma época em que desperdicei as minhas parcas poupanças para ver o meu nome registrado no pódio do Trivial Pursuit ou do Pizza Man.
Estou a falar de uma época em que criei amizades inabaláveis
Estou a falar de uma época em que jovens de universos diferentes tiveram a oportunidade de se misturar
Estou a falar de uma época em que o "Abec", que eu sou, se acotovelou com "queques"
Estou a falar de um lugar de socialização emblemático da minha juventude: A STOP!


Até breve neste meu Arouca do relembrar e da saudade !

14 de outubro de 2018

Passadiços

A Pensar Alto...

Há dias e a aproveitar os últimos raios de verão aproveitei e dei um salto aos novos passadiços de Aveiro, Vouga. Dei por mim a experimentar novos caminhos, novas sensações, e numa oportunidade tão diversa, aproveitei, sentei me num dos muitos bancos que por lá nos esperam e escrevi mentalmente este pequeno texto. O tema escolhido já agora foi passadiços. Artur Neves, engenheiro e Presidente da Câmara de Arouca na altura, concretizou o projeto dos passadiços do Paiva e transformou completamente a nossa terra com todo o desenvolvimento que se seguiu e continua diariamente a surpreender nos com as quantidades de turistas que falam várias línguas, mas que se entendem por percorrerem os mesmos caminhos e se espantam com aquelas belezas e sons que muitos só conheciam de livros e imagens antigas. Foi sem duvida um projeto oportuno, num tempo próprio e que serve de exemplo a muitas autarquias do Norte ao Sul para aumentar a riqueza, fixar as populações, e lutar de igual para igual com investimentos muito superiores. Já percorri muitos, mas nenhum é tão bonito como o nosso, em nenhum vi e senti como o selvagem se deixa contemplar, e o rio, os pássaros, as plantas, os animais, fazem os impossíveis para aparecerem sempre belos, exóticos e diferentes. Até as cores querem participar e se num dia tudo é branco névoa, no outro podem ser só tons de vermelho e o anoitecer pode ou não ter tons de cinzento. Quem se cruza com as visitas vê- lhes isso nos olhares cúmplices, surpresos e encantados. E a nossa economia agradece. Foi sem dúvida um grande projeto, uma grande ideia, um grande exemplo. Por isso quando comecei de novo a calcorrear aqueles pisos á beira da ria em Aveiro lembrei me que foi em Arouca que tudo começou, e que desde o dia que numa encosta escondida ao longo de um pequeno rio ali para os lados de Arouca se começaram a cruzar milhares de pessoas com o pretexto que ainda era possível ver um pedaço de natureza, as ideias de o mostrar espalharam se pelo País e no final fomos todos beneficiados. Não me canso de dizer, grande projeto.

13 de outubro de 2018

Arouca, um bom exemplo para a valorização do interior.


No passado dia 6 de Outubro, realizou-se, em Mondim de Basto, a conferência “Despovoamento e Desenvolvimento”, sob a organização, entre outros, da Associação Portuguesa de Geógrafos. Nesta conferência foram discutidas questões relacionadas com a perda de população e o desenvolvimento do interior do país, na convicção de que esta vasta região afastada do litoral não irá conseguir atrair mais habitantes nas próximas décadas.

Teresa Sá Marques, coordenadora científica do Programa Nacional da Política do Ordenamento do Território defendeu que o caminho que os municípios que sofrem da interioridade devem seguir passa por se unirem “para ganharem escala” e haver “mais cooperação entre o urbano e o rural”. Caso tal não aconteça, estes concelhos “dificilmente vão conseguir igualdade de oportunidades”. João Paulo Catarino, coordenador da Unidade de Missão para a Valorização do Interior, defendeu que as comunidades intermunicipais “são o futuro”.

Arouca, apesar de próxima do litoral e vizinha de uma comunidade urbana com grande dinâmica económica, habituou-se desde há muitos anos a ter que lutar contra o fenómeno da interioridade. E talvez o maior problema da nossa vila seja mesmo a sua localização. Demasiado próxima de uma malha urbana litoral com grande dinamismo industrial, que foi absorvendo, ao longo dos anos, a atenção e o investimento de uma política feita a partir da capital, com foco predominante num setor secundário que teimosamente não se instalava em Arouca. Demasiado distante de um interior, olhado por Lisboa como um recurso para a obtenção de fundos europeus e, por isso, brindado com obras que promoviam o tão falado e eleitoralmente interessante “equilíbrio territorial”.

Ainda assim, os arouquenses, orgulhosos de si mesmos e com a certeza do tanto que a sua terra tinha para dar, nunca desistiram. Acompanhados por uma resiliência extrema, foram lutando e criando dinâmicas internas fortes, transportando-as para territórios vizinhos, e assim fazendo-se notar. Arouca passou a ser vista como um exemplo a seguir.

Os territórios do Arouca Geopark e das Montanhas Mágicas, geridos por duas associações sedeadas em Arouca – Associação Geoparque Arouca e ADRIMAG - que diariamente trabalham no desenvolvimento dinâmico, sustentado e integrado das regiões que promovem, são nos dias que correm dois exemplos paradigmáticos daquilo que foi defendido no dia 6 de Outubro em Mondim de Basto.  É, por isso, importante reconhecer o trabalho que se faz a partir do nosso concelho, desde há cerca de uma década, e reconhecer igualmente o papel de cada uma das pessoas que, trabalhando nestas associações, deram e continuam a dar o melhor de si no sentido de superar os problemas a que uma interioridade forçada obriga. Porque não há organizações dinâmicas sem colaboradores dinâmicos.

Sem este caminho iniciado há cerca de dez anos, muito daquilo que se tem conseguido para o nosso concelho, talvez não tivesse sido possível. Que Arouca continue a ser um bom exemplo.    

12 de outubro de 2018

Pela criação de um Núcleo Museológico do Azeite

Conforme prometido, a propósito da exposição "Azeite - Ouro à Mesa" e da recente colocação à venda do último lagar hidráulico de Arouca, volto a este assunto e à defesa da criação de um Núcleo Museológico do Azeite.

Antes de mais, e ainda relativamente à excelente exposição sobre o Azeite com que fomos presenteados nesta última edição da Feira das Colheitas, defender que, tendo em conta a adequação e disponibilidade do espaço e a provável colaboração da associação responsável pelo mesmo, deveriam as exposições ali montadas (total ou, pelo menos, parcialmente) manter-se todo o ano, abrindo-se sempre que oportuno, funcionando como exposição temporária complementar ao Museu Municipal e à actividade daquela associação.
   
Depois, a propósito da recente colocação à venda do último lagar de azeite hidráulico, sito na freguesia de Rossas, dizer da excelente oportunidade para criação de um Núcleo Museológico do Azeite em Arouca. Aquele local e complexo, para além de adequados e apropriados, beneficiam de um enquadramento natural e paisagístico excelente para o efeito. A que acresce, como já tive oportunidade de defender, o facto desta freguesia necessitar de um investimento diferenciador e com potencial turístico. Não é necessário imitar o quer que seja ou quem quer que seja. Está ali a oportunidade.

Do ponto de vista histórico, está mais do que justificado. Lagares, azenhas ou engenhos de Azeite, existiram um pouco por todo o concelho. Pelo menos três em Alvarenga, dois em Santa Eulália, dois em Canelas, dois na Espiunca, um no Burgo e outro em Fermedo. Porém, quase todos encerrados na década de setenta do século passado, dada a sua rudimentaridade ou falta de sucessão no ofício de lagareiro. Tal como aconteceu com um primeiro e mais primitivo lagar existente no Salgueiro, nos limites de Rossas com Urrô. Do encerramento de todos, acabaram então por beneficiar os dois mais modernos existentes nesta freguesia, ambos na margem do rio Urtigosa. Mas também ali se moeu azeitona dos concelhos vizinhos, de Castelo de Paiva, de Cinfães, de Castro Daire, de Gondomar, de S. Pedro do Sul, de Vale de Cambra e Santa Maria da Feira. Com o encerramento destes, na década de noventa, beneficiou o único lagar (eléctrico) ainda hoje existente e em funcionamento, em Arouca, sito no lugar da Pena, na freguesia de Tropeço.

Quase todos aqueles lagares, no entanto, surgiram apenas após a extinção das Ordens Religiosas e a extinção do Mosteiro que, como se sabe, veio a acontecer mais tardiamente. Até, pelo menos, 1834, os arouquenses estavam obrigados a ir moer a azeitona ao lagar do Mosteiro, sito no lugar da Aborrida; e os rossenses estavam obrigados a ir moer a azeitona ao lagar da Comenda, sito no lugar do Pisão, pouco mais abaixo daquele. Eram, pois, os dois únicos lagares de azeite existentes no vale de Arouca.

Em novembro de 1718, o Visitador Geral da Ordem de Malta, aquando da sua Visita à comenda de Rossas, deslocou-se também ao Lagar, que destacou como uma das melhores propriedades da comenda, referindo, entre outros aspectos, o seguinte: «Tem esta Commenda hum Lagar de Azeite e algus Cazr.os se mostrão tão mal affectos à Commenda que vam moer fora do seu Lagar da sua, digo sua azeitona; e constandolhe q.e o Conv.to de Arouca põem depensao nos prazos q.e renova aos seus Cazeyros, que sempre moerão a azeitona no seu Lagar; e p.a que assim se pratique nesta Comm.da mandamos que nenhum Cazr.o possa moer a sua azeitona senão no Lagar da Religiam, e nos prazos que se renovarem se lhes faça esta advertência, que poderá vir a ser de importância por se plantarem agora na Comm.da muitas oliveyras.».



O complexo agora colocado à venda, fundado pela Casa da Vinha, ainda no século XIX, e passado depois à Casa de Telarda de Baixo, é o resultado de uma renovação profunda feita na década de cinquenta do século passado, altura em que tomou a denominação de «Lagar Moderno», como então se inscreveu na sua fachada, hoje já desgastada pelo tempo.

A Defesa de Arouca dá-nos notícia, em dezembro de 1956, que «se encontrava a laborar a bom ritmo, primando pela higiene e asseio». Em dezembro de 1991, «o lagar encontrava-se devidamente registado com o n.º 711 e devidamente reconhecido para laborar, por reunir todas as condições exigidas por lei». Em 1999, vítima das apertadas políticas agrícolas, fechou as suas portas.

Muito mais se poderá dizer para justificar a criação de um Núcleo Museológico do Azeite em Arouca e, especificamente, ali, em Rossas. Oxalá não se perca a oportunidade e não se suma o acervo!

Post scriptum (19.X.2018) - perdeu-se a oportunidade.

11 de outubro de 2018

Arouquense Maria Lurdes Correia Fernandes homenageada

Porque Arouca é rica pelo seu património, natural, cultural e edificado, mas não menos importante, pelas suas gentes e famílias, é com muito gosto que partilho a notícia de mais uma homenagem justa à arouquense, natural de Chave, Maria de Lurdes Correia Fernandes, de quem tive o privilégio de ser aluna.

Ela foi uma das personalidades distinguidas no passado dia 26 de setembro, pelo Rei Felipe VI de Espanha no âmbito da Homenagem ao Hispanismo Internacional, uma iniciativa promovida pela Fundação Duques de Soria como forma reconhecer o contributo de académicos de todo o mundo para a promoção da língua e da cultura hispânicas.

De destacar que Maria Lurdes Correia Fernandes é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas e doutorada em Cultura Portuguesa dos séculos XV a XVIII pela FLUP, foi ainda Presidente do Instituto de Estudos Ibéricos da FLUP e Diretora da revista Península: Revista de Estudos Ibéricos (2002-2008), Presidente do Conselho Diretivo da FLUP (2005-2006) e Presidente do Conselho de Administração da Fundação Arquitecto José Marques da Silva (2008-2014).

Entre 2006 e 2014, desempenhou funções como Vice-Reitora da Universidade do Porto para a área da Formação e Organização Académica, cargo ao qual regressou este ano de 2018.

Em 2013, foi nomeada pelo Papa Francisco para integrar o Comité Pontifício de Ciências Históricas, tornando-se a primeira portuguesa eleita para este órgão da Cúria Romana que junta um  grupo restrito de especialistas internacionais em História Religiosa.

Recebeu a medalha de mérito municipal - grau ouro, a 2 de maio de 2014, da Câmara Municipal de Arouca e a 29 de abril de 2017, o seu trabalho e mérito profissional foi reconhecido pelo Rotary Club de Arouca.

9 de outubro de 2018

O avô Abel da Diáspora Arouquense

Abel Gomes de Pinho, nascido em Arouca em 1907, decide viajar para o Brasil por volta do ano de 1927, acompanhando muitos conterrâneos que, naquela altura, procuravam na antiga colónia o desafogo financeiro que não encontravam num país exausto, atrofiado e traumatizado por sucessivos eventos políticos e sociais que promoviam um ambiente absolutamente desestabilizador junto da classe trabalhadora, cuja realidade do dia-a-dia consistia, apenas, em lutar para conseguir sobreviver a mais uma jornada de fome.

Tal como em muitos outros casos, seus pais, Manoel Gomes de Pinho e Carolina de Jesus, não concordam com tamanha aventura, pois desde o século anterior eram já inúmeros os relatos de casos mal sucedidos, acabados em maior desgraça do que aquela que os infortunados aventureiros viviam no seu país.

Apesar da discordância e falta de consentimento de seus pais, Abel Gomes de Pinho decide galhardamente avançar e iniciar o caminho que confiava vir a mudar a sua vida.

Da viagem e dos primeiros tempos, não há relatos. Tempos difíceis, por certo, que uma nova vida numa terra tão distante, demora a alicerçar! Sabe-se apenas que cerca de 3/4 anos após a sua chegada, corria o ano de 1930 ou 1931, casa-se em São Paulo com Maria Leopoldina Nunes, que passa então a chamar-se Maria Leopoldina Gomes.

Acaba por morrer cedo, com apenas 36 anos de idade, no dia 12 de Junho de 1943, não resistindo a uma febre tifóide, de acordo com a informação na sua certidão de óbito. Deixa cinco filhos em idade muito tenra: Abel, de 12 anos; Maria de Lourdes, com 9 anos; Ercília, com 7 anos; Alzira, com 4 anos; Maria Estela, de apenas 2 anos.

Em 2017, os seus descendentes realizam o primeiro encontro da família Gomes e dessa reunião nasce o desejo de conhecer a origem da família, onde tudo começou. Este encontro, deixou nos seus filhos, netos e bisnetos a saudade e nostalgia em relação ao avô que nunca conheceram fisicamente.

Por mera casualidade, no passado dia 15 de Agosto de 2018 alguns dos seus descendentes, em visita a Arouca, acabam por contactar comigo. Desse contacto surge a minha disponibilidade em ajudar a encontrar a família arouquense do avô Abel que, muito embora nunca mais tenha regressado a Arouca, foi capaz de deixar nos seus descendentes este sentimento tão nosso de apego à nossa terra.

Que bom seria encontrar a família do avô Abel...

8 de outubro de 2018

O auroque de Arouca ou Arouca do auroque?

Penso ter existido desde sempre uma questão pertinente que ainda hoje não encontra resposta definitiva: foi a toponímia Arouca que originou o nome da raça Arouquesa ou por outro lado terá sido a raça Arouquesa que terá dado origem ao nome de Arouca?

Constatemos:
Foto: Avelino Vieira
Auroque é o nome comum dado ao Bos primigenius que era um animal bovino selvagem hoje extinto e  que habitou a Europa, Ásia e Norte de África e se pensa ser o ancestral de todos os bovinos domésticos. Miranda do Vale (1906) defende que das migrações de povos vindos da Ásia e Europa e do norte de África trazendo consigo animais bovinos domesticados ter-se-ão formado os primeiros três troncos ibéricos de bovinos individualizados derivados do Auroque que dariam origem à maioria das raças autóctones da Península: tronco Aquitânico (Bos taurus Aquitanus), tronco Ibérico (Bos taurus Iberus) e tronco Mauritânico (Bos taurus Mauritanus). Machado et al (1981) defende que a raça Arouquesa poderá resultar de um cruzamento ancestral entre os bovinos dos três troncos já acima descritos, ou seja, teríamos já esta raça individualizada desde os tempos do neolítico.

Fazendo uma análise destes dados podemos constatar que teríamos a presença destes animais por Portugal e particularmente pelas nossas terras desde tempos muito remotos (como atestam achados arqueológicos). Estas seriam portanto também as terras do Auroque.

Almeida Fernandes defende que o nome de Arauca que origina por derivação do latim a toponímia Arouca se mantém imutável desde pelo menos o século VII, ou seja, posterior à presença do Arouque por estas terras.

A fonia das palavras Auroque e Arouca é muito semelhante. Por cá temos hoje e já desde o tempo do neolítico o gado Arouquês. As terras de Arouca são hoje as terras também do Arouquês que foram um dia as terras do Auroque.

Sendo extraordinário o facto de Arouca ser hoje um local onde em teoria o nome e fonia do Arouque permanecem quase imutáveis não podemos deixar de equacionar a hipótese de ter sido o nome da raça bovina a dar origem ao nome da terra.

Esta teoria aqui apresentada de forma não muito extensa e exaustiva, de forma a não se tornar fastidiosa à leitura, é susceptível de ser rebatida, procura no entanto ser só mais um contributo para esta questão de sempre. Não é por não termos a certeza da resposta que não devemos ousar apresentar uma solução.


7 de outubro de 2018

Arouqu[é]nses ou arouqu[ê]nses?


   Como se pronuncia “arouquense”? É Arouqu[é]nse, com o “e” aberto, ou arouqu[ê]nse, com o “e” anasalado? As duas formas soam de modo bastante distinto e, espero não errar no que digo, tradicionalmente são usadas, a primeira pelos nados e criados nas freguesias mais a este e centrais do concelho, enquanto a segunda pelos nados e criados nas freguesias mais a oeste.
   Quem diz “arouquense”, diz “contente”, “cento”, “vento”… Eu, como sou dos nados e criados em Mansores, s[ê]mpre me intrigou esta questão, a que não sei responder.
   Como explicam isto os linguistas e especialistas nos padrões e na fonética da língua? Ignoro, mas atrevo-me a adiantar uma hipótese de explicação da origem de tão clara distinção de fonéticas usadas dentro de um mesmo concelho de extensão relativamente pequena. Não terá a ver com a distinção histórica, secular, do ponto de vista de organização territorial e enquadramento administrativo, entre as terras de Arouca e aquelas a que pertenciam os territórios de Mansores, Escariz, São Miguel do Mato e Fermedo? É que estas quatro freguesias só em meados do século XIX integraram Arouca.
   Não se tratará de determinar qual das alternativas é a melhor. Suponho serem ambas igualmente válidas. Eventualmente, no português falado em Portugal uma delas poderá ser mais comum do que a outra. A primeira delas é a que usou Adriano Correia de Oliveira, quando gravou a “Trova do Vento que Passa”, de Manuel Alegre. Reparei nisso quando há dias a ouvi na rádio:
   “Pergunto ao vento que passa
   notícias do meu país
   e o vento cala a desgraça
   o vento nada me diz…
   (…)"

As Feiras das Colheitas

A Pensar Alto...

Assisti durante a minha vida a mais de 50 feiras das colheitas, umas melhores outras piores mas quase todas tiveram em comum o relembrar nos das raízes rurais deste Concelho, o orgulho de sermos descendentes de agricultores ou estarmos a eles muito ligados, e ao mesmo tempo olhar mos para o futuro com otimismo enquanto nos divertíamos, víamos velhos amigos e aproveitávamos o pretexto para reunir a família assim como se fosse o ensaio para um Natal antecipado. Fui assistindo a algumas alterações ,de umas gosto mais que outras, qualquer dia vou escrever sobre isso, mas hoje vou só referir as ultimas festas, as deste ano. Não gostei sinceramente da colocação do pavilhão da AECA na R. Abel Botelho, devem existir sítios que causem menos estrangulamentos, e pareceu me que o desfile etnográfico do domingo de tarde não teve nada de grandioso como já li, e pareceu me só bem intencionado, fruto da boa vontade de algumas pessoas, não conseguindo mostrar grande coisa para além de meia dúzia de carros de bois, a disponibilidade dos ranchos folclóricos e as senhoras e crianças com açafates a lembrar os velhos cortejos. Na minha opinião este desfile deve ser cada ano que passa mais completo e mais  participativo e aqui teriam um papel muito importante as Juntas de Freguesia e as Associações do Concelho. Se todos decidissem colaborar mais ,estou convencido que teríamos uma festa muito mais completa e que no final da mesma iríamos estar ainda mais orgulhosos, cansados mas orgulhosos, pois teríamos mostrado a todos os forasteiros porque amamos tanto a nossa terra. Fica a ideia. De resto nada a apontar, muita gente, muita farra, muitas distrações. Foi Festa.

O emigrante de cabelo branco foi o "migrante" de ontem!


Em agosto, nas esplanadas dos cafés, ouvimo-los a falar, geralmente alto, com tiques de linguagem que lhes são próprios :"Poubelle", "autoroute", "retraite", e tantos mais. Esses tiques são muitas vezes ridicularizados porque são mal interpretados. Explicam-se, na minha opinião (obrigado Sara por me ter aberto os olhos), pela história vivida (sofrida) por essa espécie particular de Arouquenses: o emigrante de cabelos brancos. Suas histórias individuais moldam a história coletiva do nosso território como a, mais geral, de Portugal.

Esses arouquenses sofreram um "choque de civilização". Emigraram "A salto". Passaram de um ambiente "arcaico" para um ambiente moderno sem transição. Falo do ambiente de vida e não das condições de vida porque aquelas que encontraram nos seus primeiros anos eram em maioria também arcaicas (os « bidonvilles » - bairros de lata). Como teríamos, nessa situação, encontrado palavras na nossa língua materna para nos referirmos a coisas que não conhecíamos? Convido-vos a ter isso em mémoria quando ouvirem as palavras "francious" que pontuam as conversas em agosto.

Entre 1960 e 1975, centenas de arouquenses deixaram as suas aldeias, muitas vezes isoladas, para ir ao encontro de uma vida melhor. A maior parte eram homens jovens. A maioria foi A Salto. A maioria não conta essa parte da sua história pessoal. Por dignidade.

Foi só há 40 anos! Essas histórias individuais mergulham-me nas notícias de um mundo que, pelo jogo de meios de communicacão cada vez mais sensacionalistas e de um populismo crescente, muitas vezes despreza os homens que fogem da miséria.

A vida é um recomeço eterno. Jovens deixam, hoje, a África ou o Médio Oriente à procura de uma vida melhor. Eles também "A salto". Vivem um «choque de civilização» similar ao dos nossos anciãos.

O emigrante de cabelo branco foi o "migrante" de ontem!

Testemunhos de 20'18 a 21'40

Até breve neste meu Arouca do relembrar!

6 de outubro de 2018

Último lagar hidráulico de Arouca está à venda!

Nesta última edição da Feira das Colheitas, a organização presenteou-nos, mais uma vez, com uma excelente exposição etnográfica e agrícola no antigo Celeiro do Mosteiro de Arouca. Desta feita, dedicada à cultura da oliveira e da azeitona, à sua transformação em azeite e à utilização deste, a que, com propriedade, chamaram "Azeite - Ouro à Mesa".

Efectivamente, escasseia a notícia e começa já a perder-se a memória sobre o que foi e a importância que teve essa bela e útil actividade e tradição de fazer o azeite no nosso concelho. Vai já longe o tempo em que o azeite era o único óleo utilizado na alimentação, como elemento essencial na confecção de muitas mezinhas, mas também como forma de iluminação, profana e religiosa. Vale, pois, a pena voltar ao assunto e prometo fazê-lo.

Por coincidência, neste mesmo fim-de-semana das Colheitas, fiquei a saber que se encontra à venda (por uma imobiliária nacional) o último lagar de azeite hidráulico moderno de Arouca e em risco de se perder um acervo único, de relevante interesse histórico e etnográfico, que vale a pena socorrer e salvaguardar!

Sito na freguesia de Rossas, na margem do rio Urtigosa, aquele antigo lagar, azenha ou engenho, como indiferenciadamente se denominava e que deixou de laborar nos anos noventa, possui ainda boa parte da sua maquinaria, desde a roda d'água existente no exterior que accionava toda a oficina oleícola, o moinho com suas duas grandes mós de pedra, as prensas a vapor de água e a caldeira onde esta se aquecia, os carros de mover as seiras e seus trilhos, mas também alguns dos utensílios utilizados nas diferentes fases da transformação da azeitona e apuramento do azeite. Um acervo único de relevante interesse histórico e etnográfico!

Perspectiva exterior do Lagar. Foto REMAX
O conjunto tem mesmo potencial para constituir um interessante núcleo de interpretação histórica e atractividade turística e enquadrar um espaço mais alargado de lazer naquela margem do rio Urtigosa, entre o Parque de Lazer de Sinja e os antigos moinhos de Rossas e da Quinta, também estes carecidos de salvaguarda. A merecer, pois, a atenção da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia de Rossas. Tanto mais quando a transformação do azeite constituiu uma importante actividade e tradição desta antiga comenda, que, a par com o do Mosteiro, possuiu durante muito tempo um dos dois únicos lagares de Arouca; mas também da freguesia, onde, após a extinção das Ordens Religiosas, houve três lagares, de que já nada existe à excepção deste. A que acresce o facto de Rossas estar hoje carecida de um investimento diferenciador e com potencial turístico.

Perspectiva interior. Foto REMAX
 A não ser possível o mais..., que se consiga pelo menos a aquisição da maquinaria e utensílios e a sua colocação noutro espaço da freguesia, em dependência do Museu Municipal ou até mesmo no antigo Celeiro do Mosteiro, onde não falta espaço para a reconstituição deste antigo engenho hidráulico. Perder esta oportunidade, - há não muitos anos cobiçada pela Câmara Municipal e pela Junta de Freguesia -, de se tentar fazer alguma coisa naquele espaço e/ou com aquele acervo, poderá significar uma perda insubstituível e irreparável!

4 de outubro de 2018

Contas Exemplares

Todos os anos é publicado o Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses. Uma publicação da Ordem dos Contabilistas Certificados que tira uma fotografia detalhada às contas das Câmaras Municipais de Continente e Ilhas.
Na avaliação de 2017, Arouca aparece nos melhores 35 municípios (de 308) na lista de municípios com Maior Equilíbrio Orçamental, sendo o 17º dos municipios de média dimensão. Um indicador que avalia o ajustamento da despesa à receita certa e permanente.
É também na mesma posição que se encontra o nosso concelho na lista dos municípios com Melhor Índice de Dívida Total.
Estes indicadores, entre outros, são de extraordinária importância para se perceber o rigor e o nível de exigência que o município tem na sua gestão. Quer a atual gestão, quer as que a antecederam, têm sabido orgulhar-nos enquanto arouquenses, mesmo em períodos onde muitas outras Câmaras mergulharam numa gestão populista que lhe coloca hoje grandes limitações e desafios no dia-a-dia.
No final do relatório Arouca é colocado na 14ª posição no ranking global dos Municípios de Média Dimensão na lista dos 100 melhores classificados globalmente. E no distrito de Aveiro é o melhor município de média dimensão.
Em resumo... contas exemplares. Ano após ano.

2 de outubro de 2018

A Pensar Alto...

Quando de manhã depois de esfregar os olhos que abriam com dificuldade, tal era o frio, vim à janela e olhei para fora senti pela primeira vez como era bonita a terra dos meus avós e do meu pai, Lourosa de Campos. Com os seus campos semeados de verde e branco, dos pingos de geada dessa noite, as suas casas que pareciam ter sido desenhadas em locais próprios, como nos presépios, os fumos que se misturavam e davam um tom de névoa, os cantos de quem já trabalhava a terra, o cantar do gado de criação, a pequena estrada espalhada pelo pequeno vale e aquele sorriso de ouvir a água que rebentava a querer soltar se e espalhar se como sementeira de vida, muita vida eis Lourosa de Campos, um pequeno vale dentro de outro maior, Arouca, que lindo! Foi isto que vi. Chegara do Rio de Janeiro e tinha 8 anos.
Lembrei me disto ao ler o artigo do Paulo Teixeira sobre a desertificação das aldeias serranas. E Lourosa, tão perto da nossa Vila e quase deserta. A beleza natural não basta para termos as regiões repletas de habitantes. Há que criar condições para que o sustento esteja próximo e a partir daí permitir que a qualidade de vida seja melhor. Todos sabemos que é possível viver bem, a conviver com os encantos da nossa terra. Não podemos é passar de geração em geração esta vontade. Arouca já foi a bela adormecida mas apesar da poesia de tal designação, queremos e devemos lutar por uma terra acordada, com condições de vida dignas e possíveis para a maioria. Cada um tem o seu papel e pode contribuir para isso. Mãos à obra.

1 de outubro de 2018

Do "Arroucâ, onde fica?" ao "És de Arroucâ, que sorte!"


Durante muitos anos, em França, quando me perguntavam donde eu era de Portugal e respondia «de Arouca», só podia notar o vazio interestelar nos olhos dos meus interlocutores: "Arroucâ, onde fica isso?". E eu, obrigado a responder sempre pelo mesmo retornelo: "a uma distância de cerca de 30 km a sul do Porto". A discussão geralmente parava por aí. Frustrante!

Hoje, vivo uma bela evolução. A evocação de «Arroucâ» desperta uma curiosidade muito mais assertiva entre as quais posso distinguir duas categorias de pessoas: os «gamers», amadores de futebol, e os amantes de natureza! Aos primeiros vem a recordação imediata da equipa de futebol que eles tiveram a oportunidade de enfrentar no jogo Fifa, "o Arroucâ que venceu o Benficâ", e os outros vem a imagem dos Passadiços. A discussão, em geral, não pára pela localização geográfica, mas toma o caminho da curiosidade sobre este pequeno pedaço de Portugal com pedidos de indicações sobre o que visitar.

Essa notoriedade relativamente nova deixa-me preso entre sentimentos ambivalentes. Adeus à frustração de não poder justificar as qualidades desta terra e dos seus homens. "Arroucâ" está hoje no mapa dos ex-libris portugueses e é FINALMENTE reconhecido. A contrapartida é a sensação de ser desapossado, de certa forma, porque foi, durante anos, a MINHA coisa que hoje devo compartilhar.

Pois é! Ser Arouquense de lá, hoje, é ter de compartilhar este bem comum que nos supera a todos. E, afinal, que prazer me dá ver o brilho nos olhos de amigos franceses de gema que convidei há anos à nossa terra e que hoje se tornaram os meus melhores embaixadores.

Texto dedicado ao meu amigo Antoine Martin, 
o mais arouquense dos franceses de gema

Arouca


AI MINHA  TERRA!, DE RIOS E FONTES,
ONDE  NASCE O SOL NO CIMO DA MÓ.
ONDE CANTAM MELROS NOS VALES, NOS MONTES,
ONDE NASCE PÃO, DA TERRA, DO PÓ.

AI MINHA TERRA! DA SERRA DA FREITA,

DAS SOMBRAS FRONDOSAS, DO ARDA AO GONDÍM.
DO PURO PAIVÓ, ONDE SE DELEITA
MEU CORPO, MINHA ALMA, O FUNDO DE MIM.

OH TERRA! PRENHE DE  PAIXÕES, DE AMORES

DE CANTARES, DE CHOROS, DE SORRISOS, DORES,
QUINTA SINFONIA, PRIMEIRO ANDAMENTO.

SE NASCI DE TI, QUAL CARDO, QUAL ROSA

JÁ QUE EM TI VIVI MINHA VIDA TODA
SÊ MINHA MORTALHA NO FIM DO MEU TEMPO.

António Manuel Ferreira